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  • Conheça a serpente temida na Ilha das Cobras no litoral paulista

    Conheça a serpente temida na Ilha das Cobras no litoral paulista

    A Ilha da Queimada Grande, localizada entre Itanhaém e Peruíbe, no litoral de São Paulo, ganhou fama internacional por abrigar a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), espécie endêmica considerada uma das serpentes mais perigosas do planeta. No entanto, a chamada Ilha das Cobras também é lar de outra serpente bem menos conhecida: a dormideira (Sibynomorphus mikanii), uma espécie inofensiva que se alimenta principalmente de lesmas e caracóis.

    Além disso, a Queimada Grande é considerada a segunda ilha com maior densidade populacional de cobras do mundo. O local é o único habitat natural da jararaca-ilhoa. Já a dormideira também ocorre no continente e, segundo pesquisadores, apresenta poucas diferenças visíveis em relação aos exemplares encontrados fora da ilha.

    De acordo com o pesquisador do Instituto Butantan, Otavio Marques, a presença da dormideira desperta interesse científico porque, ao contrário da jararaca-ilhoa, a espécie não sofreu mudanças aparentes durante o período de isolamento geográfico.

    Segundo o pesquisador, seus hábitos noturnos e a alimentação baseada em lesmas permitiram que a serpente encontrasse na ilha condições muito semelhantes às existentes no continente. Dessa forma, a espécie manteve características praticamente inalteradas ao longo do tempo.

    Dormideira pode ser encontrada em hortas e áreas úmidas

    Conforme informações do Instituto Butantan, a dormideira é uma serpente de pequeno porte, terrestre e com hábitos predominantemente noturnos. Além disso, ela é totalmente inofensiva aos seres humanos.

    Sua dieta é composta principalmente por lesmas e caracóis, motivo pelo qual a espécie costuma ser encontrada em hortas, áreas de cultivo e locais com vegetação úmida, ambientes comuns em diversas propriedades rurais.

    Cobra dormideira na Ilha da Queimada Grande, entre Itanhaém e Peruíbe, SP — Foto: Instituto Butantan

    A serpente não possui veneno. Em contrapartida, desenvolveu adaptações específicas no crânio e na mandíbula que permitem retirar moluscos de dentro das conchas sem quebrá-las, característica que chama a atenção dos pesquisadores.

    Jararaca-ilhoa desenvolveu peçonha mais potente após isolamento

    Enquanto a dormideira costuma passar despercebida, a jararaca-ilhoa permanece como a principal protagonista da Ilha da Queimada Grande. Segundo o biólogo Eric Comin, a espécie figura entre as serpentes mais peçonhentas e perigosas do mundo.

    “Ela é uma jararaca de coloração meio esverdeada com tom voltado ao amarelo. Com isso, ela tem uma camuflagem muito boa”, disse Comin.

    A origem da espécie está diretamente relacionada ao isolamento geográfico provocado pela elevação do nível do mar há aproximadamente 11 mil anos. Com a formação da ilha, uma população ancestral de jararacas ficou separada do continente e passou a evoluir de forma independente.

    “Nesse isolamento, ela teve que caçar aves do continente que vão até a ilha. Para ela caçar essas aves, se ela pica a ave e a peçonha não é forte, a ave voa, vai embora e cai em outro lugar”, acrescentou o biólogo.

    Jararaca-ilhoa na Ilha da Queimada Grande, conhecida como 2ª com maior densidade de cobras do mundo — Foto: João Rosa

    Com o passar das gerações, a espécie desenvolveu uma peçonha cada vez mais eficiente para capturar aves, que representam a maior parte de sua alimentação. Assim, a seleção natural favoreceu indivíduos capazes de imobilizar rapidamente suas presas.

    “Dentro desse isolamento geográfico […] a peçonha dela se potencializou de uma tal forma que a partir do momento que ela dava o bote, a ave já morria e ficava no galho”, completou Comin.

    Por isso, a Ilha da Queimada Grande se tornou um dos mais importantes laboratórios naturais para estudos sobre evolução, adaptação de espécies e biodiversidade, temas de grande relevância para a conservação dos ecossistemas brasileiros.