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  • Abelhas usam “ferramentas” para resolver problemas e desafiam ciência

    Abelhas usam “ferramentas” para resolver problemas e desafiam ciência

    Abelhas mamangavas demonstraram capacidade de usar ferramentas para resolver problemas, segundo um estudo publicado na revista Science. A descoberta amplia o entendimento sobre cognição animal e desafia a ideia de que insetos agem apenas por instinto.

    Pesquisadores adaptaram o clássico experimento da “caixa e banana”, criado há cerca de um século para avaliar a inteligência de chimpanzés. Nesse teste, o animal precisa empilhar caixas para alcançar uma banana fora do alcance. Ao longo dos anos, cientistas registraram esse tipo de comportamento em primatas, elefantes e corvos.

    No novo estudo, as abelhas enfrentaram um desafio semelhante. Elas precisaram rolar uma pequena bola até um ponto específico e subir nela para acessar uma flor artificial posicionada no teto de uma câmara. O espaço impedia o voo direto até a recompensa, o que exigiu uma solução alternativa.

    Os pesquisadores treinaram inicialmente as abelhas para associar a cor azul a uma recompensa de água com açúcar. Depois, transferiram a flor para uma posição inacessível. Sem treinamento prévio para aquela tarefa, os insetos tiveram que descobrir como usar a bola como ferramenta.

    Na versão mais simples do experimento, 75% das abelhas conseguiram resolver o problema. O resultado indica que elas não apenas respondem a estímulos, mas também conseguem adaptar comportamentos para atingir objetivos.

    Etapas da pesquisa

    Para descartar a hipótese de comportamento aleatório, os cientistas aumentaram o nível de dificuldade. Em uma etapa avançada, as abelhas exploraram o ambiente antes da introdução da bola. Em seguida, os pesquisadores bloquearam a visão da flor com luz vermelha. Mesmo assim, 23 das 30 abelhas lembraram a localização correta e posicionaram a bola de forma precisa.

    Segundo o ecólogo comportamental Olli Loukola, autor principal do estudo, o resultado mostra que cérebros pequenos podem gerar soluções flexíveis para problemas inéditos. Ele destaca que muitos ainda enxergam insetos como organismos puramente reflexivos, sem capacidade cognitiva relevante.

    Especialistas independentes também reforçam a importância da descoberta. Para o professor Lars Chittka, da Queen Mary University of London, as abelhas já demonstraram habilidades como contagem e manipulação de objetos, mas o novo experimento traz a evidência mais clara de compreensão prática de um desafio.

    A pesquisa reforça que o tamanho do cérebro não determina, por si só, o nível de inteligência. No caso das abelhas, o estudo indica que sistemas nervosos compactos podem sustentar comportamentos complexos e adaptativos.

  • Caruncho no arroz faz mal? Veja o que acontece se você ingerir esse inseto

    Caruncho no arroz faz mal? Veja o que acontece se você ingerir esse inseto

    Você pega o pacote de arroz para cozinhar e encontra aquela farinha fina acumulada no fundo. Ou, pior ainda, avista pequenos insetos se movimentando entre os grãos. É uma cena familiar para boa parte das famílias brasileiras, e a reação imediata costuma ser jogar tudo fora com repulsa. Mas a situação é mais complexa do que parece, e a resposta para a pergunta que todo mundo já fez, “caruncho faz mal?”, depende de alguns fatores que vale conhecer antes de tomar qualquer decisão.

    De onde vem o caruncho e por que ele aparece nos grãos

    Antes de qualquer coisa, é preciso derrubar um equívoco comum: o caruncho não nasce necessariamente por descuido do consumidor. Segundo a agrônoma e professora Cristina Schetino Bastos, da Universidade de Brasília, o ciclo da infestação pode começar ainda na lavoura, durante a colheita, e seguir por todas as etapas, incluindo transporte, beneficiamento e armazenamento. Ou seja, o inseto pode chegar à despensa de casa dentro do próprio pacote lacrado.

    O nome “caruncho” é, na verdade, um termo genérico. A professora explica que ele designa popularmente mais de uma espécie de besouro que infesta produtos armazenados, com destaque para o Sitophilus zeamais, um besouro pequeno também conhecido como bicudo. Essa espécie é especialmente problemática porque tem alta capacidade de sobrevivência e consegue perfurar grãos intactos, o que dificulta o controle ao longo de toda a cadeia produtiva.

    Os insetos se associam principalmente a arroz, milho e trigo e, por consequência, a derivados como macarrão e farinhas. E as condições do ambiente doméstico podem acelerar a proliferação: umidade moderada e temperaturas favoráveis criam o cenário ideal para o desenvolvimento dos insetos, enquanto ambientes muito secos ou com temperaturas extremas dificultam sua sobrevivência.

    Freezer, recipientes de vidro e atenção à mistura de alimentos novos com antigos estão entre as medidas mais eficazes para manter caruncho longe — (Foto: Tomasz Klejdysz/Getty Imagens)

    Comer alimento com caruncho faz mal?

    Aqui está a resposta que a maioria das pessoas busca, e ela é menos alarmante do que o estômago sugere no momento do susto. De acordo com a nutricionista Fabiana Ximenes, o consumo acidental desses insetos geralmente não representa um risco grave à saúde. No entanto, podem ocorrer sintomas gastrointestinais leves como náuseas, desconforto abdominal e diarreia, especialmente em pessoas mais sensíveis ou com imunidade baixa.

    Um fator importante nessa equação é o preparo do alimento. O risco é maior quando o alimento contaminado é consumido cru, já que o cozimento tende a eliminar os insetos. Ainda assim, especialistas alertam que confiar apenas no cozimento não é a melhor estratégia. Sinais mais graves de deterioração do produto precisam ser observados antes de qualquer decisão de aproveitamento.

    Grãos empelotados, cheiro alterado e presença de teias indicam que o alimento deve ser descartado, independentemente de qualquer outra consideração. Nesses casos, o risco não está apenas nos insetos, mas no estado geral do produto, que pode ter sofrido contaminação por fungos ou bactérias associadas à infestação prolongada.

    Como evitar o caruncho em casa de forma simples e eficaz

    A boa notícia é que prevenir a infestação doméstica não exige grandes investimentos. Medidas simples de armazenamento reduzem drasticamente o risco de proliferação e protegem toda a despensa. Especialistas recomendam armazenar grãos em recipientes bem fechados, de preferência de vidro, evitar ambientes quentes e úmidos, não misturar alimentos novos com antigos e, quando possível, manter grãos no congelador por um período após a compra.

    Esse último ponto merece atenção especial. Colocar o pacote recém-comprado no freezer por alguns dias elimina eventuais ovos ou larvas que possam ter chegado junto com o produto, interrompendo o ciclo de reprodução antes mesmo que ele comece na despensa de casa.

    Além disso, vale inspecionar embalagens antes de comprar, evitar produtos com sinais de dano na embalagem e preferir compras em locais com bom giro de estoque. No campo e nas propriedades rurais, o controle é ainda mais relevante: a indústria utiliza técnicas como expurgo com gás para eliminar insetos, controle de temperatura e uso de atmosferas modificadas, mas isso não garante ausência total do caruncho no produto final.

  • Borboleta ferida ganha prótese de asa feita com pétalas de orquídea

    Borboleta ferida ganha prótese de asa feita com pétalas de orquídea

    Tinha tudo para ser só mais um inseto morto à beira do caminho. Mas quando Morhaf Ghazi, de 30 anos, encontrou uma borboleta ferida durante uma trilha em Amã, na Jordânia, ele não passou por ela como se nada fosse. Levou o inseto para casa, cuidou por dias e, no fim, fez algo que parece saído de um conto: criou uma prótese de asa para borboleta usando pétalas de orquídea que estavam preservadas dentro de um livro há quase nove anos.

    Sim, nove anos guardadas em um livro. E foram exatamente essas pétalas que deram uma segunda chance de vida à borboleta.

    A trilha que virou resgate

    Morhaf percebeu que havia algo errado logo de cara. A borboleta estava no chão e não conseguia voar. Ao examinar com atenção, ele viu o problema: a asa direita estava muito amassada, comprometida a ponto de impedir qualquer movimento no ar.

    Ele levou o inseto para casa com cuidado e começou um processo de recuperação improvisado, mas cheio de atenção. “Durante alguns dias, eu a alimentei com água com açúcar. Ela ficou em um buquê de flores onde coloquei gotinhas para ela beber”, contou Morhaf ao New York Post. Por dias, a borboleta virou hóspede da casa, sendo alimentada e observada de perto enquanto ele pensava no próximo passo.

    Pétalas de orquídea e uma hora de cirurgia artesanal

    Foi aí que a ideia surgiu. Morhaf tinha pétalas de orquídea rosa preservadas dentro de um livro desde 2017, quase uma década guardadas sem uso aparente. Ele traçou cuidadosamente o formato da asa saudável da borboleta e usou as pétalas como material para construir uma substituta à mão.

    Antes de colocar a prótese, ele pesquisou como manusear borboletas com segurança. O que descobriu deu coragem para avançar: borboletas não sentem dor nas asas, apenas pressão. Com esse dado em mente, ele removeu a asa danificada e fixou a nova. “Todo o processo levou cerca de uma hora, sem contar os dias que passei cuidando dela antes”, explicou.

    No mundo da lepidopterologia, a asa das borboletas é formada por escamas de quitina extremamente finas, o que torna qualquer intervenção delicada e arriscada. Morhaf não tinha formação em biologia, mas agiu com paciência e precisão acima da média.

    Ela voltou a voar

    Depois da intervenção, a borboleta começou a se movimentar melhor. Gradualmente, voltou a usar as asas, e o que parecia impossível se tornou real: ela voou de novo. Morhaf registrou o momento em vídeo, que rapidamente viralizou nas redes sociais e chamou atenção de pessoas ao redor do mundo.

    No entanto, a história levanta uma reflexão além do encantamento: o quanto estamos dispostos a pausar, observar e agir quando um ser vivo ao nosso redor precisa de ajuda? Morhaf não era veterinário, não tinha equipamento especializado e não tinha nenhuma obrigação. Tinha só atenção.

  • Biossensor facilita busca por produtos naturais para controle de pragas

    Biossensor facilita busca por produtos naturais para controle de pragas

    Uma pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) criou um biossensor capaz de detectar rapidamente, em extratos de plantas, inibidores da enzima acetilcolinesterase (AChE), vital para o sistema nervoso dos insetos e, assim, um alvo estratégico para controle de insetos-pragas. A ferramenta, de baixo custo e fácil aplicação, pode levar ao desenvolvimento de novos biopesticidas.

    Financiado pela FAPESP (14/50918-7 e 12/25299-6), o estudo que resultou no biossensor eletroquímico baseado na enzima AChE é fruto de uma parceria entre o Laboratório de Produtos Naturais e o Laboratório de Bioanalítica e Eletroanalítica e foi conduzido por Sean dos Santos Araújo, pesquisador da UFSCar.

    O trabalho foi publicado no periódico Analytical Methods.

    O dispositivo utiliza um eletrodo de carbono impresso, modificado com nanopartículas de ouro cobertas por glutationa, criando uma superfície ideal para fixar a acetilcolinesterase. Um dos principais desafios enfrentados na pesquisa foi alcançar as condições ideais para a manutenção da atividade biológica da enzima e sua correta interação com o sensor.

    “A imobilização do componente biológico é uma etapa fundamental para garantir a estabilidade da enzima e a precisão nas medições”, explica Araújo à Assessoria de Imprensa da UFSCar. Para isso, a equipe modificou a superfície do sensor com as nanopartículas de ouro, o que estabilizou a AChE e intensificou a resposta eletroquímica. “O protocolo que desenvolvemos funcionou com eficácia e precisão. Permitindo as leituras da atividade da AChE e, depois, a realização de bioensaios com extratos vegetais”, complementa o pesquisador.

    Uma das grandes vantagens dos biossensores eletroquímicos é o seu baixo custo. Especialmente quando comparado a métodos tradicionais, como a cromatografia de bioafinidade, mais caros e complexos.

    O biossensor foi testado primeiro com azadiractina, um inibidor natural conhecido de AChE, extraído da planta Azadirachta indica. A partir dos resultados positivos obtidos, que validaram a capacidade de o sensor detectar com precisão a inibição da enzima, testes foram conduzidos com outros extratos vegetais, das plantas Picramnia riedelli, P. ciliata e Toona ciliata. Os resultados indicaram taxas de inibição entre 41% e 55% e, assim, o grande potencial dessas plantas para a criação de biopesticidas.

    Na pesquisa, também foi possível identificar compostos específicos responsáveis pela inibição da acetilcolinesterase.

    Agência FAPESP

  • O truque de marketing que pode colocar insetos no seu prato

    O truque de marketing que pode colocar insetos no seu prato

    Uma pesquisa inovadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos demonstra que a combinação certa de informações pode transformar a resistência em interesse quando o assunto são alimentos à base de insetos.

    A maioria dos produtos à base de insetos (cerca de 51%) no mercado global são, predominantemente, snacks como, por exemplo, biscoitos. Na foto, biscoito à base de farinha de inseto. Foto: Kadijah Suleiman/Embrapa

    O estudo, publicado no Journal of Sensory Studies, identificou fatores-chave que reduzem a neofobia alimentar, que é o medo de experimentar alimentos desconhecidos, E impulsionam a intenção de compra desses produtos sustentáveis.

    Segundo relatório da OCDE e FAO, o consumo atual de carne preocupa órgãos governamentais devido ao impacto ambiental e à degradação do planeta. Diante desse cenário, fontes alternativas de proteína, como insetos, surgem como solução sustentável para substituir fontes convencionais de carne.

    “A escolha por biscoitos levou em consideração que esse tipo de alimento é familiar no Brasil e diversos autores relatam a familiaridade como fator que impulsiona não apenas a aceitação, mas também a disposição para experimentar produtos à base de insetos”, explica a pesquisadora Rosires Deliza, da Embrapa.

    Biscoitos de insetos: porta de entrada para o mercado brasileiro

    A pesquisa realizou dois estudos, incluindo degustação de biscoitos feitos com farinha de insetos em supermercado carioca. A escolha não foi aleatória: dados do IBGE mostram que o brasileiro consome diariamente 3,7 gramas de biscoitos doces e 6,8 gramas de salgados per capita. Globalmente, 51% dos produtos à base de insetos são snacks, categoria que apresenta maior potencial de mercado.

    Pesquisadora Rosires Deliza no Laboratório de Análise Sensorial da Embrapa Agroindústria de Alimentos. Foto: Kadijah Suleiman/Embrapa

    O primeiro estudo comprovou que mensagens com estímulos combinadas a imagens do produto aumentam significativamente a intenção de compra. “Esse enquadramento fornece não apenas conteúdo informativo, mas também segurança visual, ajudando consumidores a formar percepções mais positivas”, destaca a pesquisa.

    O segundo estudo foi além: investigou se benefícios hedônicos (prazer sensorial) ou de saúde reduziriam o impacto da neofobia. Os resultados foram claros.

    “Consumidores expostos às informações relacionadas à saúde não apenas demonstraram maior intenção de comprar os biscoitos, mas também os notaram como mais sustentáveis”, revela Karen Romano, doutoranda da UFRRJ e coautora do estudo.

    Segurança e controle: insetos criados para consumo humano

    Rosires Deliza esclarece que os insetos são criados especificamente para alimentação, de forma higiênica e com rigoroso controle microbiológico, sem expor consumidores a riscos. As informações da pesquisa podem subsidiar o Ministério da Agricultura na elaboração de legislação sobre consumo de alimentos à base de insetos no Brasil.

    Teste sensorial realizado em supermercado no Rio de Janeiro. Foto: Ivan Alcântara/Embrapa

    A pesquisa oferece insights valiosos para diferentes setores:

    Marketing e desenvolvimento de produtos: destacar benefícios à saúde aumenta a intenção de compra, sugerindo equilíbrio nas mensagens para atrair público amplo, especialmente consumidores preocupados com saúde. Campanhas educativas e degustações facilitam a familiarização. Enfatizar benefícios ambientais nas embalagens atrai consumidores ecologicamente conscientes.

    Políticas públicas: órgãos reguladores podem apoiar a produção com diretrizes confiáveis para processamento, rotulagem e marketing, aumentando a confiança do consumidor. Incentivos para pesquisa e desenvolvimento podem impulsionar inovação, tornando esses alimentos mais atraentes e acessíveis.

    Futuro sustentável da alimentação

    Os estudos sugerem que superar a resistência inicial por meio de estratégias de marketing direcionadas, educação e apoio político pode ampliar significativamente a aceitação de alimentos à base de insetos. Com o crescimento populacional global e a urgência da sustentabilidade, esses produtos representam solução viável para segurança alimentar e desafios ambientais – desde que percepções e preferências dos consumidores sejam adequadamente gerenciadas.

    O artigo “Sustainable Bites: can health goal framing and perceived sustainability reduce the impact of food neophobia on the intention to purchase insect-based products?” está disponível no Journal of Sensory Studies.

  • Comida do futuro: conheça a maior fazenda de insetos do mundo

    Comida do futuro: conheça a maior fazenda de insetos do mundo

    A Innovafeed mantém em Nesle, no norte da França, a maior fazenda de insetos do mundo. Ela produz cerca de 15 mil toneladas de proteína por ano em uma estrutura de 35 mil metros quadrados. A operação processa cerca de 10 bilhões de larvas da mosca-soldado-negra que transformam resíduos agroindustriais em proteína para ração animal, óleo e fertilizante.

    O modelo ataca duas questões críticas do agronegócio contemporâneo: reduz desperdício de alimentos e diminui a dependência de ingredientes convencionais como soja e farinha de peixe.

    A Innovafeed alimenta as larvas de Hermetia illucens com resíduos orgânicos de plantas, transformando um potencial problema de resíduos em uma fonte de proteína de alto valor. O processo biológico impressiona: em 14 dias, cada larva cresce até 10.000 vezes seu tamanho inicial.

    A empresa adota uma abordagem de desperdício zero, onde todas as partes do inseto geram produtos comerciais: óleo de inseto para nutrição de aves e suínos, proteína para aquicultura e excrementos como fertilizante orgânico.

    Os três principais produtos seguem destinos específicos no mercado:

    • Proteína em pó: fabricantes incorporam o ingrediente em rações para gado, peixes e animais de estimação
    • Óleo de inseto: indústrias aplicam o produto em formulações especializadas de ração
    • Fertilizante orgânico: agricultores devolvem o material ao campo, fechando o ciclo da economia circular

    Mercado bilionário atrai investimentos de gigantes do setor

    Desde 2020, startups do setor de proteína de insetos receberam aproximadamente US$ 1,3 bilhão em investimentos, com US$ 500 milhões captados apenas em 2022. A Innovafeed lidera a corrida de investimentos com US$ 479 milhões captados, seguida pela Ynsect com US$ 417 milhões e a Protix com US$ 126 milhões.

    Gigantes do agronegócio como ADM, Cargill e Tyson Foods firmaram parcerias estratégicas com essas startups. E anunciaram planos para construir grandes fazendas de insetos nos Estados Unidos. Christine Johanna Picard, professora de biologia na Universidade de Indiana, afirma que o mercado de ingredientes para insetos está crescendo a uma velocidade exponencial. Com cada vez mais startups entrando no setor devido à alta demanda por proteínas alternativas.

    Vantagens ambientais superam proteínas convencionais

    A produção de soja provoca desmatamento no Cerrado e na Amazônia, enquanto a farinha de peixe depende de pesca predatória que compromete ecossistemas marinhos. Os insetos oferecem alternativa com menor impacto ambiental.

    A Ynsect, concorrente francesa da Innovafeed, demonstra que um quilo de proteína de larva da farinha consome 40 vezes menos água do que um quilo de carne de porco. Dados da FAO indicam que são necessários 1,7 quilo de ração para produzir 1 quilo de insetos comestíveis. Enquanto 1 quilo de carne bovina demanda 10 quilos de ração.

    A Protix destaca que os insetos transformam resíduos alimentares de baixa qualidade em proteínas e gorduras valiosas de alta qualidade. O processo também gera emissões reduzidas de gases de efeito estufa e utiliza recursos de forma mais eficiente.

    Setor enfrenta obstáculos para alcançar viabilidade econômica

    Apesar do potencial, algumas das principais empresas do setor enfrentam dificuldades financeiras para escalar suas operações e apresentar resultados positivos. A Ynsect construiu em Amiens a maior planta do gênero no mundo com 45 mil metros quadrados e capacidade para produzir 100 mil toneladas. E recorreu em setembro de 2024 ao regime de salvaguardas na justiça francesa.

    A empresa reportou receita de apenas € 5,8 milhões em 2023, enquanto acumulou passivos de aproximadamente € 104 milhões. Outra startup francesa, a Agronutris, também apresentou plano de salvaguarda após o ambiente de financiamento mudar significativamente.

    Jeffrey Tomberlin, professor e entomologista da Texas A&M University, estima que levará cerca de cinco anos para que a proteína dos insetos seja competitiva em relação às fontes tradicionais de ração animal. Custos tecnológicos elevados, marcos regulatórios lentos e resistência dos compradores tradicionais dificultam a expansão.

    Projeções indicam crescimento acelerado até 2030

    Um relatório de 2021 do Rabobank projeta que a demanda de proteínas de insetos, principalmente como ração animal e ingrediente de alimentos para animais de estimação, poderá atingir meio milhão de toneladas métricas até 2030, acima do mercado atual de aproximadamente 10 mil toneladas métricas.

    O mercado global de proteínas de insetos deve crescer de US$ 189,32 milhões em 2022 para US$ 856,08 milhões até 2029. Exibindo um CAGR de 24,1% no período de previsão. Especificamente para alimentos de animais de estimação, o mercado deve expandir de US$ 0,12 bilhão em 2025 para US$ 0,27 bilhão em 2034, crescendo a um CAGR de 9,5%.

    Expansão global ganha impulso com novas instalações

    A parceria entre ADM e Innovafeed planejava construir em Decatur, Illinois, o que seria a maior fábrica de proteína de inseto do mundo. A própria Innovafeed deve inaugurar novas instalações até 2025, enquanto a startup Protix também planeja abrir sua nova fazenda no mesmo período.

    Maye Walraven, gerente geral da Innovafeed nos EUA, afirmou que “os desafios que nossos colegas franceses estão enfrentando para passar da fase experimental para operações em escala industrial nós superamos alguns anos atrás”. Acrescentando que “o setor como um todo está fazendo um progresso sólido com volumes maiores sendo produzidos e 100% desses volumes sendo absorvidos pelo mercado”.

    Futuro da proteína alternativa depende de dois fatores críticos

    Analistas apontam que a aprovação regulatória em massa e a adoção pelos formuladores de ração tradicionais determinarão se a proteína de insetos deixará de ser aposta futurista para se tornar ferramenta concreta contra pressões ambientais das proteínas convencionais.

    A Embrapa e parceiros nacionais e internacionais exploram o potencial de espécies como a mosca-soldado-negra, o besouro-tenébrio e o grilo-preto como componentes de rações para aves e peixes. Portanto, demonstrando que é possível substituir gradualmente as rações convencionais por uma dieta equilibrada com insetos, com substanciais benefícios econômicos e ambientais.

    O modelo proposto pela Innovafeed e concorrentes pode reposicionar insetos e larvas como elo central de um sistema alimentar menos destrutivo e mais eficiente, desde que superem as barreiras econômicas e regulatórias atuais.

  • Nova ameaça aos pomares do Brasil é detectada

    Nova ameaça aos pomares do Brasil é detectada

    O Submédio do Vale do São Francisco, principal polo de produção de frutas tropicais do Brasil, registrou pela primeira vez a presença de seis espécies de cochonilhas-de-escama. Essas pragas, conhecidas pelo potencial de causar sérios danos às culturas agrícolas, representam uma ameaça para pomares de manga e uva, onde foram encontradas. Em casos extremos, a infestação pode levar à morte das plantas.

    Tiago Cardoso da Costa Lima, pesquisador da Embrapa Semiárido, sublinha a importância da identificação precisa das espécies para um manejo eficiente. “Com a identificação correta, é possível entender melhor a biologia do inseto e aplicar as medidas de controle apropriadas”, afirmou. Ele destacou que a Embrapa vem desenvolvendo estudos contínuos para apoiar os produtores no monitoramento dessas pragas e evitar impactos significativos na produção.

    As cochonilhas, além de causarem a despigmentação dos frutos, continuam presas às superfícies mesmo após a morte, comprometendo a aparência dos produtos e sua comercialização. Lima enfatiza que o monitoramento é fundamental durante a fase vegetativa das plantas para evitar a propagação e a migração das pragas para os frutos. O crescimento da presença dessas espécies em 2022 já havia sido um alerta para pesquisadores, apontando a necessidade de uma vigilância mais rigorosa por parte dos agricultores.

    Com a detecção dessas seis novas espécies, fica clara a urgência de adotar práticas de manejo integrado que protejam a qualidade e a viabilidade das safras na região. O trabalho da Embrapa e de outras instituições de pesquisa continua a ser essencial para enfrentar os desafios impostos pelas pragas e garantir a sustentabilidade da fruticultura no Vale do São Francisco.

    Infestação de cochonilhas afeta produtores de manga e uva no Brasil

    Os primeiros relatos de infestação por cochonilhas surgiram entre 2021 e 2022, quando produtores de manga informaram à Embrapa sobre danos significativos em folhas e frutos. Em 2023, os produtores de uva também relataram a presença dessas pragas, que atacaram os troncos das videiras, levando à morte das plantas.

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    Em resposta a esses problemas, a Embrapa Semiárido realizou um levantamento em diversas fazendas nos municípios de Petrolina (PE), Belém do São Francisco (PE) e Curaçá (BA) para coletar amostras dos insetos. O Centro Estadual de Pesquisa Agronômica (Ceagro) do Rio Grande do Sul recebeu as amostras, identificadas pela taxonomista Vera Wolff. O estudo foi detalhado e publicado no International Journal of Tropical Insect Science.

    Espécies identificadas

    Nas videiras, duas espécies de cochonilhas foram identificadas. A primeira é a Melanaspis arnaldoi, que ataca os troncos da planta e é restrita ao Brasil, com registros anteriores nas regiões Sudeste e Sul. Essa praga aumenta os custos de manejo, pois os produtores têm adotado a prática de retirada da casca dos troncos antes de realizar as pulverizações.

    A segunda espécie identificada foi a Aonidiella orientalis, que infesta folhas, pecíolos, entrenós e bagas. Esta espécie é amplamente distribuída globalmente e possui uma vasta gama de plantas hospedeiras, sendo conhecida como praga de citros, mamão e manga.

    Quatro novas espécies de cochonilhas foram identificadas entre as mangueiras na região: Mycetaspis personata, Aonidiella comperei, Chrysomphalus aonidum e Hemiberlesia lataniae. As três primeiras apareceram em folhas e frutos, enquanto a Hemiberlesia lataniae surgiu apenas em folhas. A Aonidiella comperei se destaca por ser a única espécie que ainda não havia sido registrada em cultivos de manga em qualquer país.

    Características das cochonilhas-de-escala

    As cochonilhas-de-escala, pertencentes à família Diaspididae, são insetos sugadores que se fixam nas plantas após a fase inicial de desenvolvimento. Elas desenvolvem um escudo protetor sobre o corpo, o que dificulta o controle com inseticidas e garante maior proteção contra predadores naturais. A presença desse escudo também abriga os ovos até a eclosão das novas ninfas.

    Segundo Vera Wolff, esses insetos podem causar sérios danos às plantas, sugando seiva e provocando deformações nos frutos. “Quando estão em grande população, eles precisam ser controlados”, destaca a taxonomista.

    Os insetos identificados são encaminhados ao Museu de Entomologia Professor Ramiro Gomes Costa para compor um banco de dados sobre cochonilhas no Brasil, contribuindo para o conhecimento da biodiversidade nacional.

    Novas espécies registradas

    A Embrapa Semiárido, junto com instituições parceiras, registrou em 2022 novas espécies de cochonilhas em mangueiras no Submédio do Vale do São Francisco, que não tinham sido relatadas anteriormente: Pseudischnaspis bowreyi (cochonilha-de-escama) e as cochonilhas-de-cera Ceroplastes floridensis e Ceroplastes stellifer. Esses achados reforçam a crescente importância desse grupo de insetos na região.

    O pesquisador Tiago Costa Lima enfatiza que esses registros demonstram a necessidade urgente de desenvolver melhores estratégias para o controle dessas pragas.