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  • Brasil perde quase 23% da safra de milho por ano por causa de uma única praga

    Brasil perde quase 23% da safra de milho por ano por causa de uma única praga

    Um inseto de menos de cinco milímetros custou ao Brasil US$ 25,8 bilhões em quatro anos. A cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), vetor das doenças conhecidas como enfezamentos, retirou uma média de 22,7% da safra nacional de milho a cada ano entre 2020 e 2024, gerando um prejuízo anual estimado em US$ 6,5 bilhões. Os números são de um estudo inédito publicado na revista científica internacional Crop Protection, conduzido pela Embrapa Cerrados, pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

    A cigarrinha-do-milho . Foto: Charles Oliveira/Embrapa

    Ao longo das quatro safras avaliadas, cerca de 2 bilhões de sacas de 60 quilos deixaram de chegar ao mercado. “Os resultados indicam que os enfezamentos do milho levaram a uma perda média de 31,8 milhões de toneladas por ano”, afirma Charles Oliveira, pesquisador da Embrapa Cerrados e autor principal do estudo.

    Radiografia dos prejuízos

    Os pesquisadores combinaram dados históricos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), com séries de produtividade, produção e área plantada desde 1976, com informações de campo do projeto Campo Futuro, iniciativa da CNA e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). Técnicos e produtores rurais de 34 municípios representativos das principais regiões produtoras do País participaram dos levantamentos e, por consenso técnico, estimaram as perdas associadas à praga em cada município e safra.

    A safra 2020/2021 registrou o impacto mais severo: queda de 28,9% na produção. Na safra 2023/2024, o índice recuou para 16,7%, mas outro indicador preocupa. O gasto com inseticidas para controle da cigarrinha subiu 19% no período, superando US$ 9 por hectare e elevando significativamente o custo de produção.

    Em cerca de 80% das localidades avaliadas, produtores e especialistas apontaram a cigarrinha ou os enfezamentos como fator central para a queda de produtividade. “Esse histórico permitiu gerar uma estimativa econômica consistente e com abrangência nacional”, destaca Larissa Mouro, coordenadora do Campo Futuro.

    A ameaça que cresceu nas últimas décadas

    O Brasil ocupa a terceira posição entre os maiores produtores mundiais de milho e figura entre os principais exportadores globais. A estimativa da Conab para a safra 2025/2026 é de 138,4 milhões de toneladas, com valor de produção em torno de US$ 30 bilhões, tudo isso sob ameaça constante de uma praga sem tratamento preventivo disponível.

    Os dois tipos de enfezamentos transmitidos pela cigarrinha, o pálido (Spiroplasma kunkelii) e o vermelho (“Candidatus” Phytoplasma asteris), representam hoje o maior risco fitossanitário à produção brasileira do grão. O inseto ainda transmite os vírus do mosaico-estriado e da risca do milho. Em lavouras cultivadas com híbridos suscetíveis, a doença pode provocar perda total da produção.

    Embora os pesquisadores conheçam os patógenos desde os anos 1970, os surtos epidêmicos se tornaram frequentes apenas a partir de 2015. “Mudanças no sistema de produção ocorridas nas últimas décadas, como a expansão da safrinha e o cultivo de milho durante quase todo o ano, criaram um cenário favorável para a sobrevivência da cigarrinha e dos microrganismos”, explica Oliveira.

    Para Tiago Pereira, assessor técnico da CNA, a dimensão do problema mudou de patamar. “Estamos falando de perdas que impactam diretamente a renda do produtor, a estabilidade produtiva e a competitividade do País. O diferencial desse estudo é transformar essa percepção recorrente em números, com base científica.”

    Como a produção cresceu e o problema também

    A série histórica do milho brasileiro mostra uma trajetória de expansão expressiva. Entre 1976/1977 e 2011/2012, a área plantada oscilou entre 10 e 14 milhões de hectares, com produtividade frequentemente abaixo de três toneladas por hectare. A partir de 1999/2000, a adoção da segunda safra e de culturas geneticamente modificadas impulsionou uma virada: a produtividade ultrapassou cinco toneladas por hectare e a produção chegou a 84 milhões de toneladas até 2014/2015.

    O pico da área plantada, 22,3 milhões de hectares, aconteceu na safra 2022/2023. Mas esse mesmo modelo de produção contínua criou as condições ideais para a proliferação da cigarrinha. “Se, por um lado, a tecnologia impulsionou a produção, por outro, o surgimento dos surtos de enfezamentos a partir de 2014/2015 causou declínios severos na produtividade nacional”, resume Oliveira.

    O que os produtores podem fazer

    Diante da inexistência de tratamento preventivo, os pesquisadores recomendam um conjunto de práticas integradas de manejo:

    • Eliminar o milho tiguera (plantas voluntárias que brotam na entressafra): a medida quebra o ciclo de vida do vetor e do patógeno.
    • Sincronizar o plantio entre propriedades vizinhas reduz as janelas que favorecem a dispersão da cigarrinha.
    • Adotar cultivares resistentes ou tolerantes mantém a produtividade mesmo sob pressão das doenças.
    • Aplicar controle químico e biológico nos estádios iniciais da planta (até V8) previne infecções mais graves.
    • E monitorar de forma coordenada entre produtores vizinhos é indispensável para detectar surtos precocemente.

    O controle biológico com fungos entomopatogênicos ganha relevância crescente. Algumas populações de cigarrinha já apresentam resistência a certos grupos de inseticidas, tornando o manejo exclusivamente químico insuficiente.

    Impacto que vai além da porteira

    Os efeitos dos enfezamentos chegam à mesa do consumidor. Como o milho é matéria-prima essencial para a produção de proteína animal, aves, suínos e leite, e para biocombustíveis, quebras de safra pressionam preços e afetam a balança comercial brasileira.

    Para a pesquisadora da Epagri, Maria Cristina Canale, quantificar essas perdas é o primeiro passo para políticas mais efetivas. “Com informações sobre perdas agrícolas do milho causadas por doenças, é possível orientar a destinação de recursos financeiros, o setor de seguro agrícola, as janelas de plantio e as estratégias para mitigar danos, e ainda avaliar a eficácia das práticas adotadas pelo setor produtivo.”

  • Descoberta de nova praga pode revolucionar controle em canaviais

    Descoberta de nova praga pode revolucionar controle em canaviais

    Uma descoberta científica promete explicar por que produtores de cana-de-açúcar enfrentavam dificuldades no controle de pragas mesmo com o uso de inseticidas eficazes. Pesquisadores brasileiros identificaram uma nova espécie de cigarrinha-da-cana, a Mahanarva diakantha, que especialistas confundiam com outras espécies desde a década de 1960.

    A identificação começou em 2015, quando o professor Gervásio Silva Carvalho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), recebeu exemplares de cigarrinhas-da-cana de diferentes plantações do Sul e Sudeste. Os produtores relatavam que um inseticida amplamente utilizado não produzia os resultados esperados no combate à praga.

    Carvalho analisou as características físicas dos insetos enquanto, paralelamente, o professor Diogo Cavalcanti Cabral-de-Mello, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp) em Rio Claro, recebia exemplares similares para análise genética. Nenhum dos pesquisadores sabia do trabalho do outro.

    “Especialista em citogenética e genômica, Cabral-de-Mello identificou diferenças que sugeriam uma nova espécie, mas precisava das evidências morfológicas para confirmar a descoberta”, explica Andressa Paladini, primeira autora do estudo e atualmente professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

    Parceria revela espécie escondida por décadas

    Quando os cientistas descobriram que trabalhavam no mesmo problema, uniram esforços e ampliaram a análise para exemplares de grande parte do Brasil. A FAPESP apoiou o estudo, que os pesquisadores publicaram no Bulletin of Entomological Research.

    A equipe isolou uma sequência específica do DNA mitocondrial, conhecida pela sigla COI (citocromo C oxidase), que varia entre espécies e permite diferenciá-las. No entanto, a diferença era mínima.

    “Não poderíamos descrever a nova espécie apenas com a evidência genética, pois a diferença era muito pequena. Precisávamos da confirmação morfológica”, afirma Cabral-de-Mello.

    Os pesquisadores descobriram que apenas os machos apresentam uma característica distintiva visível: a extremidade bifurcada de parte da genitália. Essa peculiaridade inspirou o nome científico M. diakantha, que significa “dois espinhos” em grego.

    Espécie críptica desafia identificação visual

    A nova espécie é impossível de diferenciar a olho nu da Mahanarva fimbriolata e da Mahanarva spectabilis, suas parentes mais próximas. As três espécies compartilham áreas de ocorrência no Sul e Sudeste do Brasil, o que complica ainda mais a identificação.

    Para eliminar dúvidas, os cientistas aplicaram um terceiro método de diferenciação: a morfometria geométrica. A técnica compara a forma das asas posteriores das três espécies e revelou diferenças estatísticas significativas entre elas.

    “Tudo indica que as espécies se diferenciaram recentemente. As análises genéticas e morfológicas evidenciam isso claramente”, destaca Cabral-de-Mello.

    A identificação da M. diakantha torna necessária a reavaliação de estudos científicos anteriores sobre cigarrinhas-da-cana. Ao examinarem coleções biológicas, os pesquisadores encontraram exemplares da nova espécie coletados há décadas, mas identificados erroneamente como outras espécies. Um deles data de 1961 e trazia a identificação de M. fimbriolata.

    “Esse gênero de cigarrinha-da-cana tem espécies muito parecidas entre si, que chamamos de crípticas. Após dissecar os insetos, vimos que alguns tinham a genitália do macho diferente, o que indicava uma nova espécie”, relata Paladini, que realizava pós-doutorado sob supervisão de Carvalho na PUC-RS quando iniciou a pesquisa.

    Próximos passos incluem mapeamento e estratégias de controle

    Os pesquisadores planejam aumentar a amostragem para verificar com mais precisão a distribuição da nova espécie no país e seu impacto nas lavouras. Outra prioridade é compreender melhor a diversidade genética da M. diakantha, conhecimento fundamental para desenvolver estratégias de manejo mais eficazes.

    A descoberta pode explicar por que alguns inseticidas não funcionavam conforme esperado: a nova espécie possivelmente apresenta maior resistência aos produtos mais utilizados. Além disso, ela pode ter um ciclo de vida diferente e outras interações com o ambiente e hospedeiros, informações essenciais para o controle adequado e para aumentar a produtividade da cana-de-açúcar.

    “Agora que descrevemos a nova espécie, abrimos uma gama de novas possibilidades de pesquisa e aplicação prática”, conclui Paladini.

    A FAPESP apoiou o estudo por meio de dois projetos coordenados por Cabral-de-Mello: “Investigando a evolução de DNAs satélites em cromossomos holocêntricos de insetos-praga” e “Estrutura e evolução de DNAs repetitivos em espécies de Lepidoptera e sua relação com diversificação cariotípica e dos cromossomos sexuais”.