O crédito rural começou a safra 2026/27 em ritmo muito abaixo do esperado. Dados do Banco Central mostram que os desembolsos somaram apenas R$ 12,7 bilhões em julho, uma queda superior a 55% em relação aos R$ 28,3 bilhões liberados no mesmo mês do ano passado. O resultado acende um sinal de alerta para produtores e instituições do setor, que já projetam uma temporada marcada por maior dificuldade de acesso ao financiamento.
Mesmo com a redução das taxas de juros anunciada no novo Plano Safra, o atraso na regulamentação da equalização dos financiamentos pelo Tesouro Nacional e a postura mais conservadora das instituições financeiras limitaram a liberação dos recursos logo no primeiro mês da temporada.
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Queda atingiu todas as modalidades de financiamento
A retração foi registrada em todas as principais linhas de crédito.
As operações de custeio, utilizadas para financiar despesas da produção agrícola, passaram de R$ 19,9 bilhões para R$ 9,2 bilhões. Já os financiamentos destinados a investimentos tiveram uma redução ainda mais intensa, recuando de R$ 4,1 bilhões para menos de R$ 1 bilhão.
Também houve queda nas linhas voltadas para comercialização, que passaram de R$ 1,8 bilhão para R$ 1,4 bilhão, e para industrialização, que diminuíram de R$ 2,3 bilhões para R$ 1,1 bilhão.
Além do menor volume financeiro, o número de contratos também caiu significativamente. Foram 77,2 mil operações registradas em julho, contra 179,2 mil no mesmo período da safra anterior.
Os dados foram extraídos do sistema do Banco Central e ainda podem sofrer alterações, já que operações contratadas, mas ainda não desembolsadas, não aparecem nas estatísticas. As informações também não incluem as emissões de Cédulas de Produto Rural (CPRs).
Recursos controlados concentraram a maior parte dos desembolsos
Como tradicionalmente ocorre no início da safra, os recursos de fontes controladas responderam pela maior parte do crédito liberado.
Segundo os dados, aproximadamente R$ 9,1 bilhões vieram de depósitos à vista, fundos constitucionais, poupança rural e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) com equalização. Outros R$ 3,5 bilhões foram provenientes de fontes não controladas, com juros livres.
Atraso na equalização dificultou liberações
Para especialistas, um dos principais fatores para o desempenho fraco foi a demora na publicação da portaria que autorizou o pagamento da equalização das operações, divulgada apenas em 23 de julho.
A sócia-gerente da consultoria Agroicone, Leila Harfuch, avalia que o crédito rural já vinha perdendo força desde o Plano Safra 2023/24, embora a produção agropecuária tenha continuado crescendo com maior participação de instrumentos privados de financiamento.
Segundo ela, o principal desafio agora será reduzir o endividamento do produtor para ampliar novamente o acesso ao crédito, seja por meio dos bancos ou das empresas que atuam no financiamento do agronegócio.
A especialista também demonstrou preocupação com a previsão de um El Niño mais intenso, que poderá aumentar os riscos para a produção em um cenário já marcado pelo elevado custo do capital, alto endividamento e baixa cobertura do seguro rural.
“Este ano o que preocupa muito é o El Niño mais forte. Ainda com custo de capital caro para o produtor, endividamento elevado e instrumentos de gestão de riscos como seguro rural com baixa penetração e pouco recurso para subvenção, teremos uma safra com exposição ao risco elevado.”
Governo prevê maior cautela na contratação de financiamentos
O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos, reconheceu a redução no volume de financiamentos e afirmou que as instituições financeiras deverão atuar com mais cautela diante do atual cenário econômico.
“É preciso ter cautela e muita responsabilidade. Quem pegar crédito, tem que ter muita responsabilidade em assumir a dívida, porque o financiamento está caro. O produtor tem que estar com convicção de que a conta fecha no final.”
Segundo Campos, a falta de recursos para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) pode reduzir o estímulo ao plantio em algumas regiões. Embora ele não espere diminuição da área cultivada, acredita que muitos produtores deverão cortar investimentos em adubação e em outras práticas de manejo para reduzir custos.
“Os produtores vão investir menos para não gerar um custo muito alto já que não há perspectivas de melhora nos preços das commodities.”
Renegociação das dívidas pode aliviar o mercado
O governo também aposta na renegociação das dívidas autorizada pela Medida Provisória 1.376/2026 para ampliar a capacidade de contratação de novos financiamentos.
Entretanto, o processo ainda depende da regulamentação da equalização dos juros e da definição dos procedimentos junto às instituições financeiras. Segundo estimativas do Ministério da Fazenda, cerca de R$ 20 bilhões poderão ser renegociados nessa modalidade. Também será necessário um remanejamento de aproximadamente R$ 130 milhões para reforçar o caixa do Tesouro Nacional e permitir o avanço das operações.
Especialistas alertam para problema estrutural no crédito rural
Na avaliação de Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Crédito e do Seguro Rural da FGV Agro, a retração observada nos últimos anos evidencia um problema estrutural do sistema de financiamento do agronegócio.
Entre os fatores apontados estão o aumento da inadimplência, maior seletividade dos bancos, redução da cobertura do seguro rural e dificuldades relacionadas às garantias exigidas nas operações de crédito.
“O Plano Safra recorde deixou de ser sinônimo de política agrícola forte. Quando os anúncios crescem, mas o produtor acumula recordes de alavancagem, inadimplência, crédito problemático, leilões e recuperações judiciais, o que se revela não é sucesso, mas o esgotamento de um modelo sem funding de qualidade, direção estratégica e proteção securitária.”
Para Loyola, a redução das taxas de juros representa um avanço, mas não resolve os problemas estruturais do sistema.
“Juro menor reduz o custo financeiro, mas não cria funding, não recompõe garantias e não reduz automaticamente o risco da produção.”
Cooperativas ganham espaço no financiamento do agro
Os dados também mostram uma mudança no perfil das instituições que lideram as liberações de crédito.
As cooperativas de crédito responderam pelo maior volume de desembolsos em julho, enquanto as instituições públicas perderam participação. O Banco do Brasil, por exemplo, liberou R$ 2,3 bilhões, bem abaixo dos R$ 10,9 bilhões registrados em julho de 2025.
Segundo a instituição, o atraso na equalização impactou diretamente as operações, embora o volume efetivamente contratado seja superior ao já desembolsado.














