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  • O que ninguém te contou: plantas podem memorizar a seca

    O que ninguém te contou: plantas podem memorizar a seca

    As plantas não apenas reagem ao ambiente. Na verdade, elas também aprendem com ele. Um estudo recente da Unesp mostra que plantas conseguem “memorizar” eventos estressantes e, dessa forma, ajustar suas respostas no futuro. Esse avanço, portanto, pode abrir novas estratégias para o agronegócio brasileiro.

    Além disso, a descoberta chega em um momento decisivo. Com o aumento de secas e ondas de calor, produtores buscam alternativas para manter produtividade e reduzir riscos no campo. Nesse contexto, entender como as plantas se adaptam se torna essencial.

    Como funciona a memória das plantas

    Embora não possuam sistema nervoso, as plantas desenvolveram mecanismos altamente sofisticados. Nesse sentido, elas registram experiências anteriores de estresse, como falta de água, e ajustam seu funcionamento.

    Por exemplo, pesquisas com sorgo mostram que plantas expostas a estresse hídrico recorrente apresentaram melhor desempenho fisiológico. Além disso, os estudos identificaram:

    • Maior eficiência fotossintética
    • Melhor conservação do sistema fotoquímico
    • Ajustes nas relações hídricas

    Como resultado, essas plantas conseguem sobreviver melhor em condições adversas. Ao mesmo tempo, elas mantêm níveis mais estáveis de produtividade.

    Outro ponto importante envolve os mecanismos antioxidantes. Durante o estresse, enzimas como SOD, CAT e APX entram em ação. Dessa forma, elas reduzem danos celulares e fortalecem a resistência da planta.

    Clima extremo acelera a necessidade de adaptação

    Atualmente, eventos climáticos extremos ocorrem com mais frequência. Por isso, estresses como seca, salinidade e calor intenso impactam diretamente a produção agrícola.

    Nesse cenário, a capacidade de adaptação rápida se torna um diferencial competitivo. Além disso, plantas que já passaram por estresse tendem a responder melhor quando enfrentam novas adversidades.

    Por outro lado, essas mesmas plantas também se recuperam mais rápido. Quando as condições melhoram, como no retorno das chuvas, elas retomam o crescimento com maior eficiência.

    Assim, o ciclo produtivo se torna mais estável, mesmo diante de variações climáticas.

    Impactos diretos para o agronegócio

    A descoberta não fica restrita ao campo científico. Pelo contrário, ela já aponta caminhos práticos para o produtor rural.

    Em primeiro lugar, programas de melhoramento genético podem priorizar plantas com maior capacidade de adaptação. Dessa forma, novas cultivares tendem a ser mais resistentes. Além disso, o manejo agrícola pode evoluir. Técnicas como irrigação controlada, por exemplo, podem estimular respostas adaptativas nas plantas.

    Outro benefício importante envolve a redução de perdas. Em períodos críticos, lavouras mais preparadas sofrem menos impacto.

    Ao mesmo tempo, produtores podem otimizar o uso de insumos. Como resultado, há maior eficiência no uso de água e nutrientes, o que reduz custos.

    Epigenética impulsiona a agricultura do futuro

    A chamada memória vegetal está ligada à epigenética. Ou seja, trata-se de mudanças na expressão dos genes sem alterar o DNA.

    Nesse sentido, a planta cria uma espécie de histórico biológico. Assim, ela consegue responder de forma mais rápida a novos estresses. Além disso, esse processo envolve diferentes níveis, como expressão gênica, produção de protéinas e ajustes metabólicos.

    Portanto, a epigenética se consolida como uma das áreas mais promissoras para inovação no agro.

    Oportunidade estratégica para o Brasil

    O Brasil pode se beneficiar diretamente dessa descoberta. Afinal, o país depende fortemente de culturas sensíveis ao clima, como soja, milho e cana-de-açúcar.

    Nesse cenário, lavouras mais resilientes aumentam a previsibilidade da produção. Além disso, reduzem riscos associados às mudanças climáticas. O setor ganha mais estabilidade econômica e ao mesmo tempo, o produtor se torna menos vulnerável a perdas inesperadas.

    Ciência que já começa a transformar o campo

    A ideia de que plantas aprendem com o ambiente deixa de ser apenas teoria. Na prática, ela já aponta caminhos concretos para o agronegócio.

    Assim, ao integrar ciência e manejo, o produtor ganha eficiência e segurança. Além disso, prepara sua lavoura para um cenário climático cada vez mais desafiador.

    Portanto, a memória vegetal pode se tornar uma aliada estratégica. E, nesse novo cenário, quem adotar essas práticas primeiro tende a sair na frente.

  • Emissões de metano na pecuária brasileira batem recorde e ameaçam meta climática

    Emissões de metano na pecuária brasileira batem recorde e ameaçam meta climática

    O Brasil enfrenta um desafio crescente no combate às mudanças climáticas: as emissões de metano da pecuária atingiram níveis recordes em 2023 e afastam o país do compromisso internacional assumido há três anos. Especialistas alertam para a urgência de mudanças nas práticas agropecuárias e questionam a precisão dos dados oficiais sobre o rebanho bovino nacional.

    O Observatório do Clima divulgou dados alarmantes: o Brasil emitiu 20,8 milhões de toneladas de metano em 2023, crescimento de 6% em relação às 19,6 milhões de toneladas registradas em 2020. A agropecuária concentra 75% dessas emissões, com 15,7 milhões de toneladas liberadas na atmosfera — novo recorde nacional e aumento de 1,1% sobre o ano anterior.

    A fermentação entérica, processo digestivo dos bovinos popularmente conhecido como “arroto do boi”, responde pela maior parte das emissões. Os números contrariam o compromisso que o Brasil assumiu na COP26, em 2021, quando o país se juntou a mais de cem nações para reduzir em 30% as emissões de metano até 2030, tomando como base os níveis de 2020.

    Produtividade: a chave para reduzir emissões

    Pesquisadores da Unesp consultados pelo Jornal da Unesp defendem que o Brasil precisa disseminar práticas que aumentem a produtividade na pecuária. A estratégia permite produzir mais carne e leite com menos animais, reduzindo assim a emissão total de metano.

    Ricardo Reis, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Unesp em Jaboticabal, dedica duas décadas ao estudo da relação entre manejo de pastagens, suplementação alimentar e emissões de metano. “O grande problema é que, ainda hoje, boa parte dos pecuaristas não entende a pastagem como uma cultura”, afirma.

    O pesquisador explica que os produtores precisam tratar o capim com o mesmo rigor técnico aplicado à soja ou ao milho, investindo em manejo adequado. A falta de cuidados degrada as áreas de pastagem, reduz sua capacidade de alimentar o rebanho e encarece a recuperação. O abandono gera custos ambientais elevados.

    Pasto de qualidade reduz metano e estoca carbono

    “O que faz com que o animal produza metano é a digestão da fibra de baixa qualidade do capim no rúmen. Quando o boi come um pasto verde e de qualidade, ele vai emitir menos metano”, explica Reis. O professor destaca um benefício adicional: “Ao mesmo tempo, o produtor estoca carbono no solo ao preservar as pastagens. Essa é a forma mais eficiente de mitigação.”

    O engenheiro agrônomo Abmael Cardoso, egresso do Programa de Pós-graduação em Zootecnia da FCAV-Unesp, contesta a estimativa oficial de 238,2 milhões de cabeças de gado no Brasil. Segundo ele, a metodologia que o IBGE utiliza ignora os ganhos de produtividade que a pecuária brasileira alcançou nas últimas décadas.

    O problema reside na política fundiária. Uma normativa do INCRA determina que a produtividade das fazendas pecuárias deve ser calculada pela taxa de lotação — número de animais dividido pela área da propriedade. Esse critério incentiva os produtores a declarar mais animais para demonstrar maior produtividade.

    “Em razão dessa questão metodológica, todo o esforço do Brasil para reformar suas pastagens, adotar sistemas integrados de produção, melhorar a qualidade nutricional, entre outras tecnologias, não está sendo capturado nas estimativas de emissão, porque elas usam os dados de rebanho oficiais do IBGE, que são imprecisos”, afirma Cardoso.

    Indicadores mostram descompasso nos dados oficiais

    Diversos indicadores de produtividade cresceram nos últimos anos, o que reforça a tese de que os números oficiais não refletem a realidade. Consultorias especializadas em produção de carne demonstram que o Brasil reduziu as áreas de pastagem nas últimas décadas enquanto aumentava a produção de carne.

    “Existe um descompasso entre as metodologias aplicadas pela política fundiária para medir a eficiência das propriedades rurais e a política ambiental brasileira”, diz Cardoso. Apesar das críticas, o agrônomo valoriza o trabalho dos órgãos estaduais e do IBGE.

    O pesquisador defende estratégias de mitigação concentradas na produtividade da fase de cria, período entre o nascimento e o desmame do bezerro. “Isso vai se refletir, no médio e longo prazo, em um rebanho menor com maior produtividade. E, consequentemente, em uma emissão de metano menor”, conclui Cardoso.