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  • Produção de eucalipto cresce 14% e impulsiona riqueza no campo

    Produção de eucalipto cresce 14% e impulsiona riqueza no campo

    O eucalipto ampliou sua relevância no agronegócio paulista e passou a integrar o grupo das culturas mais valiosas do estado. O avanço da produção e da geração de renda no campo fortalece uma cadeia produtiva estratégica, que abastece a indústria, impulsiona exportações e estimula o desenvolvimento regional.

    Dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA-Apta) mostram que a produção de eucalipto em São Paulo cresceu 14%. O desempenho elevou o Valor da Produção Agropecuária (VPA) da cultura para R$ 2,9 bilhões, acima do registrado no ano anterior.

    A cadeia do eucalipto atende diferentes segmentos da economia. A produção abastece as indústrias de papel e celulose, energia por biomassa e carvão vegetal, além da construção civil e do setor moveleiro. A cultura também fornece matéria-prima para óleos essenciais e se destaca pelo rápido crescimento e alta capacidade de renovação.

    Principal espécie da silvicultura paulista, o eucalipto ocupa mais de 77% da área de florestas plantadas no estado, com pouco mais de 1 milhão de hectares cultivados. São Paulo figura como o terceiro maior produtor nacional, atrás de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. A produção alcançou 23,9 milhões de metros cúbicos, alta de 14,6% em relação ao ciclo anterior.

    Polos

    As regiões sudoeste paulista, centro-oeste e o Vale do Paranapanema concentram os principais polos de cultivo. Municípios como Agudos, Itapetininga, Itatinga, Angatuba, Botucatu, Lençóis Paulista, Bofete, Cabrália Paulista, Capão Bonito, Itararé e Paranapanema lideram a produção, favorecidos por condições edafoclimáticas adequadas e disponibilidade de áreas.

    O crescimento da silvicultura também reforça a balança comercial do agro paulista. Os produtos florestais ocupam a terceira posição nas exportações do estado, atrás apenas do complexo sucroalcooleiro e do setor de carnes. Em abril de 2026, o segmento somou US$ 1,14 bilhão em exportações, com participação de 13,6% do total. A celulose respondeu por 66,3% desse valor, enquanto o papel representou 27,9%.

    Para o setor, o avanço da produção reflete a competitividade e a capacidade de agregação de valor da cadeia florestal. A presidente da Câmara Setorial de Produtos Florestais de São Paulo e diretora-executiva da Florestar, Fernanda Abilio, destaca que o estado reúne produtividade, indústria e logística, fatores que mantêm o segmento entre os mais estratégicos do agro.

    “A indústria florestal paulista possui base produtiva consolidada, sustentável e altamente tecnificada, com predominância do eucalipto. O crescimento do VPA e da produção demonstra a capacidade do setor de gerar empregos, ampliar exportações e fornecer matéria-prima renovável para diferentes cadeias industriais”, afirma.

    Integração e sustentabilidade

    Além do avanço produtivo, o eucalipto ganha espaço em sistemas integrados de produção. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento apoia pesquisas conduzidas pela APTA Regional, com foco na Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), em unidades como Brotas, Itapetininga e Tietê.

    O modelo integra o cultivo de eucalipto com lavouras e pecuária, promove a recuperação de áreas degradadas e amplia a rentabilidade no campo. As árvores também contribuem para o conforto térmico dos animais, reduzem os impactos do calor e favorecem o desempenho produtivo de rebanhos, como o Nelore.

  • Araucária gigante cai e mobiliza corrida científica para preservar DNA raro

    Araucária gigante cai e mobiliza corrida científica para preservar DNA raro

    A queda da quarta maior araucária do Brasil, na Estação Experimental da Embrapa em Caçador (SC), disparou uma operação de resgate genético contra o relógio. Uma equipe da Embrapa Florestas viajou até o município para coletar material genético e tentar clonar o exemplar. Ele era apelidado carinhosamente de “Pinheirão” por pesquisadores que conviveram com ele por décadas.

    Com 44 metros de altura e 2,45 metros de diâmetro à altura do peito (DAP), o espécime era o quarto maior da espécie Araucaria angustifolia no país, segundo levantamentos do professor Marcelo Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A queda ocorreu nas últimas semanas, mas não há confirmação da data exata.

    A corrida contra o tempo

    Após chegar ao local, a equipe avaliou as condições das brotações na copa do Pinheirão. “O ideal é que a coleta deste tipo de material ocorra entre cinco e dez dias após a queda. No entanto, a equipe encontrou brotações ainda viáveis”, explica o pesquisador Ivar Wendling, da Embrapa Florestas.

    O material coletado seguiu para enxertia em laboratório. Os pesquisadores devem confirmar o sucesso do procedimento em cerca de 100 dias. A altura do Pinheirão, que por décadas impediu qualquer intervenção no topo da árvore, só se tornou acessível com o tombamento. “Esse material se encontra no alto, na copa da árvore e, em virtude de sua altura, o procedimento só seria possível por meio de escalada, o que era inviável nesta árvore, ou, infelizmente, com seu tombamento”, explica Paulo César, bolsista da equipe.

    Equipe da Embrapa Florestas se mobilizou para coleta de material genético e tentativa de clonagem da árvore. Foto: Katia Pichelli / Embrapa Florestas

    A iniciativa busca preservar características genéticas raras da espécie, incluindo altura e longevidade excepcionais.

    Vínculo científico e emocional

    Para Anderson Feltrim, gerente da Estação Experimental da Epagri em Caçador, a mobilização vai além do interesse científico. “A mobilização atual reflete não apenas o valor científico da árvore, mas também o vínculo ao longo dos anos de todos nós que convivemos com ela. Assim que constatamos a queda, acionamos a Embrapa, pois entendemos o valor científico de estudá-la”, afirmou.

    A Embrapa Florestas já tem experiência nesse tipo de operação. Em Cruz Machado (PR), a instituição conduziu a clonagem de outra araucária de grande porte após queda semelhante. Um caso que serve de referência técnica para o trabalho atual.

    Uma idade ainda desconhecida

    O Pinheirão nunca revelou sua idade com precisão. O tronco oco inviabilizava a dendrocronologia, técnica que determina a idade de uma árvore pela contagem dos anéis de crescimento no interior do tronco. Em árvores em pé e íntegras, a leitura se faz com um trado que extrai uma amostra de madeira a partir da altura do peito, onde os anéis costumam ser mais regulares e representativos. Com o tombamento, tornou-se possível retirar discos do tronco para contagem direta.

    A equipe, com orientação do técnico Arnaldo Soares da Embrapa Florestas, pretende coletar discos em uma região onde a madeira permanece íntegra, por volta dos cinco metros de altura. A contagem, porém, indicará apenas uma idade mínima: os anos iniciais de crescimento, anteriores ao momento em que o tronco atingiu aquela altura, ficam fora do registro.

    A pesquisadora Maria Augusta Doetzer Rosot, do Laboratório de Monitoramento da Embrapa Florestas, acompanhou o Pinheirão desde 2003. Foi quando a equipe instalou experimentos na estação em parceria com professores e alunos da UFPR. “Devido à fragilidade observada no tronco, optou-se por não se proceder a nenhuma investigação para determinar sua idade, mas certamente esta árvore serviu de inspiração para muitos de nossos trabalhos”, conta.

    Além disso, o exemplar também figurava na agenda de visitantes internacionais, como pesquisadores da FAO, da Universidade Politécnica de Madri, do Centro Agronômico de Investigação e Ensino (CATIE, Costa Rica) e da Rede Internacional de Bosques Modelo (Canadá).

    Os últimos registros em vida

    Em novembro de 2025, o fotógrafo Zé Paiva e o cinegrafista Gustavo Fonseca foram os últimos profissionais a documentar o Pinheirão ainda em pé. A dupla estava em Caçador para o projeto “Reinvenção da Natureza”, do SESC, que mapeou 12 árvores gigantes do Sul do Brasil com base no trabalho do prof. Scipioni.

    “É muito forte a sensação de sermos os últimos fotógrafos documentando essa árvore tão impressionante, sentir a força da natureza, mas também o impacto de ver a finitude da vida e que a vida está sempre se renovando”, disse Paiva.

    Últimos registros oficiais do Pinheirão quando ele ainda estava em pé foram feitos em novembro de 2025. Foto: Zé Paiva/Vista Imagens

    O projeto resultará em uma exposição artística multimídia, com vídeos e experiência imersiva sobre a Floresta Ombrófila Mista. A mostra deve estrear no primeiro semestre na galeria do SESC Concórdia e, no segundo semestre, no SESC Itajaí. Acompanhe o perfil @zepaivaphoto para mais informações.

    Scipioni coordena um dos principais levantamentos de árvores gigantes do Sul do Brasil, mapeando exemplares com mais de 1,5 metro de diâmetro, hoje cada vez mais escassos. Além disso, o trabalho envolve expedições a campo, análise de anéis de crescimento e estudo de araucárias e imbuias de grande porte. E tem foco em ecologia, conservação e importância ambiental.

    Clima extremo derruba gigantes

    Em estudo recente, Scipioni investigou a relação entre mudanças climáticas e a queda de árvores monumentais no Sul do Brasil. A pesquisa analisou eventos de 2023 e concluiu que o fator determinante para o tombamento não é o vento, mas a saturação do solo, que perde resistência e compromete a ancoragem das raízes.

    “O peso elevado e as copas largas dessas árvores centenárias as tornam particularmente vulneráveis a essas mudanças climáticas induzidas pelo El Niño”, explica o professor. O aumento das chuvas extremas transforma terrenos argilosos em superfícies instáveis para árvores de grande porte. O que exige, portanto, estratégias urgentes de conservação e monitoramento proativo para proteger esse patrimônio ecológico e cultural.

  • A “árvore milagrosa” que se tornou uma inimiga da biodiversidade brasileira

    A “árvore milagrosa” que se tornou uma inimiga da biodiversidade brasileira

    Ela chegou ao Brasil como uma promessa: crescia rápido, sobrevivia em solos pobres, alimentava o gado e ainda ajudava a recuperar áreas degradadas. A Leucena (Leucaena leucocephala), uma leguminosa arbórea nativa do México e da América Central, foi por década chamada de “árvore milagrosa”.

    No entanto, o que era solução se transformou em problema. A mesma rusticidade que a tornou atraente a converteu em uma das espécies exóticas invasoras mais daninhas do mundo, capaz de formar “desertos verdes” e dizimar a biodiversidade nativa em vários biomas brasileiros.

    A confirmação dessa transformação de herói para vilão ecológico não é apenas uma percepção isolada. Ela é atestada por estudos científicos, listas internacionais de espécies invasoras e uma onda recente de leis municipais que determinam sua erradicação e substituição por árvores nativas.

    O percurso de uma invasora

    A tabela abaixo resume a trajetória da leucena no Brasil, desde sua introdução até os esforços atuais para controlá-la:

    A ameaça ecológica na prática

    A agressividade da leucena não é um exagero. Especialistas explicam que a planta age por meio de uma estratégia dupla e avassaladora.

    • Efeito Alelopático: a leucena libera no solo uma substância química chamada mimosina, que age como um herbicida natural, inibindo a germinação e o crescimento de outras plantas ao seu redor. É uma forma de guerra química que elimina a concorrência.
    • Dominação por monopólio: com crescimento extremamente rápido e uma capacidade prolífica de produzir sementes, a leucena rapidamente forma densos aglomerados onde apenas ela prospera. Essas formações são chamadas de “desertos verdes” ou “florestas mono-dominantes”. A paisagem parece verdejante, mas é ecologicamente pobre, composta por uma única espécie.

    O impacto disso é profundo. Em Fernando de Noronha, a leucena, lá conhecida como linhaça, está presente em 60% das áreas com vegetação e é a planta mais comum do arquipélago. Pesquisas mostraram que onde ela ocorre, a riqueza de espécies nativas diminui em cerca de 70% . Esse fenômeno se repete no Cerrado, na Mata Atlântica e em restingas, ameaçando a fauna que depende das plantas nativas para alimento e abrigo.

    O combate se organiza pelo Brasil

    Diante da evidência dos fatos, a resposta de gestores públicos tem ganhado força. O ano de 2025 foi marcante para essa guinada política:

    • Em Campo Grande (MS), a prefeitura sancionou uma lei que prevê a erradicação e substituição das leucenas na cidade. A legislação proíbe o plantio, comércio e transporte da espécie e estabelece multa de R$ 1.000 para quem descumpri-la .
    Foto: Mauro Halpern/Flickr
    • Em Sumaré (SP), a Câmara Municipal aprovou em setembro de 2025 um projeto de lei que reconhece a leucena como invasora e determina sua supressão em áreas públicas, com remoção gradual e substituição por nativas .
    • Cidades como Sorocaba (SP) também discutem projetos de lei para simplificar a remoção da árvore, enquanto Florianópolis (SC) e Alto Paraíso (GO) já realizam ações pontuais de controle .

    E o uso na alimentação?

    A pergunta que fica é: ainda há espaço para o uso controlado da leucena, especialmente na alimentação animal, sua aplicação original? A busca por respostas revela um cenário de precaução.

    Artigos especializados ainda reconhecem seu valor forrageiro, destacando sua tolerância à seca e capacidade de ser uma fonte de proteína para o gado em períodos de estiagem . No entanto, a própria engenheira florestal Silvia Ziller, fundadora do Instituto Hórus, faz um alerta: “Se ainda for necessário usar a leucena, que se faça o controle ao redor das áreas de cultivo para evitar sua dispersão. Mas a recomendação é clara: se não há necessidade real, não plante. Os impactos são sérios”.

    Há, inclusive, registros de que as sementes da leucena são comestíveis para humanos. Sendo utilizadas na culinária mexicana tradicional, onde a planta é conhecida como guaje. No entanto, é crucial notar que esse uso culinário se refere a variedades específicas e não isenta a espécie dos riscos de se tornar invasora em outros ecossistemas.

    A história da leucena no Brasil é um caso paradigmático de como boas intenções, sem uma avaliação ecológica de longo prazo, podem gerar graves desequilíbrios ambientais. A “árvore milagrosa” mostrou que seu milagre tinha um custo proibitivo para a biodiversidade nativa.

    A posição da ciência e da gestão ambiental contemporânea é clara: não há mais espaço para o culto a essa espécie. O consenso, reforçado pelas recentes leis municipais, é de que o caminho agora é o controle, a erradicação onde possível e a substituição por espécies nativas diversas e adaptadas. O milagre, afinal, estava o tempo todo na resiliência dos ecossistemas originais do Brasil, que agora precisam de proteção contra essa invasora agressiva.