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  • Cervejaria de 130 anos funciona em porão de igreja católica em Minas Gerais

    Cervejaria de 130 anos funciona em porão de igreja católica em Minas Gerais

    No subsolo da Igreja Nossa Senhora da Glória, em Juiz de Fora, a cervejaria Hofbauer mantém uma tradição centenária que une fé, história e fermentação artesanal. A fábrica funciona desde 1894 e representa um patrimônio cultural único no Brasil: é a única cervejaria de convento totalmente artesanal ainda em atividade no país.

    A história começou quando os padres holandeses Mathias Tulkens e Francisco Lohmeyer, da Congregação do Santíssimo Redentor, fundaram a cervejaria. Os religiosos trouxeram consigo a tradição europeia de produção de cerveja nos mosteiros, prática comum na Holanda e na Alemanha desde a Idade Média. Na Europa, monges desenvolveram técnicas de fermentação e criaram estilos de cerveja que se tornaram referência mundial.

    Os primeiros redentoristas chegaram ao Brasil no final do século XIX e se estabeleceram em Juiz de Fora, onde construíram o convento e iniciaram a produção artesanal em caldeirões simples. Em 1907, equipamentos importados da Holanda chegaram ao porão da igreja e continuam em operação até hoje, testemunhas silenciosas de mais de um século de história cervejeira.

    Homenagem a um santo da autossuficiência

    A cervejaria recebeu o nome Hofbauer em 1909, em homenagem a São Clemente Maria Hofbauer, sacerdote austríaco canonizado naquele ano. Antes, os fiéis conheciam a bebida apenas como “Cerveja do convento da Glória”.

    São Clemente Maria Hofbauer viveu no século XVIII e ficou conhecido por renovar a vida religiosa em Viena, na Áustria. O santo defendia que os conventos alcançassem autossuficiência por meio da produção de alimentos e bebidas, tanto para manter as obras religiosas quanto para apoiar a população carente. A filosofia do santo guia a Hofbauer até hoje: toda a renda das vendas se destina a projetos sociais mantidos pela igreja em Juiz de Fora.

    Congregação administra Santuário de Aparecida

    A Congregação do Santíssimo Redentor, também conhecida como Redentoristas, foi fundada por Santo Afonso Maria de Ligório em 1732, em Scala, no sul da Itália. A ordem dedica-se à pregação de missões populares e ao atendimento de comunidades desfavorecidas. Atualmente, cerca de 5,5 mil redentoristas atuam em 82 países.

    No Brasil, os Redentoristas assumiram a administração do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida há 131 anos. O complexo religioso recebe milhões de peregrinos anualmente e mantém redes de comunicação, como a TV Aparecida e a Rádio Aparecida, além de diversas entidades sociais que atendem populações vulneráveis.

    Produção artesanal resiste ao tempo

    A produção da cerveja Hofbauer atravessou diferentes gerações de religiosos, embora tenha enfrentado interrupções em alguns períodos por falta de pessoas com conhecimento técnico na arte cervejeira, segundo o irmão Taylor Bertoli, atual responsável pela cervejaria.

    Em 2009, o padre Flávio Leonardo Santos Campos restaurou as máquinas centenárias e retomou a produção artesanal. O trabalho foi continuado pelo padre Jonas Pacheco Machado e sua equipe. Desde 2024, o irmão Taylor Bertoli lidera a fabricação com apoio de quatro colaboradores e consultoria técnica especializada.

    A cervejaria produz aproximadamente 350 litros por lote, em quatro bateladas anuais. Cada remessa leva cerca de 40 dias para ficar pronta, respeitando rigorosamente o tempo de fermentação e maturação. “Oferecemos cervejas que encantam não somente pelo sabor, mas pela herança cultural. É motivo de orgulho manter viva essa tradição europeia artesanal”, afirma Taylor.

    Sete estilos que contam histórias

    A Hofbauer oferece sete estilos de cerveja artesanal, cada um com características distintas:

    • Pilsen: clara e levemente turva, apresenta aroma maltado com toque cítrico. É o estilo mais popular no Brasil e tem origem na cidade tcheca de Plzeň.
    • Belgian Blond Ale: dourada e brilhante, destaca-se pelo aroma de banana e sabor adocicado. Este é o rótulo mais premiado da Hofbauer.
    • Belgian Pale Ale: cor cobre escuro, traz notas de caramelo e teor alcoólico moderado.
    • Belgian Dubbel: âmbar escuro, oferece sabor caramelizado e aroma de frutas como passas e ameixas secas.
    • Weissbier: turva, com aroma de cravo e frutas maduras, a receita combina maltes de cevada e trigo.
    • Session IPA: leve e refrescante, apresenta aroma cítrico intenso e final seco, ideal para o clima brasileiro.
    • Russian Imperial Stout (RIS): escura e encorpada, surpreende com sabor intenso de maltes torrados e alta graduação alcoólica.

    O segredo está no processo

    Cada tipo de cerveja segue um processo específico de fermentação e maturação, que pode durar de alguns dias a várias semanas. A equipe controla a temperatura entre 10°C e 25°C para garantir o sabor, o aroma e o frescor característicos de cada estilo.

    Durante a fermentação, as leveduras transformam os açúcares do malte em álcool e gás carbônico. Na fase seguinte, a maturação, a cerveja descansa em tanques para que os sabores e aromas se desenvolvam plenamente.

    A Belgian Blond Ale, por exemplo, fermenta entre 20°C e 22°C. No fim do processo, a equipe eleva a temperatura para secar o mosto e desenvolver compostos que conferem aroma e sabor únicos à bebida. Esse cuidado meticuloso rendeu à Belgian Blond diversos prêmios em competições de cerveja artesanal.

    De mistério a atração turística

    Desde 2023, o público pode visitar o porão da Igreja da Glória e conhecer o local onde a cerveja é produzida. “Sempre foi um lugar cercado de mistério. Abrimos para mostrar a importância dessa tradição para Juiz de Fora”, afirma Taylor Bertoli.

    A Secretaria Municipal de Turismo de Juiz de Fora reconhece a Hofbauer como patrimônio cultural e turístico da cidade. A cervejaria integra o programa “Caminhando pela História”, que oferece passeios gratuitos por pontos históricos do município. A visita ao porão da Igreja da Glória figura entre as mais procuradas do roteiro.

    As garrafas custam a partir de R$ 25 e podem ser adquiridas na biblioteca redentorista da Igreja da Glória ou pelo site oficial, com entrega para todo o Brasil. Todo o lucro se reverte para obras sociais mantidas pela congregação na cidade.

    Preservação de um legado

    A permanência da Hofbauer representa mais do que a continuidade de uma tradição cervejeira. O projeto mantém viva a memória dos primeiros redentoristas que chegaram ao Brasil, preserva técnicas artesanais europeias e demonstra como a fé pode se unir ao trabalho para gerar impacto social positivo.

    Em um mercado dominado por grandes indústrias, a pequena cervejaria do porão da Igreja da Glória prova que é possível aliar tradição, qualidade e propósito social. Cada garrafa carrega consigo 130 anos de história, o legado de dezenas de religiosos dedicados e a esperança de que essa tradição continue inspirando novas gerações.

    SERVIÇO

    • Visitas à Cervejaria Hofbauer
    • Quando: sábados, com agendamento prévio
    • Capacidade: grupos de até 30 pessoas
    • Valor: R$ 65 por pessoa, com direito à degustação de três cervejas, pão e bolinho de cevada
    • Onde comprar: biblioteca redentorista da Igreja da Glória (Juiz de Fora-MG) ou pelo site oficial, com entrega em todo o Brasil
    • Local: Igreja Nossa Senhora da Glória, Juiz de Fora-MG
    • Mais informações: site oficial da Cervejaria Hofbauer

     

  • Morte do Papa: a herança católica na agricultura brasileira

    Morte do Papa: a herança católica na agricultura brasileira

    O papa Francisco morreu nesta segunda-feira (21), aos 88 anos, em Roma. O falecimento foi confirmado pelo Vaticano às 2h35 no horário de Brasília (7h35 local). Jorge Mario Bergoglio liderou a Igreja Católica por quase 12 anos.

    Em nota oficial, o Vaticano afirmou: “O Bispo de Roma, Francisco, retornou à casa do Pai. Toda a sua vida foi dedicada ao serviço do Senhor e de Sua Igreja […] Recomendamos a alma do Papa Francisco ao infinito amor misericordioso do Deus Trino”.

    O Papa ainda defendeu o desenvolvimento rural como chave para combater a fome, afirmando que as comunidades devem ser protagonistas do próprio progresso, evitando a dependência de ajuda externa. Ele valorizou o conhecimento dos povos indígenas na gestão dos recursos naturais e destacou o papel das mulheres e jovens como pilares da inovação e mudança positiva nas zonas rurais

    Influência da Igreja na agricultura

    A presença da Igreja Católica no Brasil desde a colonização teve um impacto significativo em diversos aspectos da sociedade, incluindo a agricultura. A herança católica não se limita apenas à religião, mas também se reflete nas práticas agrícolas, nas plantas cultivadas e nas tradições que perduram até hoje.

    Nesta matéria, vamos mostrar algumas curiosidades sobre como a fé católica moldou a agricultura brasileira, destacando plantas como o feijão fradinho, a espada de São Jorge e o capim santo.

    Feijão fradinho: um alimento tradicional

    O feijão fradinho, também conhecido como feijão-de-corda, é um alimento típico do Nordeste brasileiro e tem raízes profundas na cultura católica da região.

    Durante as festividades religiosas, especialmente as festas juninas, o feijão fradinho é amplamente consumido em pratos tradicionais como a farofa e o caldo. A Igreja Católica, ao promover a agricultura local e incentivar o cultivo de alimentos que sustentam a população, contribuiu para a valorização desse ingrediente nas mesas brasileiras.

    Espada de São Jorge: proteção e simbolismo

    A espada de São Jorge (Sansevieria trifasciata) é uma planta que se tornou um símbolo de proteção nas casas brasileiras. Sua associação com o santo é forte, pois muitos acreditam que ela afasta energias negativas e traz boa sorte.

    Além de carregar um forte valor simbólico, a espada de São Jorge se destaca por sua resistência e adaptação a diferentes condições climáticas, o que a torna uma escolha frequente entre agricultores interessados em diversificar suas plantações.

    Capim santo: aromas e tradições

    O capim santo (Cymbopogon citratus), também conhecido como capim-limão, é uma erva amplamente utilizada na culinária brasileira e possui propriedades medicinais reconhecidas. Sua utilização remonta ao período colonial, quando os padres jesuítas introduziram práticas agrícolas que incluíam o cultivo de ervas aromáticas.

    Capim Santo

    O capim santo costuma integrar chás e remédios caseiros, refletindo a intersecção entre a fé católica e as tradições populares de cura.

    Influência das festas religiosas na agricultura

    As festas religiosas católicas têm um papel fundamental na agricultura brasileira. As celebrações de santos padroeiros muitas vezes coincidem com períodos de colheita, criando uma conexão entre a fé e o trabalho agrícola. Durante essas festividades, é comum que os agricultores realizem bênçãos das plantações e ofereçam agradecimentos pela colheita abundante.

    Além disso, as tradições relacionadas ao calendário religioso influenciam diretamente os ciclos agrícolas. Por exemplo, o plantio do milho muitas vezes está alinhado com as festas de São João, refletindo uma prática cultural que une fé e agricultura.

    A herança católica na agricultura brasileira é rica e multifacetada, abrangendo desde práticas de cultivo até simbolismos associados às plantas. O feijão fradinho, a espada de São Jorge e o capim santo são apenas algumas das manifestações dessa influência que perdura ao longo dos anos. A intersecção entre fé e agricultura não apenas enriquece a cultura brasileira, mas também fortalece os laços comunitários em torno das tradições alimentares que sustentam a população. Ao reconhecer essas conexões, podemos valorizar ainda mais a diversidade cultural que compõe o Brasil rural contemporâneo.

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