Presente na mesa de milhões de brasileiros e com papel cada vez mais relevante no campo, a mandioca celebra seu dia em 22 de abril, não casualmente o Dia do Descobrimento do Brasil. Conhecida como aipim, macaxeira ou até “pão do pobre”, a raiz é uma das mais populares no país. E vai muito além da tradição culinária: ela é oportunidade e renda.
A Conab estimou uma produção em torno de 20,29 milhões de toneladas no Brasil em 2025, um crescimento de cerca de 6,48% em relação ao ano anterior. No cenário global, o país ocupa a quinta posição entre os maiores produtores, atrás de Nigéria, Congo, Tailândia e Gana.
Segundo a Embrapa, a mandioca está entre os seis produtos agrícolas mais relevantes em valor de produção no Brasil. Aproximadamente 40% das suas raízes são destinadas à fabricação de farinha, 20% à produção de amido e 40% à mesa. De boa adaptação a diferentes condições de solo e clima, essa cultura se destaca pela eficiência produtiva, inclusive em pequenas propriedades.
História e nutrição
De origem sul-americana, e talvez brasileira segundo alguns estudos, o cultivo da mandioca está ligado aos povos originários e se expandiu pelo mundo durante as grandes navegações portuguesas.
Do ponto de vista nutricional, trata-se de um alimento altamente energético, rico em carboidratos, além de fornecer fibras, vitamina C, magnésio e potássio. Essa composição contribui para o funcionamento intestinal e auxilia no combate aos radicais livres, reforçando seu valor na alimentação diária.
As variedades do sabor
Alimento versátil, a mandioca admite diferentes formas de preparo, sendo o cozimento sob pressão uma das maneiras mais seguras e comuns. Cozida, ela é base para ensopados reconfortantes ou acompanhamento de diversos pratos, porções e churrascos. Frita e crocante, ela já disputa espaço com a batata na preferência do consumidor.
Uma alternativa menos convencional é o uso em saladas de maionese, substituindo a batata tradicional. O resultado surpreende pelo sabor e textura, mantendo a simplicidade no preparo.
Da lavoura à mesa, a mandioca sintetiza a conexão entre tradição, diversidade regional e produção agrícola. Mais do que um alimento, é símbolo de resistência, adaptação e da força do campo brasileiro.
Na zona rural de Teresina e em diversos municípios do Piauí, cresce o número de mulheres à frente da produção agrícola. Elas participam de todas as etapas da cadeia produtiva, do plantio à comercialização. E vêm consolidando um papel decisivo na economia rural do estado.
A Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) tem priorizado políticas públicas voltadas às mulheres rurais. Segundo a secretária Rejane Tavares, cerca de 30% dos recursos dos programas da pasta são destinados a projetos liderados por mulheres. “Temos priorizado as mulheres rurais em quase todos os nossos programas”, destaca.
Produtoras que inspiram o campo piauiense
Em Coivaras, na localidade Malhada Alta, a produtora Leslly Raquel Costa dos Santos lidera a Associação de Produtores e Criadores do município. Com seis hectares, ela cultiva melancia, principal cultura local, além de milho, feijão verde e outras lavouras. Em 2025, Leslly colheu 179 toneladas de melancia e comercializou parte da produção por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa de Alimentação Saudável (PAS).
“Conseguimos escoar volumes significativos para a Nova Ceasa. Ainda enfrentamos desafios na comercialização, mas seguimos com fé e persistência”, afirma a produtora, que também gera empregos temporários durante a colheita e contribui para a economia local.
Para ela, a agricultura representa mais do que renda: é sinônimo de força e esperança. “Acordamos cedo, enfrentamos muitos desafios, mas acreditamos que vale a pena”, destaca.
De autônoma a produtora rural em Teresina
No Assentamento Vale da Esperança, na zona sudeste de Teresina, Cleidimar Oliveira de Araújo Sousa transformou a rotina da família ao investir na agricultura familiar. Antes autônoma, hoje cultiva hortaliças, feijão, milho, macaxeira e abóbora, além de criar pequenos animais.
“O trabalho na agricultura aumentou nossa renda e melhorou nossa alimentação. Vendemos ao PAA, ao PAS e também na feira da Universidade Federal do Piauí”, conta. A renda mensal chega a cerca de um salário mínimo, sem contar os alimentos consumidos em casa.
Agricultura como sinônimo de independência
A produtora Antônia Soares de Moura Costa, conhecida como Toinha, é outro exemplo de protagonismo feminino no campo. Moradora da Serra do Gavião, em Teresina, ela cultiva três hectares e integra um grupo de 30 agricultores, sendo mais da metade mulheres, que compartilham uma área coletiva de oito hectares.
A agricultora Antônia Soares de Moura Costa, conhecida como Toinha. Foto: Arquivo Pessoal
Toinha cultiva banana, caju e acerola, além de aproveitar integralmente o fruto do caju para doces, pães e conservas. Parte da produção é vendida em feiras organizadas pela SAF e por programas de compra pública. “Com as vendas, nossa renda mensal chega a R$ 1,6 mil”, afirma.
Essas histórias refletem a força do trabalho feminino na agricultura familiar piauiense. Nas comunidades rurais, as mulheres vêm consolidando espaço, ampliando a renda e garantindo alimentos saudáveis à população. O protagonismo delas mostra que a agricultura familiar é, acima de tudo, uma forma de resistência e de vida no campo.
Um estudo internacional liderado por pesquisadores da Embrapa e publicado na revista Science revela o papel central dos povos indígenas na disseminação da mandioca nas Américas. A pesquisa analisou 573 genomas da planta. E mostrou que práticas tradicionais, como a troca de mudas entre aldeias e a seleção de variedades espontâneas, foram responsáveis por garantir a diversidade genética da cultura ao longo dos séculos.
Segundo os cientistas, a mandioca (Manihot esculenta), domesticada há mais de seis mil anos na região sul da Amazônia — área que abrange atualmente partes do Acre e Rondônia —, foi amplamente difundida no continente muito antes da chegada dos colonizadores europeus. Os dados indicam que essa dispersão não ocorreu ao acaso, mas foi resultado direto das práticas agrícolas e culturais dos povos indígenas.
Diversidade genética surpreendente para uma planta clonada
Embora a mandioca seja reproduzida por clonagem, ou seja, por pedaços do caule chamados manivas, a pesquisa revelou uma diversidade genética elevada entre as variedades. Essa diversidade está relacionada ao alto grau de heterozigosidade — variações entre os pares de genes — mesmo em clones. Segundo os pesquisadores, esse fenômeno funciona como um “seguro genético”. Que protege a planta contra mutações prejudiciais e permitindo maior resistência a pragas, doenças e mudanças climáticas.
O pesquisador Fábio Freitas, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, destaca que os cientistas analisaram amostras de diferentes períodos históricos e regiões geográficas. Isso inclui variedades cultivadas atualmente, exsicatas de herbários, materiais arqueológicos com até 2 mil anos e espécies silvestres do gênero Manihot.
Tradições indígenas contribuem para o melhoramento genético da mandioca
Um exemplo emblemático citado no estudo é o ritual Casa de Kukurro, realizado pelo povo Waurá, no Território Indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso. A prática envolve o agrupamento de variedades de mandioca em dois montes separados, estimulando cruzamentos espontâneos por sementes e gerando novas variedades. Após avaliação, essas plantas podem ser incorporadas às lavouras tradicionais da aldeia.
Povos indígenas foram fundamentais para a geração da diversidade que atualmente encontramos na mandioca. Na foto acima, agricultora rala raízes de mandioca para consumo. Foto: Celso Viviani/Embrapa
Essa estratégia cultural, além de preservar a biodiversidade, funciona como um método eficiente de melhoramento genético. Portanto, permitindo a manutenção e a ampliação da variabilidade da mandioca ao longo do tempo.
Estudo reforça importância dos bancos genéticos da Embrapa
A pesquisa foi possível graças ao trabalho histórico de coleta e preservação realizado por diversas unidades da Embrapa. As amostras analisadas foram obtidas em bancos genéticos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Embrapa Cerrados e Embrapa Mandioca e Fruticultura. Essas instituições mantêm coleções que reúnem variedades cultivadas por comunidades tradicionais, materiais de melhoramento genético e espécies silvestres de ampla diversidade.
“Com essa base genética, conseguimos representar a diversidade da mandioca no Cerrado e em outras regiões do Brasil. Isso permite aprofundar o conhecimento sobre a história evolutiva da espécie e orientar futuras estratégias de melhoramento genético”, explica o pesquisador Eduardo Alano, da Embrapa Cerrados.
Pesquisa abre novas perspectivas para agricultura sustentável
A análise genética da mandioca traz novas possibilidades para o desenvolvimento de cultivares mais adaptadas às mudanças climáticas. E, portanto, resistentes a pragas emergentes, como a vassoura-de-bruxa, recentemente identificada no Amapá.
De acordo com Éder Jorge de Oliveira, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, os dados obtidos pelo estudo podem orientar programas de melhoramento para gerar variedades superiores, combinando atributos agronômicos, nutricionais e resistência genética. “A diversidade genética conservada nos bancos de germoplasma é fundamental para garantir o futuro da cultura da mandioca no Brasil e no mundo”, afirma.
Mandioca: um clone resistente e cheio de história
Apesar de ser uma planta clonada, a mandioca se mostra um exemplo notável de resiliência e diversidade genética. Todos os dias, milhões de pessoas consomem clones dessa planta, cultivada há milênios por comunidades indígenas. A pesquisa publicada na Science mostra que, além de ser um alimento estratégico para a segurança alimentar global, a mandioca é também um símbolo da contribuição dos saberes tradicionais para a ciência e a agricultura sustentável.
O Brasil é o maior produtor mundial de mandioca, com uma produção anual de aproximadamente 21 milhões de toneladas, de acordo com o IBGE. A cultura da mandioca é uma fonte significativa de renda para muitos agricultores, especialmente os pequenos produtores. A rentabilidade varia conforme a região e a tecnologia aplicada, mas em média, a lucratividade pode chegar a R$ 3.000 por hectare.
A mandioca, também conhecida como aipim, é uma das culturas mais importantes do Brasil, destacando-se pela sua versatilidade e valor econômico. Segundo dados da Embrapa, a produção de mandioca no Brasil é robusta, com diversas variedades adaptadas a diferentes regiões. No Nordeste, a Embrapa destaca as variedades “BRS Kiriris” e “BRS Poti Branca” por sua alta produtividade e resistência a pragas. No Centro-Sul, recomenda as variedades “IAC 576-70” e “IAC 14-18” devido à sua qualidade e rendimento.
Melhoria Genética e Sustentabilidade
A Embrapa melhora continuamente a genética da mandioca para aumentar a produtividade e a resistência a doenças. Sendo assim, emprega técnicas como a seleção de clones e a biotecnologia para desenvolver variedades que atendam às necessidades específicas de cada região. Essas iniciativas, portanto, contribuem para a sustentabilidade e a eficiência da produção.
Mandioca, aipim ou macaxeira? Como é conhecido em sua região?
A indústria utiliza amplamente a mandioca tanto no setor alimentício quanto no não alimentício. No setor alimentício, por exemplo, a mandioca é transformada em produtos como farinha, polvilho, tapioca e amidos modificados, os quais são essenciais para a produção de pães, biscoitos e outros alimentos. Por outro lado, no setor não alimentício, a mandioca é utilizada na fabricação de papel, adesivos e bioenergia.
O mercado de mandioca no Brasil está em constante crescimento, impulsionado tanto pela demanda interna quanto pela externa. Além disso, a diversificação dos produtos derivados e o investimento em tecnologias de produção sustentável são tendências que devem, assim, continuar a alavancar o setor nos próximos anos. Consequentemente, isso garantirá benefícios econômicos e sociais para os produtores brasileiros.