Pesquisadores registraram pela primeira vez na costa leste da Austrália, golfinhos usando grandes conchas como ferramenta para capturar peixes. O comportamento foi observado no Great Sandy Marine Park, em Queensland.
A técnica consiste em perseguir um peixe até que ele entre em uma concha vazia no fundo do mar. Em seguida, o golfinho leva o objeto até a superfície e o sacode para retirar a água. Com o movimento, o peixe desliza para dentro da boca do animal.
Os registros foram feitos entre julho e outubro de 2025 por pesquisadores da University of the Sunshine Coast. O estudo foi publicado na revista científica Marine Mammal Science em agosto de 2026.
O comportamento, conhecido como shelling, já havia sido observado em golfinhos da costa oeste da Austrália.
No novo registro, os pesquisadores identificaram a mesma estratégia na costa leste do país. O fato chama atenção porque indica que populações de golfinhos em regiões diferentes podem ter desenvolvido técnicas semelhantes de maneira independente.
A bióloga Alexis Levengood, especialista em comportamento animal e mamíferos marinhos da UniSC e autora principal do estudo, presenciou o primeiro caso durante uma saída de barco para pesquisa.
“Eu vi um golfinho levando um objeto grande para fora da água e percebi que se tratava de uma concha.”
Filhote pode ter aprendido a técnica com a mãe
O segundo registro foi considerado ainda mais relevante pelos pesquisadores.
Uma fêmea adulta foi observada emergindo da água com uma concha na boca. O peixe conseguiu escapar e o animal abandonou o objeto para continuar a perseguição.
Poucos minutos depois, o filhote pegou a mesma concha e a segurou de maneira semelhante à observada na mãe.
Para os pesquisadores, a cena representa uma possível evidência de aprendizagem social entre mãe e filhote
A observação, por si só, não permite afirmar que houve ensino deliberado. No entanto, o comportamento é interpretado como um possível caso de transmissão social porque o filhote teve contato direto com a ação realizada pela mãe.
O movimento na praia começa cedo. Homens e mulheres se posicionam às margens do estuário com tarrafas e redes, aguardando o momento certo. Então eles aparecem: um a um, com barbatanas e dorsos cinzentos, saltando para indicar com precisão onde está o cardume. É nesse pacto entre humanos e cetáceos que vive a Pesca com Botos. E desde esta semana essa prática integra oficialmente o Patrimônio Cultural Brasileiro.
Foto: Iphan
O Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) aprovou o registro durante o segundo dia da 112ª Reunião Ordinária do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. A atividade entrou no Livro dos Saberes, categoria que reconhece conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.
Um registro além do humano
O conselheiro Bernardo Issa, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, relatou o parecer favorável ao registro. O documento destaca a profundidade histórica da prática, sua complexidade socioecológica e seu valor simbólico. “Trata-se de um saber-fazer tradicional enraizado em territórios específicos, transmitido entre gerações e continuamente recriado pelas comunidades que dele participam”, afirma o texto.
O parecer vai além: aponta que esse registro amplia os limites do patrimônio cultural para além do humano, “em sintonia com as demandas socioambientais do presente e as novas éticas não-antropocêntricas de coabitação entre espécies”.
Para o presidente do Iphan, Leandro Grass, o ineditismo do registro está na junção dos olhares social, ambiental e biossocial. “É um chamado a um pensamento holístico, sistêmico, sustentabilista acerca do Patrimônio Cultural, comprometido com esse momento da história em que a humanidade precisa decidir se vai se destruir ou se vai permitir àqueles que ainda não nasceram viver dignamente”, declarou.
Botos com nome e história
A pesca cooperativa não acontece com animais anônimos. Cada boto tem nome, geralmente ligado às suas características físicas ou comportamentais. Taffarel era pulador como o jogador homônimo. O Alumínio brilhava tanto sob o sol que lembrava o metal. O Lobisomem recebeu esse apelido por causa da nadadeira comprida.
A morte de um boto abala toda a comunidade. O Lobisomem e a Caroba, mortos em 2005 e 2022, causaram comoção. A partida da Caroba, a fêmea mais velha de Laguna, motivou a criação de um santuário em homenagem aos animais que já se foram.
O pescador artesanal Reinaldo Florentino não esconde a preocupação com o futuro. “Se não resolvermos o habitat dos botos, todos vão morrer. São 16 ou 18 botos que interagem hoje com o pescador. Daqui a seis anos não vai existir mais botos, só em fotos. Quando morre um boto, a gente chora. Parece um membro da família. Eu conheço um por um: a Borracha, a Princesa, a Jade, o Fúria, o Natalino, o Cabeça-Feia, a Pomba”, disse emocionado.
O alerta de Florentino tem respaldo científico. Em 2025, a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) reclassificou o boto-de-Lahille, a espécie envolvida na pesca colaborativa, de vulnerável para em perigo de extinção. A população mundial total estimada é de apenas cerca de 330 indivíduos, a maioria no litoral sul do Brasil.
Como funciona a pesca
A prática ocorre em quatro sistemas estuarinos entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os locais de maior frequência são a foz do Rio Tramandaí (RS) e o Complexo Lagunar Sul de Santa Catarina, próximo a Laguna. Ocasionalmente, acontece também nos estuários dos rios Mampituba (RS) e Araranguá (SC).
Foto: Iphan
A temporada concentra-se nos meses de maio, junho e julho. Os pescadores se reúnem no estuário e aguardam o sinal dos botos, que direcionam o cardume e o encurralam diante dos humanos. Quando o momento chega, o boto salta, alguns até emitem sons, sinalizando a hora de lançar a rede.
O processo exige técnica e conhecimento específico: os botos fazem inúmeros movimentos e cabe ao pescador identificar quando o animal está de fato auxiliando a pesca. Somam-se a isso saberes sobre ventos, marés, hábitos dos peixes e geografia local.
A prática já era patrimônio imaterial de Santa Catarina, reconhecida pela Fundação Catarinense de Cultura desde 2018. Agora, é patrimônio de todo o Brasil.
O programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP) financia projetos estratégicos que monitoram espécies terrestres e marinhas ameaçadas na região. As iniciativas fortalecem Unidades de Conservação e ampliam o conhecimento científico sobre a biodiversidade local.
O MegaCoast-PR, que a Associação MarBrasil coordena, acompanha a megafauna marinha, incluindo golfinhos, baleias, tartarugas, aves e tubarões. O projeto One Blue Health avalia a saúde dos ecossistemas através de análises integradas de fauna, ambiente e seres humanos. Em terra, o Monitora Serra do Mar observa grandes mamíferos e aves ameaçadas, como onça-pintada, anta, queixada, puma, veado, cateto, macuco, inhambus, urus e jacutinga, além de monitorar o ecossistema de Floresta Atlântica.
Região abriga patrimônio natural da humanidade
O litoral paranaense representa uma das regiões mais singulares do Brasil. A Unesco reconhece a área como Patrimônio Natural da Humanidade. O território abriga áreas Ramsar, sítios de relevância internacional para conservação de áreas úmidas, e integra a Grande Reserva Mata Atlântica — maior remanescente protegido do bioma no mundo, com quase 3 milhões de hectares de áreas naturais, florestas, manguezais e águas costeiras preservadas no Paraná, Santa Catarina e São Paulo.
A região funciona como berçário, área de alimentação e rota migratória para espécies raras, endêmicas e ameaçadas.
“A região abriga espécies que só ocorrem aqui, como o papagaio-de-cara-roxa, uma ave endêmica do litoral norte do Paraná e sul de São Paulo. Também serve de rota para baleias-francas, golfinhos, tubarões-martelo, raias-manta e aves migratórias que vêm da Antártica e da Europa”, explica Camila Domit, pesquisadora do Laboratório de Ecologia e Conservação (LEC) da UFPR e da Associação MarBrasil, coordenadora do projeto MegaCoast-PR.
A Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) protege o papagaio-de-cara-roxa há mais de 20 anos e conseguiu reverter a tendência de desaparecimento da espécie.
DNA ambiental revoluciona monitoramento marinho
O projeto MegaCoast emprega DNA ambiental, metodologia inovadora que revoluciona o monitoramento de espécies marinhas. Os pesquisadores coletam amostras de água e identificam, por meio de fragmentos genéticos presentes no líquido, quais espécies de animais ou microrganismos circulam naquele ecossistema.
O método já detectou bactérias que sinalizam riscos não apenas para a fauna, mas também para a saúde humana.
“Detectamos bactérias com alta resistência a antibióticos, o que levanta questões sobre a relação entre saúde do ecossistema, da fauna e dos humanos. Golfinhos compartilham conosco a cadeia alimentar e funcionam como sentinelas da saúde ambiental. Quando eles adoecem, nós também ficamos vulneráveis”, afirma Camila Domit.
Rastreamento acústico conecta Paraná a rede nacional
O MegaCost-PR inova também com rastreamento acústico de animais marinhos, em parceria com o LEC/UFPR e o Projeto Meros do Brasil. A iniciativa conecta o Paraná a uma rede de telemetria que se estende do Norte ao Sul do país.
Foto: Divulgação
O sistema permite identificar áreas prioritárias para conservação e acompanhar trajetos de espécies migratórias ameaçadas, como peixes ósseos, tubarões, raias e tartarugas marinhas. Essas informações subsidiam políticas públicas brasileiras e convenções internacionais das quais o Brasil participa, como a Comissão de Espécies Migratórias (CMS).
Ciência cidadã aproxima comunidade da conservação
O projeto incentiva a participação popular no monitoramento. “Qualquer pessoa pode contribuir registrando avistagens de golfinhos, baleias e tartarugas em nosso site ou comunicando via perfil de mídia social @lecufpr. A ciência cidadã colabora com o monitoramento e aproxima comunidades pesqueiras e litorâneas do processo de construção do conhecimento regional da biodiversidade”, completa a pesquisadora.
O diálogo com comunidades tradicionais e pescadores artesanais locais também ajuda a mitigar conflitos pelo uso de áreas comuns entre espécies ameaçadas e atividades econômicas. “As mesmas áreas de alta produtividade pesqueira servem de alimentação para fauna marinha. Mapeamos essas sobreposições e construímos, junto com as comunidades, soluções que conciliem direitos e usos, integrando conservação, aspectos culturais e segurança alimentar”, explica Camila.
Grandes mamíferos desaparecem da Mata Atlântica
A floresta litorânea também emite sinais de alerta. O Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, que reúne diferentes iniciativas voltadas à conservação de espécies-chave da Mata Atlântica, inclui o projeto Monitora Serra do Mar. O BLP apoia a iniciativa, que o IPeC – Instituto de Pesquisas Cananeia executa com o Instituto Manacá.
O projeto acompanha quatro espécies emblemáticas: onça-pintada, onça-parda, anta e queixada. Todas enfrentam ameaças na Mata Atlântica, sendo que três delas já aparecem classificadas como “criticamente ameaçadas” no Paraná.
“A anta praticamente desapareceu das florestas de terras baixas do litoral, e a onça-pintada mantém hoje uma população muito baixa, restrita a áreas remotas da Serra do Mar”, alerta Roberto Fusco, coordenador do projeto Monitora Serra do Mar.
Espécies funcionam como sentinelas ambientais
Especialistas consideram essas espécies como sentinelas ambientais. Por serem mais vulneráveis à caça e à perda de habitat, esses animais desaparecem primeiro, indicando assim a qualidade de conservação de uma floresta. Além disso, são espécies-guarda-chuva: sua proteção garante a conservação de diversos outros organismos e do próprio habitat.
Apesar do cenário crítico, Fusco vê sinais de esperança. “Em áreas com fiscalização intensiva, identificamos indícios de recuperação. Esses dados nos permitem recomendar regiões estratégicas para reforço populacional, com solturas de antas e queixadas. No caso da onça-pintada, os desafios logísticos e genéticos são maiores, mas não descartamos essa possibilidade”.
Plataforma SMART digitaliza monitoramento
As novas ferramentas de monitoramento formam parte central da estratégia de conservação que o BLP apoia. Uma delas é o SMART (Spatial Monitoring and Reporting Tools), plataforma que dezenas de países usam e que digitaliza e padroniza dados de campo. O sistema permite que patrulhas registrem em tempo real desde avistamentos de fauna até atividades ilícitas como caça e extração de palmito.
Foto: Divulgação
No Paraná, essa tecnologia se integrou ao Programa Monitora, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), iniciativa nacional que coleta e analisa informações sobre biodiversidade em UCs de todo o país. Em parceria com o Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, gestores de UCs da região receberam treinamento para aplicar o SMART, utilizar armadilhas fotográficas e sistematizar dados na produção de indicadores sobre médios e grandes mamíferos ameaçados de extinção e alvos de caça ilegal.
Comunidades locais reforçam fiscalização
Essa integração fortaleceu a fiscalização e o manejo da biodiversidade e abriu espaço para o engajamento da sociedade. “Ao capacitar comunidades locais para usar essas ferramentas, consolidamos Agentes de Monitoramento que reforçam a fiscalização, ampliam a intolerância à caça ilegal e ainda geram renda”, explica Roberto Fusco.
Para Camila Domit, o diálogo que nasce a partir desses resultados também é político. “Os dados do projeto devem orientar gestores públicos, empreendedores e órgãos licenciadores. Trata-se de qualificar as metodologias de monitoramento, reduzir custos e, sobretudo, harmonizar os diferentes usos do território sem perder de vista a vida que depende dele”.
Programa transforma passivo ambiental em investimento
O Programa Biodiversidade Litoral do Paraná surgiu em 2021 e promove conservação, pesquisa e uso responsável dos recursos naturais, fortalecendo Unidades de Conservação e impulsionando o desenvolvimento sustentável do litoral paranaense.
O Termo de Acordo Judicial (TAJ), firmado após o vazamento de óleo ocorrido em 2001, financia o Programa. A iniciativa transformou um passivo ambiental em investimento histórico em conservação: mais de R$ 110 milhões destinados a iniciativas estratégicas ao longo de dez anos.