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  • Lagarta que devora soja e algodão pode ser arma contra o isopor

    Lagarta que devora soja e algodão pode ser arma contra o isopor

    Uma lagarta que o agronegócio classifica entre as pragas mais agressivas de soja, algodão e milho guarda em seu intestino um trunfo inesperado: fungos e bactérias capazes de degradar o isopor. Pesquisadores de duas universidades públicas paulistas publicaram, em maio, na revista BMC Microbiology, os resultados de um estudo sobre a microbiota intestinal da lagarta-helicoverpa (Helicoverpa armigera), também conhecida como lagarta-do-algodão, lagarta-da-espiga-do-milho ou lagarta-da-vagem, e seu papel na decomposição desse tipo de plástico.

    Cientistas do Laboratório de Biologia Molecular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) lideraram o estudo, em colaboração com pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro. A equipe já consolidou uma linha de pesquisa sobre bactérias presentes no intestino de insetos e, desta vez, identificou quatro fungos na microbiota da lagarta, todos com capacidade comprovada de degradar o poliestireno expandido, nome técnico do isopor, um polímero derivado do petróleo que não se decompõe naturalmente no ambiente e por isso representa uma importante fonte de poluição plástica.

    “Os estudos publicados por nosso grupo são provavelmente os primeiros do Brasil sobre fungos da microbiota intestinal de insetos envolvidos na degradação de poliestireno”, afirma o biólogo Flavio Henrique Silva, professor do Departamento de Genética e Evolução da UFSCar e autor correspondente do artigo. Silva orientou o trabalho de iniciação científica de Gabrieli Seiscentos Cardenas, bolsista da FAPESP, que deu origem à publicação dentro do projeto “Sphenophorus levis e Helicoverpa armigera como fontes de microrganismos degradadores de poliestireno”.

    Por que o isopor ficou de fora dos radares da ciência

    Os pesquisadores explicam que a escolha pelo isopor partiu justamente da lacuna de estudos sobre o material. Até então, as pesquisas sobre degradação de plásticos concentravam-se em microrganismos do solo e de depósitos de lixo, com maior volume de trabalhos voltados ao polietileno e ao poliuretano. “O isopor era mais negligenciado”, diz Silva. Ele também aponta um obstáculo prático para a reciclagem: um bloco de isopor contém apenas 2% de plástico. O restante é ar, o que torna o processo pouco vantajoso, já que exige grandes volumes de material.

    Lagarta e pupa de H. armigera pertencentes ao grupo em alimentação restrita a poliestireno expandido (EPS) após 7 dias do início do experimento. (A) larva em fase de pupa próxima dentro de galeria no bloco de EPS e (B) pupa de H. armigera. Foto: LBM-UFSCar

    A equipe encontrou poucos trabalhos sobre microrganismos intestinais de insetos voltados especificamente ao poliestireno expandido, apesar da vasta literatura sobre degradação de plástico por microrganismos do solo. Silva aposta no papel dos fungos nesse processo.“Eles são excelentes produtores e secretores de enzimas, muitas delas capazes de quebrar a celulose e polímeros complexos.”

    Como funcionou o experimento

    Os pesquisadores dividiram as lagartas em três grupos, cada um submetido a uma dieta diferente. O primeiro grupo recebeu exclusivamente blocos de poliestireno expandido (EPS, sigla em inglês para expanded polystyrene). O segundo seguiu uma dieta mista, com até 50% de EPS; e o terceiro manteve uma alimentação convencional. Uma análise de metabarcoding, técnica que identifica espécies por meio de DNA, mostrou que a dieta influencia diretamente a diversidade de fungos presentes no intestino das lagartas.

    A levedura do gênero Diutina apareceu em todos os grupos, mas sua abundância caiu significativamente entre os insetos alimentados com poliestireno. Essa redução abriu espaço para uma comunidade microbiana mais diversa, com o surgimento de gêneros como Aspergillus, Talaromyces, Metarhizium e Trematosphaeria. Um indício de que a microbiota se adapta ao consumo do polímero.

    Na etapa seguinte, os cientistas isolaram quatro fungos da microbiota intestinal das lagartas: Aspergillus sp., Talaromyces sp. e duas espécies de Penicillium. Eles depositaram esporos desses fungos sobre uma película superfina de poliestireno e os observaram por 60 dias. A microscopia eletrônica de varredura revelou que os fungos cresceram sobre o material, interagiram com ele e alteraram sua superfície. “Se o fungo foi capaz de crescer sobre esse filme, é porque ele usou essa película como fonte de carbono, ou seja, fonte de alimento. Dois deles são mais eficientes [Aspergillus e Talaromyces], enquanto os outros dois realizam modificações mais sutis nos filmes”, comenta Silva.

    Outros insetos também guardam microrganismos promissores

    A lagarta-helicoverpa não é o único inseto que desperta interesse biotecnológico. Em março, o mesmo grupo da UFSCar publicou na revista Frontiers in Microbiology outro estudo. Dessa vez sobre a microbiota da larva do besouro Sphenophorus levis, conhecido como bicudo-da-cana e responsável por atacar monoculturas de cana-de-açúcar. Os pesquisadores identificaram nesse inseto a bactéria Paenibacillus lautus, eficaz em alterar o poliestireno. O engenheiro de bioprocessos e biotecnologia Eduardo Pereira de Souza, também apoiado pela FAPESP, conduziu essa pesquisa como parte de seu doutorado e assina ainda o artigo sobre a Helicoverpa.

    Agora os cientistas analisam as fezes dos insetos para verificar se eles apenas fragmentam o polímero em micro ou nanoplástico. Ou se promovem uma digestão completa, capaz de quebrar as cadeias de carbono que compõem o material.

    O grupo também estuda o besouro Zophobas morio, cuja larva, conhecida como “tenébrio gigante”, chama atenção pela voracidade. “Ele tem uma característica interessante, porque é muito mais resistente, por exemplo, do que a larva do Sphenophorus levis, da cana, que morre com facilidade em laboratório”, diz Silva. “O Z. morio é capaz de ficar semanas se alimentando apenas de isopor ou outros polímeros.”

    Próximos passos da pesquisa

    Silva afirma que a equipe ainda precisa identificar com precisão os microrganismos, genes e proteínas envolvidos na degradação do polímero. “Precisamos estabelecer quais microrganismos são mais eficientes e se eles cooperam entre si. No trabalho sobre Paenibacillus, nós sequenciamos o genoma da bactéria e identificamos genes que codificam proteínas sabidamente envolvidas na degradação de plástico. Ao estudar esse mecanismo, esperamos conseguir também enzimas mais eficientes”, afirma.

    Os pesquisadores planejam reunir uma coleção de bactérias e fungos eficientes na degradação do poliestireno e introduzi-los no intestino de insetos como o tenébrio gigante. “Aí teríamos uma larva poderosa e muito eficiente para a degradação, um tipo de cavalo de Troia”, projeta Silva.

  • Tecnologia com ozônio reduz micotoxinas em grãos

    Tecnologia com ozônio reduz micotoxinas em grãos

    A Embrapa Milho e Sorgo apresenta ao mercado uma tecnologia sustentável para reduzir micotoxinas em grãos. A unidade desenvolveu o sistema em parceria com a empresa Nascente (NCT). O novo silo biorreator, chamado SiloBio, higieniza grãos em larga escala com uso de ozônio. Além disso, a solução amplia a segurança sanitária e agrega valor à produção.

    Tecnologia com ozônio elimina toxinas e fungos

    O SiloBio combina armazenamento de silo com ambiente controlado de biorreator. O equipamento trata grãos em escala industrial com aplicação controlada de gás ozônio. O sistema elimina micotoxinas, fungos, pragas e resíduos químicos. Com isso, garante ração animal mais segura, sustentável e de alto desempenho.

    A equipe iniciou o desenvolvimento ao validar a aplicação de ozônio na pós-colheita do milho. Os pesquisadores focaram na redução de fumonisinas, micotoxinas produzidas por fungos do gênero Fusarium. O grupo iniciou os estudos entre 2012 e 2013 com aplicação direta do gás nos grãos. Eles utilizaram protótipos que simulavam silos em escala laboratorial. Os testes indicaram redução de até 88% das fumonisinas totais.

    Além disso, os ensaios apontaram redução de até 96% de fungos Fusarium e Penicillium. O ozônio não comprometeu a qualidade dos grãos, mesmo após 60 horas de aplicação. Os pesquisadores mantiveram níveis normais de água, proteínas, lipídeos e cinzas.

    Escalonamento industrial do SiloBio

    A equipe desenvolveu um biorreator específico para o escalonamento industrial. O equipamento movimenta os grãos por meio de rosca helicoidal interna. Anéis com injetores distribuíram o ozônio de forma homogênea na massa de grãos. Os testes utilizaram lotes de milho naturalmente contaminados.

    Os pesquisadores mediram a eficiência pela redução percentual das fumonisinas. Em seguida, compararam os resultados com os Limites Máximos Tolerados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A Anvisa estabelece limite de 5.000 µg/kg para fumonisinas em milho não processado.

    Já cadeias de suínos e aves adotam limites mais restritivos, de até 1.000 µg/kg. A indústria de alimentação humana também trabalha com faixas semelhantes ou menores. Os experimentos atingiram níveis exigidos por esses segmentos produtivos.

    Parceria integra pesquisa e engenharia industrial

    A Nascente ingressou no projeto após demanda de produtores de suínos mineiros. Os produtores buscavam soluções para tratar milho armazenado com ozônio. A empresa conectou sua engenharia industrial ao rigor científico da Embrapa.

    O diretor Leonardo Tuschi destacou o potencial de transformar pesquisa em solução comercial. Ele afirmou que o agronegócio ainda depende de tratamentos químicos tradicionais. Por isso, a empresa buscou alternativa alinhada às exigências por processos sustentáveis.

    O SiloBio funciona com ar e eletricidade, sem uso de insumos químicos adicionais. O sistema capta oxigênio do ambiente e o converte em ozônio por energia elétrica. Após a desinfecção, o ozônio retorna à forma de oxigênio.
    Assim, o processo opera com resíduo zero e reduz riscos ambientais.

    Inovação amplia escala no tratamento de grãos

    O uso de ozônio em grãos já ocorre em outros países. No entanto, a inovação está na engenharia de aplicação e escalonamento. O SiloBio pode processar diferentes grãos, mas prioriza o milho.

    A pesquisa concentra esforços na nutrição animal de aves e suínos. A equipe também registra avanços em sorgo, soja e farelos processados. Segundo a empresa, o produtor adota tecnologias com retorno comprovado.

    O SiloBio apresenta potencial de retorno sobre investimento inferior a dois anos. A estimativa considera redução de químicos e melhoria no desempenho animal.

    O chefe-adjunto Frederico Botelho reforçou a importância da viabilidade econômica. Ele destacou que a tecnologia agrega valor e amplia adoção no mercado.

    A Embrapa apresentará o SiloBio durante a celebração de 50 anos da unidade. A instituição afirma que a inovação reforça padrões de segurança e sustentabilidade no agronegócio. O SiloBio atende demandas por processos alinhados aos conceitos de ESG e Saúde Única. Com isso, a Embrapa reafirma compromisso com produção mais segura e sustentável.

  • Fungos prometem revolucionar mercado global de proteínas

    Fungos prometem revolucionar mercado global de proteínas

    Por décadas, as proteínas animais dominaram a dieta mundial. Agora, os fungos começam a conquistar espaço como protagonistas dessa transformação. Pesquisadores aplicam engenharia genética avançada e fermentação de precisão para transformar o micélio, a estrutura de sustentação do fungo, em micoproteínas que combinam alto valor nutricional, textura semelhante à carne e menor impacto ambiental. Projeções recentes indicam que o mercado global desses produtos deve ultrapassar US$ 32 bilhões até 2032.

    Avanços em engenharia genética, como a edição de DNA por meio da técnica CRISPR-Cas9, aliados à eficiência da fermentação de precisão, permitem o desenvolvimento de micoproteínas com alto valor nutricional e potencial de produção em larga escala.

    O pesquisador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) André Damasio explica que essas tecnologias transformam fungos filamentosos e leveduras em verdadeiras “fábricas celulares”. Esses organismos produzem proteínas recombinantes — como as do leite, ovos e carne — com menor impacto ambiental e maior segurança alimentar. Empresas como Meati, Quorn e Enough já operam em escala industrial, focando no modelo B2B e promovendo mudanças importantes no setor alimentício tradicional.

    “A produção de micoproteínas exige menos terra e água, e emite menos gases de efeito estufa do que a pecuária convencional. Esse novo sistema de produção de alimentos pode mitigar os efeitos ambientais da agricultura intensiva, como o desmatamento, a degradação do solo e o esgotamento de recursos hídricos”, explica Damasio.

    Desafios técnicos e regulatórios ainda travam expansão

    Entretanto, para que essas proteínas ocupem lugar fixo nas prateleiras e nos pratos dos consumidores, a indústria precisa vencer barreiras importantes. As propriedades do micélio, como o seu alto teor de fibras e composição nutricional distinta das proteínas vegetais e animais, exigem mais investigação e adaptação tecnológica. Os cientistas trabalham para melhorar a textura, sabor e funcionalidade desses produtos para aplicações variadas na indústria alimentícia, como substitutos de carne e laticínios.

    O analista e engenheiro agrônomo Gabriel Mascarin da Embrapa Meio Ambiente (SP) acredita que, além da aceitação pelo consumidor, a segurança e a regulamentação representam desafios cruciais. Estudos clínicos ainda não esclarecem completamente a biodisponibilidade dos aminoácidos presentes nas micoproteínas, sua contribuição à saciedade e os efeitos de longo prazo à saúde humana. O setor precisa urgentemente padronizar valores nutricionais e criar normas rigorosas para controle de toxinas e metais pesados, sobretudo diante da diversidade de substratos que os processos fermentativos utilizam.

    “Do ponto de vista técnico, os obstáculos vão desde a engenharia genética de linhagens fúngicas até a otimização do bioprocesso e escalonamento, além da etapa de purificação dos produtos (o chamado ‘processamento downstream’). Pesquisadores aplicam novas ferramentas biotecnológicas para aumentar a eficiência das fábricas celulares”, conta Mascarin, ao informar que dados recentes mostram o avanço da engenharia de fungos e leveduras para produzir proteínas com funcionalidade semelhante às de origem animal.

    Além disso, ferramentas de biologia sintética e tecnologias “ômicas” (como transcriptômica e proteômica) aceleram o desenvolvimento de linhagens mais produtivas e resilientes. A combinação de edição genética precisa com análises moleculares tem se mostrado promissora para superar gargalos na produção industrial.

    Complemento sustentável, não substituto total da carne

    Para a pesquisadora Paula Cunha da Unicamp, a aposta na biotecnologia fúngica não pretende eliminar a carne animal, mas oferece alternativas viáveis e acessíveis que diversificam a dieta e reduzem o impacto ambiental da produção de alimentos. Ao integrar essas micoproteínas às cadeias alimentares existentes, a indústria pode fortalecer a segurança alimentar global e aumentar a resiliência dos sistemas agroindustriais frente às mudanças climáticas e à pressão sobre os recursos naturais.

    O futuro da alimentação humana pode estar cada vez mais ligado ao reino dos fungos. Se as pesquisas continuarem avançando e os cientistas superarem os desafios, as fábricas de células fúngicas poderão se tornar peças-chave na construção de um sistema alimentar mais sustentável, nutritivo e inclusivo.

    Investimentos em fungos superam carne cultivada em € 169 milhões

    Com tecnologia menos complexa e rápida entrada no mercado, a fermentação de biomassa fúngica, da qual o micélio faz parte, superou a carne cultivada em investimentos nos últimos cinco anos. O setor atraiu € 628 milhões contra € 459 milhões destinados à carne cultivada, conquistando a atenção de startups e investidores globais.

    Micoproteínas derivadas do micélio, como as que as empresas Quorn, Meati e Eternal produzem, oferecem vantagens como alto teor proteico (entre 45% e 48%), riqueza em fibras (entre 22% e 35%), sabor neutro e textura semelhante à carne. Por isso, a indústria aplica esses ingredientes tanto em análogos de carne quanto em produtos híbridos. Que combinam proteína animal ou vegetal com micélio, ampliando sua aceitação entre consumidores não veganos.

    No entanto, o micélio tem baixa solubilidade, o que limita sua aplicação em alimentos líquidos. Embora algumas empresas, como a Nature’s Fynd, tenham começado a explorar esse caminho com iogurtes à base de micélio.

    Baixa emissão de carbono impulsiona crescimento do mercado

    O cultivo de micélio se destaca por sua baixa emissão de CO₂, reduzida pegada hídrica e potencial de circularidade, ao empregar subprodutos como substratos. Apesar do elevado consumo energético, especialmente na fermentação submersa, seu impacto é menor que o da pecuária tradicional.

    Analistas avaliam o mercado global de análogos de carne com micélio em US$ 7,2 bilhões, com projeção de crescimento anual de 10,78% até 2032. Já o setor de substitutos de laticínios, que também começa a explorar o uso do micélio, deverá crescer a uma taxa ainda maior, de 13,85% ao ano, atingindo US$ 32,38 bilhões até 2032.

    Benefícios nutricionais comprovados, mas alertas permanecem

    Do ponto de vista nutricional, as micoproteínas fornecem aminoácidos essenciais e minerais como zinco e selênio, embora não contenham vitamina B12 nem ferro. Estudos clínicos indicam que seu consumo pode ajudar a reduzir colesterol, melhorar a saciedade, controlar glicemia e até estimular a síntese de proteína muscular. Ainda assim, especialistas alertam para a necessidade de mais pesquisas sobre sua digestibilidade e potencial alergênico. Especialmente diante de reações adversas que consumidores de produtos da Quorn observaram.

    Apesar da presença no mercado desde 1985, a aceitação das micoproteínas ainda enfrenta barreiras. Fatores como sabor, preparo e percepção de saúde determinam a disposição do consumidor em adotar o micélio na alimentação. No entanto, os cientistas acreditam que, com novas aplicações e avanços regulatórios, a tecnologia tem potencial para consolidar-se como peça-chave no futuro da alimentação sustentável.

    Regulamentação exige avaliações rigorosas de segurança

    Autoridades classificam produtos à base de micoproteínas, como os derivados do micélio, como “novos alimentos”. Assim, isso exige rigorosas avaliações de segurança antes da aprovação comercial. Embora a FDA dos Estados Unidos tenha aprovado seu uso em 2001, ainda não existem diretrizes específicas sobre ingestão diária, e nutricionistas não recomendam esses alimentos para crianças menores de três anos devido ao alto teor de fibras e baixa densidade energética.

    Do ponto de vista produtivo, a seleção de cepas seguras, de rápido crescimento e com atributos sensoriais desejáveis tem sido crucial. Empresas preferem fungos filamentosos como F. venenatum e A. oryzae por seu alto rendimento proteico, embora cresçam mais lentamente do que leveduras. Tecnologias como engenharia genética e CRISPR/Cas9 melhoram a eficiência dos processos, permitindo o desenvolvimento de linhagens com características aprimoradas. Pesquisadores também exploram a incorporação de proteínas vegetais e microalgas para enriquecer o valor nutricional desses produtos.

    Empresas como Quorn, Meati e The Better Meat Co. lideram a inovação com processos escaláveis e produtos versáteis, como a micoproteína Rhiza, que viabiliza desde linguiças até carnes vegetais secas.

  • Ciência e união vencem fungo e recupera 95% da produção de uvas Niágara

    Ciência e união vencem fungo e recupera 95% da produção de uvas Niágara

    Uma colaboração estratégica entre Embrapa, órgãos estaduais e prefeituras paulistas conseguiu reverter uma das piores crises já enfrentadas pela viticultura do estado. O Plano Emergencial de Controle à Podridão Madura da Uva recuperou 95% da produção de uvas Niágara em propriedades do Circuito das Frutas, principal polo vitícola de São Paulo.

    Em 2024, a região foi assolada por uma epidemia da podridão da uva madura, causada pelo fungo Glomerella cingulata. A doença dizimou lavouras inteiras em Jundiaí, Louveira, Itatiba, Itupeva, Jarinu, Indaiatuba e Elias Fausto, com perdas chegando a 100% em algumas propriedades.

    “A doença ainda persiste em alguns parreirais, mas com incidência bem menor”, explica Sérgio Mesquita Pompermaier, diretor do Departamento de Agronegócio da Prefeitura de Jundiaí.

    O impacto foi tão severo que chegou a ameaçar eventos tradicionais como a Festa da Uva de Jundiaí.

    Ciência e técnica como salvação

    O plano selecionou 13 propriedades rurais para aplicação de protocolo científico desenvolvido pela Embrapa Uva e Vinho (RS) e Embrapa Territorial (SP). As propriedades que seguiram 100% das orientações técnicas alcançaram índices de recuperação de até 95%, enquanto outras obtiveram melhorias de até 70%.

    Lucas Garrido, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, identificou que a epidemia resultou de uma combinação fatal: temperaturas acima da média, umidade constante e presença de restos culturais contaminados. Porém, os prejuízos foram amplificados por falhas no manejo.

    “Em alguns casos, o produto certo estava na propriedade, mas não foi utilizado. Ou foi aplicado de forma errada”, destaca Rafael Mingoti, analista da Embrapa Territorial e coordenador da iniciativa.

    Do desespero ao sucesso: história de superação

    Atalívio Rufino, produtor de Elias Fausto, exemplifica a transformação possível. Em 2024, perdeu quase toda a produção. Assim, ele foi obrigado a dispensar funcionários. Sua propriedade, selecionada para os experimentos da Embrapa, hoje colhe os frutos da mudança de manejo.

    Cacho de videira de Niágara rosada com unidades apodrecidas. Foto: Rafael Mingoti/Embrapa

    “Antes, retirávamos os galhos e cachos que apodreciam sem tanto zelo. Agora, estamos retirando, queimando ou descartando longe. Também regularizamos o equipamento e aumentamos o volume de calda”, relata o produtor.

    Protocolo técnico baseado em evidências

    O protocolo desenvolvido inclui práticas integradas de controle:

    • Eliminação rigorosa de restos culturais infectados
    • Aplicações preventivas durante dormência hibernal
    • Uso de fungicidas eficazes em estágios estratégicos (floração, grão-ervilha, pré-fechamento do cacho)
    • Alternância entre produtos sistêmicos e de contato
    • Ajuste e calibragem adequada de pulverizadores
    • Utilização de produtos biológicos na maturação final

    Pesquisa avança para protocolo definitivo

    Estudos conduzidos pelo Instituto Biológico estão identificando as espécies do fungo Colletotrichum presentes na região. A diversidade encontrada explica a variabilidade de resposta aos tratamentos e reforça a importância do diagnóstico preciso.

    “Ainda não é possível afirmar se há resistência a algum fungicida, mas uma possível presença de múltiplas espécies reforça a importância de conhecer bem as causas do problema”, explica Mingoti.

    Os dados coletados embasarão uma proposta submetida à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para desenvolvimento de sistema de aviso e protocolo consolidado de manejo integrado.

    Capacitação técnica em setembro

    Os resultados e recomendações serão apresentados em eventos técnicos nos dias 16 e 18 de setembro. O seminário ocorrerá na Associação Agrícola de Jundiaí (13h30-18h30), enquanto o Dia de Campo acontecerá no Sítio Dois Irmãos, em Elias Fausto (14h-17h).

    Equipe da Embrapa e produtor durante acompanhamento de ensaios na propriedade de Atalívio Rufino – Foto: Atalívio Rufino/Embrapa

    Apesar do sucesso, os especialistas alertam que não é momento para relaxar. “Não é hora de abaixar a guarda”, reforça Mingoti. “É essencial manter a vigilância, aplicar corretamente os defensivos e eliminar restos culturais. Só assim vamos consolidar os avanços obtidos.”

    A recuperação da viticultura paulista demonstra como a parceria entre ciência e produtores pode superar desafios aparentemente impossíveis, garantindo a sustentabilidade de uma atividade econômica centenária e tradicional do estado.

  • Conheça o socol: Tradição italiana, sabor 100% brasileiro

    Conheça o socol: Tradição italiana, sabor 100% brasileiro

    Pouca gente sabe, mas o socol, embutido típico de Venda Nova do Imigrante (ES), tem origem direta no ossocollo, um salume italiano feito com carne do pescoço do porco. Contudo, ao chegar ao Brasil, essa receita precisou ser adaptada. Por aqui, os imigrantes italianos optaram por substituir essa parte mais gordurosa pelo lombo suíno, que é mais magro, mais acessível e muito mais aceito pelo paladar local.

    Apesar dessa mudança, os produtores preservaram quase integralmente a técnica artesanal de cura. Na prática, isso significa que o socol mantém não só a essência do sabor italiano, como também carrega as características únicas do terroir capixaba — influenciado diretamente pelo clima, pela altitude e, sobretudo, pelos fungos naturais da região.

    Por que só pode ser feito no frio? Entenda o segredo do socol

    O que poucos imaginam é que o socol não pode ser produzido o ano inteiro. Isso porque ele depende diretamente de condições climáticas específicas. A fabricação ocorre exclusivamente entre maio e outubro, período marcado por temperaturas mais baixas e clima seco na serra capixaba.

    Essas condições são essenciais, já que favorecem o desenvolvimento de um fungo verde natural, responsável por proteger a peça e, ao mesmo tempo, intensificar aroma, sabor e textura. Durante a cura, que pode durar de três a seis meses, a carne chega a perder até 50% do seu peso. Assim, os sabores se concentram, e o resultado é um embutido de qualidade excepcional.

    Selo de qualidade: o socol que tem Indicação Geográfica

    Todo esse processo artesanal e rigoroso não passou despercebido. Tanto que, em 2018, o socol de Venda Nova do Imigrante recebeu o selo de Indicação Geográfica (IG), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Esse reconhecimento garante que somente os produtores da região, que seguem rigorosamente os métodos tradicionais, podem utilizar a denominação oficial “Socol de Venda Nova do Imigrante”.

    Atualmente, apenas sete famílias estão habilitadas a produzir o verdadeiro socol com IG. Elas se concentram em localidades específicas, como Alto Bananeiras e Lavrinhas, onde o microclima — somado aos fungos locais — desempenha um papel crucial no sucesso do produto final.

    Como consumir e onde comprar o verdadeiro socol

    Na hora de consumir, o socol se revela extremamente versátil. Fatiado bem fino, como é tradicional na cultura dos salames italianos, ele harmoniza perfeitamente com pães artesanais, queijos curados, vinhos e até cervejas especiais. Além disso, muitos chefs e consumidores costumam incorporar o socol em diversas receitas, como bruschettas, risotos e até hambúrgueres gourmet.

    Quem deseja experimentar essa iguaria encontra o socol em empórios e lojas especializadas de Venda Nova do Imigrante. Além disso, vários mercados selecionados de São Paulo também oferecem o produto. Por fim, diversos sites especializados de venda online oferecem o socol com facilidade. O preço gira em torno de R$ 125 por quilo, refletindo não só a qualidade, mas também o valor cultural e artesanal embutido em cada peça.

    Foto: Secom ES

    Festa do Socol: turismo, cultura e gastronomia no Espírito Santo

    Por trás desse embutido há muito mais do que sabor — existe uma cultura viva. Todos os anos, Venda Nova do Imigrante realiza a tradicional Festa do Socol, um evento que vai muito além da gastronomia. Nele, turistas de várias partes do país participam de degustações, oficinas, leilões, shows e visitas guiadas às propriedades dos produtores.

    Durante o evento, é possível conhecer de perto a rotina das famílias que mantêm viva essa tradição. Locais como o Sítio Lorenção e o Café Tio Vé recebem visitantes que, além de aprenderem sobre o processo, podem adquirir produtos diretamente dos fabricantes.

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  • Técnica pode reduzir fertilizantes com ajuda de fungos benéficos

    Técnica pode reduzir fertilizantes com ajuda de fungos benéficos

    Pesquisadores descobriram que uma mutação genética pode ajudar o trigo a formar parcerias mais eficientes com fungos benéficos. Ou seja, essa interação permite às plantas extrair nutrientes do solo com maior eficácia, reduzindo a necessidade de fertilizantes sintéticos. A revista Nature já publicou a pesquisa.

    Além disso, o estudo mostrou que a mutação, localizada no gene CNGC15, influencia as oscilações de cálcio nas raízes, que atraem micróbios úteis. Portanto, isso facilita a liberação de nutrientes presos no solo, potencializando a nutrição do trigo e outras culturas que venham a ser modificadas de forma semelhante.

    Redução de fertilizantes beneficia o meio ambiente

    Fertilizantes industriais, ricos em nitrogênio e fosfato, aumentam a produtividade agrícola, mas também geram poluição ambiental. O excesso de nutrientes pode contaminar águas subterrâneas e emitir gases de efeito estufa. A descoberta oferece uma alternativa sustentável ao estimular as plantas a utilizarem nutrientes de maneira mais natural, expandindo sua interação com micróbios do solo.

    “O avanço é inovador e pode revolucionar a agricultura”, avalia Heike Sederoff, bióloga molecular da North Carolina State University. Cheng-Wu Liu, especialista da University of Science and Technology of China, destaca o potencial da mutação para uma produção agrícola mais sustentável.

    Parcerias microbianas ampliadas

    Plantas como ervilhas e feijões já mantêm relações benéficas com bactérias que fixam nitrogênio em suas raízes. Além disso, culturas como o trigo interagem com fungos que fornecem fosfato e outros nutrientes. No entanto, essas parcerias naturais são subutilizadas quando o solo é enriquecido com fertilizantes sintéticos.

    A mutação identificada pelos cientistas aumenta a produção de flavonoides, compostos químicos que atraem micróbios. Em experimentos com trevo-barril (Medicago truncatula), plantas com a mutação apresentaram 10% mais conexões fúngicas e absorveram 20% mais nitrogênio nas folhas.

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    Testes promissores com trigo

    A equipe aplicou a mutação em dois tipos de trigo. Em testes de campo, as plantas mutantes formaram 20% mais conexões com fungos benéficos, mesmo em solos enriquecidos com fertilizantes. As folhas apresentaram 10% mais nitrogênio em relação ao carbono, indicando maior eficiência nutricional.

    Os resultados são promissores para aumentar a produtividade de grãos enquanto reduzem o impacto ambiental. Segundo Giles Oldroyd, geneticista de plantas da Universidade de Cambridge, a mutação pode beneficiar diversas culturas agrícolas. “Essa abordagem tem o potencial de transformar a agricultura global.”

    Sustentabilidade como futuro da produção agrícola

    Com novos testes de campo, a expectativa é que a mutação genética permita colheitas mais nutritivas e economicamente viáveis. Além de oferecer vantagens aos agricultores, a técnica pode reduzir a dependência de fertilizantes químicos, beneficiando o meio ambiente e a saúde humana.

     

  • Óleos essenciais: descubra como eles ajudam a controlar fungos que atacam a manga na pós-colheita

    Óleos essenciais: descubra como eles ajudam a controlar fungos que atacam a manga na pós-colheita

    Cientistas da Embrapa e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) registraram atividades antifúngicas de sete óleos essenciais contra quatro fungos causadores de doenças pós-colheita em mangas.

    O trabalho ainda identificou a concentração mínima inibitória dos quatro mais eficientes e a composição química de cada um deles.

    Os resultados mostraram que os de orégano, alecrim pimenta, canela casca e alfavaca cravo inibiram 100% do crescimento dos patógenos estudados.

    Ação varia conforme o patógeno

    Apesar de possuir composição complexa, os óleos essenciais têm sido muito estudados por sua eficácia contra microrganismos.

    Os resultados do estudo mostraram que a sua ação varia de acordo com o patógeno.”A concentração mínima inibitória variou de acordo com o óleo e o fungo alvo. O de orégano se destacou pelo efeito inibidor sobre os patógenos C. siamense, L. theobromae e B. dothidea, demonstrando excelente atividade antifúngica na menor concentração testada. Já o A. alternata foi mais sensível ao óleo essencial de casca de canela do que ao de orégano”, afirma Elke Vilela, analista da Embrapa Meio Ambiente.

    Composição química e atividade antifúngica

    A análise por cromatografia gasosa revelou a composição dos óleos e a sua relação com a atividade antifúngica.

    Foi observada essa atividade em constituintes dos óleos como o carvacrol, o timol, o linalol e o α-pineno. Carvacrol e timol, constituintes majoritários dos óleos essenciais de orégano e alecrim pimenta, respectivamente, apresentaram os melhores resultados, evidenciando o significativo efeito inibitório dos fungos C. siamense, A. alternata, L. theobromae e B. dothidea, com maior atividade antifúngica contra os fungos pós-colheita da manga avaliados.

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    “O componente principal encontrado no óleo de alecrim foi o carvacrol, com aproximadamente 69%; já no óleo de alecrim pimenta destacou-se o timol, com teor de 77%; cinamaldeído é o principal constituinte do óleo canela casca, 85%, e o eugenol é o componente mais abundante da alfavaca cravo, com mais de 84%”, detalha Daniel Terao, pesquisador da Embrapa.

    Alternativa aos fungicidas sintéticos

    Os resultados fornecem subsídios para o desenvolvimento de tecnologias utilizando óleos no controle de C. siamense, A. alternata, L. theobromae e B. dothidea de manga, como alternativa de fungicida sintético.

    “O uso de fungicidas no tratamento pós-colheita de manga tem sido uma prática comum visando à redução da incidência de doenças e ao prolongamento do tempo de vida útil da fruta, mas, com a conscientização sobre possíveis riscos à saúde provocados por eles, tem-se buscado tratamentos mais sustentáveis”, explica Elke Vilela.

    Além disso, o uso excessivo de agroquímicos, além de poder ocasionar a contaminação química das frutas, pode provocar o surgimento de cepas de patógenos resistentes ao fungicida, dificultando o controle das doenças pós-colheita, alerta a analista.

    Manga suscetível a patógenos durante o amadurecimento

    A manga é uma fruta climatérica, que geralmente é colhida ainda imatura e amadurece mesmo após a colheita, durante o armazenamento.

    Seu amadurecimento envolve alterações fisiológicas e bioquímicas, acompanhadas de aumento acentuado da respiração e da produção de etileno.

    “Durante esse processo de amadurecimento, as frutas se tornam mais suscetíveis ao ataque de patógenos, principalmente durante o armazenamento e transporte, causando severas perdas”, explica o pesquisador da Embrapa Daniel Terao.

    Ele conta que os fungos são os principais causadores das perdas de qualidade e produtividade das frutas. “Com os fungos, fazer chegar frutas de qualidade aos consumidores é um desafio”, afirma Terao, ao contar que a antracnose, causada pelo fungo Colletotrichum siamense, é a doença pós-colheita mais comum na manga.

    Além desse patógeno, a fruta ainda é alvo de Alternaria alternata, fungo causador da mancha de alternaria; de Lasiodiplodia theobromae, e Botryosphaeria dothidea, causadores de severas podridões nas frutas.

    Divulgação – Embrapa/Elke Vilela

    Mecanismo de ação antifúngica

    O mecanismo de ação antifúngica dos óleos essenciais é atribuído aos seus componentes, que atuam de forma sinérgica (um complementando a ação do outro) ou aditiva no exercício de seus efeitos.

    De acordo com o pesquisador, o conhecimento da atividade antifúngica desses constituintes pode ajudar a compreender a eficácia dos óleos essenciais e sua atividade contra os fungos.