A demanda internacional aquecida sustentou os preços do farelo e da soja em grão na última semana. Enquanto isso, o óleo de soja registrou queda no mercado externo, influenciado pela desvalorização do petróleo.
No Brasil, os preços do complexo soja recuaram levemente, conforme dados do Cepea. Esse movimento ocorreu devido ao aumento da oferta e à queda do dólar frente ao real. Além disso, esse cenário reduziu a competitividade das exportações brasileiras.
Dados da Secex mostram que o Brasil exportou 14,51 milhões de toneladas de soja em março. O volume mais que dobrou em relação a fevereiro, com alta de 105,29%. Por outro lado, o resultado apresentou leve queda de 0,96% frente a março de 2025. As exportações de farelo de soja seguiram aquecidas ao longo do período. Segundo a Secex, o país embarcou 1,92 milhão de toneladas em março, recorde para o mês.
Já os embarques de óleo de soja somaram 176,91 mil toneladas em março.O volume caiu 13,02% em relação ao mês anterior.
Os pesquisadores do Cepea apontam que a menor demanda internacional pressionou os embarques. Entre os fatores, destacam-se a redução das compras de Índia e Uruguai. Além disso, a ausência da China também contribuiu para a queda nas exportações.
Em Rondônia, na fronteira entre Amazônia e Cerrado, um grão antes visto como “amargo” está ganhando protagonismo nas xícaras e nos debates sobre clima. O robusta amazônico, cultivado por povos indígenas e pequenos produtores. Mais adaptado ao calor do que o arábica, ele desponta como peça estratégica para manter a oferta global de café em um cenário de temperaturas em alta e eventos extremos cada vez mais frequentes.
Dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso, o café não nasceu como tradição ancestral, mas como herança incômoda. As primeiras lavouras foram deixadas por colonos e invasores que ocuparam a região antes da demarcação, trazendo consigo desmatamento, violência e ruptura territorial.
Diante desse legado, parte do povo Paiter Suruí quis arrancar os pés de café. Outra parte viu ali uma oportunidade de ressignificar a cultura e transformar a plantação em fonte de renda. E de proteção da floresta. Ao longo dos anos, com capacitações técnicas e parcerias, os indígenas aprenderam a manejar, fermentar e beneficiar o grão, elevando a qualidade da bebida e conquistando mercados de maior valor agregado.
Hoje, cerca de 130 a 140 famílias Paiter Suruí produzem robusta amazônico em pequenas áreas, em um território de mais de 248 mil hectares, onde o modo de vida tradicional segue ligado à floresta e ao extrativismo. O grão cultivado ali já foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial de Rondônia. E vem se consolidando como um café de origem, com identidade própria.
Robusta em alta em um planeta mais quente
Historicamente, o robusta foi visto como um café de menor prestígio, associado a blends baratos e a uma bebida mais áspera. Isso quando comparado ao arábica. Mas a combinação entre ciência, manejo adequado e clima mais quente está mudando essa percepção, dentro e fora do Brasil.
Pesquisas mostram que o robusta tolera temperaturas mais elevadas do que o arábica. E tende a ter papel crucial na manutenção da oferta, à medida que áreas adequadas para café encolhem com o avanço da crise climática. Entre o início dos anos 1990 e 2023, a participação do robusta no total produzido no mundo subiu de cerca de 28% para algo em torno de 44%. Este movimento foi impulsionado principalmente por Brasil, Vietnã e países da Ásia e da África.
Ao mesmo tempo, relatórios recentes indicam que os principais países produtores já enfrentam mais dias de calor prejudicial à cultura do café, aumento de secas e maior pressão de pragas e doenças. Em cenários projetados até 2050, a área global com condições ideais para o cultivo de café, tanto arábica quanto robusta, pode cair pela metade ou mais, dependendo do nível de aquecimento e de adaptação tecnológica.
Embrapa, genética e manejo de precisão
No Brasil, a resposta passa por pesquisa genética, sistemas produtivos mais eficientes e integração com a floresta. Em duas décadas, programas da Embrapa e de instituições parceiras multiplicaram a produtividade do robusta, combinando materiais genéticos de conilon e robusta em cruzamentos voltados para maior rendimento, tolerância a calor e seca e aprimoramento sensorial.
Hoje, dezenas de novos cruzamentos estão em teste em Rondônia e em outras regiões, buscando plantas mais resilientes a extremos climáticos, com melhor xícara e maior estabilidade de produção. Ao lado da genética, pesquisadores e técnicos reforçam que o salto de qualidade depende de colheita seletiva, pós-colheita cuidadosa e secagem adequada, práticas que podem transformar um robusta genérico em um robusta especial.
Outro eixo é o manejo integrado com árvores e fragmentos florestais, que ajudam a regular temperatura, manter umidade, favorecer polinizadores e controlar pragas de forma natural. Esse desenho, mais próximo de sistemas agroflorestais, ganha destaque justamente na Amazônia, onde a pressão por abertura de áreas para pecuária ainda é forte.
Pequenas propriedades mostram o caminho
Na região das Matas de Rondônia, selo de Indicação Geográfica concedido ao território de cafés robusta de qualidade, cerca de 10 mil propriedades cultivam café, em sua maioria pequenas e conduzidas por famílias. Apesar de o café ocupar menos de 1% da área em alguns municípios, a cultura tem servido como alternativa à conversão de floresta em pasto quando associada a boas práticas ambientais.
Um exemplo citado por técnicos e entidades do setor é o de famílias que adotam irrigação mais eficiente, plantio de árvores para proteger nascentes, criação de abelhas para reforçar a polinização e rotação de culturas com milho, feijão e outras espécies para recuperar o solo. Com esse modelo, é possível gerar renda significativa em poucos hectares, reduzindo a pressão por desmatamento e agregando valor via turismo rural, visitas guiadas e venda direta.
Entre os Paiter Suruí, o robusta amazônico também já levou prêmios nacionais e internacionais. Incluindo notas máximas em protocolos específicos para avaliação de canephora e destaque em concursos de cafés especiais. O resultado é um produto que carrega, ao mesmo tempo, narrativa de território, conservação florestal e protagonismo indígena em cadeias de valor antes dominadas por grandes produtores.
Risco de monocultura e desafio da escala
O avanço do robusta, porém, não vem sem riscos. Especialistas e lideranças indígenas alertam que preços em alta podem estimular a expansão de monoculturas em larga escala. Portanto, substituindo sistemas diversificados de pequenos produtores por grandes áreas contínuas de café, com maior impacto ambiental.
Cafeicultura em terras indígenas é sustentável e gera renda para essas comunidades. Foto: Aliny Melo/Embrapa
Sem políticas públicas que valorizem quem mantém floresta em pé, o robusta pode se tornar vetor de novo ciclo de desmatamento em áreas amazônicas e de transição, caso seja tratado apenas como commodity de curto prazo. Daí a defesa por incentivos fiscais, crédito diferenciado e programas de compras públicas que priorizem café de origem sustentável, com rastreabilidade e participação de comunidades tradicionais.
Outra frente é a mudança cultural no consumo. Pesquisadores e baristas vêm construindo uma nova gramática sensorial para o canephora, com rodas de aromas e sabores específicas, argumentando que robusta e conilon devem ser avaliados em seus próprios termos, e não pela régua do arábica. Isso abre espaço para que mercados especializados e cafeterias passem a apresentar o robusta não como “segunda categoria”, mas como um outro perfil de bebida.
Iniciativas globais e papel do Brasil
A preocupação com o futuro do café também mobiliza redes internacionais de pesquisa. A World Coffee Research (WCR) ampliou recentemente seu programa de melhoramento para incluir robusta em uma rede global de países como Vietnã, Gana, Índia, Indonésia, Ruanda e Uganda. Eles responsáveis por grande parte da produção mundial dessa espécie.
O objetivo é testar materiais genéticos em diferentes condições de solo e clima, acelerar o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes e compartilhar dados entre instituições. Esse esforço vem ganhando peso à medida que o café se torna símbolo da vulnerabilidade da agricultura à crise climática. E ao mesmo tempo, campo de prova para estratégias de adaptação.
No Brasil, pesquisadores, agricultores e lideranças indígenas destacam que o país, maior produtor de café do mundo, tem oportunidade de liderar uma transição para sistemas que combinem robusta de alta qualidade com conservação de florestas e valorização de produtos não madeireiros, como castanha-do-brasil, açaí, cacau e outras espécies nativas. Esses produtos ainda representam fatia muito pequena do PIB nacional, mas são apontados como caminho para uma economia florestal de longo prazo.
A floresta, o café e quem vive nela
Para os Paiter Suruí e outras comunidades amazônicas, o café é hoje mais do que uma mercadoria: é uma ferramenta de afirmação territorial. Ao transformar cafezais herdados de invasores em lavouras de robusta amazônico de alta qualidade, eles mostram que é possível gerar renda mantendo a floresta em pé e ampliando o reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais.
Lideranças indígenas lembram, contudo, que não se pode falar em futuro do café na Amazônia sem falar em quem vive dentro da floresta. A mensagem é clara: o grão robusta pode ser mais resistente ao calor, mas a verdadeira robustez do sistema depende de políticas públicas, consumo responsável e da capacidade de ouvir, e remunerar, os povos que há séculos manejam esses territórios.
Em meio à alta dos alimentos, o feijão segue na contramão da inflação e se torna mais acessível. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que o preço da saca do feijão carioca caiu de R$ 331 em janeiro de 2024 para R$ 220 no mesmo período de 2025, uma redução de 33,5%. Ou seja, esse recuo está ligado ao aumento da oferta do grão, beneficiando tanto a segurança alimentar quanto o mercado de commodities.
IBGE prevê aumento na produção de feijão em 2025
O IBGE estima que a produção de feijão em 2025 alcance 3,4 milhões de toneladas, um aumento de 9,3% em relação à safra colhida em 2024. A primeira safra deve produzir 1,2 milhão de toneladas, enquanto a segunda deve atingir 1,4 milhão de toneladas. Já a terceira safra tem previsão de 775 mil toneladas.
A área destinada à colheita da safra de verão (primeira safra) deve chegar a 1,3 milhão de hectares, um crescimento de 6,3% em relação a 2024. A produtividade também deve subir, com estimativa de rendimento médio de 880 kg/ha, um aumento de 23,1%.
A Kicaldo, marca especializada em grãos, avalia que a queda nos preços amplia o acesso ao produto sem comprometer sua relevância. “O feijão é mais do que um alimento básico. Ele é uma fonte acessível de proteína vegetal de qualidade. A redução nos preços torna esse alimento nutritivo ainda mais presente na dieta dos brasileiros”, destaca Mauro Bortolanza, fundador da empresa e presidente da ABIFEIJÃO (Associação Brasileira das Indústrias de Feijão).
Dia do Feijão incentiva consumo e reforça importância do grão
O Dia do Feijão, celebrado mundialmente em 10 de fevereiro, foi criado pela ONU para incentivar o consumo desse alimento rico em nutrientes. Em geral, apesar da queda no consumo nos últimos anos, o Brasil segue entre os maiores produtores e consumidores do grão no mundo.
Ao mesmo tempo, com a redução nos preços, especialistas acreditam que o feijão pode recuperar espaço na alimentação dos brasileiros. “O feijão é essencial. Além de seu valor nutricional, ele impacta diretamente a economia e o agronegócio. Precisamos resgatar seu valor e mostrar às novas gerações os benefícios do seu consumo”, reforça Bortolanza.
Nesta quinta-feira (31), o Governo do Estado de São Paulo lança um programa que busca fortalecer o setor cafeeiro e impulsionar a economia rural. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento, em parceria com a iniciativa privada, lança o Programa Estadual de Incentivo ao Cultivo de Coffea Canephora, uma ação que visa aumentar a competitividade da produção cafeeira no estado.
Canephora
Com foco nas regiões Centro-Oeste, Oeste e Noroeste de São Paulo, o programa busca incentivar produtores a cultivar o grão Canephora. Em resumo, ele é mais resistente a altas temperaturas e com demanda crescente no mercado nacional e internacional. Ou seja, nova iniciativa pode fomentar o desenvolvimento agrícola sustentável e a geração de empregos e renda no campo.
Aposta da expansão do cultivo do café no estado
Tradicionalmente, São Paulo destacou-se como produtor de café arábica no Brasil, mas agora aposta na produção de Canephora para aumentar sua participação no setor cafeeiro. O programa é resultado de uma colaboração entre a Secretaria de Agricultura e a Câmara Setorial do Café, além de apoio técnico de instituições como a APTA, CATI e ITESP.
“O envolvimento do setor público com a iniciativa privada é uma prioridade para o governo paulista. Nossa expectativa é de uma cafeicultura mais resiliente, sustentável e adaptada às mudanças climáticas”, afirmou o secretário de Agricultura Guilherme Piai.
O Programa Estadual de Incentivo ao Cultivo de Coffea Canephora inclui várias diretrizes para estimular a produção sustentável do grão no estado. Entre as metas, destacam-se a validação e difusão de tecnologias específicas para o cultivo do Canephora em condições edafoclimáticas da região Oeste paulista. Outro foco é a produção de mudas de alta qualidade genética e fitossanitária para garantir a sustentabilidade dos cultivos.
Além disso, a Secretaria pretende implementar áreas piloto e vitrines tecnológicas, além de capacitar técnicos e produtores por meio de palestras, treinamentos e dias de campo.
Café Canephora
O café Canephora, que inclui as variedades conilon e robusta, representa cerca de 40% da produção mundial de café, com o Vietnã liderando a exportação global. No Brasil, a produção de Canephora está em expansão, especialmente nos estados do Espírito Santo, Bahia e Rondônia, que atualmente representam 30% do mercado interno de café. Com o novo programa, São Paulo almeja tornar-se uma referência também na produção desse tipo de grão.
A demanda mundial pelo Canephora, especialmente no mercado de café solúvel e blends, está em crescimento. Com maior produtividade e preço competitivo em relação ao arábica, a produção de Canephora se torna uma alternativa viável para os produtores paulistas, segundo dados da Conab.
Lançamento do programa
O lançamento oficial do Programa Estadual de Incentivo ao Cultivo de Coffea Canephora acontecerá no Instituto Biológico, na Vila Mariana, em São Paulo, às 14h. A programação inclui atividades como plantio de mudas, palestras sobre as diretrizes do programa e apresentações de especialistas do setor.
O evento reunirá produtores, técnicos e representantes do setor privado para discutir desafios e oportunidades na produção do café Canephora em São Paulo. Ou seja, o objetivo é fortalecer a integração e o desenvolvimento de uma cafeicultura sustentável e competitiva.