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  • Nova espécie de cigarrinha ameaça plantações de cana-de-açúcar no Brasil

    Nova espécie de cigarrinha ameaça plantações de cana-de-açúcar no Brasil

    Uma nova espécie de cigarrinha que ataca lavouras de cana-de-açúcar foi identificada por pesquisadores brasileiros após produtores rurais relatarem resistência da praga aos defensivos químicos tradicionais. A descoberta, publicada no periódico científico Bulletin of Entomological Research da Universidade de Cambridge, representa um avanço crucial para o combate às ameaças que afetam uma das culturas mais importantes da economia nacional.

    O inseto foi batizado de Mahanarva diakantha, termo que significa “dois espinhos”. E já foi encontrado em plantações de cana-de-açúcar em diversas regiões do Brasil. Cientistas do Instituto de Biociências da Unesp em Rio Claro e da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul identificaram a espécie em colaboração.

    Problema nas lavouras motivou a pesquisa

    A investigação começou há uma década, quando empresas agrícolas procuraram o professor Diogo Cavalcanti Cabral-de-Mello, do Departamento de Biologia Geral e Aplicada da Unesp, relatando dificuldades no controle de cigarrinhas nas plantações. Os defensivos aplicados não apresentavam a eficácia esperada, gerando prejuízos significativos.

    Inicialmente, suspeitou-se que os insetos tivessem desenvolvido resistência aos produtos químicos. Porém, uma pesquisadora da Embrapa em Araras formulou uma hipótese diferente: poderia ser uma espécie ainda não catalogada pela ciência.

    Metodologia combinou análise genética e morfológica

    Para confirmar a descoberta, os pesquisadores adotaram duas abordagens complementares. A equipe da PUC-RS, liderada por Andressa Paladini e Gervásio Silva Carvalho, realizou análises morfológicas detalhadas. Enquanto isso, o grupo da Unesp conduziu estudos genéticos utilizando marcadores de DNA presentes nas mitocôndrias dos insetos.

    Mais de 300 indivíduos coletados entre 2012 e 2015 em usinas de cana-de-açúcar foram examinados. A análise genética revelou diferenças significativas em relação às espécies conhecidas de cigarrinha-da-raiz, como a Mahanarva fimbriolata e a Mahanarva spectabilis.

    O estudo morfológico identificou uma característica distintiva na genitália dos machos: uma estrutura bifurcada e pontiaguda, diferente do formato quadrangular não bifurcado presente nas outras espécies. Essa particularidade inspirou o nome científico do novo inseto.

    Impacto econômico da cana-de-açúcar no Brasil

    A cana-de-açúcar é fundamental para a economia brasileira. Em 2020, o setor gerou receita de aproximadamente US$ 8,7 bilhões em exportações. O Brasil produz cerca de 700 milhões de toneladas anuais da cultura desde 2010, sendo o maior exportador mundial de açúcar. Além disso, a planta é essencial para a produção de etanol e geração de energia a partir da queima do bagaço.

    As cigarrinhas-da-raiz representam uma das principais ameaças às plantações. Esses pequenos insetos de coloração marrom-avermelhada se alimentam da seiva da cana e transmitem toxinas que provocam a queima das folhas e perda de sacarose. Estima-se que a infestação possa causar prejuízos de até 36 toneladas por alqueire.

    Próximos passos para controle da praga

    A identificação da M. diakantha é apenas o primeiro passo. Segundo o professor Cabral-de-Mello, quando se trata de combater pragas agrícolas, as substâncias utilizadas podem ter ação direcionada para espécies específicas. Mesmo entre espécies próximas, um produto pode ser eficaz contra uma e ineficaz contra outra.

    Após a descrição inicial, a pesquisadora Andressa Paladini revisou coleções da Universidade Federal do Paraná e descobriu registros da década de 1960 de espécimes da nova espécie classificados incorretamente como M. fimbriolata. Isso sugere que o inseto pode estar presente nas lavouras há décadas sem o devido reconhecimento.

    Os próximos desafios envolvem compreender aspectos biológicos, populacionais e taxas reprodutivas da nova espécie, além de analisar amostras mais recentes, já que o cultivo de cana-de-açúcar mudou significativamente desde 2015.

    Controle biológico como alternativa

    Atualmente, o método mais utilizado para combater cigarrinhas é o controle biológico com o fungo Metarhizium anisopliae. O fungo é cultivado em laboratório, geralmente sobre grãos de arroz, e aplicado nas plantações misturado com água. Por ser um produto seletivo, ataca apenas insetos e não oferece riscos à cana ou ao ser humano.

    Odair Aparecido Fernandes, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp em Jaboticabal e líder do Centro de Pesquisa em Engenharia – Fitossanidade em Cana-de-Açúcar, acredita que as ferramentas de controle biológico continuarão eficazes. No entanto, será necessário avaliar o impacto dessas técnicas especificamente sobre a M. diakantha.

    Sequenciamento genômico promete agricultura de precisão

    O professor Cabral-de-Mello orienta atualmente uma pesquisa de doutorado que pretende realizar o sequenciamento genômico completo das três espécies de cigarrinha. Pela similaridade entre elas, a hipótese é que a separação evolutiva ocorreu nos últimos 100 mil anos.

    O sequenciamento do genoma abre possibilidades para o desenvolvimento de uma agricultura de precisão, permitindo identificar variações genéticas e estudar como elas afetam o controle de insetos. Assim, será possível desenvolver técnicas personalizadas para combater diferentes pragas de forma mais eficiente.

    Outras ameaças à cultura da cana

    Além das cigarrinhas, a cultura da cana-de-açúcar enfrenta outras duas grandes ameaças no Brasil. A primeira é a síndrome do murchamento da cana, causada pela combinação de fatores climáticos, como seca e mudanças no clima, com fatores biológicos, como fungos e pragas. A doença pode reduzir a safra em até 40%.

    A segunda ameaça é o bicudo-da-cana, um besouro que se alimenta do tecido vegetal e causa perdas de cerca de 25 toneladas por hectare. O inseto tem se espalhado devido ao método mecanizado de colheita, que mantém a palha da cana no solo — prática benéfica para conservação da umidade, mas que favorece a proliferação da praga.

    Colaboração entre universidade e setor privado

    O professor Cabral-de-Mello destaca que os resultados alcançados só foram possíveis graças à colaboração entre universidades e o setor privado. Aliás, o próprio Centro de Pesquisa em Fitossanidade em Cana-de-Açúcar é um exemplo dessa cooperação, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e pelo Grupo São Martinho.

    O centro desenvolve atualmente 55 projetos na área de saúde vegetal e manejo de pragas, muitos em parceria direta com o setor produtivo e as indústrias sucroalcooleiras, demonstrando como a ciência básica pode contribuir para resolver problemas práticos da agricultura brasileira.

  • Descoberta de nova praga pode revolucionar controle em canaviais

    Descoberta de nova praga pode revolucionar controle em canaviais

    Uma descoberta científica promete explicar por que produtores de cana-de-açúcar enfrentavam dificuldades no controle de pragas mesmo com o uso de inseticidas eficazes. Pesquisadores brasileiros identificaram uma nova espécie de cigarrinha-da-cana, a Mahanarva diakantha, que especialistas confundiam com outras espécies desde a década de 1960.

    A identificação começou em 2015, quando o professor Gervásio Silva Carvalho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), recebeu exemplares de cigarrinhas-da-cana de diferentes plantações do Sul e Sudeste. Os produtores relatavam que um inseticida amplamente utilizado não produzia os resultados esperados no combate à praga.

    Carvalho analisou as características físicas dos insetos enquanto, paralelamente, o professor Diogo Cavalcanti Cabral-de-Mello, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp) em Rio Claro, recebia exemplares similares para análise genética. Nenhum dos pesquisadores sabia do trabalho do outro.

    “Especialista em citogenética e genômica, Cabral-de-Mello identificou diferenças que sugeriam uma nova espécie, mas precisava das evidências morfológicas para confirmar a descoberta”, explica Andressa Paladini, primeira autora do estudo e atualmente professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

    Parceria revela espécie escondida por décadas

    Quando os cientistas descobriram que trabalhavam no mesmo problema, uniram esforços e ampliaram a análise para exemplares de grande parte do Brasil. A FAPESP apoiou o estudo, que os pesquisadores publicaram no Bulletin of Entomological Research.

    A equipe isolou uma sequência específica do DNA mitocondrial, conhecida pela sigla COI (citocromo C oxidase), que varia entre espécies e permite diferenciá-las. No entanto, a diferença era mínima.

    “Não poderíamos descrever a nova espécie apenas com a evidência genética, pois a diferença era muito pequena. Precisávamos da confirmação morfológica”, afirma Cabral-de-Mello.

    Os pesquisadores descobriram que apenas os machos apresentam uma característica distintiva visível: a extremidade bifurcada de parte da genitália. Essa peculiaridade inspirou o nome científico M. diakantha, que significa “dois espinhos” em grego.

    Espécie críptica desafia identificação visual

    A nova espécie é impossível de diferenciar a olho nu da Mahanarva fimbriolata e da Mahanarva spectabilis, suas parentes mais próximas. As três espécies compartilham áreas de ocorrência no Sul e Sudeste do Brasil, o que complica ainda mais a identificação.

    Para eliminar dúvidas, os cientistas aplicaram um terceiro método de diferenciação: a morfometria geométrica. A técnica compara a forma das asas posteriores das três espécies e revelou diferenças estatísticas significativas entre elas.

    “Tudo indica que as espécies se diferenciaram recentemente. As análises genéticas e morfológicas evidenciam isso claramente”, destaca Cabral-de-Mello.

    A identificação da M. diakantha torna necessária a reavaliação de estudos científicos anteriores sobre cigarrinhas-da-cana. Ao examinarem coleções biológicas, os pesquisadores encontraram exemplares da nova espécie coletados há décadas, mas identificados erroneamente como outras espécies. Um deles data de 1961 e trazia a identificação de M. fimbriolata.

    “Esse gênero de cigarrinha-da-cana tem espécies muito parecidas entre si, que chamamos de crípticas. Após dissecar os insetos, vimos que alguns tinham a genitália do macho diferente, o que indicava uma nova espécie”, relata Paladini, que realizava pós-doutorado sob supervisão de Carvalho na PUC-RS quando iniciou a pesquisa.

    Próximos passos incluem mapeamento e estratégias de controle

    Os pesquisadores planejam aumentar a amostragem para verificar com mais precisão a distribuição da nova espécie no país e seu impacto nas lavouras. Outra prioridade é compreender melhor a diversidade genética da M. diakantha, conhecimento fundamental para desenvolver estratégias de manejo mais eficazes.

    A descoberta pode explicar por que alguns inseticidas não funcionavam conforme esperado: a nova espécie possivelmente apresenta maior resistência aos produtos mais utilizados. Além disso, ela pode ter um ciclo de vida diferente e outras interações com o ambiente e hospedeiros, informações essenciais para o controle adequado e para aumentar a produtividade da cana-de-açúcar.

    “Agora que descrevemos a nova espécie, abrimos uma gama de novas possibilidades de pesquisa e aplicação prática”, conclui Paladini.

    A FAPESP apoiou o estudo por meio de dois projetos coordenados por Cabral-de-Mello: “Investigando a evolução de DNAs satélites em cromossomos holocêntricos de insetos-praga” e “Estrutura e evolução de DNAs repetitivos em espécies de Lepidoptera e sua relação com diversificação cariotípica e dos cromossomos sexuais”.