Tag: lúpulo

  • Novas leveduras ampliam os sabores das cervejas nacionais

    Novas leveduras ampliam os sabores das cervejas nacionais

    O mundo das cervejas, que há alguns anos vive no país uma efervescência em razão da explosão de bebidas artesanais, comumente produzidas por pequenos produtores de forma quase intuitiva, também tem atraído a atenção da ciência. Equipes de diversos centros de pesquisa nacionais buscam desenvolver uma cerveja genuinamente nacional, com ingredientes locais e métodos adaptados de produção, diferente das encontradas nos supermercados, que geralmente seguem a receita tradicional europeia.

    Um dos grupos mais ativos está no Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB-UFMG), que integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Leveduras. Usando leveduras brasileiras, a equipe já criou cinco novas “cervejas acadêmicas”, sendo a primeira delas, Star Brasilis, formulada em 2023. Leveduras são fungos unicelulares muito usados na indústria de alimentos, principalmente em processos de fermentação. Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pesquisadores elaboraram a Catharina Sour, modificando a Berliner Weisse, receita alemã do estilo Sour (do inglês “azedo”), para acrescentar sucos concentrados de frutas nativas. Soma-se a elas a Manipueira Selvagem, projeto inovador de cerveja, que combina mandioca e tradições indígenas, elaborado por empresas de Santa Catarina e de Minas Gerais.

    Starmerella meliponinorum

    O coordenador do INCT Leveduras, o biólogo da UFMG Carlos Augusto Rosa, identificou a levedura Starmerella meliponinorum, rebatizada com o nome comercial de Star Brasilis. Ela havia sido coletada por sua aluna de doutorado, Ana Raquel dos Santos, no néctar da flor da chama-da-floresta (Spathodea campanulata), uma árvore de até 25 metros (m) de altura, no campus da universidade. Segundo o pesquisador, a equipe da universidade realizou uma série de ensaios com diferentes leveduras para ver quais poderiam produzir uma cerveja de qualidade sem causar problemas ao organismo humano. “Testamos 150 linhagens e escolhemos a Star Brasilis pela riqueza sensorial que imprime na bebida”, ele conta. A cerveja de textura suave e acidez equilibrada, entrega sabores e aromas sutis de frutas, como abacaxi maduro, damasco e melão, e um leve toque de mel.

    Banco de leveduras

    O banco de leveduras tropicais do INCT soma 50 mil microrganismos, coletados em vários biomas do país. Uma vez selecionada a levedura, o laboratório torna-se um espaço para criar e testar diferentes combinações. Em equipamentos similares aos usados pelos cervejeiros amadores, os pesquisadores seguem o processo tradicional básico de produção, que consiste inicialmente na transformação do amido do malte em açúcares. Em seguida, vem a fervura do mosto (solução líquida rica em açúcares composta pelo malte de cevada e água quente) com lúpulo (Humulus lupulus), flor que confere amargor ao preparado. Por fim, o mosto é fermentado pela levedura, gerando álcool, gás carbônico (CO₂) e aromas (ver infográfico abaixo e Pesquisa FAPESP nº 251).

    Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP
    O grupo mineiro apresentou outras cervejas depois da Star Brasilis, feitas com ingredientes 100% brasileiros (levedura, lúpulo e malte). A Minha Honey Beer, uma Belgian Blond Ale (estilo de cerveja belga de cor dourada), fermentada por uma linhagem brasileira da levedura Saccharomyces cerevisiae, originalmente isolada de fermentação para a produção de cachaça artesanal, foi lançada em outubro de 2024 – essa espécie é largamente usada na indústria de bebidas, alimentos e biocombustíveis. Depois dela, em julho do ano passado, veio a Amazônia Sour Ybirá, cerveja de sabor mais ácido elaborada com frutas tropicais, como o cajá-mirim, a partir de uma levedura, Lachancea thermotolerans, isolada de madeira da floresta amazônica.

    Adaptação

    Em setembro de 2025, empregando a mesma levedura da Star Brasilis, os pesquisadores mudaram os ingredientes para produzir uma cerveja no estilo Fruit Beer, feita com coco e graviola. O rótulo mais recente foi a IPA Tropical, produzida com outra linhagem de S. cerevisiae de cachaça, que apresenta aromas intensos de manga, maracujá e laranja-da-terra e amargor equilibrado.

    As cervejas do tipo IPA (Indian Pale Ale) fermentam em temperaturas mais altas, têm aromas marcantes e amargor intenso em razão da elevada quantidade de lúpulo.

    Parceria

    Com o objetivo de levar as leveduras estudadas na universidade ao mercado, a UFMG assinou em 2022 com a startup Laboratório da Cerveja um contrato de transferência de tecnologia repassando a ela os direitos de exploração comercial desses microrganismos. “A Star Brasilis foi uma das cervejas em que o potencial das leveduras brasileiras foi testado em escala industrial. É uma cerveja leve e refrescante, turva, com espuma persistente”, avalia a bióloga Luciana Brandão, sommelier de cerveja e diretora-executiva da empresa, cuja sede fica em Nova Lima, município a 30 minutos de Belo Horizonte.

    Cervejas experimentais criadas com leveduras brasileiras na UFMGLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

    Brandão e sua equipe colocaram à disposição do mercado as novas espécies e linhagens descobertas pela equipe de Rosa. Não apenas a Star, mas também a levedura Torulaspora delbrueckii, encontrada sobre a casca de uma árvore do parque que abriga o Santuário Caraça, a 120 quilômetros (km) de Belo Horizonte. Por essa razão, foi rebatizada de Guará, em homenagem ao lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), que habita a região. “A levedura T. delbrueckii produz compostos com aromas florais e sabores de mel, pera e conhaque”, atestou a sommelier. A startup de Nova Lima já produziu em parceria com as cervejarias mineiras Prússia, Stardust e Verace algumas cervejas experimentais a partir das novas leveduras.

    INCT Leveduras

    Em outra vertente da parceria, o Laboratório da Cerveja trabalha com o INCT Leveduras multiplicando os microrganismos, que são vendidos em meio líquido para cervejarias artesanais. A forma líquida da levedura, no entanto, é pouco competitiva. As grandes cervejarias compram o microrganismo liofilizado (seco, em pó), que dura mais e pode ser transportado em grandes quantidades, enquanto no meio líquido ele deve ser refrigerado e usado em até 40 dias.

    O biólogo Jean Carlos Rodrigues da Silva, do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), em Sertãozinho, trabalha com a equipe da empresa Biosab Leveduras, de Ribeirão Preto, também no interior paulista, para desenvolver uma levedura em pó. Com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP, ele avalia o gosto e o aroma da bebida produzida a partir do pó para ver se o sabor agrada. “Se der certo, poderemos reduzir o custo e escalar a produção das cervejas artesanais brasileiras, o que diminuiria o preço”, acredita. Uma garrafa de cerveja artesanal com 300 a 500 mililitros [mL] custa, em média, de R$ 10 a R$ 35, até seis vezes o das equivalentes industrializadas.

    Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP

    Descobertas como essas chamaram a atenção das grandes cervejarias interessadas em leveduras mais raras que permitem criar cervejas com identidade nacional. “Na Argentina, a Heineken adotou uma levedura selvagem, Saccharomyces eubayanus, encontrada por pesquisadores na Patagônia, e desenvolveu a H41 Wild Lager, lançada em 2017 como uma edição limitada, que trouxe aromas diferentes, mais intensos e levemente frutados”, conta Rosa, da UFMG.

    Lúpulo

    “A produção de lúpulo no Brasil é outra limitação para a criação de uma cerveja um pouco mais brasileira”, diz o farmacêutico Fernando da Costa, da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto, que trabalha com plantio experimental. Em artigo publicado na revista European Journal of Agronomy, de 2023, ele mostrou que é possível cultivar quatro variedades do lúpulo nas condições climáticas tropicais do estado de São Paulo. Agricultores de Minas Gerais, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, do Paraná, do Rio de Janeiro, de Mato Grosso e da Bahia trabalham há anos para adaptar aos trópicos essa trepadeira nativa de regiões de clima temperado.

    “A flor do lúpulo produzida no Brasil tem aroma e amargor parecidos com a importada, principalmente da Alemanha e dos Estados Unidos, mas a produção nacional ainda é pequena”, diz Costa. “E as grandes cervejarias precisam de uma quantidade vultosa e de qualidade homogênea de lúpulo, algo que ainda não conseguimos entregar.”

    Alexandre Affonso / Revista Pesquisa FAPESP

     

    Santa Catarina

    O prazer proporcionado pela cerveja não depende só das leveduras e do lúpulo. Em Florianópolis, uma equipe da UFSC fez algo novo, sob a inspiração da Berliner Weisse, cerveja típica de Berlim, a capital alemã. Leve e clara do estilo Sour, a bebida é caracterizada pela acidez refrescante e conhecida como Champagne do Norte, pela maior quantidade de espuma.

    A uma formulação básica, com base em trigo e cevada, os pesquisadores acrescentaram, aos poucos, durante a fermentação, doses comedidas de sucos concentrados de frutas nativas, como caju, seriguela, pitanga, cajá, graviola e cupuaçu. Como muitas cervejas de perfil ácido, a fermentação se dá em duas etapas. Na primeira, bactérias do gênero Lactobacillus convertem o açúcar do mosto em ácido lático. Depois, a levedura S. cerevisiae encerra a fermentação produzindo aromas frutados. A maturação normalmente é feita em tanques de aço inoxidável. Um artigo científico publicado em fevereiro na revista Food Chemistry Advances detalha seu modo de produção.

    Catharina Sour

    A cerveja produzida desse modo foi registrada com o nome de Catharina Sour e em 2018 foi a primeira criada no Brasil reconhecida pela Beer Judge Certification Program, uma organização norte-americana que avalia o que há de melhor do mundo nesse campo. Sua fórmula já foi registrada na Argentina, no Chile, no Equador, na Colômbia, na Alemanha e nos Estados Unidos. A produção da Catharina Sour em outros países ainda é limitada por causa das frutas nativas usadas na formulação original, raramente encontradas fora do Brasil, mas que a princípio poderiam ser substituídas por similares de cada lugar.

    Mas será que é boa mesmo? “A combinação de trigo e cevada cria uma sensação macia e aumenta a complexidade dos sabores”, descreve a neurocientista Amanda Reitenbach, da UFSC. Ela testou a reação dos consumidores que provaram a novidade e observou: “A cerveja agrada ao público pelo sabor leve e ácido e pelos aromas que lembram frutas cítricas ou iogurte, produzidos pela levedura, combinado às frutas brasileiras”.

    Levedura Lachancea thermotolerans, usada na fabricação da Amazônia Sour YbiráAmanda Canhestro/Outlab UFMG

    Pesquisas

    Outras linhas de pesquisa na UFSC e no IFSP buscam novas formas de resolver um problema da cerveja sem álcool, cada vez mais apreciada pelos consumidores, por serem refrescantes e combinarem com pratos leves como saladas e peixes. Não há grandes dificuldades em reduzir o teor alcoólico médio de 5% para 0,05%. O problema é que o sabor vai junto.

    Silva, do IFSP, que já trabalhou nisso, aponta duas possibilidades. A primeira é devolver ao líquido os compostos responsáveis pelo sabor e aroma. Outra consiste em usar leveduras, geneticamente modificadas ou não, que produzem pouco álcool. Como fermentam pouco, o gosto é mais adocicado. “O álcool é um conservante natural, que inibe os microrganismos. Sem ele, patógenos podem crescer mais facilmente”, acrescenta Reitenbach. Segundo ela, a Catharina Sour sem álcool e com maturação em madeira foi criada também para atender quem gosta desse tipo de bebida.

    Cerveja de mandioca

    As novas versões de cerveja que saem dos laboratórios de pesquisa são uma gota no mar dessa bebida – em 2024, as quase 2 mil cervejarias em operação no país produziram 15,3 bilhões de litros –, mas fazem pensar quão próximos estaríamos de uma amarelinha inteiramente nacional, com leveduras, lúpulo e cevada produzidos no país. Reitenbach e Costa concordam que, em vista das grandes quantidades de matérias-primas exigidas pelos fabricantes, a produção em larga escala de uma cerveja genuinamente nacional ainda é uma possibilidade remota.

    Mesmo que a definição seja a mesma instituída em 1516 na Baviera pelo duque Guilherme IV (1493-1550) – a cerveja deve conter apenas água, malte e lúpulo; a levedura, que não era conhecida na época, foi incluída depois –, parte do processo de produção no país foi adaptado dos aplicados nos Estados Unidos, na Bélgica ou na Alemanha.

    Equipe da UFSC realiza prova de cerveja desenvolvida na instituiçãoUFSC

    A cerveja mais brasileira criada até agora talvez seja a Manipueira Selvagem, lançada em 2022 por um projeto colaborativo liderado pelas cervejarias Cozalinda, em Florianópolis, e Zalaz, em Paraisópolis, Minas Gerais, com a participação do Centro Multidisciplinar de Tecnologia Cervejeira do IFSP, de Sertãozinho, e da Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva).

    A novidade da bebida é que, ao mosto da cerveja, é misturado caldo de mandioca. Suas raízes remetem ao pajuaru ou paiauaru, uma bebida alcoólica tradicional indígena da Amazônia, feita com método parecido e a matéria-prima. A bebida original tem sabor forte, azedo e amargo, e pode facilmente embebedar quem não está acostumado com ela por ter um teor alcoólico que vai de 10% a 15% – nas cervejas tradicionais, esse número está em torno de 5%.

    Tempo de fermentação

    Outra diferença é o tempo de fermentação: em vez de um mês da bebida habitual, a Manipueira Selvagem descansa durante um ano, em barris de carvalho. A cerveja de mandioca é depois envasada e termina de fermentar na garrafa, quando o açúcar forma gás carbônico, o responsável pelas bolhas como as da champagne. É um processo semelhante ao usado para se fazer a cerveja do estilo Lambic em cervejarias belgas, que deixa microrganismos do ar cair no mosto, técnica chamada de fermentação espontânea. Há vários rótulos da Manipueira, vendidos principalmente em lojas especializadas. A garrafa de 375 mL custa em torno de R$ 35.

    “O processo de fabricação da Manipueira é parecido, mas as leveduras são substituídas pelos microrganismos do caldo da mandioca. E quase não se usa lúpulo”, nota Silva, do IFSP. Segundo ele, as variações regionais da planta conferem à Manipueira perfis sensoriais diferentes. “É espumante, com acidez equilibrada, um leve sabor de malte, lembrando pão, aroma de frutas cítricas, como o maracujá, e final seco. É o nosso terroir”, celebra Silva. Terroir é um termo usado para designar principalmente vinhos que ganham identidade e valor na medida em que são produzidos a partir de condições únicas de solo e clima.

  • Tecnologia impulsiona produção de lúpulo no Brasil

    Tecnologia impulsiona produção de lúpulo no Brasil

    Apesar de ser o terceiro maior produtor e consumidor de cerveja do mundo, o Brasil ainda depende quase que completamente da importação de lúpulo. Isso porque menos de 1% do ingrediente responsável pelo amargor, aroma e sabor da cerveja é cultivado localmente.

    No entanto, um novo projeto com cientistas e produtores do Vale do Ribeira (SP) busca mudar esse cenário. E tornar a produção nacional de lúpulo mais eficiente e viável. Além de impulsionar o desenvolvimento de novos bioprodutos.

    O projeto, que nasceu dentro do Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP, com sede na Universidade Estadual Paulista (Unesp) –, está apostando na extração supercrítica com dióxido de carbono (CO₂), uma tecnologia já consolidada em países como Alemanha e Estados Unidos. O método permite extrair compostos aromáticos e bioativos do lúpulo com alta eficiência, reduzindo custos logísticos e aumentando a qualidade da cerveja.

    “Normalmente o lúpulo brasileiro é vendido em pellets [flores desidratadas e prensadas] para cervejarias. No entanto, com essa tecnologia, o lúpulo pode ser comercializado no formato de óleo, o que, além de ganhos logísticos, confere resultados na produção da cerveja muito superiores aos métodos convencionais”, explica Levi Pompermayer Machado, professor da Unesp e um dos pesquisadores envolvidos no projeto.

    Parceiros

    Além do CBioClima, integram o projeto o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro), a incubadora Aquário de Ideias, com startups do Vale do Ribeira, além da Bioativos Naturais e a Kalamazoo – duas empresas apoiadas pelo programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP. Os produtores integram o programa SP Produz 2025, do Governo do Estado de São Paulo, que oferece apoio estratégico ao fortalecimento de cadeias produtivas locais.

    No estudo, publicado na revista Biomass Conversion and Biorefinery, os pesquisadores compararam a extração do lúpulo da empresa Atlântica Hops, localizada em Juquiá (SP), pelo método convencional e pelo método supercrítico por CO2. Enquanto a extração tradicional, feita com solventes orgânicos ou por uma técnica conhecida como arraste a vapor, rende cerca de 15% de extrato com 9% de α-ácidos (compostos responsáveis pelo amargor da cerveja), a técnica com CO2 alcança até 72% de α-ácidos. Além disso, o processo resulta em menor volume, melhor conservação e aumento de até 20% na produtividade da cerveja.

    “Cada lúpulo tem uma peculiaridade de sabor, que é definido pelo que chamamos de terroir, e é isso que a indústria procura. No estudo, também realizamos análises sobre o perfil sensorial do extrato do lúpulo em pellets e do extrato que a gente produziu. Houve uma pequena alteração de sabor, mas se manteve mais ou menos a mesma assinatura sensorial do produto. Portanto, com toda essa melhora de eficiência e qualidade, as características do terroir são quase que inteiramente mantidas”, conta.

    Química verde

    Machado ressalta que a tecnologia testada no Vale do Ribeira também se destaca por seguir os princípios da química verde. Isso porque, nos métodos tradicionais, utiliza-se grande quantidade de água ou solventes derivados do petróleo para separar os óleos essenciais do lúpulo.

    Já a extração supercrítica utiliza o dióxido de carbono em condições de alta pressão e temperatura, em que ele assume um estado entre o líquido e o gasoso (estado supercrítico). É dessa forma que o CO2 atua como solvente natural, penetrando profundamente na matéria-prima e extraindo seus compostos com alta eficiência.

    Lúpulo Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

    “Fora isso, o CO2 utilizado na tecnologia supercrítica é recapturado ao final do processo, evitando emissões atmosféricas e eliminando resíduos químicos no extrato. Isso torna o método não apenas mais eficiente, mas também ambientalmente responsável”, afirma Machado.

    Segundo o pesquisador, o objetivo principal do projeto é oferecer aos produtores opções de cultivo com menor impacto ambiental e maior valor agregado (como é o caso do lúpulo) no lugar de expandir fronteiras agrícolas com commodities de baixo retorno, como soja e cana.

    “Estamos falando em produzir mais em uma área cultivada muito menor, com uma cultura que responde bem às mudanças climáticas e oferece múltiplas possibilidades de mercado”, destaca o pesquisador.

    Economia circular

    Outro diferencial é que os extratos obtidos com a tecnologia não se limitam à indústria cervejeira. Podendo também atender o setor de cosméticos e de farmacêuticas. Além dos extratos, os pesquisadores também analisaram os resíduos que sobraram após a extração (spent hop).

    De acordo com Johana Marcela Concha Obando, bolsista de pós-doutorado no INCT NanoAgro da Unesp e envolvida no projeto, o rejeito do lúpulo ainda carrega compostos bioativos com alto potencial antioxidante, como fenólicos e flavonoides. “Como a técnica não utiliza reagentes, esses resíduos não se perdem no processo, podendo ser utilizados para outros propósitos”, explica.

    No trabalho, a análise bioquímica revelou que, mesmo após a retirada dos principais ativos, a biomassa residual mantém propriedades que podem ser aproveitadas em novos produtos. “Com o extrato, deixamos de atender apenas o nicho cervejeiro e passamos a alcançar cinco, seis, até dez setores diferentes”, comemora Machado.

    Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

  • Lúpulo de São Paulo cresce 203% e conquista cervejarias artesanais do Brasil

    Lúpulo de São Paulo cresce 203% e conquista cervejarias artesanais do Brasil

    O cultivo de lúpulo em São Paulo vive momento de expansão acelerada. A planta essencial para fabricação de cerveja conquista espaço crescente na produção artesanal brasileira. O Estado concentra cerca de 30 produtores ativos que impulsionam o mercado nacional.

    Lúpulo Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

    A produção nacional alcançou 88 toneladas em 2023. Os números representam crescimento de 203% em relação ao levantamento anterior. A expansão resulta do aumento da área cultivada e do crescimento no número de produtores.

    Aguaí e Mococa lideram produção paulista com qualidade premiada

    Cidades como Aguaí e Mococa ganharam reconhecimento nacional pela qualidade do lúpulo produzido. Os produtores dessas regiões conquistaram premiações importantes que elevaram o prestígio do produto paulista.

    Você também pode gostar:
    + Agro em Campo: Picapes do agro brilham entre os 50 carros mais vendidos de julho
    + Agro em Campo: Perigo – piranhas atacam peixe no anzol em Tocantins

    O lúpulo utiliza especificamente as flores femininas da espécie Humulus lupulus. Essas flores conferem amargor, aroma e atuam como conservante natural da cerveja. O processo envolve plantio, desenvolvimento, colheita e processamento das flores.

    As flores também contribuem para a estabilidade da espuma. Elas garantem a preservação adequada da bebida durante o armazenamento.

    Produtores fazem até duas safras anuais com tecnologia de suplementação luminosa

    O Brasil apresenta vantagem competitiva única no cultivo de lúpulo mundial. O país permite realizar mais de uma safra por ano graças às condições climáticas favoráveis.

    “O Brasil é um dos únicos lugares do mundo onde se consegue fazer mais de uma safra por ano porque ele precisa de um fotoperíodo específico, dias compridos. E aqui fazemos isso com suplementação luminosa”, explica o produtor Murilo Ricci, de Aguaí.

    A tecnologia de suplementação luminosa compensa as limitações naturais do fotoperíodo. Essa inovação fortalece a competitividade brasileira no mercado internacional.

    Cultivo gera alta rentabilidade em pequenas propriedades

    Ricardo Mason, especialista agropecuário da CATI de São João da Boa Vista, destaca o alto valor agregado da cultura. A atividade não exige grandes extensões de terra para gerar renda significativa ao agricultor.

    “O cultivo de lúpulo proporciona retorno de capital no decorrer do tempo, podendo ser uma alternativa tanto para grandes produtores como, em especial, para a agricultura familiar”, afirma Mason.

    O especialista projeta grande potencial para São Paulo. O Estado pode se tornar polo produtor capaz de atender demanda local, nacional e internacional.

    Parcerias com cervejarias artesanais impulsionam vendas nacionais

    As cervejarias artesanais lideram a demanda por lúpulo brasileiro. O produtor rural Mário Mancuso, de Mococa, confirma que parcerias com esses estabelecimentos impulsionaram o crescimento da produção.

    Mancuso iniciou a produção em 2021, mas começou a comercialização apenas no ano passado. “Nossa prioridade era garantir um produto de qualidade para oferecer às cervejarias. Nesse período, fizemos muitos testes e firmamos parcerias estratégicas”, relata.

    As parcerias se mostraram fundamentais tanto para o desenvolvimento do produto quanto para a divulgação. As cervejarias artesanais ajudaram a ampliar a produção e levar o produto além do mercado regional.

    As premiações conquistadas pelos produtores paulistas contribuíram para alavancar as vendas. Mancuso explica que os reconhecimentos transformaram o alcance comercial da produção.

    “Deixamos de atuar apenas em um comércio localizado e hoje fornecemos lúpulo para vários estados. Nossa meta agora é, em alguns anos, atingir o mercado internacional”, projeta o produtor.

    Instituto Biológico desenvolve pesquisas contra pragas e viroides

    O crescimento da produção trouxe novos desafios fitossanitários. O Instituto Biológico (IB-Apta) da Secretaria de Agricultura desenvolve estratégias para prevenir infestação e alastramento de pragas.

    O pesquisador Marcelo Eiras coordena trabalhos focados principalmente em viroides e vírus. Essas pragas podem comprometer a sanidade e produtividade das lavouras de lúpulo.

    Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

    “Os viroides podem causar sintomas como redução do desenvolvimento das plantas, seca dos ponteiros e podridão de raízes”, explica Eiras. Muitas infecções ocorrem sem sintomas visíveis, mas alteram significativamente os compostos responsáveis pelo aroma e sabor da cerveja.

    Laboratório oferece diagnóstico e estudos avançados

    O laboratório do IB atende diretamente produtores e viveiristas que comercializam mudas. O foco principal é o diagnóstico de viroides e vírus em lúpulo e citros.

    A instituição realiza estudos aprofundados sobre diversidade genética, interações moleculares, epidemiologia e sanidade vegetal. Dois projetos financiados pela FAPESP e CNPq estão em desenvolvimento.

    As pesquisas buscam avançar no conhecimento sobre vírus e viroides que afetam o lúpulo. Os cientistas trabalham para criar métodos de detecção mais sensíveis e avaliar a resistência de variedades.

    Os projetos incluem produção de plantas livres de patógenos e análise do impacto socioeconômico da cultura. Os pesquisadores também estudam compostos em variedades infectadas para desenvolver soluções preventivas.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Isenção do suco na tarifa dos EUA alivia o setor

    + Agro em Campo: Venezuela retoma isenção para produtos brasileiros após tarifação inesperada

  • Oportunidade: curso gratuito ensina a produzir lúpulo

    Oportunidade: curso gratuito ensina a produzir lúpulo

    A Embrapa lançou um curso online gratuito voltado para aqueles que desejam aprender sobre a produção de lúpulo, uma planta essencial na fabricação de cerveja. O curso abrange desde as características do lúpulo até o plantio, manejo fitossanitário e pós-colheita, totalizando quatro módulos com uma carga horária de oito horas.

    O objetivo do curso é fornecer noções básicas sobre a cultura do lúpulo, atraindo tanto iniciantes quanto aqueles que pretendem investir nessa promissora atividade agrícola. Os participantes terão a oportunidade de entender melhor a fisiologia do lúpulo (Humulus lupulus L.) e seu manejo, incluindo práticas de colheita que preservam as partes subterrâneas da planta, como raiz e rizoma, fundamentais para o seu desenvolvimento.

    Curso gratuito é iniciativa para fortalecer cadeia produtora

    Além disso, o curso aborda a importância de um manejo integrado, considerando as características climáticas e agronômicas que influenciam a saúde das plantas e sua interação com patógenos. Os conceitos de pós-colheita também são discutidos, ressaltando sua relevância no processo produtivo.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Suzano inaugura maior fábrica do mundo de celulose no Mato Grosso do Sul
    + Agro em Campo: Estudo inédito apresenta estratégia para controle de carrapatos

    Para mais informações sobre o curso ou para se inscrever, os interessados podem entrar em contato pelo e-mail [email protected] ou pelo site da Embrapa. Aqueles que já estão inscritos podem acessar o curso através da plataforma da Embrapa.

    Essa iniciativa da Embrapa não apenas capacita novos produtores, mas também contribui para o fortalecimento da cadeia produtiva da cerveja artesanal no Brasil, um mercado em expansão que busca cada vez mais ingredientes de qualidade.

  • Aprenda a cultivar lúpulo, planta essencial para a produção de cerveja

    Aprenda a cultivar lúpulo, planta essencial para a produção de cerveja

    O uso do lúpulo está intimamente ligado à indústria cervejeira, na qual é utilizado para conferir amargor e aroma às diferentes tipos de cervejas.

    Os compostos importantes do lúpulo são encontrados nas inflorescências de plantas femininas, chamadas de cones.

    Nesses cones são produzidas resinas peculiares ao lúpulo, que não são encontradas em nenhuma outra espécie de plantas.

    As resinas são produzidas em glândulas de lupulina presentes nos tricomas das brácteas das inflorescências.

    Inflorescências de plantas femininas possuem grande quantidade de lupulina, enquanto plantas masculinas também possuem glândulas de lupulina, mas em pequena quantidade. Por esse motivo, em plantios comerciais são utilizadas somente plantas femininas.

    A história do lúpulo no Brasil remonta à década de 1950, quando o austríaco Roland Hoblik começou a cultivar e vender cones para as cervejarias da época no município de Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha.

    A área plantada de lúpulo no Brasil é relativamente pequena, com apenas cerca de 20 hectares distribuídos em sete estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal.

    A maioria das variedades plantadas são de origem americana e alemã, como a ‘Cascade’, ‘Centennial’, ‘Fuggle’, ‘Magnum’, ‘Hallertau’, ‘Northern Brewer’ e ‘Nugget’, todas registradas no Ministério da Agricultura.

    Embora a cultura do lúpulo esteja em crescimento no Brasil, a dependência de importações permanece um desafio para o setor.

    Conheça mais sobre a cultura do lúpulo em estudo produzido pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiros da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) – Clique aqui