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  • Como o cacau cabruca pode salvar a Mata Atlântica  e triplicar a renda de 3 mil famílias

    Como o cacau cabruca pode salvar a Mata Atlântica  e triplicar a renda de 3 mil famílias

    Um bioma que já perdeu 87,6% de sua cobertura original acaba de ganhar um reforço estratégico de escala global. Ilhéus, no sul da Bahia, sediou o lançamento do projeto “Conservação da Mata Atlântica por meio do manejo sustentável das paisagens agroflorestais cacaueiras”. A iniciativa aposta no cultivo tradicional do cacau cabruca para frear o desmatamento, restaurar a biodiversidade e melhorar a renda de milhares de famílias produtoras.

    Foto: FAO no Brasil/Divulgação

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), executa o projeto com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) financia a iniciativa, e a Sitawi Finanças do Bem atua como parceira operacional.

    O que é o sistema cabruca e por que ele importa

    A cabruca é uma técnica secular de cultivo do cacau sob o dossel de árvores nativas da Mata Atlântica. Em vez de desmatar para plantar, o produtor mantém a floresta em pé e introduz o cacaueiro à sua sombra. O resultado é um sistema que forma corredores biológicos, regula o ciclo hídrico local e aumenta a resiliência ecológica da região. Tudo isso enquanto gera renda.

    “A Mata Atlântica é um bioma de importância mundial. O projeto será um exemplo notável de conservação produtiva, onde a agricultura sustentável coexiste com a preservação de espécies nativas e endêmicas”, afirma Jorge Meza, representante da FAO no Brasil.

    Metas ambiciosas: floresta, clima e economia

    O projeto estabelece objetivos concretos para os próximos anos: restaurar 12.000 hectares de cacau em sistema cabruca; melhorar a gestão de mais de 203 mil hectares de áreas protegidas, incluindo as APAs Pratigi e Baía de Camamu; e mitigar 3,72 milhões de toneladas de gases de efeito estufa.

    Imagem gerada por IA

    No campo econômico, a iniciativa quer triplicar a produtividade média do cacau cabruca e elevar em 30% a renda das famílias beneficiárias, por meio de assistência técnica e acesso a mercados de cacau premium.

    Três mil produtores organizados nos consórcios CIAPRA, CIMA e CDS-LS participam do projeto. O compromisso é que ao menos 50% dos beneficiários sejam mulheres e jovens.

    Tecnologia, governança e formação

    Além das ações de campo, o projeto propõe revisão de marcos legais e novos mecanismos de política pública para o manejo sustentável em uma escala de 1,6 milhão de hectares. Garantindo ao produtor rural retorno econômico sem abrir mão da conservação florestal.

    Entre as inovações planejadas estão o uso de blockchain para rastreabilidade total do cacau, a criação da Escola do Cacau para formação de técnicos e produtores, e um Centro de Inteligência Territorial (CIT) para monitoramento da paisagem e da biodiversidade em tempo real. Os produtores também ganham acesso a um modelo de crédito rural sustentável, o CRA Sustentável, e a redes de comercialização nacionais e internacionais.

    “O que estamos lançando na Bahia vai além de um projeto ambiental ou produtivo. É um modelo concreto de inovação no campo”, diz Thiago Guedes, diretor da Ceplac. “Estamos posicionando a cacauicultura agroflorestal como um ativo estratégico para o futuro da agricultura mundial.”

    Para quem vive da terra, o significado é direto. “Trazer o processo de transição agroecológica para esse espaço de produção permite produzir uma amêndoa de cacau melhor, com mais qualidade, agregando valor ao produto para que as famílias possam melhorar sua qualidade de vida”, conta Luciano Ferreira, assentado da reforma agrária e produtor de cacau.

  • Do ouro ao fungo: a história do cacau baiano e o caminho para a recuperação

    Do ouro ao fungo: a história do cacau baiano e o caminho para a recuperação

    Todo 26 de março, o Brasil celebra o Dia Nacional do Cacau. E a data é uma oportunidade para olhar tanto para o passado glorioso quanto para o futuro incerto de um fruto que construiu cidades, inspirou literatura e forjou identidades no sul da Bahia. O cacau foi, por décadas, o coração econômico da região. Sua posição no ranking nacional de culturas já não é a mesma, mas o peso simbólico e histórico permanece intacto.

    Entre 1901 e meados dos anos 1920, o Brasil ocupou o posto de maior produtor mundial de cacau. No sul baiano, aquele período gerou uma cultura própria, marcada pela luta por terras, pelos jagunços e pelo luxo dos coronéis do cacau. Só entre 1890 e 1920, a Bahia chegou a produzir cerca de 370 mil toneladas do fruto em um único ano. Ilhéus e outras cidades da região prosperaram rapidamente, com investimentos em infraestrutura e na construção de prédios luxuosos.

    A queda veio de onde menos se esperava. Em 1989, o fungo Moniliophtora perniciosa, responsável pela vassoura-de-bruxa, apareceu na região de Ilhéus-Itabuna e se alastrou com velocidade, atacando frutos, brotos e flores dos cacaueiros. Entre 1990 e 2000, a produção baiana despencou de 356 mil para 98 mil toneladas. O colapso trouxe efeitos socioeconômicos e ambientais graves para toda a região. E o Brasil, que chegou a ser o segundo maior produtor mundial, caiu para o sexto lugar. Apenas em 2015, mais de 20 anos depois, a Bahia retomou as exportações.

    Solo saudável, chocolate de qualidade

    O cacaueiro é uma planta exigente: precisa de solos profundos e ricos, clima quente e úmido, temperatura média de cerca de 25°C e precipitação anual entre 1.500 e 2.000 milímetros, sem períodos secos prolongados. Qualquer desequilíbrio nutricional compromete diretamente a produtividade e a renda do produtor.

    “Nutrientes como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio e micronutrientes são essenciais para processos fisiológicos vitais. A deficiência ou o excesso de alguns deles pode prejudicar o processo fotossintético e, consequentemente, a produtividade e a qualidade da produção agrícola”, explica Fellipe Parreira, responsável por Portfólio e Acesso no Grupo GIROAgro.

    Hoje, os produtores cultivam o cacaueiro majoritariamente de forma agroecológica: além de preservar espécies florestais nativas, a produção contribui para a retenção de água, a manutenção dos recursos hídricos e a conservação da fauna local. É uma cultura que já nasceu sustentável.

    Bioinsumos entram em campo contra a vassoura-de-bruxa

    Para enfrentar as principais doenças da cultura, o setor aposta nos bioinsumos. Biofungicidas à base de Trichoderma spp. reduzem a infecção por vassoura-de-bruxa em até 99% no solo e 57% na copa, sem deixar resíduos químicos. Bioinseticidas complementam o manejo ao reforçar o controle biológico por predadores e parasitoides, diminuindo os riscos de resistência e surtos de pragas.

    Foto: Wenderson Araujo/Sistema CNA/Senar

    No Dia Nacional do Cacau, o recado que fica é simples: sem solo bem nutrido e manejo adequado, não há chocolate. E sem chocolate, perde-se muito mais do que um alimento; perde-se um pedaço da história do Brasil.

  • Ilhéus – Setor de cacau e chocolate deve gerar milhões em negócios

    Ilhéus – Setor de cacau e chocolate deve gerar milhões em negócios

    O programa Exporta Mais Brasil, da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), realizou mais uma edição em Ilhéus, na Bahia, com foco no setor de cacau e chocolate. A iniciativa trouxe 15 compradores internacionais de 12 países para conhecer de perto a produção brasileira e fazer negócios com 29 empresas nacionais.

    Durante o evento, foram realizadas 224 reuniões entre as marcas brasileiras e os empresários internacionais. Como resultado, são esperados mais de R$ 10 milhões em negócios para os próximos 12 meses, demonstrando a qualidade e o potencial do Brasil no setor.

    Para dar um panorama completo da produção nacional, os compradores internacionais participaram de visitas técnicas a empresas que demonstram o diferencial do país no setor de cacau e chocolate. Eles conheceram a Fazenda Bonança, da Mestiço Chocolates; a produção de cacau da Dengo Origem; e o Centro de Inovação do Cacau (CIC).

    Durante as visitas, os convidados puderam ver na prática o sistema cabruca. Uma forma de cultivo em que o cacau é plantado sob a sombra de espécies nativas da Mata Atlântica, ajudando na preservação do bioma. Eles também provaram o diferencial do cacau e do chocolate brasileiros e conheceram os processos e inovações do setor no país.

    Negócios e Histórias de Sucesso

    Após a imersão na produção, os 15 compradores internacionais realizaram reuniões individuais com as 29 empresas brasileiras para prospectar novas parcerias e avaliar possibilidades de levar o cacau e o chocolate do Brasil aos seus países.

    Os convidados da ApexBrasil visitaram o Festival Internacional do Chocolate e Cacau de Ilhéus – Chocolat Bahia 2024, em sua 15ª edição na cidade. O evento, reconhecido como o maior do gênero na América
    Latina, recebeu cerca de 65 mil pessoas e movimentou cerca de R$ 25 milhões. A ida à feira foi mais uma oportunidade de os empresários estrangeiros conhecerem marcas do Brasil e experimentarem o sabor e a qualidade que o país oferece.

    Representantes da indústria de cacau e chocolate visitam Ilhéus – Reprodução – ApexBrasil

    Entre as marcas presentes, destacam-se histórias de superação e sucesso, como a da Luzz Cacau, fundada por Josiane Luz, filha, neta e bisneta de cacauicultores. A empresária transformou a produção familiar, migrando do cacau convencional para o cacau fino e, posteriormente, para a produção de chocolate. Atualmente, além da produção nacional, a marca já exporta cacau para cinco países e chocolate para dois.

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    Outra empresa com uma história inspiradora é a Ju Arléo Chocolates, que surgiu a partir de um redirecionamento de rota de uma família de produtores de cacau. Em 2020, a filha do casal, Ju Arléo, então com sete anos, pediu uma máquina de fazer chocolate como presente de aniversário. A partir disso, a família investiu na nova produção e, um ano depois, ficou em terceiro lugar em um concurso nacional de chocolates artesanais.

    Impacto e Expectativas

    Os compradores internacionais ficaram encantados com a qualidade do cacau e dos chocolates brasileiros. Maartje van den Berg, da Holanda, destacou a dificuldade em escolher entre tantos sabores incríveis. Já Thorlakur Thor, da Islândia, ressaltou a paixão dos empresários durante as rodadas de negócios, o que despertou ainda mais seu interesse nos produtos.

    Com a realização do Exporta Mais Brasil em Ilhéus, o setor de cacau e chocolate brasileiro ganha um impulso significativo, com a expectativa de mais de R$ 10 milhões em negócios para os próximos 12 meses. O evento demonstra o potencial do país no setor e abre novas oportunidades de exportação para as empresas nacionais.

    Para esta edição do Exporta Mais Brasil, a ApexBrasil contou com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) de Ilhéus. Também da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), da Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab) e do Instituto Arapyaú.