Tag: geopolítica

  • Congresso Andav discute os novos rumos do agronegócio

    Congresso Andav discute os novos rumos do agronegócio

    A competitividade do agronegócio brasileiro passa por uma transformação que vai além da produção no campo. Juros elevados, mudanças nas relações comerciais internacionais e novas exigências dos mercados importadores influenciam diretamente as decisões de investimento. Além disso, a expansão do crédito privado e a implementação da Reforma Tributária ampliaram a complexidade do ambiente de negócios. Nesse cenário, esses temas estarão no centro das discussões do 15º Congresso da Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav), que será realizado entre os dias 11 e 13 de agosto, no Transamérica Expo Center, em São Paulo.

    Com o tema “Agroeconomia Brasileira: Reflexões para o Futuro”, o encontro reunirá economistas, empresários, especialistas e representantes da cadeia de distribuição de insumos. Entre os palestrantes confirmados estão Ricardo Amorim, Alexandre Baldy, Paulo Camargo, Carlos Cogo, Antonio da Luz e outras lideranças do setor. Assim, o congresso pretende reunir diferentes visões sobre os desafios que influenciam o agronegócio brasileiro.

    Segundo Paulo Tiburcio, presidente executivo da Andav, o ambiente de negócios tornou-se mais complexo. Por isso, as empresas precisam ampliar a visão estratégica sobre temas econômicos e regulatórios.

    “A agenda do agronegócio tornou-se mais ampla e mais complexa. Questões tributárias, acesso ao crédito, sustentabilidade, ambiente regulatório e competitividade internacional passaram a fazer parte da rotina de decisão das empresas. O Congresso Andav busca reunir diferentes visões para discutir esses temas de forma pragmática e conectada à realidade do setor”, afirma.

    Crédito e mercado estarão no centro dos debates

    Um dos principais eixos da programação será o financiamento da atividade agropecuária. Com a expansão do mercado de capitais, o setor busca novas alternativas para complementar os recursos tradicionais do crédito rural. Ao mesmo tempo, temas como recuperação judicial, gestão de riscos e segurança financeira passaram a ocupar espaço crescente nas estratégias das empresas.

    Além do crédito, o congresso discutirá competitividade internacional, geopolítica, acesso a mercados e relacionamento entre distribuidores e indústria. Também fazem parte da programação assuntos ligados à sucessão empresarial, gestão de pessoas e bioenergia. Já a transição energética deverá ampliar o debate sobre combustíveis renováveis e novas oportunidades para o agronegócio brasileiro.

    Pesquisa apresenta panorama da distribuição

    Durante o evento, será apresentada a Pesquisa Nacional da Distribuição Andav 2026. O estudo é desenvolvido em parceria com o Cepea/Esalq-USP. O levantamento reúne indicadores sobre faturamento, infraestrutura, crédito, tecnologia, gestão, recursos humanos e perspectivas de crescimento das empresas de distribuição de insumos agropecuários.

    Segundo Paulo Tiburcio, a distribuição exerce papel estratégico para a competitividade do agronegócio. Isso porque conecta tecnologia, assistência técnica, inteligência de mercado e soluções financeiras ao produtor rural.

    “A distribuição é um elo estratégico para a competitividade do agro. Ela conecta tecnologia, assistência técnica, inteligência de mercado e soluções financeiras ao produtor rural. O Congresso reflete essa evolução e busca promover discussões alinhadas aos desafios que já estão moldando o futuro do setor”, destaca.

    Ao longo dos três dias de programação, o Congresso Andav 2026 ocupará mais de 24 mil metros quadrados de área de exposição. Além disso, reunirá centenas de marcas, instituições, distribuidores, fabricantes e especialistas ligados ao agronegócio. Dessa forma, o evento pretende estimular debates sobre os temas econômicos, regulatórios e tecnológicos que influenciam a cadeia agropecuária brasileira.

  • Agro confia mais nos EUA do que na China, aponta FGV

    Agro confia mais nos EUA do que na China, aponta FGV

    Apesar de a China ser o principal destino das exportações brasileiras de soja e carne bovina, produtores e moradores da fronteira agrícola demonstram maior confiança nos Estados Unidos do que no país asiático.

    A conclusão faz parte de uma pesquisa realizada pela FGV RI (Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas) em municípios da fronteira agrícola das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil no fim de 2025.

    O levantamento revela uma diferença significativa entre dependência econômica e confiança política.

    Dependência comercial não significa confiança

    A China concentra atualmente cerca de 80% das exportações brasileiras de soja e 86% das vendas externas de carne bovina.

    Mesmo assim, os entrevistados demonstraram maior confiança nos Estados Unidos.

    Segundo a pesquisa:

    21,8% consideram os EUA “muito confiáveis”;

    12,6% atribuem a mesma avaliação à China.

    A diferença supera nove pontos percentuais.

    O estudo também aponta que a confiança na China caiu quase 20 pontos percentuais em comparação com 2017, período em que as relações comerciais entre os dois países continuaram avançando.

    Segundo os pesquisadores, o resultado mostra que laços econômicos e alinhamentos políticos seguem caminhos distintos.

    “A fronteira agrícola vende para a China sem confiar nela e confia nos Estados Unidos sem depender deles comercialmente. A pesquisa mostra que confiança política e dependência econômica são coisas distintas e seguem lógicas diferentes”, afirmou Matias Spektor, diretor da FGV RI e um dos autores do estudo.

    Leia mais: Robôs de ordenha transformam a pecuária leiteira

    União Europeia gera percepção dividida

    A pesquisa também avaliou como os entrevistados enxergam as exigências ambientais da União Europeia para produtos agrícolas.

    De um lado, 74,3% acreditam que atender às normas ambientais europeias fortalece a reputação internacional do Brasil.

    Por outro:

    66,9% afirmam que as exigências reduzem a competitividade dos produtos brasileiros;

    61,5% entendem que as regras atendem principalmente aos interesses econômicos da própria União Europeia.

    Segundo os pesquisadores, essas avaliações não são contraditórias.

    A interpretação é que o setor vê as exigências como uma condição necessária para manter acesso a um mercado estratégico, mesmo sem compartilhar integralmente os valores defendidos pelo bloco europeu.

    Fronteira agrícola tem perfil mais conservador

    O levantamento também traçou um panorama político dos moradores da região.

    De acordo com os dados:

    83,5% se identificam como de direita ou centro;

    16,5% se declaram de esquerda.

    A pesquisa aponta ainda que:

    55,9% acreditam que o governo interfere excessivamente na vida das pessoas;

    64,3% avaliam que a regulação estatal gera mais efeitos negativos do que positivos para os negócios.

    Segundo os autores, essas percepções influenciam a forma como a população da fronteira agrícola avalia parceiros internacionais como Estados Unidos, China e União Europeia.

    Peso político do agro pode crescer

    O estudo destaca ainda o aumento da relevância eleitoral da fronteira agrícola brasileira.

    Os estados que compõem essa região representam aproximadamente 15% do eleitorado nacional.

    Para os pesquisadores, esse crescimento pode ampliar a influência das preferências regionais nos debates sobre política externa e nas relações do Brasil com Washington, Pequim e Bruxelas.

    “Uma política externa que presume que a fronteira agrícola seguirá seus interesses comerciais em direção ao alinhamento político com qualquer parceiro individual interpreta equivocadamente a realidade da região”, concluiu Matias Spektor.

    Leia mais: Frutas em miniatura conquistam produtores e consumidores

  • Guerra no Irã ameaça 10 bilhões de refeições por semana

    Guerra no Irã ameaça 10 bilhões de refeições por semana

    O conflito no Oriente Médio parou de ser apenas um problema geopolítico e já bate na porta do campo, nos estoques de insumos e no prato de bilhões de pessoas ao redor do mundo.

    A interrupção do fornecimento de fertilizantes causada pela guerra no Irã pode custar até 10 bilhões de refeições por semana em todo o mundo, segundo o CEO da Yara, uma das maiores produtoras de fertilizantes do planeta. O número impressiona, mas o mecanismo por trás dele é direto: sem fertilizante nitrogenado, a produção agrícola cai.

    O estrangulamento começa em Ormuz

    Tudo passa pelo Estreito de Ormuz: cerca de um terço dos fertilizantes do mundo, incluindo ureia, potássio, amônia e fosfatos, normalmente transita por essa via marítima. Com as hostilidades no Golfo bloqueando o tráfego, a cadeia de suprimentos global trava.

    Svein Tore Holsether, CEO da Yara, foi direto ao ponto em entrevista à BBC: “Até meio milhão de toneladas de fertilizante nitrogenado não estão sendo produzidas no mundo no momento devido à situação em que estamos. O que isso significa para a produção de alimentos? Eu estimaria até 10 bilhões de refeições que deixarão de ser produzidas a cada semana como resultado da falta de fertilizantes.”

    Mesmo que o estreito reabrisse amanhã, os preços elevados tendem a persistir, já que parte da produção e das matérias-primas já foi perdida.

    Queda de até 50% na produtividade das lavouras

    O impacto vai além dos números abstratos. Não aplicar fertilizante nitrogenado reduziria a produtividade de algumas culturas em até 50% já na primeira safra. Isso significa menos grãos, menos colheita e menos comida chegando ao mercado, tudo ao mesmo tempo.

    Os principais destinos afetados seriam Ásia, Sudeste Asiático, África e América Latina, regiões onde o impacto imediato seria mais visível. Holsether ainda alertou que áreas da África subsaariana, onde já há subfertilização crônica, poderiam registrar “quedas significativas” na produção agrícola.

    Para o agronegócio brasileiro, o cenário exige atenção redobrada. O Brasil importou 43,3 milhões de toneladas de fertilizantes no ano passado, enquanto a produção nacional ficou em 7,2 milhões de toneladas, com a importação ainda responsável por 85% do abastecimento interno.

    O Ministério da Agricultura identificou o risco com urgência. Notas técnicas da secretaria-executiva apontam “alto risco real de um déficit de volume estimado entre 1 e 3 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados em 2026, suficiente para comprometer a produtividade das safras 2026/2027.”

    Os mais vulneráveis pagam a conta mais alta

    O CEO da Yara foi enfático ao alertar os países europeus sobre um detalhe que costuma passar despercebido nos debates sobre segurança alimentar: “Se há uma disputa por alimentos e uma que a Europa é robusta o suficiente para lidar, o que precisamos ter em mente é: nessa situação, de quem estamos tirando comida ao comprarmos? Essa é uma situação em que as pessoas mais vulneráveis pagam o preço mais alto, em nações em desenvolvimento que não podem se dar ao luxo de acompanhar.”

    O Programa Mundial de Alimentos da ONU estima que as consequências combinadas do conflito no Oriente Médio poderiam levar 45 milhões de pessoas a mais à fome aguda em 2026. Na Ásia e no Pacífico, a insegurança alimentar deve crescer 24%, o maior aumento relativo de qualquer região.

  • Fim do petróleo? Por que o agro brasileiro virou o novo dono da energia global

    Fim do petróleo? Por que o agro brasileiro virou o novo dono da energia global

    Esqueça aquela imagem antiga do Brasil apenas como o grande exportador de soja e carne para o prato do mundo. O jogo virou, e a nova fronteira não está apenas na mesa, mas no tanque e na rede elétrica das grandes potências. Vivemos um momento em que a segurança energética global passou a depender diretamente do que acontece no campo brasileiro. De repente, o agro nacional deixou de ser o coadjuvante da economia para se tornar o protagonista de uma transição energética que o mundo corre para abraçar.

    A metamorfose do campo em usina energética

    Muito além de alimentar bilhões, o Brasil descobriu como converter solo fértil em poder político e econômico através dos biocombustíveis. O etanol e o biodiesel não são mais apenas alternativas sustentáveis; eles se tornaram ferramentas de soberania. Enquanto países europeus e asiáticos lutam para reduzir a dependência de fósseis e do gás russo, o produtor brasileiro entrega a solução pronta em escala industrial. A partir daí, a percepção internacional mudou: quem controla a biomassa, controla o ritmo da descarbonização.

    O conflito silencioso por trás dos créditos verdes

    Nem tudo são flores nesse novo cenário. Existe uma tensão latente entre a necessidade de expansão produtiva e as exigências ambientais severas do mercado externo. O mundo quer a energia limpa do Brasil, mas impõe barreiras que desafiam a logística e o custo de produção nacional. “O Brasil tem a faca e o queijo na mão, mas precisa saber cortar sem se ferir nas proteções comerciais disfarçadas de ecologia”, afirmam analistas do setor. No entanto, a eficiência produtiva brasileira tem sido tão agressiva que ignorar nossa matriz energética tornou-se um risco econômico para qualquer país desenvolvido.

    Do pré-sal verde ao combustível do futuro

    Alcançamos um patamar onde o termo “agroenergia” define o PIB. O investimento em tecnologia para transformar resíduos em biogás e hidrogênio verde coloca o país em uma posição de vantagem comparativa absurda. Em contraste com nações que precisam importar tecnologia e insumos, nós temos o sol, a água e a terra. Assim, o Brasil desenha o seu próprio “pré-sal verde”, uma reserva de energia renovável que não acaba e que se renova a cada safra, garantindo que o país seja a peça-chave para manter as luzes do mundo acesas.

    O impacto inevitável na geopolítica mundial

    A consequência direta desse movimento é um Brasil com voz mais grossa em fóruns internacionais como o G20 e a COP. Não se discute mais o clima ou a energia sem passar pelo crivo dos produtores brasileiros. Se antes éramos vistos apenas como um “fazendão”, hoje somos o hub tecnológico de soluções de baixo carbono. Além disso, essa liderança traz uma responsabilidade imensa: qualquer instabilidade política ou climática por aqui agora gera tremores nos preços da energia global, provando que o agro brasileiro é, de fato, a nova bateria do planeta.

  • Agro sob ataque: Selic alta e custos não dão trégua no campo

    Agro sob ataque: Selic alta e custos não dão trégua no campo

    A desaceleração no ritmo de queda da taxa básica de juros no Brasil, combinada à pressão internacional sobre insumos e ao ambiente fiscal doméstico mais sensível, já impacta o planejamento do agronegócio para 2026. A avaliação é de Wolney Arruda, administrador de empresas e presidente da Plantae Agrocrédito, com atuação no mercado de crédito rural há mais de duas décadas.

    Em entrevista ao Agro em Campo ele aponta para um cenário de crédito mais caro, custos elevados e maior incerteza para o produtor rural.

    Segundo o especialista, a combinação entre tensões geopolíticas, sobretudo envolvendo o Irã, e a limitação fiscal do governo brasileiro tende a manter o custo do dinheiro elevado por mais tempo. Isso afeta diretamente o acesso ao crédito rural e amplia os desafios para a próxima safra.

    Juros, cenário macro e crédito

    A redução menor da Selic muda o cenário para o agro em 2026?

    Muda bastante. O mercado esperava cortes mais agressivos, o que ajudaria a aliviar o custo do crédito. Com um ritmo mais lento, o produtor precisa se preparar para juros elevados por mais tempo.

    O que pesa mais hoje: risco fiscal ou cenário externo?

    Os dois fatores são relevantes, mas o fiscal tem um peso estrutural. Ele influencia diretamente a percepção de risco do país e limita a atuação do Banco Central.

    Existe risco de interrupção no ciclo de queda dos juros?

    Existe, principalmente se houver nova pressão inflacionária vinda de energia ou insumos agrícolas.

    Como esse cenário impacta o custo do dinheiro no campo?

    Ele encarece todas as linhas, tanto subsidiadas quanto livres, e reduz o acesso ao crédito em condições favoráveis.

    Geopolítica e custo dos insumos

    Como o conflito envolvendo o Irã impacta os fertilizantes?

    O Irã é um player relevante na produção de nitrogenados. Qualquer restrição de oferta pressiona os preços globais.

    O Brasil está muito dependente de insumos externos?

    Sim, especialmente em fertilizantes. Isso torna o país vulnerável a choques internacionais.

    Há alternativa no curto prazo?

    No curto prazo, não. A dependência é estrutural e exige tempo e investimento para ser reduzida.

    O risco no Estreito de Ormuz já afeta o diesel?

    Ainda de forma indireta, mas o mercado já precifica essa possibilidade, o que sustenta a volatilidade.

    Wolney Arruda, presidente da Plantae Agrocrédito

    Custos, produção e margens

    Qual é hoje o principal fator de pressão de custos?

    É um conjunto: fertilizantes, diesel e crédito. Todos estão pressionados ao mesmo tempo.

    Esse cenário pode mudar decisões do produtor?

    Sem dúvida. Pode levar à redução de área ou à escolha de culturas menos intensivas em insumos.

    Quais culturas são mais sensíveis?

    Milho e trigo, por exemplo, dependem mais de fertilizantes nitrogenados.

    O produtor está preparado para margens menores?

    Os mais capitalizados sim, mas uma parcela relevante ainda opera com pouca margem de segurança.

    Crédito rural e financiamento

    Como a Selic mais alta afeta o Plano Safra?

    Aumenta o custo de equalização para o governo, o que pode limitar a oferta de crédito subsidiado.

    A migração para crédito livre deve crescer?

    Sim, é uma tendência, principalmente entre produtores de maior porte.

    Quais os riscos dessa migração?

    Maior exposição à volatilidade dos juros e menor previsibilidade no custo financeiro.

    Pequenos e médios produtores serão mais impactados?

    Devem ser os mais afetados, porque têm menos acesso a alternativas de financiamento.

    Estratégia e perspectivas

    Como o produtor deve se posicionar agora?

    Com mais cautela, planejamento financeiro rigoroso e atenção ao custo de produção.

    Ferramentas de proteção ganham mais importância?

    Sim, hedge e gestão de risco passam a ser essenciais nesse ambiente.

    O agro brasileiro perde competitividade?

    Não necessariamente, mas enfrenta um ambiente mais desafiador.

    Esse cenário é conjuntural ou estrutural?

    Tem elementos dos dois. A geopolítica pode se ajustar, mas a questão fiscal tende a ser mais persistente.

    O que esperar para 2026 no campo?

    Um ano de decisões mais complexas, margens apertadas e maior necessidade de gestão profissional.