Tag: Glifosato

  • Cientistas revelam truque simples para evitar que abelhas invadam ninhos errados

    Cientistas revelam truque simples para evitar que abelhas invadam ninhos errados

    Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Universidade de Bristol, no Reino Unido, comprovaram que mudanças simples e de baixo custo diminuem os erros de navegação de abelhas-sem-ferrão dentro dos meliponários.

    A proximidade e a semelhança visual entre os ninhos confundem as operárias, que às vezes entram na colônia errada ao voltar do campo, um fenômeno conhecido como drifting.

    O erro parece inofensivo à primeira vista, mas, quando se repete com frequência, o drifting favorece a disseminação de patógenos, parasitas e até resíduos de defensivos agrícolas entre as colônias. Isso compromete a saúde dos ninhos e reduz a produção de mel.

    Ana Paula Cipriano, doutoranda da universidade britânica e integrante do Bristol Bee Group, conduz a pesquisa sob supervisão do professor Christoph Grüter e coorientação do pesquisador da Embrapa Meio Ambiente Cristiano Menezes.

    A equipe avaliou duas espécies brasileiras de abelhas-sem-ferrão, a Scaptotrigona depilis e a Melipona quadrifasciata, ambas polinizadoras importantes de culturas agrícolas.

    Pequenas mudanças, grandes resultados

    Os testes compararam diferentes configurações de caixas de M. quadrifasciata, a abelha mandaçaia. Quando todos os ninhos tinham a mesma cor e as entradas apontavam para a mesma direção, a taxa de drifting chegou a 59,5%. Ao manter as caixas iguais e apenas alternar a orientação das entradas, o índice caiu para 48,1%. Já quando os pesquisadores pintaram as caixas com cores distintas, mantendo as entradas voltadas para o mesmo lado, a taxa recuou para 37,6%.

    As caixas coloridas reduziram o drifting em 21,9% na comparação com o arranjo tradicional, enquanto a alternância na direção das entradas cortou os erros em 11,4%.

    Segundo os pesquisadores, a orientação das abelhas depende não só da distância entre os ninhos. Mas também de referências visuais e espaciais usadas no retorno à colônia.

    “É a primeira vez que analisamos o efeito do arranjo dos meliponários sobre o comportamento de drifting. Apenas pintando as caixas ou invertendo a orientação das entradas já observamos uma redução significativa dos erros de navegação.”

    A descoberta abre caminho para benefícios práticos entre os meliponicultores. Além de reduzir a circulação de doenças e parasitas entre colônias, o uso de pistas visuais e diferentes orientações facilita o manejo dos ninhos em espaços reduzidos.

    “Esse resultado mostra que não é apenas a distância entre as caixas que reduz o drifting. As abelhas também utilizam pistas visuais e a orientação das entradas para encontrar sua colônia. Isso pode facilitar a organização dos meliponários e até a extração de recursos produzidos pelas abelhas, como o mel”, acrescenta o pesquisador.

    Tecnologia acompanha o voo das abelhas

    Outra frente do estudo emprega microetiquetas de radiofrequência, tecnologia ainda pouco explorada no Brasil para pesquisas com abelhas-sem-ferrão de pequeno porte. Fabricadas na Alemanha, as micro tags grudam individualmente no dorso dos insetos e representam cerca de 11% do peso corporal das abelhas.

    Os sensores registram horários de saída e retorno, duração dos voos, frequência de entradas em colônias vizinhas e períodos de maior atividade. Os pesquisadores cruzam essas informações com dados ambientais, como temperatura e umidade.

    Cipriano explica que o objetivo é entender como diferentes estressores, químicos e ambientais, interferem na capacidade de orientação das abelhas e aumentam a chance de elas confundirem as colônias.

    “Quando isso acontece com frequência, o drifting deixa de ser um evento isolado e passa a representar um risco coletivo”, constata.

    Pesticidas alteram o comportamento dos insetos?

    Entre fevereiro e abril de 2025 e 2026, os pesquisadores avaliaram também os efeitos do inseticida imidacloprido e do herbicida glifosato, dois produtos amplamente usados na agricultura. A equipe expôs as abelhas S. depilis a doses realistas, compatíveis com as encontradas em condições de campo.

    Os resultados preliminares, ainda não publicados, mostram que a exposição química altera o padrão de voo das operárias. Mesmo quando retornam aos ninhos, elas realizam menos viagens e permanecem menos tempo em atividade.

    “Com os pesticidas, elas continuam errando, mas passam a fazer menos viagens. Quando combinamos inseticida e glifosato, observamos viagens pelo menos 34% mais curtas”, observa Cipriano.

    Os dados mostram que a orientação das abelhas depende da distância entre os ninhos e também de referências visuais e espaciais durante o retorno à colônia (Foto: Ana Paula Cipriano/Embrapa)

    Além da desorientação, a redução no número e na duração das viagens pode significar menor entrada de alimento nos ninhos.

    Na próxima etapa, os pesquisadores pretendem recapturar as abelhas monitoradas para avaliar peso corporal, quantidade de pólen transportado, qualidade do néctar e possíveis reflexos sobre a nutrição das colônias.

  • Bayer fecha acordo bilionário sobre Roundup: o que muda para o agro

    Bayer fecha acordo bilionário sobre Roundup: o que muda para o agro

    A Bayer, por meio de sua controlada Monsanto, anunciou um acordo coletivo de até US$ 7,25 bilhões (cerca de R$ 38 bilhões) para resolver dezenas de milhares de processos nos Estados Unidos que acusam o herbicida Roundup de causar linfoma não Hodgkin em usuários. O pacote ainda precisa ser aprovado por um tribunal em St. Louis, Missouri. E foi apresentado como uma tentativa de “virar a página” após anos de litígios que afetaram fortemente o valor de mercado da companhia.

    Segundo a proposta, a indenização cobriria tanto casos atuais quanto futuras reivindicações de pessoas que tenham utilizado o produto até uma data de corte em 2026. Criando um fundo com pagamentos anuais decrescentes por até 21 anos. A Bayer afirma que o acordo busca dar previsibilidade financeira ao grupo. Além de reduzir a incerteza jurídica que paira sobre o negócio de glifosato nos EUA.

    Como funciona o acordo coletivo do Roundup

    O acordo foi estruturado como um programa nacional de compensação para usuários de Roundup diagnosticados com linfoma não Hodgkin. Sobretudo aplicadores residenciais, jardineiros, trabalhadores de manutenção e agricultores. A proposta prevê tabelas de pagamento com faixas de valores baseadas em critérios como tipo de câncer, idade, tempo de uso e intensidade de exposição ao herbicida.

    Os participantes poderão aderir ao programa ou optar por ficar de fora e seguir com ações individuais, preservando a possibilidade de buscar veredictos de júri em tribunais estaduais. A Bayer já havia fechado, em anos anteriores, acordos que somam cerca de US$ 11 bilhões para resolver aproximadamente 100 mil ações. E agora tenta encerrar um novo bloco de cerca de 67 mil processos pendentes com esse pacote de US$ 7,25 bilhões.

    Roundup, glifosato e a controvérsia sobre câncer

    O Roundup é um herbicida à base de glifosato, substância que se tornou pilar no manejo de plantas daninhas em sistemas com soja, milho e algodão tolerantes ao produto, além de ser amplamente usado em áreas não agrícolas. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS, classificou o glifosato como “provavelmente carcinogênico para humanos” (grupo 2A), destacando evidências limitadas em humanos e suficientes em animais.

    Essa avaliação foi um gatilho importante para a onda de processos nos EUA, que acusam a Monsanto de falha em alertar adequadamente consumidores e trabalhadores sobre o possível risco de câncer. Por outro lado, agências reguladoras como a EPA, nos Estados Unidos, têm mantido a posição de que o uso de glifosato dentro das recomendações de rótulo não apresenta risco inaceitável à saúde. Portanto, criando um contraste entre avaliações de risco regulatórias e estudos independentes citados nos tribunais.

    Impactos para o agro: riscos, custos e oferta de glifosato

    Para a agricultura, o acordo não significa, ao menos por enquanto, o fim do Roundup ou do glifosato. Mas sinaliza que o risco jurídico dessa molécula passou a ser um fator estratégico no planejamento de médio e longo prazo. A Bayer já retirou o glifosato das formulações de Roundup para o mercado residencial nos EUA a partir de 2023, substituindo por outros ingredientes, em uma decisão explicitamente motivada por gestão de risco jurídico, não por nova evidência de segurança.

    No segmento agrícola, porém, o glifosato continua sendo uma das principais ferramentas de controle de plantas daninhas. E é peça-chave em sistemas de plantio direto e agricultura conservacionista. Analistas alertam que qualquer movimento da Bayer de reduzir a produção de glifosato poderia retirar até cerca de 40% da capacidade global. Assim, pressionando a oferta, aumentando a dependência de fabricantes asiáticos e elevando custos para produtores.

    O que o produtor brasileiro deve observar

    No Brasil, o glifosato segue autorizado, com regras específicas de registro, limites máximos de resíduos e classificações toxicológicas definidas por Anvisa e demais órgãos reguladores. Dados recentes mostram que produtos à base de glifosato continuam entre os defensivos com novas autorizações de registro. Inclusive em formulações de diferentes sais e marcas genéricas, reforçando a importância econômica do ingrediente para o agro brasileiro.

    Apesar de o acordo da Bayer estar focado no mercado dos EUA, ele tende a alimentar o debate global sobre segurança de herbicidas, transparência em rotulagem e responsabilidade das empresas no gerenciamento de risco. Para o produtor, pontos de atenção incluem:

    • acompanhar mudanças regulatórias,
    • diversificar estratégias de manejo de plantas daninhas (para reduzir dependência de uma única molécula),
    • cobrar clareza de informações de risco dos fornecedores
    • se atentar ao uso correto de EPIs e às recomendações de bula.
  • Glifosato em plantações gera problemas respiratórios em comunidades da Amazônia

    Glifosato em plantações gera problemas respiratórios em comunidades da Amazônia

    Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) revelou um cenário alarmante no Baixo Tapajós, região amazônica onde plantações de soja em terras griladas estão expulsando comunidades tradicionais através do que especialistas chamam de “sufocamento”. O estudo, publicado na revista científica Environment and Planning E: Nature and Space, documenta os impactos do uso de agrotóxicos sobre indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

    Durante 18 meses de trabalho etnográfico, o pesquisador Fabio Zuker, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, investigou como a aplicação intensiva de glifosato em monoculturas de soja está provocando dificuldades respiratórias, problemas alimentares e prejuízos econômicos às populações locais.

    Impactos diretos na saúde das comunidades

    O fenômeno do sufocamento acontece de forma literal e metafórica, segundo o pesquisador. “Literalmente, as pessoas não conseguem respirar devido à intensa aplicação de agrotóxicos. Elas se trancam em suas casas, relatando dificuldade para respirar”, explica Zuker.

    Do ponto de vista metafórico, o sufocamento representa a supressão da capacidade dessas comunidades manterem suas tradições, produções e relações com o território. O estudo mostra como o uso de agrotóxicos em terras griladas funciona como estratégia de expulsão das populações tradicionais da Amazônia.

    O mito do vazio amazônico

    A pesquisa questiona o imaginário de que a região amazônica estaria desocupada. Zuker demonstra que esse “vazio” é produzido intencionalmente, e não uma característica natural da floresta. “A ideia é que o vazio na Amazônia é produzido, e não natural. Foi criado ao longo da história, desde a Marcha para o Oeste no governo Vargas até o Plano de Integração Nacional da ditadura militar”, contextualiza o pesquisador.

    Segundo o estudo, pequenos fragmentos de mata e comunidades remanescentes criam uma “farsa” que esconde a real dimensão da devastação. Da beira das estradas, trechos de floresta mascaram os vastos campos de soja que dominam a paisagem.

    Beto, morador e trabalhador rural da região, relatou ao pesquisador: “Só tem umas casinhas ali, na beira da estrada. E nada mais. Antes havia uma comunidade grande aqui. Só umas árvores ali. É tudo soja atrás”.

    Grilagem e expansão do agronegócio

    O trabalho evidencia como a expansão do agronegócio na Amazônia está associada à grilagem de terras e ao uso indiscriminado de agrotóxicos, como o glifosato. A aplicação de glifosato em plantações de soja funciona como instrumento de morte química induzida, segundo a pesquisa.

    Os fragmentos florestais que sobrevivem são descritos como “bolhas” que restam aqui e ali, disfarçando a extensão real do desmatamento e da monocultura na região do Baixo Tapajós.

    Resistência dos povos tradicionais

    Apesar da violência, o estudo destaca processos de resistência dessas comunidades. “O que está colocado em jogo é uma tensão entre forças que levam à violência e ao apagamento, e a resistência constante de coletivos indígenas, quilombolas e ribeirinhos”, afirma Zuker.

    O pesquisador trabalhou especialmente com os tupinambás do Baixo Tapajós, resgatando a ideia de um “território vivo” em contraposição ao vazio. Nessa concepção, múltiplos seres não humanos têm papel fundamental na defesa territorial e na manutenção da biodiversidade.

    “Todos esses encantados, esses outros seres que compõem esse território de múltiplas formas de vida, não somem. Eles têm a possibilidade de reaparecer”, explica o pesquisador, referindo-se aos processos de retomada e mobilização contra o avanço do agronegócio.

    Propostas de solução

    Zuker defende que o desenvolvimento humano nas comunidades amazônicas deve ocorrer com a floresta em pé. “Nada indica que o desmatamento seja um caminho importante para que exista uma melhoria na vida dessas pessoas”, afirma.

    Entre as soluções propostas estão:

    • Melhores práticas regulatórias e fiscalização no uso de agrotóxicos.
    • Proibição da comercialização no Brasil de agrotóxicos vetados em seus países de origem.
    • Diálogo entre diferentes setores para promover respeito à existência ecológica e ao conhecimento local.

    O pesquisador alerta para a dificuldade de produzir conhecimento sobre os efeitos de substâncias invisíveis que agem no longo prazo, especialmente quando há repressão por parte de grupos com poder político e econômico na região.

    Complementaridade entre diferentes áreas do conhecimento

    O estudo representa um esforço de documentação que une ciências sociais e outras áreas do saber. “Junto com análises de ciências sociais, conseguimos demonstrar também a partir de narrativas, de histórias de vida, de casos, um padrão de violência local”, explica Zuker.

    Essa abordagem multidisciplinar evidencia a dimensão dos danos que os agrotóxicos como o glifosato causam em comunidades tradicionais da Amazônia e ajuda a combater o imaginário colonial de vazio que justifica a ocupação violenta desses territórios.

    O artigo científico completo está disponível na revista Environment and Planning E: Nature and Space.

    Com informações de Jean Silva, do Jornal da USP, em matéria que que pode ser acessada aqui.

  • Vendas de agrotóxicos sobem, mas glifosato perde força

    Vendas de agrotóxicos sobem, mas glifosato perde força

    O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) divulgou os números completos da comercialização de agrotóxicos e bioinsumos no país em 2024. Os dados revelam um mercado em transformação, com o crescimento simultâneo das vendas de produtos químicos e de alternativas biológicas.

    No ano passado, o Ibama processou 7.358 relatórios de 289 empresas, que declararam informações sobre 6.100 marcas comerciais. As vendas totais de agrotóxicos químicos apresentaram alta, principalmente nos produtos técnicos, um movimento que um aumento significativo nas importações também impulsionou.

    Glifosato lidera, mas perde espaço; mercado vê movimentações

    O herbicida glifosato e seus sais mantiveram a primeira posição no ranking de ingredientes ativos mais vendidos, com 231,9 mil toneladas comercializadas. No entanto, o volume representou uma redução frente ao ano anterior.

    O fungicida mancozebe assumiu a segunda colocação, com um salto de vendas de 52,3 mil para 75,1 mil toneladas. Herbicidas como 2,4-D e acefato também mantiveram posições altas e registraram crescimento. Entre as mudanças mais notáveis, o glufosinato – sal de amônio subiu da oitava para a sexta posição, e o cletodim entrou no top 10, substituindo o dibrometo de diquate.

    Bioinsumos ganham força com nova legislação

    Os boletins evidenciaram um crescimento expressivo na produção e na comercialização de bioinsumos. O setor cresceu principalmente pelas vendas de produtos formulados a partir de agentes microbiológicos de controle.

    A partir de 2024, uma reorganização dos relatórios, conforme a Lei 15.070/2024, passou a separar os dados em quatro subcategorias: agentes biológicos, agentes microbiológicos de controle, produtos bioquímicos e produtos semioquímicos. Essa mudança desvinculou os produtos bioquímicos dos relatórios de agrotóxicos químicos, onde apareciam antes.

    Muitos registros não viram vendas

    A análise do Ibama aponta uma característica marcante do setor: uma grande parte dos produtos registrados não chega ao mercado. Em 2024, 58,6% das marcas comerciais de agrotóxicos químicos com registro válido e 13,6% dos ingredientes ativos não registraram nenhuma comercialização. Além disso, 47 empresas mantiveram registros de agrotóxicos químicos sem reportar qualquer atividade de venda.

    Metodologia e Limitações

    O Ibama ressalta que os dados têm origem em declarações das próprias empresas detentoras dos registros. A legislação protege informações sobre estoques, que portanto não são divulgadas. O órgão também alerta que eventuais inconsistências nos números podem surgir, com possibilidade de retificação futura.

    Os relatórios completos de 2024 estão disponíveis para consulta pública na página Relatórios de comercialização de agrotóxicos do site do Ibama.

  • Revista científica retira estudo sobre segurança do glifosato após 25 anos

    Revista científica retira estudo sobre segurança do glifosato após 25 anos

    A revista científica norte-americana Regulatory Toxicology and Pharmacology despublicou oficialmente um artigo de 2000 que defendia a segurança do glifosato, agrotóxico mais utilizado no mundo. A decisão expõe problemas éticos, falta de integridade científica e levanta dúvidas sobre os resultados da pesquisa que influenciou políticas regulatórias em diversos países, incluindo o Brasil.

    Gary M. Williams, Robert Kroes e Ian C. Munro assinaram o estudo publicado em abril de 2000, que concluía que o glifosato não representava risco de desenvolvimento de câncer em humanos. No entanto, documentos internos da Monsanto divulgados em 2017 durante processos judiciais nos Estados Unidos, conhecidos como “Monsanto Papers”, revelaram que funcionários da empresa ajudaram a redigir o artigo sem o devido reconhecimento como coautores.

    Em um e-mail de 2015, William Heydens, executivo da Monsanto, sugeriu repetir a estratégia adotada no artigo de 2000. “Uma opção seria manter os custos baixos fazendo nós mesmos a redação e eles apenas editariam e assinariam seus nomes, por assim dizer. Lembre-se que foi assim que lidamos com Williams, Kroes e Munro, 2000”, escreveu Heydens, segundo documentos judiciais.

    O editor-chefe da revista, Martin van den Berg, destacou em comunicado de dezembro de 2025 várias “preocupações” e “problemas críticos” no estudo. Entre eles, a falta de clareza sobre os verdadeiros autores do texto e a ausência de menção ao envolvimento de funcionários da Monsanto, atualmente parte do grupo Bayer, na redação do artigo.

    O artigo também baseou suas conclusões exclusivamente em estudos não revisados por pares e fornecidos pela própria Monsanto. Portanto, ignorando pesquisas já publicadas à época que contradiziam suas conclusões. Além disso, investigações indicam que os autores podem ter recebido compensações financeiras não divulgadas da empresa.

    Estudo influenciou regulamentação do glifosato no Brasil e no mundo

    A pesquisa exerceu influência significativa em debates regulatórios sobre o uso de agrotóxicos globalmente. No Brasil, o artigo foi um dos estudos científicos citados no processo de reavaliação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que manteve a substância autorizada no país. O processo iniciou em 2008 e concluiu em 2019, quando a Anvisa determinou que o agrotóxico não causava prejuízos à saúde.

    Pesquisadores Alexander Kaurov, da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, e Naomi Oreskes, historiadora da ciência da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, solicitaram formalmente a retratação do artigo. Em análise publicada em setembro de 2024, eles descobriram que o artigo está entre os 0,1% mais citados na literatura acadêmica sobre glifosato.

    Van den Berg tentou, sem sucesso, obter esclarecimentos do único autor ainda vivo, Gary M. Williams. Robert Kroes faleceu em 2006 e Ian Munro em 2011. A despublicação seguiu uma análise cuidadosa das diretrizes do COPE (Committee on Publication Ethics), que regem o comportamento acadêmico.

    Anvisa utilizou estudo controverso na reavaliação do agrotóxico no Brasil

    O glifosato serve como base para mais de cem produtos disponíveis no mercado brasileiro, com uso em plantações agrícolas e também em jardins. Em 2015, durante o processo de reavaliação no Brasil, a IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer), ligada à OMS (Organização Mundial da Saúde), classificou a substância como “provavelmente cancerígena” em humanos.

    Procurada pela imprensa, a Anvisa informou que “qualquer consideração seria necessário a avaliação da área técnica”. E destacou que o artigo em questão “não foi o único dado, pesquisa ou informação utilizada para avaliação da Anvisa”. A agência afirmou que, para o processo de reavaliação, analisa um conjunto extenso de dados e estudos relacionados ao tema.

    Karen Friedrich, toxicologista do Grupo Temático de Saúde e Ambiente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), observa que a prática de “ghostwriting” aparece diversas vezes nos Monsanto Papers. Indicando que funcionários da Monsanto teriam escrito outros artigos assinados posteriormente por cientistas e publicados em revistas científicas.

    Bayer afirma que glifosato é seguro e usado há mais de 40 anos

    A Bayer, em nota enviada à imprensa, afirmou que o glifosato tem sido usado “com segurança e sucesso em todo o mundo há mais de 40 anos”. A empresa declarou ainda acreditar que “o envolvimento da Monsanto foi adequadamente citado nos agradecimentos”. E que “o consenso entre órgãos reguladores em todo o mundo que conduziram suas próprias avaliações independentes baseadas no peso das evidências é que o glifosato pode ser usado com segurança conforme orientado e não é cancerígeno”.

    A Bayer adquiriu a Monsanto em 2018 por US$ 63 bilhões e herdou um passivo de mais de 67 mil processos judiciais nos Estados Unidos. Ações movidas por vítimas de câncer resultaram em bilhões de dólares em indenizações, e a empresa já pagou US$ 11 bilhões para resolver extrajudicialmente mais de 100 mil processos.

    Em janeiro de 2024, um júri da Pensilvânia condenou a Bayer ao pagamento de US$ 2,25 bilhões após concluir que a Monsanto “não alertou sobre os perigos” do Roundup. A empresa aguarda decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a admissibilidade de um novo recurso relacionado aos litígios do glifosato.

    Especialistas pedem nova reavaliação do produto no país

    Alan Tygel, membro da coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, afirma que a despublicação do artigo “coloca em xeque o próprio resultado da reavaliação da Anvisa”. Ele defende que a reavaliação de agrotóxicos no Brasil deve ser iniciada quando há informações científicas novas sobre os produtos que estão em uso. E propõe que a venda desses agrotóxicos seja liminarmente suspensa para proteger a saúde das pessoas.

    Karen Friedrich também defende que “a Anvisa deveria colocar o glifosato em reavaliação novamente, porque as pessoas estão adoecendo e morrendo por conta desse agrotóxico”.

    A despublicação reforça as suspeitas sobre os danos da substância à saúde humana. E abre caminho para novos questionamentos à comercialização do produto no Brasil e no mundo. O advogado Brent Wisner, que representou vítimas em processos contra a Monsanto, classificou o estudo como “o exemplo por excelência de como empresas como a Monsanto podem minar fundamentalmente o processo de revisão por pares através de ghostwriting, seleção tendenciosa de estudos não publicados e interpretações enviesadas”.

  • Agricultura brasileira: os 5 defensivos agrícolas mais vendidos

    Agricultura brasileira: os 5 defensivos agrícolas mais vendidos

    O agronegócio brasileiro mantém-se como um dos maiores consumidores globais de defensivos agrícolas, com destaque para herbicidas, inseticidas e fungicidas.

    Em 2024, a área tratada com esses produtos atingiu 2,5 bilhões de hectares, um crescimento de 12,2% em relação a 2023, segundo dados do Sindiveg.

    No entanto, o valor de mercado recuou 6,6%, totalizando US$ 19,9 bilhões, reflexo de fatores cambiais e da redução nos preços dos produtos.

    Com base nos relatórios do Ibama e estudos setoriais, os ingredientes ativos mais comercializados em volume são:

    Glifosato e seus sais

    • Tipo: herbicida
    • Uso: controla plantas daninhas em culturas como soja, milho, cana-de-açúcar e café. Lidera o mercado há anos, representando cerca de 32% do total de ingredientes ativos vendidos no país. Em 2024, foi crucial no manejo de invasoras em meio ao aumento da área plantada.

    2,4-D

    • Tipo: herbicida
    • Uso: amplamente aplicado em combinação com o glifosato para superar resistências de plantas daninhas, como buva e capim-amargoso. Destaca-se nas culturas de soja e milho.

    Mancozebe

    • Tipo: fungicida
    • Uso: proteção contra doenças fúngicas, como a ferrugem asiática da soja. Sua aplicação cresceu 15% em volume em 2024, impulsionada por condições climáticas favoráveis a patógenos.

    Acefato

    • Tipo: inseticida
    • Uso: controla pragas como percevejos e lagartas na soja e algodão. Mantém-se entre os mais vendidos devido à eficácia e custo acessível, despite preocupações regulatórias.

    Atrazina

    • Tipo: herbicida
    • Uso: utilizado principalmente nas culturas de milho e cana-de-açúcar, com ação residual no solo. Segue em alta devido à expansão do milho segunda safra.

    Distribuição por categorias e culturas

    Em 2024, os herbicidas lideraram o mercado, representando 45% do volume total, seguidos por inseticidas (23%) e fungicidas (23%). A soja foi a cultura que mais demandou defensivos, com 56% da área tratada, seguida por milho (16%) e algodão (8%). Regionalmente, Mato Grosso e Rondônia concentraram 28% das vendas, reforçando a vocação agrícola do Centro-Oeste.

    Essas são as tendências para 2025:

    • Crescimento moderado: projeta-se um aumento de 3% a 6% na área tratada, ultrapassando 2 bilhões de hectares. A soja deve manter sua dominância, com 55% do total.
    • Queda de preços: espera-se que a valorização do real e os estoques elevados pressionem os preços, reduzindo o valor de mercado.
    • Expansão de biológicos: os bioinsumos devem crescer 13% em 2025, impulsionados por demandas por sustentabilidade 11. Em 2024, esse mercado já movimentou R$ 5 bilhões.
    • Desafios fitossanitários: pragas como cigarrinha-do-milho, mosca-branca e lagartas continuarão a demandar aplicações intensivas, especialmente na soja e milho.

    Apesar do recorde em área tratada, o valor financeiro do mercado recuou para US$ 18 bilhões em 2024. Esse paradoxo reflete a concorrência internacional, com aumento das importações – especialmente da Europa – e a desvalorização do dólar. Além disso, o crescimento dos biodefensivos sinaliza uma transição gradual para modelos mais sustentáveis, alinhados às exigências globais.

    O panorama dos defensivos agrícolas no Brasil evidencia a dependência de produtos tradicionais, como glifosato e 2,4-D, mas também aponta para inovações em bioinsumos. Para os produtores, o desafio será equilibrar eficiência produtiva com sustentabilidade, enquanto o mercado se adapta a novas realidades econômicas e ambientais

  • Icafolin-metil: novo herbicida promete combater resistência de plantas daninhas

    Icafolin-metil: novo herbicida promete combater resistência de plantas daninhas

    A Bayer acaba de submeter pedidos de registro para seu novo herbicida Icafolin-metil na União Europeia. A empresa já havia protocolado solicitações no Brasil, Estados Unidos e Canadá. Este produto representa o primeiro mecanismo de ação inédito em mais de três décadas para controle pós-emergencial de plantas daninhas.

    O mercado global projeta vendas de aproximadamente € 750 milhões para o Icafolin. A Bayer planeja o lançamento comercial a partir de 2028. O Brasil será o primeiro país a receber o produto.

    O Icafolin pertence a uma classe química completamente nova. Suas propriedades únicas permitem aplicações com doses reduzidas e direcionamento específico. O produto também apresenta perfil excepcional de segurança ambiental.

    A molécula funciona como complemento ao glifosato e outros herbicidas existentes. Esta característica oferece solução inovadora contra a crescente resistência de plantas daninhas. O problema ameaça diretamente a produção global de alimentos.

    “As plantas daninhas ameaçam a segurança alimentar e a subsistência dos agricultores”, explica Mike Graham, líder global de P&D da divisão agrícola da Bayer. “Investir em inovações disruptivas como o Icafolin é vital para o futuro da agricultura.”

    Brasil receberá primeiro lançamento comercial em 2028

    A resistência de ervas daninhas avança globalmente nos últimos anos. Essas espécies competem com culturas agrícolas por luz, água e nutrientes. O resultado impacta negativamente o rendimento e a qualidade da produção.

    O Icafolin foi desenvolvido inicialmente para soja, cereais, leguminosas e oleaginosas. O produto também atende cultivos de frutas de caroço, pomar, nozes, uvas e cítricos.

    Você também pode gostar:

    + Agro em Campo: Entregas de fertilizantes no Brasil crescem 11,4% em 2025
    + Agro em Campo: Fruta brasileira supera banana em proteínas

    O mecanismo de ação único “congela” as plantas daninhas tratadas nos campos. Estas param de competir com as culturas, mas permanecem no local por mais tempo. A cobertura formada previne erosão e retém umidade no solo.

    Produto reduz necessidade de preparo do solo

    O controle eficaz de ervas daninhas diminui a necessidade de preparo mecânico do solo. Esta característica apoia práticas de agricultura regenerativa. O resultado melhora a saúde do solo a longo prazo.

    As propriedades intrínsecas do Icafolin favorecem aplicações localizadas. O produto também permite o uso de doses menores que herbicidas convencionais.

    Rachel Rama, vice-presidente global sênior da Bayer, destaca a importância da tecnologia CropKey. “Não estamos apenas respondendo aos desafios agrícolas atuais”, afirma. “Estamos sendo proativos e antecipando necessidades futuras.”

    Inteligência artificial acelera desenvolvimento

    O CropKey representa a abordagem inovadora de P&D da Bayer. A tecnologia otimiza formulações considerando múltiplas dimensões simultaneamente. Os critérios incluem eficácia, segurança, sustentabilidade e conveniência para o agricultor.

    A inteligência artificial acelera significativamente a jornada do conceito ao mercado. Esta velocidade permite que agricultores tenham acesso mais rápido a produtos eficazes e ambientalmente responsáveis.

    O Icafolin é o primeiro produto desenvolvido completamente com a metodologia CropKey. A tecnologia continuará acelerando o desenvolvimento de moléculas futuras. O foco será proteínas específicas em plantas daninhas, pragas e doenças de cultivos.

    Após o lançamento no Brasil em 2028, a Bayer prevê comercializar o Icafolin nos Estados Unidos, Canadá, União Europeia e outras regiões. A expansão global ocorrerá nos anos subsequentes.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Potência mundial – Brasil registra mais de 43 mil marcas de cervejas

    + Agro em Campo: China abre mercado para 183 empresas brasileiras de café

  • Saiba por que uso de herbicidas cresceu 128% no Brasil

    Saiba por que uso de herbicidas cresceu 128% no Brasil

    O uso de herbicidas no Brasil aumentou 128% entre 2010 e 2020, segundo estudo da Embrapa Meio Ambiente com a UniRV. Ou seja, nesse período, o volume de ingredientes ativos passou de 157,5 mil para 329,7 mil toneladas por ano. 
    O crescimento expõe dois fatores preocupantes: a resistência das plantas ao glifosato e a ausência de alternativas sustentáveis.

    A área agrícola cresceu apenas 24% no mesmo intervalo, o que evidencia o uso intensivo de herbicidas.
    Segundo os pesquisadores, a perda de eficácia do glifosato levou à aplicação de outras moléculas químicas.
    A baixa oferta de bioherbicidas e métodos alternativos também contribuiu para a intensificação do uso químico.

    Certos compostos químicos cresceram muito. O cletodim subiu 2.672%, o triclopir, 953%, e o haloxifope, 896%.
    Outros também se destacaram: o diclosulam cresceu 561%, a flumioxazina, 531%, e o glufosinato, 290%.
    Já o herbicida 2,4-D teve alta de 233% no período analisado pelos pesquisadores.

    “O agricultor tenta manter o controle químico, mesmo com menor eficiência do glifosato”, explicou Robson Barizon, da Embrapa. Segundo ele, a combinação de moléculas é uma tentativa de superar a resistência das plantas a esse herbicida.

    Estudo comparou dados de vendas com a expansão agrícola

    A equipe usou dados do Ibama, com ajustes para adequação internacional. Os pesquisadores padronizaram as unidades de medida para comparar diferentes tipos de defensivos. Com isso, analisaram a relação entre o uso de herbicidas e a área plantada com soja e pastagens não degradadas.

    Os herbicidas se consolidaram como os defensivos mais usados no país, à frente de fungicidas e inseticidas.
    Isso ocorre porque os herbicidas são aplicados em todas as fases do calendário agrícola.
    Eles são usados desde o preparo do solo até o pousio, enquanto fungicidas e inseticidas têm uso restrito ao cultivo.

    Falta de alternativas amplia dependência dos químicos

    No Brasil, quase não existem no mercado opções de controle físico ou bioherbicidas disponíveis.
    Faltam, por exemplo, soluções com laser, água quente ou descargas elétricas adaptadas à agricultura tropical.
    Produtos com base em microrganismos ou extratos vegetais ainda não são acessíveis, apesar das pesquisas em andamento.

    “O domínio dos herbicidas não vem só da eficiência. Reflete a falta de opções biológicas no país”, disse Barizon.

    Resistência cresce e encarece o manejo das lavouras

    A resistência ao glifosato é hoje um dos maiores desafios da agricultura brasileira.
    O Brasil já registra 20 casos confirmados, envolvendo 12 espécies de plantas resistentes ao produto.
    Entre elas, destacam-se o capim-amargoso, a buva, o caruru e o capim-pé-de-galinha.

    O problema também atinge plantas voluntárias, como o milho resistente, que invade lavouras de soja em sucessão. Para contornar a resistência, produtores aplicam combinações ou sequências de herbicidas, o que aumenta os custos. “Isso exige maior conhecimento técnico e aumenta a carga química no ambiente”, alerta o pesquisador Sergio Procópio.

    Dois marcos consolidaram o uso do glifosato no país: o plantio direto nos anos 1990 e os transgênicos nos anos 2000. Em geral, essas tecnologias facilitaram o manejo, mas também intensificaram o uso repetido da mesma molécula. Portanto, a consequência foi o aumento da pressão seletiva e a seleção de espécies resistentes.

    A saída da mão de obra do campo também favoreceu o uso de produtos químicos. Com menos trabalhadores disponíveis, os produtores optaram por soluções rápidas e mecanizadas.

    Estudo propõe medidas para reduzir dependência química

    A Embrapa recomenda políticas públicas para apoiar a transição para um manejo mais sustentável. Entre as propostas estão o incentivo à pesquisa, capacitação técnica e certificações a produtores com menor uso químico.

    Veja as principais recomendações dos pesquisadores:

    • Ampliar os investimentos em bioherbicidas e controle físico de plantas.
    • Desenvolver nanoformulações que reduzam as doses aplicadas.
    • Criar políticas que incentivem a pulverização com sensores inteligentes.
    • Oferecer capacitação para o manejo integrado de plantas.
    • Estimular certificações que premiem quem usa menos defensivos.

    Atualmente, os herbicidas representam 59% do mercado de defensivos agrícolas no Brasil.
    Segundo os pesquisadores, essa dependência compromete a sustentabilidade no médio e longo prazo.
    “O futuro do controle de plantas exige um sistema equilibrado e menos dependente da química”, conclui Procópio.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Importadores de café correm contra o relógio nos EUA

    + Agro em Campo: Agro mineiro 2025: exportações batem recorde com US$ 9,8 bi

  • Uso de herbicidas no Brasil sobe 128% em uma década

    Uso de herbicidas no Brasil sobe 128% em uma década

    O Brasil registrou um aumento expressivo no consumo de herbicidas nos últimos 11 anos. De acordo com um estudo da Embrapa Meio Ambiente em parceria com a Universidade de Rio Verde, entre 2010 e 2020, as vendas saltaram de 157,5 mil para 329,7 mil toneladas anuais de ingredientes ativos. Esse avanço, de 128%, contrasta fortemente com o crescimento da área agrícola, que foi de 24% no mesmo período.

    A principal razão para esse aumento é a resistência crescente das plantas daninhas ao glifosato, o herbicida mais utilizado no país. Esse fenômeno silencioso impõe grandes desafios ao manejo agrícola, pois reduz a eficácia do controle químico tradicional, obriga a adoção de novas moléculas e eleva os custos de produção.

    Com o glifosato perdendo eficiência, agricultores passaram a recorrer a outros princípios ativos. Entre 2010 e 2020, algumas moléculas foram destaque pelo rápido crescimento no uso:

    • Cletodim: aumento de 2.672%
    • Triclopir: 953%
    • Haloxifope: 896%
    • Diclosulam: 561%
    • Flumioxazina: 531%
    • Glufosinato: 290%
    • 2,4-D: 233%

    Esses números refletem o esforço dos produtores em manter o controle químico como estratégia principal no campo, mesmo diante de plantas daninhas cada vez mais resistentes.

    Metodologia do estudo

    O levantamento utilizou dados oficiais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), ajustando para normas internacionais e excluindo produtos para uso não agrícola e adjuvantes exclusivos. Os herbicidas mais comuns foram convertidos em unidades equivalentes para padronização dos dados, considerando “equivalente ácido” para glifosato, 2,4-D, triclopir e haloxifope; “toneladas de íon equivalente” para paraquate e diquate; “toneladas de cobre metálico equivalente” para fungicidas à base de cobre; e “toneladas de ingrediente ativo” para os demais defensivos.

    Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

    A equipe comparou a evolução do uso dos herbicidas com a expansão da área agrícola, das lavouras de soja e das pastagens não degradadas, utilizando dados do IBGE e da Universidade Federal de Goiás. Isso permitiu uma visão ampla do impacto dessas substâncias no contexto agrícola brasileiro.

    Herbicidas se consolidam como insumos prioritários

    O resultado evidenciou o protagonismo dos herbicidas entre os defensivos agrícolas. Diferentemente de fungicidas e inseticidas, usados apenas durante o cultivo, os herbicidas são aplicados do preparo do solo até o pré-colheita e no manejo de áreas de pousio. Essa versatilidade consolidou seu uso e aumentou consideravelmente a dependência do setor agrícola nacional por essas moléculas.

    No ano de 2020, os herbicidas responderam por cerca de 59% do mercado nacional de defensivos agrícolas. Fungicidas e inseticidas ficaram bem atrás.

    Limitações e preocupações ambientais

    O Brasil ainda apresenta baixa oferta de métodos alternativos ao controle químico, como técnicas físicas (laser, espuma, descargas elétricas) e bioherbicidas produzidos a partir de microrganismos ou extratos vegetais. Além dos impactos ambientais, o uso crescente de herbicidas torna o manejo mais caro e exige elevada especialização técnica, pois é preciso combinar diferentes moléculas ou alternar aplicações para tentar driblar a resistência, aumentando a carga química no ambiente.

    Atualmente, o país já registrou 20 casos de resistência ao glifosato, envolvendo pelo menos 12 espécies de plantas consideradas invasoras, como capim-amargoso, buva, caruru e capim-pé-de-galinha. As lavouras também passaram a conviver com plantas voluntárias de milho transgênico resistente ao glifosato, tornando o controle ainda mais complexo.

    Razões históricas para a dependência do glifosato

    Dois marcos históricos reforçaram a dependência desse produto. A adoção do sistema de plantio direto nos anos 1990 e a chegada das sementes transgênicas resistentes ao glifosato nos anos 2000. Esses avanços simplificaram o manejo, mas contribuíram para a intensificação do uso repetitivo do mesmo princípio ativo. Esse cenário, aliado à redução da mão de obra rural e à urbanização, favoreceu a mecanização e a ampliação do uso de insumos químicos.

    Os pesquisadores alertam para a necessidade urgente de reorganizar o sistema de produção rural brasileiro para garantir a sustentabilidade. Eles sugerem medidas como:

    • Maior investimento em pesquisa e desenvolvimento de bioherbicidas
    • Estímulo à adoção de métodos físicos de controle de plantas daninhas
    • Desenvolvimento de nanoformulações para liberação controlada de herbicidas, que permita a redução das doses aplicadas
    • Políticas públicas para incentivar a aquisição e adaptação de pulverizadores equipados com sensores de detecção de plantas
    • Capacitação constante de técnicos e produtores rurais para aplicação do manejo integrado
    • Certificação e premiação de agricultores que realizem uso racional e minimizado de defensivos

    O futuro do controle de plantas daninhas

    Segundo os pesquisadores, a superação da dependência química exclusiva só será possível com políticas públicas específicas, ampliação da pesquisa, inovação e incentivos à transição para sistemas integrados e equilibrados. O objetivo é garantir a produtividade com sustentabilidade a médio e longo prazo.

    O estudo reforça que o futuro da agricultura brasileira passa por diversificação de estratégias, integração de tecnologias inovadoras e pelo fortalecimento da pesquisa nacional em biotecnologia e controle alternativo de plantas daninhas.

    Leia mais:

    + Agro em Campo: Produção de leite cresce 3x no Brasil com menos vacas e mais eficiência

    + Agro em Campo: Como proteger sua criação doméstica contra a gripe aviária

  • Crise judicial: Bayer negocia novo acordo sobre Roundup

    Crise judicial: Bayer negocia novo acordo sobre Roundup

    A Bayer, multinacional alemã do setor químico e farmacêutico, enfrenta uma crise sem precedentes desde a aquisição da Monsanto em 2018. Após comprar a empresa por US$ 63 bilhões, a Bayer passou a responder por mais de 67 mil processos judiciais nos Estados Unidos. A maioria relacionada ao herbicida Roundup, acusado de causar câncer em usuários.

    Desde o início das ações, a Bayer já desembolsou mais de US$ 11 bilhões em indenizações, valor que representa o maior acordo da história da indústria farmacêutica. Apesar disso, milhares de processos seguem ativos, principalmente no Missouri, estado onde a Monsanto tem sede. A empresa ainda mantém cerca de US$ 6,2 bilhões em provisões legais. Mas o montante pode não ser suficiente diante do volume de litígios e das recentes derrotas em tribunais americanos, incluindo sentenças superiores a US$ 1,5 bilhão em danos punitivos.

    Estratégias: acordo judicial ou recuperação judicial da Monsanto

    A Bayer negocia um novo acordo coletivo para encerrar as ações pendentes. Mas caso não obtenha sucesso, prepara-se para solicitar a recuperação judicial da Monsanto nos EUA, utilizando o Chapter 11, mecanismo semelhante à recuperação judicial brasileira. Essa estratégia permitiria concentrar os processos em um tribunal de falências, suspendendo temporariamente as ações e ganhando tempo para reestruturação financeira.

    Grandes empresas como Johnson & Johnson e 3M já tentaram manobras semelhantes, mas enfrentaram resistência da Justiça americana. O cenário para a Bayer é desafiador. O valor de mercado da empresa caiu para cerca de US$ 25 bilhões, menos da metade do que foi pago pela Monsanto.

    Desde a aquisição, o valor de mercado da Bayer despencou 80%. Em 2024, a empresa registrou prejuízo líquido de € 2,55 bilhões, com queda nas vendas da divisão agrícola e forte concorrência dos genéricos asiáticos. Para enfrentar a crise, a Bayer obteve autorização dos acionistas para diluir suas ações em até 35%. E assim,  captar US$ 9 bilhões, buscando recursos para lidar com as indenizações e manter suas operações.

    Roundup no centro da controvérsia

    O Roundup é um herbicida à base de glifosato. Ele é amplamente utilizado em lavouras de soja, milho e algodão nos EUA. Segundo o Serviço Geológico dos EUA, cerca de 300 milhões de libras de glifosato são aplicadas anualmente no país. A Bayer defende a segurança do produto, citando pareceres da Agência de Proteção Ambiental (EPA), que não encontrou evidências conclusivas de relação entre o glifosato e o câncer. No entanto, tribunais americanos têm decidido em sentido contrário, responsabilizando a Monsanto por não alertar sobre possíveis riscos à saúde.

    A Bayer aguarda uma decisão da Suprema Corte dos EUA, prevista para junho de 2025, sobre a admissibilidade de um novo recurso relacionado aos processos do glifosato. Paralelamente, a empresa intensifica o lobby junto ao Congresso americano para aprovar leis que limitem sua responsabilidade civil futura. A expectativa é encerrar ou estabilizar os litígios nos próximos 12 a 18 meses, segundo executivos da companhia.

    Posição no Brasil

    Entramos em contato com a assessoria da Bayer no Brasil, para saber se essa mudança afetaria o Brasil. Publicamos a resposta na integra abaixo.

    “Apesar do histórico científico claro, a indústria de litígios dos EUA continua a usar informações enganosas para questionar a segurança do glifosato em busca de retornos financeiros. A luta contra a indústria de litígios já custou mais de US$ 10 bilhões até o momento, sem uma resolução clara. Uma coisa é certa: não podemos continuar a vender um produto já aprovado e perder bilhões de dólares fazendo-o. Infelizmente, estamos nos aproximando de um ponto em que os esforços da indústria de litígios vão nos forçar a parar de vender este produto.

    E por mais que glifosato seja o assunto hoje, não há dúvidas de que todos os produtos de proteção de cultivos podem ser alvo da indústria de litígios. É por isso que, nos EUA, estamos ativamente engajados em esforços legislativos, nas esferas federal e estaduais, para apoiar políticas que protejam o acesso de agricultores a um produto essencial de proteção de cultivos. A agência regulatória americana (EPA) tem afirmado repetidamente que o glifosato é seguro para uso conforme instruções de bula. E a legislação que apoiamos reforça o a autoridade da EPA em suas decisões rigorosas e embasadas em ciência. Essa consistência garante que o rótulo segue a lei, ajudando a eliminar as premissas infundadas dos ataques legais que têm solicitado uniformidade nos rótulos nos EUA.

    Nenhuma decisão foi tomada até aqui. E nós não trabalhamos com um cronograma específico. Conforme mencionamos na nossa mais recente divulgação de resultados, estamos focados em uma série de itens prioritários neste ano para contermos o litígio relacionado a glifosato. Esperamos que possamos encontrar uma solução para que não sejamos obrigados a interromper as vendas desse produto.”

    Desafio

    A crise envolvendo Bayer, Monsanto e Roundup representa um dos maiores desafios jurídicos e financeiros já enfrentados por uma multinacional do setor químico e agrícola. O desfecho das negociações e possíveis mudanças na legislação americana devem definir o futuro da empresa e do mercado global de defensivos agrícolas nos próximos anos.

    Leia mais:


    + Agro em Campo: Fazenda amplia produção com investimento em robôs
    + Agro em Campo: Espírito Santo lança programa para financiar construção de pequenas barragens