Uma sentença federal emitida na última segunda-feira (13) determinou a interrupção imediata do abate de jumentos no Brasil e a retirada dos animais de frigoríficos, fazendas e transportes destinados à exploração. A juíza Arali Maciel Duarte, da Justiça Federal na Bahia, assinou a decisão reconhecendo maus-tratos sistemáticos, falhas sanitárias graves e risco real de extinção da espécie no País. O animal que carregou o peso do trabalho rural no Nordeste por gerações agora enfrenta uma ameaça silenciosa e veloz.
De companheiro de trabalho a produto de exportação
A história do jumento no Brasil mudou radicalmente nas últimas décadas. O que era símbolo de parceria no campo tornou-se alvo de um mercado bilionário centrado na China, onde a pele do animal serve para produzir o ejiao, um remédio tradicional muito valorizado na medicina chinesa. O funcionamento desse mercado é simples e brutal: caçadores capturam jumentos abandonados ou comprados de pequenos produtores a preços irrisórios, muitas vezes de forma clandestina, e os levam a abatedouros sem qualquer cuidado com o bem-estar animal. Além disso, o transporte acontece em condições precárias e sem higiene básica, o que eleva o risco de disseminação de doenças zoonóticas como o mormo.
Uma queda de 94% em menos de três décadas
Os números revelam a dimensão do problema. Entre 1997 e 2024, a população de jumentos no Brasil despencou 94%. Além do impacto direto na biodiversidade, especialistas alertam que a extinção da subespécie representaria uma perda irreversível de conhecimento científico sobre um animal altamente adaptado às condições do sertão nordestino. Por isso, entidades de defesa animal pressionam pela proibição do abate desde 2018. Desde então, a disputa nos tribunais acumulou avanços e retrocessos, com decisões favoráveis e contrárias ao movimento se alternando ao longo de oito anos.
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O que diz quem defende o abate
O argumento econômico é o principal escudo dos favoráveis à atividade. Três abatedouros detêm autorização legal para abater jumentos no Brasil, todos localizados na Bahia, e pelo menos um deles segue em operação. Para os defensores do setor, encerrar essas atividades afetaria diretamente a economia das pequenas cidades onde os abatedouros estão instalados. Trata-se, portanto, de um impasse real: de um lado, a preservação de uma espécie em colapso e o combate a maus-tratos documentados. Do outro, o impacto econômico local em regiões já vulneráveis.
O que muda agora
A sentença da juíza Arali Maciel Duarte representa a decisão mais contundente já tomada nesse embate. A ordem é clara: interromper o abate e retirar os animais imediatamente dos locais de exploração. No entanto, o cumprimento da decisão ainda depende de desdobramentos jurídicos, e o histórico de idas e vindas nessa disputa sugere que o capítulo final está longe de ser escrito. O que está em jogo, contudo, já não é só o destino de um animal. É também a escolha sobre que tipo de relação o Brasil quer manter com sua própria biodiversidade.




