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  • Castanha-da-amazônia: indígenas são remunerados por cuidar da floresta

    Castanha-da-amazônia: indígenas são remunerados por cuidar da floresta

    A castanha-da-amazônia produzida por povos indígenas da Terra Indígena Rio Branco, em Rondônia, ganhou um diferencial inédito na safra 2025/2026: pela primeira vez, a produção recebeu pagamento por serviços ambientais (PSA). A remuneração adicional reconhece o papel das comunidades na conservação da floresta, na proteção da biodiversidade e na manutenção dos ecossistemas locais.

    Castanha da amazonia
    Foto: Joze Medeiros/Embrapa

    A iniciativa nasceu de uma parceria entre a empresa Castanhas Ouro Verde Importação e Exportação Ltda. e a Cooperativa dos Povos Indígenas do Rio Branco (Coopirb). O acordo se desenvolveu dentro do projeto “Novas soluções tecnológicas e ferramentas para agregação de valor à cadeia produtiva da castanha-da-amazônia” (NewCast), coordenado pela Embrapa.

    A pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e coordenadora do NewCast, Patrícia da Costa, explica que o projeto desenvolve e articula soluções tecnológicas para agregar valor à cadeia produtiva da castanha. Segundo ela, a experiência mostra que a integração entre tecnologia, organização social e mecanismos de valorização econômica fortalece as organizações locais e reconhece os serviços ambientais prestados pelas comunidades que conservam a floresta.

    A União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes) também apoiou as negociações com a empresa compradora. O que fortaleceu o diálogo comercial e a representação da cooperativa indígena no processo.

    Boas práticas elevam a qualidade e reduzem perdas na produção

    A adoção da tecnologia de Boas Práticas para produção de castanha-da-amazônia, desenvolvida pela Embrapa, contribuiu diretamente para a qualidade do produto comercializado. As orientações abrangem desde a coleta até o transporte, a lavagem, a seleção, a pré-secagem e o armazenamento das castanhas, o que reduz perdas e evita contaminações.

    O extrativista indígena Dalton Tupari destaca que essas práticas foram decisivas para a valorização da produção e para a negociação com a empresa compradora. Segundo ele, as recomendações orientam todo o processo, da coleta até a entrega. E agregam qualidade a um produto que já carrega a vantagem de estar associado à conservação da floresta.

    Na safra atual, a Coopirb comercializou cerca de sete toneladas de castanha-da-amazônia com pagamento adicional vinculado ao PSA. Para Tupari, o retorno econômico reforça a importância do trabalho das comunidades indígenas, que coletam e preservam a natureza e agora recebem valor diferenciado por isso. Uma prova de que conservar a floresta também gera renda para as famílias.

    Pesquisa, mercado e conhecimento tradicional se encontram na Amazônia

    A pesquisadora da Embrapa Rondônia Lúcia Wadt avalia que o resultado evidencia a importância de unir pesquisa, conhecimento tradicional, organização social e mercado. Ela lembra que a Embrapa apoia os povos Tupari e Aruá da Terra Indígena Rio Branco desde 2015 com a tecnologia de Boas Práticas, primeiro por meio do Pacto das Águas e, mais recentemente, do NewCast. Na safra 2025/2026, essas ações resultaram na valorização do produto pela qualidade e pelo serviço ambiental prestado pelas comunidades.

    Produtores são orientados quanto a cuidados desde a coleta até o transporte, lavagem, seleção, pré-secagem e armazenamento das castanhas. Foto: Lucia Wadt/Embrapa

    O contrato entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb abrange comunidades indígenas de diferentes etnias em uma área de aproximadamente 236 mil hectares. Além do valor comercial da castanha, o acordo prevê pagamento adicional de 20% destinado à organização indígena, como reconhecimento pelos serviços ambientais prestados.

    A cooperativa gerencia os recursos de forma coletiva, com aplicação em ações comunitárias como infraestrutura, saúde, educação, fortalecimento cultural e melhoria das condições de produção. Esse modelo mantém parte do valor gerado pela cadeia produtiva dentro dos territórios indígenas, beneficiando diretamente as famílias extrativistas.

    Cooperativismo amplia o acesso das comunidades ao mercado

    A experiência reforça o papel estratégico das cooperativas na organização da produção e na ampliação do acesso a mercados. A atuação coletiva da Coopirb permite reunir a produção das comunidades, padronizar procedimentos, fortalecer a gestão comercial e ampliar a capacidade de negociação.

    Os resultados demonstram a importância da integração entre pesquisa, conhecimento tradicional, organização social e mercado. Foto: Joze Medeiros/Embrapa

    A iniciativa também demonstra a relevância de compradores comprometidos com práticas sustentáveis e com a valorização da origem dos produtos florestais. Ao reconhecer a qualidade da castanha produzida com boas práticas e remunerar os serviços ambientais ligados à conservação, a Castanhas Ouro Verde ajuda a consolidar um modelo de comercialização que une atividade econômica, inclusão produtiva e conservação ambiental.

    NewCast projeta um novo horizonte para a cadeia da castanha

    O projeto NewCast articula soluções tecnológicas, organizacionais e comerciais para agregar valor à cadeia produtiva da castanha-da-amazônia. A experiência na Terra Indígena Rio Branco mostra que a combinação entre tecnologia, organização social, cooperativismo, mercado estruturado e pagamento por serviços ambientais pode ampliar a renda das comunidades. Além de reduzir perdas, melhorar a qualidade do produto e valorizar os territórios indígenas da Amazônia.

    Válido para a safra 2025/2026, o acordo entre a Castanhas Ouro Verde e a Coopirb representa um avanço concreto na construção de modelos de negócios sustentáveis para produtos da sociobiodiversidade. Mais do que comercializar castanha, a iniciativa reconhece o papel dos povos indígenas na conservação da floresta. E mostra que produzir com qualidade e preservar a Amazônia podem caminhar juntos.

  • Como o manejo do pirarucu virou fonte de renda e esperança na Amazônia

    Como o manejo do pirarucu virou fonte de renda e esperança na Amazônia

    Comunidades indígenas, pescadores artesanais e povos tradicionais da Amazônia poderão receber pagamento do governo federal pelo trabalho de conservação do pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do mundo e símbolo da biodiversidade amazônica. O programa Pagamento por Serviços Ambientais do Pirarucu (PSA Pirarucu) abriu nesta semana sua primeira chamada pública, com até R$ 15 milhões em recursos disponíveis para organizações comunitárias do Amazonas.

    O lançamento ocorreu durante a “Oficina PSA Pirarucu: Valorização do Manejo Comunitário na Amazônia”, realizada em Manaus e organizada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), por meio do Projeto Floresta+ Amazônia. O evento reuniu cerca de 150 pessoas, entre beneficiários, representantes de associações, cooperativas e organizações parceiras. E contou com o apoio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Ibama.

    O que é o PSA Pirarucu e quem pode receber

    O programa reconhece e remunera financeiramente atividades que já são realizadas pelas comunidades, mas que até então não eram compensadas pelo poder público. São considerados serviços ambientais o zoneamento de lagos, a vigilância territorial, a contagem e manutenção dos estoques, a pesca controlada e a gestão territorial comunitária.

    Podem se inscrever associações, cooperativas e colônias de pescadores vinculadas a unidades de manejo autorizadas pelo Ibama. Desde que tenham CNPJ ativo, estatuto social registrado, ata de eleição da diretoria vigente e tenham entregado os relatórios anuais de manejo. O cadastramento deve ser feito em duas etapas: no Portal Gov.br e no Sistema de Cadastro Nacional de Produtores Rurais (Sican), da Conab.

    Uma política construída junto com as comunidades

    Para a diretora de Política Agrícola e Informações da Conab, Naiara Bittencourt, que participou do evento, o lançamento representa um marco histórico. “É a primeira chamada pública do programa, tendo o pirarucu como primeiro produto, um alimento fundamental para a segurança alimentar de quem maneja e de quem consome. É uma política pública inovadora, construída junto com as comunidades. E que fomenta a geração de renda e reconhece o trabalho socioambiental na preservação da natureza”, afirmou.

    A diretora do Departamento de Políticas de Estímulo à Bioeconomia do MMA, Bruna De Vita, reforçou que o PSA complementa um trabalho de conservação construído ao longo de 26 anos de manejo do pirarucu. “A gente espera que, ao final do projeto, as organizações estejam ainda mais preparadas para acessar outras políticas públicas da agricultura familiar, como o Programa de Aquisição de Alimentos e o Sociobio Mais”, disse.

    Números que mostram a dimensão do manejo comunitário

    O impacto do manejo sustentável do pirarucu na Amazônia é expressivo. Atualmente, a atividade envolve cerca de 5.500 pessoas e 60 organizações, distribuídas em 41 áreas protegidas que somam mais de 20 milhões de hectares. Todos os anos, o programa mobiliza aproximadamente 2.500 ambientes aquáticos e permite o monitoramento de cerca de 1,2 milhão de peixes por meio de contagens participativas realizadas pelas próprias comunidades.

    Para a cacica do Povo Apurinã, Maria Dione, o programa chega como uma resposta concreta a décadas de esforço coletivo. “É mais uma renda para todos nós, manejadores, que estamos lutando para preservar o nosso rio, o nosso peixe e a nossa floresta. Antes, o peixe estava acabando e pensávamos nos nossos filhos e netos, que talvez não vissem mais pirarucu. Hoje, conseguimos tirar nossa cota e sobreviver bem do manejo”, relatou a liderança indígena.

    De onde vêm os recursos

    Os R$ 15 milhões destinados ao programa são provenientes de resultados de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+) alcançados pelo Brasil na Amazônia em 2014 e 2015, oriundos do Fundo Verde para o Clima.

    A iniciativa integra ainda a Missão 2 do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio). E prevê salvaguardas socioambientais, com incentivo à participação das mulheres no manejo. A meta do governo é alcançar 300 mil beneficiários com pagamentos por serviços ambientais até 2036.

  • Embrapa e indígenas combatem vassoura-de-bruxa da mandioca no Amapá

    Embrapa e indígenas combatem vassoura-de-bruxa da mandioca no Amapá

    A Embrapa intensifica ações de pesquisa e transferência de tecnologia em parceria com povos indígenas para conter a vassoura-de-bruxa da mandioca no município de Oiapoque, no Amapá. A iniciativa combina ciência e conhecimento tradicional para enfrentar a praga, identificada inicialmente por agricultores indígenas na região.

    A doença, causada pelo fungo Rhizoctonia theobromae, surgiu em roças indígenas na fronteira com a Guiana Francesa e permanece restrita aos estados do Amapá e do Pará. O Ministério da Agricultura e Pecuária classifica o problema como praga quarentenária presente no Brasil.

    Pesquisadores da Embrapa Amapá e da Embrapa Mandioca e Fruticultura realizam visitas técnicas frequentes às aldeias, onde conduzem experimentos em lavouras de mandioca. O trabalho busca identificar cultivares resistentes ou tolerantes à vassoura-de-bruxa, considerando as condições locais de cultivo e os modos de vida das comunidades.

    Nas aldeias Tukay, Kariá e Galibi, os experimentos já avaliam 210 genótipos de mandioca, incluindo variedades coletadas em diversas regiões do país. Segundo o pesquisador Saulo Oliveira, os testes analisam sintomas como a formação de rosetas, além da incidência e severidade da doença, com foco no desenvolvimento de materiais mais resistentes por meio do melhoramento genético.

    A participação indígena tem papel central no processo. Agricultores colaboram diretamente com os experimentos e indicam variedades que apresentam melhor desempenho em campo. A equipe técnica valida essas informações para confirmar produtividade e resistência à praga.

    Tecnologia e capacitação fortalecem controle da doença

    As ações contam com recursos do TED Indígena, iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA). O programa apoia pesquisas e estratégias para reduzir a disseminação do fungo, além de investir em infraestrutura.

    Uma das principais entregas foi a instalação de uma câmara térmica no Centro de Formação dos Povos Indígenas de Oiapoque. A tecnologia elimina patógenos e permite a produção de mudas saudáveis, contribuindo para a recuperação das áreas afetadas e para a segurança alimentar.

    Câmara térmica para sanitização de manivas-sementes a serem cultivadas em experimentos nas aldeias indígenas do Oiapoque. Foto: Girlane Duarte/Embrapa

    De acordo com o agente ambiental indígena Gilmar Nunes André, do povo Galibi Marworno, as mudas tratadas serão multiplicadas rapidamente e distribuídas entre as aldeias. O ciclo de produção permite novos plantios cerca de 120 dias após o início do tratamento.

    O TED Indígena também promove capacitações para diversificar a produção agrícola e ampliar a geração de renda. Na Aldeia do Manga, por exemplo, produtores participaram de um Dia de Campo sobre cultivo de banana, com orientações sobre manejo, controle de pragas e práticas pós-colheita.

    A execução do programa envolve uma rede de instituições, incluindo Embrapa, MDA, Funai, Rurap, SDR, Diagro, além de organizações indígenas e a Prefeitura de Oiapoque, fortalecendo a articulação entre pesquisa, políticas públicas e comunidades locais.

  • Exposição reúne 800 peças indígenas no Dia dos Povos Originários

    Exposição reúne 800 peças indígenas no Dia dos Povos Originários

    O Jardim Botânico de São Paulo recebe a exposição “Povos Originários”, que destaca a diversidade cultural indígena no Brasil e na Amazônia. A mostra reúne mais de 800 peças originais e abre ao público neste domingo (19), Dia dos Povos Originários, com entrada gratuita para visitantes do parque.

    O acervo apresenta artefatos de mais de 100 povos indígenas e revela aspectos do cotidiano, da espiritualidade e da organização social dessas comunidades. A exposição também inclui peças com até 11 mil anos, organizadas em espaços que percorrem desde as culturas originárias até os impactos da colonização europeia.

    Entre os destaques, a mostra exibe objetos pessoais do Marechal Cândido Rondon, conhecido por sua atuação na defesa dos povos indígenas e por fundar o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que antecedeu a Funai. O público encontra cartas com conteúdo humanitário e itens de uso cotidiano, como perneira militar, isqueiro e capacete.

    Outro ponto de atenção é a luva ritual de formigas tucandeiras, utilizada pelo povo Sateré-Mawé em ritos de passagem. Durante a cerimônia, jovens inserem as mãos em luvas com formigas de ferrão venenoso, em um teste de resistência e maturidade.

    A exposição também apresenta uma borduna cerimonial do povo Rikbaktsá, ornamentada com penas e cabelos naturais, símbolo de liderança e autoridade dentro da comunidade.

    A expografia utiliza iluminação em tons quentes para valorizar texturas e cores dos materiais naturais, reforçando a experiência imersiva do visitante.

    As peças pertencem ao acervo do Instituto Cultural Soto. A visitação ocorre diariamente, das 9h às 17h, no Jardim Botânico de São Paulo.

    Serviço

    Foto: Divulgação Zoo São Paulo
    • Jardim Botânico: ingresso antecipado por R$ 19,90; no dia, R$ 39,90
    • Zoológico de São Paulo: antecipado por R$ 59,90; no dia, R$ 119,90
    • Simba Safari: antecipado por R$ 59,90; no dia, R$ 119,90
    • Combo com cinco atrações (Zoo SP, Jardim Botânico, Simba Safari, Mundo Dino e Acqua Zoo): de R$ 379,50 por R$ 129,90 antecipado; no dia, R$ 149,90
  • Café robusta amazônico: de “patinho feio” a trunfo do Brasil contra a crise climática

    Café robusta amazônico: de “patinho feio” a trunfo do Brasil contra a crise climática

    Em Rondônia, na fronteira entre Amazônia e Cerrado, um grão antes visto como “amargo” está ganhando protagonismo nas xícaras e nos debates sobre clima. O robusta amazônico, cultivado por povos indígenas e pequenos produtores. Mais adaptado ao calor do que o arábica, ele desponta como peça estratégica para manter a oferta global de café em um cenário de temperaturas em alta e eventos extremos cada vez mais frequentes.

    Dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso, o café não nasceu como tradição ancestral, mas como herança incômoda. As primeiras lavouras foram deixadas por colonos e invasores que ocuparam a região antes da demarcação, trazendo consigo desmatamento, violência e ruptura territorial.

    Diante desse legado, parte do povo Paiter Suruí quis arrancar os pés de café. Outra parte viu ali uma oportunidade de ressignificar a cultura e transformar a plantação em fonte de renda. E de proteção da floresta. Ao longo dos anos, com capacitações técnicas e parcerias, os indígenas aprenderam a manejar, fermentar e beneficiar o grão, elevando a qualidade da bebida e conquistando mercados de maior valor agregado.

    Hoje, cerca de 130 a 140 famílias Paiter Suruí produzem robusta amazônico em pequenas áreas, em um território de mais de 248 mil hectares, onde o modo de vida tradicional segue ligado à floresta e ao extrativismo. O grão cultivado ali já foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial de Rondônia. E vem se consolidando como um café de origem, com identidade própria.

    Robusta em alta em um planeta mais quente

    Historicamente, o robusta foi visto como um café de menor prestígio, associado a blends baratos e a uma bebida mais áspera. Isso quando comparado ao arábica. Mas a combinação entre ciência, manejo adequado e clima mais quente está mudando essa percepção, dentro e fora do Brasil.

    Pesquisas mostram que o robusta tolera temperaturas mais elevadas do que o arábica. E tende a ter papel crucial na manutenção da oferta, à medida que áreas adequadas para café encolhem com o avanço da crise climática. Entre o início dos anos 1990 e 2023, a participação do robusta no total produzido no mundo subiu de cerca de 28% para algo em torno de 44%. Este movimento foi impulsionado principalmente por Brasil, Vietnã e países da Ásia e da África.

    Ao mesmo tempo, relatórios recentes indicam que os principais países produtores já enfrentam mais dias de calor prejudicial à cultura do café, aumento de secas e maior pressão de pragas e doenças. Em cenários projetados até 2050, a área global com condições ideais para o cultivo de café, tanto arábica quanto robusta, pode cair pela metade ou mais, dependendo do nível de aquecimento e de adaptação tecnológica.

    Embrapa, genética e manejo de precisão

    No Brasil, a resposta passa por pesquisa genética, sistemas produtivos mais eficientes e integração com a floresta. Em duas décadas, programas da Embrapa e de instituições parceiras multiplicaram a produtividade do robusta, combinando materiais genéticos de conilon e robusta em cruzamentos voltados para maior rendimento, tolerância a calor e seca e aprimoramento sensorial.

    Hoje, dezenas de novos cruzamentos estão em teste em Rondônia e em outras regiões, buscando plantas mais resilientes a extremos climáticos, com melhor xícara e maior estabilidade de produção. Ao lado da genética, pesquisadores e técnicos reforçam que o salto de qualidade depende de colheita seletiva, pós-colheita cuidadosa e secagem adequada, práticas que podem transformar um robusta genérico em um robusta especial.

    Outro eixo é o manejo integrado com árvores e fragmentos florestais, que ajudam a regular temperatura, manter umidade, favorecer polinizadores e controlar pragas de forma natural. Esse desenho, mais próximo de sistemas agroflorestais, ganha destaque justamente na Amazônia, onde a pressão por abertura de áreas para pecuária ainda é forte.

    Pequenas propriedades mostram o caminho

    Na região das Matas de Rondônia, selo de Indicação Geográfica concedido ao território de cafés robusta de qualidade, cerca de 10 mil propriedades cultivam café, em sua maioria pequenas e conduzidas por famílias. Apesar de o café ocupar menos de 1% da área em alguns municípios, a cultura tem servido como alternativa à conversão de floresta em pasto quando associada a boas práticas ambientais.

    Um exemplo citado por técnicos e entidades do setor é o de famílias que adotam irrigação mais eficiente, plantio de árvores para proteger nascentes, criação de abelhas para reforçar a polinização e rotação de culturas com milho, feijão e outras espécies para recuperar o solo. Com esse modelo, é possível gerar renda significativa em poucos hectares, reduzindo a pressão por desmatamento e agregando valor via turismo rural, visitas guiadas e venda direta.

    Entre os Paiter Suruí, o robusta amazônico também já levou prêmios nacionais e internacionais. Incluindo notas máximas em protocolos específicos para avaliação de canephora e destaque em concursos de cafés especiais. O resultado é um produto que carrega, ao mesmo tempo, narrativa de território, conservação florestal e protagonismo indígena em cadeias de valor antes dominadas por grandes produtores.

    Risco de monocultura e desafio da escala

    O avanço do robusta, porém, não vem sem riscos. Especialistas e lideranças indígenas alertam que preços em alta podem estimular a expansão de monoculturas em larga escala. Portanto, substituindo sistemas diversificados de pequenos produtores por grandes áreas contínuas de café, com maior impacto ambiental.

    Cafeicultura em terras indígenas é sustentável e gera renda para essas comunidades. Foto: Aliny Melo/Embrapa

    Sem políticas públicas que valorizem quem mantém floresta em pé, o robusta pode se tornar vetor de novo ciclo de desmatamento em áreas amazônicas e de transição, caso seja tratado apenas como commodity de curto prazo. Daí a defesa por incentivos fiscais, crédito diferenciado e programas de compras públicas que priorizem café de origem sustentável, com rastreabilidade e participação de comunidades tradicionais.

    Outra frente é a mudança cultural no consumo. Pesquisadores e baristas vêm construindo uma nova gramática sensorial para o canephora, com rodas de aromas e sabores específicas, argumentando que robusta e conilon devem ser avaliados em seus próprios termos, e não pela régua do arábica. Isso abre espaço para que mercados especializados e cafeterias passem a apresentar o robusta não como “segunda categoria”, mas como um outro perfil de bebida.

    Iniciativas globais e papel do Brasil

    A preocupação com o futuro do café também mobiliza redes internacionais de pesquisa. A World Coffee Research (WCR) ampliou recentemente seu programa de melhoramento para incluir robusta em uma rede global de países como Vietnã, Gana, Índia, Indonésia, Ruanda e Uganda. Eles responsáveis por grande parte da produção mundial dessa espécie.

    O objetivo é testar materiais genéticos em diferentes condições de solo e clima, acelerar o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes e compartilhar dados entre instituições. Esse esforço vem ganhando peso à medida que o café se torna símbolo da vulnerabilidade da agricultura à crise climática. E ao mesmo tempo, campo de prova para estratégias de adaptação.

    No Brasil, pesquisadores, agricultores e lideranças indígenas destacam que o país, maior produtor de café do mundo, tem oportunidade de liderar uma transição para sistemas que combinem robusta de alta qualidade com conservação de florestas e valorização de produtos não madeireiros, como castanha-do-brasil, açaí, cacau e outras espécies nativas. Esses produtos ainda representam fatia muito pequena do PIB nacional, mas são apontados como caminho para uma economia florestal de longo prazo.

    A floresta, o café e quem vive nela

    Para os Paiter Suruí e outras comunidades amazônicas, o café é hoje mais do que uma mercadoria: é uma ferramenta de afirmação territorial. Ao transformar cafezais herdados de invasores em lavouras de robusta amazônico de alta qualidade, eles mostram que é possível gerar renda mantendo a floresta em pé e ampliando o reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais.

    Lideranças indígenas lembram, contudo, que não se pode falar em futuro do café na Amazônia sem falar em quem vive dentro da floresta. A mensagem é clara: o grão robusta pode ser mais resistente ao calor, mas a verdadeira robustez do sistema depende de políticas públicas, consumo responsável e da capacidade de ouvir, e remunerar, os povos que há séculos manejam esses territórios.

  • Governo de Rondônia fortalece protagonismo feminino

    Governo de Rondônia fortalece protagonismo feminino

    A Comunidade Quilombola do Forte Príncipe da Beira, em Costa Marques, sediou em 20 de maio o 1º Encontro das Mulheres Tradicionais. O evento reuniu mulheres quilombolas, indígenas, ribeirinhas e camponesas para promover diálogo, valorização cultural e empoderamento feminino. A sede da Associação Quilombola do Forte Príncipe da Beira (Asqforte) recebeu palestras que destacaram direitos previdenciários e saúde preventiva para mulheres.

    O Governo de Rondônia, por meio da Entidade Autárquica de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Rondônia (Emater-RO), organizou o encontro com apoio da Secretaria de Estado da Agricultura (Seagri) e da Prefeitura de Costa Marques. A iniciativa levou informação e orientação de forma acessível, contribuindo para a autonomia e conscientização dos direitos das mulheres do campo.

    O governador de Rondônia, Marcos Rocha, ressaltou a importância da participação ativa das mulheres nesses eventos, que valorizam o papel feminino na preservação cultural e na sustentabilidade das comunidades locais. “Eventos como este mostram que promovemos inclusão, conhecimento e autonomia para quem tem papel essencial na história e no futuro do nosso estado”, afirmou.

    Impacto positivo da iniciativa

    Jaqueline Rosa, gerente regional da Emater-RO no Vale do Guaporé, destacou o impacto positivo da iniciativa para as mulheres tradicionais. “Este encontro marca a trajetória das mulheres da região, protagonistas no desenvolvimento sustentável e na preservação cultural de seus territórios”, declarou.

    Luciano Brandão, diretor-presidente da Emater-RO, reforçou a importância da assistência técnica e extensão rural na transformação social. “A Emater-RO leva conhecimento, direitos e dignidade para quem mais precisa. O sucesso deste encontro reflete nosso compromisso com o fortalecimento das comunidades e o desenvolvimento das pessoas do campo”, enfatizou.

    O Encontro das Mulheres Tradicionais em Costa Marques tornou-se um marco de reconhecimento, escuta e fortalecimento da luta feminina em Rondônia, destacando o papel essencial das mulheres tradicionais no presente e no futuro do estado.

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  • Indígenas foram essenciais para a disseminação da mandioca nas Américas

    Indígenas foram essenciais para a disseminação da mandioca nas Américas

    Um estudo internacional liderado por pesquisadores da Embrapa e publicado na revista Science revela o papel central dos povos indígenas na disseminação da mandioca nas Américas. A pesquisa analisou 573 genomas da planta. E mostrou que práticas tradicionais, como a troca de mudas entre aldeias e a seleção de variedades espontâneas, foram responsáveis por garantir a diversidade genética da cultura ao longo dos séculos.

    Segundo os cientistas, a mandioca (Manihot esculenta), domesticada há mais de seis mil anos na região sul da Amazônia — área que abrange atualmente partes do Acre e Rondônia —, foi amplamente difundida no continente muito antes da chegada dos colonizadores europeus. Os dados indicam que essa dispersão não ocorreu ao acaso, mas foi resultado direto das práticas agrícolas e culturais dos povos indígenas.

    Diversidade genética surpreendente para uma planta clonada

    Embora a mandioca seja reproduzida por clonagem, ou seja, por pedaços do caule chamados manivas, a pesquisa revelou uma diversidade genética elevada entre as variedades. Essa diversidade está relacionada ao alto grau de heterozigosidade — variações entre os pares de genes — mesmo em clones. Segundo os pesquisadores, esse fenômeno funciona como um “seguro genético”. Que protege a planta contra mutações prejudiciais e permitindo maior resistência a pragas, doenças e mudanças climáticas.

    O pesquisador Fábio Freitas, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, destaca que os cientistas analisaram amostras de diferentes períodos históricos e regiões geográficas. Isso inclui variedades cultivadas atualmente, exsicatas de herbários, materiais arqueológicos com até 2 mil anos e espécies silvestres do gênero Manihot.

    Tradições indígenas contribuem para o melhoramento genético da mandioca

    Um exemplo emblemático citado no estudo é o ritual Casa de Kukurro, realizado pelo povo Waurá, no Território Indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso. A prática envolve o agrupamento de variedades de mandioca em dois montes separados, estimulando cruzamentos espontâneos por sementes e gerando novas variedades. Após avaliação, essas plantas podem ser incorporadas às lavouras tradicionais da aldeia.

    mandioca
    Povos indígenas foram fundamentais para a geração da diversidade que atualmente encontramos na mandioca. Na foto acima, agricultora rala raízes de mandioca para consumo. Foto: Celso Viviani/Embrapa

    Essa estratégia cultural, além de preservar a biodiversidade, funciona como um método eficiente de melhoramento genético. Portanto, permitindo a manutenção e a ampliação da variabilidade da mandioca ao longo do tempo.

    Estudo reforça importância dos bancos genéticos da Embrapa

    A pesquisa foi possível graças ao trabalho histórico de coleta e preservação realizado por diversas unidades da Embrapa. As amostras analisadas foram obtidas em bancos genéticos da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Embrapa Cerrados e Embrapa Mandioca e Fruticultura. Essas instituições mantêm coleções que reúnem variedades cultivadas por comunidades tradicionais, materiais de melhoramento genético e espécies silvestres de ampla diversidade.

    “Com essa base genética, conseguimos representar a diversidade da mandioca no Cerrado e em outras regiões do Brasil. Isso permite aprofundar o conhecimento sobre a história evolutiva da espécie e orientar futuras estratégias de melhoramento genético”, explica o pesquisador Eduardo Alano, da Embrapa Cerrados.

    Pesquisa abre novas perspectivas para agricultura sustentável

    A análise genética da mandioca traz novas possibilidades para o desenvolvimento de cultivares mais adaptadas às mudanças climáticas. E, portanto, resistentes a pragas emergentes, como a vassoura-de-bruxa, recentemente identificada no Amapá.

    De acordo com Éder Jorge de Oliveira, pesquisador da Embrapa Mandioca e Fruticultura, os dados obtidos pelo estudo podem orientar programas de melhoramento para gerar variedades superiores, combinando atributos agronômicos, nutricionais e resistência genética. “A diversidade genética conservada nos bancos de germoplasma é fundamental para garantir o futuro da cultura da mandioca no Brasil e no mundo”, afirma.

    Mandioca: um clone resistente e cheio de história

    Apesar de ser uma planta clonada, a mandioca se mostra um exemplo notável de resiliência e diversidade genética. Todos os dias, milhões de pessoas consomem clones dessa planta, cultivada há milênios por comunidades indígenas. A pesquisa publicada na Science mostra que, além de ser um alimento estratégico para a segurança alimentar global, a mandioca é também um símbolo da contribuição dos saberes tradicionais para a ciência e a agricultura sustentável.

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  • Governo Federal lança programa “Piscicultura Mais Vida”

    Governo Federal lança programa “Piscicultura Mais Vida”

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), em parceria com o Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), anunciou neste sábado (8) o lançamento do programa “Piscicultura Mais Vida”, voltado ao fortalecimento da aquicultura na região da Baixada Cuiabana (MT). A iniciativa, apresentada pelo ministro Carlos Fávaro durante evento na Estação de Piscicultura da Embrapa, em Livramento, prevê a produção anual de até 1,5 milhão de alevinos (filhotes de peixes) para distribuição gratuita a ribeirinhos, quilombolas, indígenas e, de forma subsidiada, a agricultores familiares.

    Com recursos de R$ 1 milhão do Mapa, a Unidade Mista de Pesquisa e Inovação (Umipi) da Embrapa, que conta com 27 tanques para criação de peixes, será transformada em um centro de referência em piscicultura. O local funcionará como base para cursos de capacitação, nivelamento técnico e produção em larga escala de alevinos. A meta é atender 1,5 mil famílias na região, com a distribuição de 1 mil filhotes por família, garantindo suporte técnico para manejo sustentável.

    Inclusão social e resgate histórico

    Em discurso, o ministro Carlos Fávaro destacou o caráter social do programa. “Enquanto tentavam fechar esta estação, nós a revitalizamos para distribuir alevinos gratuitamente, resgatando um projeto abandonado desde os anos 80”. O foco prioritário são populações tradicionais inscritas em programas federais e que possuam estrutura adequada para a criação de peixes. Agricultores familiares terão acesso aos alevinos com subsídios governamentais.

    Reitor do IFMT, Julio César dos Santos.

    O reitor do IFMT, Júlio César dos Santos, reforçou a importância da instituição no projeto: “Estamos orgulhosos de ser parte desta ferramenta de transformação social. A expertise técnica do IFMT será fundamental para qualificar produtores e ampliar a eficiência da cadeia aquícola”.

    Impacto econômico e sustentável

    Além de impulsionar a economia local, o programa “Piscicultura Mais Vida” busca reduzir a dependência de pesca predatória em rios da região, promovendo a aquicultura como alternativa sustentável. A Embrapa estima que, em dois anos, a produção possa suprir demandas estaduais e até abastecer outros estados.

    As inscrições para beneficiários começam em julho, por meio de plataformas digitais do Mapa. A seleção priorizará áreas com acesso a água e certificação ambiental.

    A Embrapa em Livramento é referência em pesquisas aquícolas desde a década de 1980. A retomada parceria com o IFMT reforça a política do governo federal de aliar ciência, educação e inclusão produtiva no agronegócio.

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