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  • Único batalhão do mundo que usa búfalo como viatura fica no Brasil

    Único batalhão do mundo que usa búfalo como viatura fica no Brasil

    Imagine uma ocorrência policial numa área alagada, com lama no joelho e nenhuma estrada à vista. A viatura para na beira do campo. A moto afunda. O barco não tem profundidade suficiente para navegar. É exatamente nesse cenário, que se repete todo ano durante o período chuvoso na Amazônia, que o 8º Batalhão da Polícia Militar do Pará encontrou uma solução que nenhum outro lugar do mundo teve: mandar um búfalo.

    O policiamento com búfalos existe há mais de três décadas na ilha de Marajó, mas foi oficializado em 2021 pelo 8º Batalhão da Polícia Militar. A unidade, considerada única no mundo nessa modalidade, mantém sete búfalos em serviço ativo e reserva dez policiais exclusivamente para esse tipo de patrulhamento. No entanto, quase todo o efetivo sabe montar, e não é por acaso: 80% dos militares nasceram no próprio arquipélago.

    A geografia que obrigou a criatividade

    Soure, a chamada “Pérola do Marajó,” tem cerca de 25 mil habitantes e fica a apenas 80 km de Belém, mas poderia estar em outro mundo em termos de infraestrutura. A cidade é banhada por rios e concentra muitas áreas de difícil acesso, o que limita o alcance de motocicletas e viaturas operacionais em determinadas ocorrências.

    O policiamento com búfalos não é apenas atração turística na área urbana. Nas zonas alagadas, que se tornam intrafegáveis em certos períodos do ano, nem a pé, nem de moto, nem de viatura, nem mesmo de embarcações menores é possível circular. O búfalo vai onde nenhum veículo chega.

    “É um policiamento totalmente adaptado às condições geográficas da região do Marajó Oriental. Uma região que, na época do inverno, tem alagamentos. Com isso, a viatura e a moto não conseguem percorrer, e onde elas não conseguem, tanto o búfalo quanto o cavalo são meios de deslocamento do policial até áreas de difícil acesso”, explica a tenente-coronel Christine Pinheiro, comandante do 8º BPM.

    Um animal que pesa 590 kg e não afunda

    O búfalo não é um substituto improvisado, mas uma escolha técnica. O animal, que pesa em média 590 quilos, consegue se locomover em terrenos e áreas alagadas devido à força e à tração das patas. Além disso, os cascos resistentes não apodrecem com a umidade, o que garante durabilidade nas longas patrulhas. Os búfalos também conseguem buscar alimento debaixo d’água, o que lhes dá energia constante durante o serviço.

    Os animais passam por um processo de seleção e treinamento rigoroso. Apenas quando o búfalo chega à fase adulta e apresenta bom desempenho nos treinos em áreas alagadas é que se torna apto ao serviço policial militar. O treinamento é conduzido pelos próprios policiais nativos da região, que cresceram com o animal e entendem seu comportamento.

    “A nossa região pede que o policial saiba montar e atuar com búfalos, porque os municípios do Marajó, como Soure, Cachoeira do Arari e Salvaterra, possuem várias áreas alagadas”, afirmou o sargento Manoel Vitelli Júnior, integrante do 8º Batalhão.

    O búfalo no Marajó tem raiz histórica

    A presença do búfalo no arquipélago não começou com a polícia. Nos anos 1890, um fazendeiro de Soure chamado Vicente Chermont de Miranda viajou pela Itália, viu o potencial do animal e trouxe os primeiros exemplares para a ilha. De lá para cá, o rebanho cresceu de forma impressionante. Segundo dados do IBGE de 2021, o Pará concentrava cerca de 620 mil cabeças de búfalo, o equivalente a 40% do total nacional, com mais de 430 mil delas apenas na ilha do Marajó.

    Assim, o búfalo foi deixando de ser apenas um animal de produção para se tornar símbolo cultural. No Marajó, ele está presente na culinária, no policiamento, na produção de couro, nas apresentações culturais e no ambiente familiar dos moradores. O brasão do próprio 8º Batalhão traz a imagem do animal, e em 2023 o búfalo do Marajó chegou ao Carnaval carioca, inspirando o enredo da escola Paraíso do Tuiuti no Rio de Janeiro.

    Segurança que virou vitrine

    O policiamento montado resolve um problema logístico real, mas gerou outro resultado. De quinta a domingo, os militares levam os animais até o porto de Soure para receber turistas de vários estados e de outros países. Muitos visitantes buscam a ilha justamente para ver de perto esse policiamento inusitado.

    O comandante do 8º Batalhão, tenente-coronel Wilson Carlos de Araújo Filho, destaca que o búfalo aproxima a PM tanto do turista quanto da população local. O animal é símbolo do Marajó, e o policiamento ostensivo se alinha a esse aspecto cultural da região.

    A professora Ana Paula, moradora de Soure, resume o que muitos vizinhos sentem: “Esse policiamento é interessante e único, porque nas outras cidades não é comum a gente ver búfalos no meio da rua, muito menos sendo utilizado no serviço policial. Eu costumo ver todos os dias os policiais e isso me deixa tranquila e me traz a sensação de segurança.”

    No fundo, o 8º Batalhão transformou uma limitação geográfica em estratégia. A Amazônia impõe suas regras. A polícia aprendeu que a melhor resposta para um terreno impossível nem sempre está num manual de segurança pública. Às vezes, está no pasto ao lado do batalhão, pesando 590 quilos e esperando a próxima ronda.

     

  • Fazendeiro planeja criar universidade do búfalo no Marajó

    Fazendeiro planeja criar universidade do búfalo no Marajó

    Em Soure, na Ilha de Marajó, crianças nadam com búfalos em meio às águas quentes da região. A cena, comum no arquipélago paraense, revela a forte ligação dos moradores com o animal que simboliza o cotidiano local.
    O Marajó abriga o maior rebanho bubalino do Brasil, com estimativas entre 650 mil e 800 mil cabeças. A maioria está concentrada em Soure, Chaves e Cachoeira do Arari. O búfalo está presente nas ruas, na culinária, no transporte e até no policiamento.

    Essa relação inspirou o fazendeiro Carlos Augusto Gouvêa, conhecido como Tonga, a planejar o Centro de Estudos da Bubalinocultura, uma espécie de “universidade do búfalo”. O projeto ainda não tem data para sair do papel, mas promete ser o primeiro espaço do país dedicado à pesquisa sobre genética, manejo e aproveitamento integral do animal. “Precisamos estudar melhor o búfalo, do melhoramento genético à agregação de valor no leite, couro e carne”, afirma Tonga. “O centro envolveria também turismo, tecnologia e medicina.”

    Turismo e educação fortalecem tradição marajoara

    Enquanto o projeto acadêmico não se concretiza, a Fazenda e Empório Mironga mantém viva a tradição com o turismo pedagógico. Criada em 2017, a iniciativa “Vivência Mironga” permite aos visitantes acompanhar o dia a dia da fazenda, observar o manejo dos animais e participar da produção do queijo artesanal de leite de búfala.

    “Produzíamos muito queijo e doce, mas não queríamos crescer em escala. Então apostamos no turismo”, explica Gabriela Gouvêa, filha de Tonga e presidente da Associação dos Produtores de Leite e Queijo do Marajó (APLQM). Segundo ela, o turismo já representa dois terços da renda da fazenda. Em setembro, o local recebeu recorde de 400 visitantes.

    Queijo do Marajó conquista reconhecimento nacional

    Feito com leite cru e receitas seculares transmitidas por gerações, o queijo do Marajó é um patrimônio gastronômico e cultural. A família Gouvêa teve papel decisivo na legalização da produção artesanal e na criação de normas sanitárias específicas para o produto.

    Em 2013, a queijaria da Mironga foi a primeira a obter inspeção oficial. Anos depois, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu a Indicação Geográfica (IG) ao queijo do Marajó. O processo contou com o apoio do Sebrae, que orientou produtores na formalização e organização coletiva.

    Café Dona Bila une afeto e gastronomia regional

    A valorização dos sabores locais também impulsiona novos negócios em Soure. O Café Dona Bila, comandado pela empreendedora Lana Correia, tornou-se ponto de encontro de moradores e turistas. Cearense radicada no Marajó, Lana mistura culinária nordestina e ingredientes paraenses, com destaque para o queijo marajoara e a carne de búfalo. “Queria um café com sabor e clima de casa. As pessoas lembram da infância quando comem aqui”, diz Lana. O cardápio tem tapioca molhada, bolo de milho cremoso e cuscuz recheado.

    Pensando na COP30, que ocorrerá em Belém em novembro, a empreendedora criou dois pratos que celebram a biodiversidade local: o Cuscuz de Murrá, com filé de búfalo, e o Cuscuz Praia do Amor, com camarão regional e queijo do Marajó.
    Lana vive há quatro anos na cidade e há dois comanda o café. Antes, trabalhou com educação superior em Fortaleza e Belém. Hoje, representa a nova geração de empreendedores marajoaras, apoiados por capacitações e articulações do Sebrae.

    Bubalinos e desafios ambientais na Amazônia

    Apesar da importância econômica e cultural, a pecuária bubalina enfrenta desafios ambientais. O último levantamento do SEEG (2023) mostra que a pecuária é a segunda maior fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil, atrás apenas das mudanças no uso da terra.
    Os bovinos e búfalos emitiram 405 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, principalmente pelo metano liberado durante a digestão. Para Tonga, essas questões reforçam a urgência de um centro de estudos voltado à sustentabilidade da bubalinocultura.
    “O búfalo é parte da nossa história, mas também do nosso futuro. Precisamos entender como produzir com menos impacto”, resume o fazendeiro.

    Marajó mira o futuro com tradição e inovação

    A Ilha de Marajó quer mostrar ao mundo que tradição e inovação podem andar juntas. Ou seja, entre o turismo pedagógico, a gastronomia afetiva e o sonho de uma universidade do búfalo, a região se prepara para entrar na rota da sustentabilidade e da pesquisa agropecuária amazônica.
    No coração da Amazônia, o búfalo segue como símbolo de força, identidade e esperança para o povo marajoara.