Tag: fertilizantes nitrogenados

  • Conflito no Oriente Médio dispara preços de fertilizantes e ameaça custos da safra brasileira

    Conflito no Oriente Médio dispara preços de fertilizantes e ameaça custos da safra brasileira

    Os desdobramentos do conflito no Oriente Médio começaram a se traduzir em alta expressiva nos preços dos fertilizantes nitrogenados em todo o mundo, com reflexos diretos no Brasil,país que importa cerca de 85% dos insumos agrícolas que consome. Nos portos brasileiros, a ureia registrou alta superior a 15% em uma semana, enquanto o nitrato de amônio avançou cerca de 28%, com valorização de mais de US$ 100 por tonelada no mesmo período, segundo dados da StoneX, empresa global de serviços financeiros.

    Diante do cenário, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) emitiu nota oficial pedindo cautela ao mercado e orientando produtores rurais a evitar compras precipitadas. O ministro Carlos Fávaro foi direto: “É momento de cautela e de combate à especulação. A melhor forma de enfrentar a especulação é não comprar quando o preço está artificialmente elevado.”

    Por que os preços subiram tão rápido

    A volatilidade tem raízes tanto nas incertezas geopolíticas quanto em impactos concretos já verificados na cadeia global de fertilizantes. Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, explica que, nos dias seguintes ao início do conflito, muitos fornecedores retiraram ofertas do mercado à espera de maior clareza sobre a formação de preços. Ao mesmo tempo, ataques no Catar resultaram em redução da produção de nitrogenados no país, diminuindo a disponibilidade global de mercadorias.

    Outro fator de pressão é a situação logística na região. A navegação no Estreito de Hormuz, rota estratégica para o comércio global de insumos, foi prejudicada, comprometendo o escoamento de fertilizantes, gás natural e enxofre produzidos no Oriente Médio. A região responde por cerca de 40% das exportações mundiais de ureia, segundo Pernías. “Qualquer interrupção prolongada pode gerar impactos significativos na oferta global, especialmente se o conflito se estender por semanas ou meses”, alerta o analista.

    A situação é agravada ainda pela interrupção temporária das exportações russas de nitrato de amônio, outro fator citado pelo próprio Mapa como elemento de instabilidade no mercado internacional.

    Brasil dependente e vulnerável

    A dependência brasileira de fertilizantes importados torna o país especialmente exposto a esse tipo de choque externo. Dados da Embrapa indicam que 85% dos fertilizantes usados no país vêm do exterior. E no caso específico da ureia, utilizada em culturas como milho, trigo, arroz, algodão e cana-de-açúcar, essa dependência chega a 90% do consumo nacional. Em 2025, o Brasil importou entre 7 e 8 milhões de toneladas do insumo, de acordo com a Secretaria de Comércio Exterior. Parte relevante dessas compras tem origem justamente em países do Oriente Médio.

    Para o advogado especialista em agronegócio Pedro Henrique Oliveira Santos, o cenário pode pressionar ainda mais os custos de produção agrícola. “O impacto esperado é o aumento do preço dos fertilizantes, podendo gerar uma elevação de 15% a 20% no valor desses insumos”, afirma.

    O efeito tende a chegar primeiro às regiões mais dependentes do transporte rodoviário. Municípios com grande produção de grãos como Sorriso, Rondonópolis e Lucas do Rio Verde (MT), Cascavel, Toledo e Londrina (PR), além de Dourados e Maracaju (MS), podem sentir mais rapidamente o impacto no custo de colheita e transporte da safra.

    Governo orienta: aguardar antes de comprar

    Com a safra de inverno já plantada ou em fase final de implantação, o Mapa avalia que não há necessidade imediata de aquisição de fertilizantes. A próxima grande demanda ocorrerá apenas com o início do plantio da safra de verão, tradicionalmente a partir de setembro. O que, na avaliação do ministério, abre uma janela para que o mercado se estabilize.

    “Quem precisava comprar fertilizante para a safra atual já o fez. Para a safra de verão ainda há tempo. Por isso, a orientação neste momento é aguardar o desenrolar do cenário internacional e evitar compras precipitadas”, afirmou o ministro Fávaro.

    O ministério também destacou que existem alternativas tecnológicas e estratégias de manejo capazes de otimizar o uso de nutrientes nas lavouras, reduzindo a exposição dos produtores às oscilações do mercado internacional.

    Incerteza permanece

    No curto prazo, os Estados Unidos tendem a sentir os efeitos da redução da oferta com mais rapidez, pois atravessam o período de preparação para a safra de primavera. Momento em que a demanda por fertilizantes costuma crescer de forma expressiva. Caso os preços internacionais mais elevados sejam repassados ao comprador norte-americano, existe risco de pressão sobre as margens dos agricultores em um momento sensível de planejamento.

    No Brasil, o impacto deve ser mais gradual. As compras de fertilizantes nitrogenados geralmente se intensificam apenas nos meses finais do ano, em antecipação ao plantio da safrinha de milho. Diante disso, muitos importadores podem adotar postura mais cautelosa no curto prazo.

    Ainda assim, Pernías alerta que o nível de incerteza é alto. “A falta de previsibilidade no cenário geopolítico torna o comportamento do mercado de fertilizantes especialmente difícil de antecipar neste momento”, conclui o analista. O Mapa informou que seguirá monitorando permanentemente a cadeia de suprimentos e dialogando com atores do setor para avaliar alternativas de logística, importação e abastecimento.

  • Conflito no Oriente Médio dispara preços de fertilizantes e pressiona oferta global

    Conflito no Oriente Médio dispara preços de fertilizantes e pressiona oferta global

    O avanço do conflito no Oriente Médio provocou uma alta expressiva nos preços dos fertilizantes nitrogenados em todo o mundo. No Brasil, a ureia subiu mais de 15% e o nitrato de amônio teve aumento de aproximadamente 28% em apenas uma semana, segundo levantamento da StoneX.

    A valorização reflete as incertezas no fornecimento e os efeitos diretos sobre a logística internacional. A consultoria aponta que diversos fornecedores retiraram temporariamente suas ofertas do mercado, aguardando maior clareza sobre a formação de preços e o impacto das tensões na região.

    De acordo com o analista de Inteligência de Mercado, Tomás Pernías, a instabilidade também afeta a produção no Oriente Médio. “Após os ataques no Catar, parte das fábricas reduziu suas operações, o que já reduz a disponibilidade global de produtos nitrogenados”, afirma.

    Logística comprometida no Estreito de Hormuz

    A navegação no Estreito de Hormuz, rota por onde passa grande parte das exportações de ureia e gás natural, enfrenta restrições. O bloqueio parcial da região paralisa embarques de insumos essenciais, como fertilizantes e enxofre, e agrava a pressão sobre os preços.

    Pernías destaca que o Oriente Médio responde por cerca de 40% das exportações mundiais de ureia. “Qualquer interrupção prolongada pode causar desequilíbrio significativo na oferta global, principalmente se o conflito persistir por semanas ou meses”, alerta.

    Efeitos nos Estados Unidos e no Brasil

    Nos Estados Unidos, a escassez tende a se manifestar primeiro. O país entra no período de preparação para a safra de primavera, quando a demanda por fertilizantes cresce rapidamente. Assim, a alta internacional pode encarecer os custos do produtor e reduzir margens no campo.

    Já no Brasil, o impacto deve ser mais suave no curto prazo. As compras de nitrogenados se intensificam apenas no segundo semestre, com foco na safrinha de milho. Mesmo assim, importadores demonstram cautela e avaliam postergar negociações à espera de maior estabilidade.

    “Apesar da expectativa de ajuste, o cenário segue imprevisível. Não há garantia de uma correção nos preços enquanto persistirem as incertezas geopolíticas”, conclui Pernías.

  • Crise EUA-Venezuela gera alerta no mercado de fertilizantes, mas impacto na oferta de ureia é limitado

    Crise EUA-Venezuela gera alerta no mercado de fertilizantes, mas impacto na oferta de ureia é limitado

    As tensões geopolíticas recentes entre Estados Unidos e Venezuela trouxeram preocupações ao mercado internacional sobre possíveis rupturas na cadeia de fertilizantes nitrogenados. No entanto, a participação limitada do país no comércio global de ureia deve conter os efeitos sobre os preços e a oferta mundial, conforme análise da StoneX, empresa global de serviços financeiros.

    De acordo com Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, países grandes produtores de petróleo costumam ter relevância também na produção de fertilizantes nitrogenados — que dependem do gás natural como insumo principal. “Rússia, Argélia, Irã e Catar são exemplos claros. Já a Venezuela, apesar de sua extensa produção petrolífera, tem presença modesta no mercado de ureia”, explica.

    Dados de 2024 mostram que a Venezuela ocupou apenas a 18ª posição entre os maiores exportadores globais de ureia, com embarques de pouco mais de 560 mil toneladas. O equivalente a cerca de 1% do total mundial. Em comparação, a Rússia foi responsável por aproximadamente 18% das exportações no mesmo período.

    Fornecimento ao Brasil existe, mas não é estratégico

    Embora a Venezuela seja um fornecedor de ureia para o Brasil, sua importância é secundária. Em 2024, cerca de 6% das importações brasileiras do produto vieram do país vizinho. Entre janeiro e novembro de 2025, essa fatia recuou para menos de 5%.

    Atualmente, os principais fornecedores de ureia do Brasil são Nigéria (23%), Rússia (16%) e Catar (15%), o que demonstra uma matriz diversificada e reduz a dependência de uma única origem.

    “Até agora, não há sinais de impactos diretos na capacidade produtiva ou exportadora de fertilizantes da Venezuela”, destaca Pernías. “O que se observa são pressões pontuais nos custos logísticos, com relatos de aumento nos fretes marítimos devido ao cenário de incertezas na região”, conclui o especialista.

  • Petrobras anuncia R$ 2,6 bilhões de investimentos na Bahia para setor naval e fertilizantes

    Petrobras anuncia R$ 2,6 bilhões de investimentos na Bahia para setor naval e fertilizantes

    A Petrobras anunciou na quarta-feira (8) um investimento de R$ 2,6 bilhões na Bahia, destinado a fortalecer o setor naval e reativar a produção de fertilizantes no estado. O montante será aplicado na encomenda de novas embarcações e na reabertura da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen) da Bahia, paralisada desde 2018.

    Em coletiva realizada pela presidente da Petrobras, Magda Chambriard, em Salvador, foram detalhados os planos que incluem também a operação e manutenção das fábricas de fertilizantes na Bahia e em Sergipe, com previsão de retorno das atividades até o final de 2025. A retomada deve elevar a produção nacional de fertilizantes nitrogenados em aproximadamente 20%, beneficiando o agronegócio brasileiro.

    Além de garantir a oferta para o setor agrícola, o investimento está alinhado com a expansão da produção nacional de gás natural, fator decisivo para a viabilidade econômica da Fafen. A presidente destacou que a Petrobras já aumentou o fornecimento de gás para o mercado interno, o que barateou o insumo essencial para a unidade fabril.

    Na quinta-feira (9), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visita o Estaleiro Enseada, em Maragogipe, no Recôncavo Baiano, local onde será assinado um protocolo de intenções para viabilizar estudos sobre o uso do canteiro de obras de São Roque do Paraguaçu como área de acostamento para plataformas de petróleo em descomissionamento.

    Estaleiro Enseada

    O Estaleiro Enseada, parceiro da Compagnie Maritime Monegasque (CMM) desde dezembro de 2024, está encarregado da construção de seis navios híbridos multipropósito (PSVs-OSRVs), parte do investimento da Petrobras para renovação da frota naval.

    O Ministério de Portos e Aeroportos também fará um aporte adicional de R$ 611,7 milhões para a construção de 80 embarcações que ampliarão as operações naval e aquaviária no estado, sendo R$ 550,5 milhões provenientes do Fundo da Marinha Mercante (FMM). Este investimento deve gerar mais de 2 mil empregos diretos.

    No total, os investimentos no setor naval e de fertilizantes na Bahia devem criar cerca de 6 mil empregos diretos e indiretos, reforçando a importância estratégica da região para a indústria naval e agrícola nacional.

  • Monitoramento em tempo real do nitrogênio pode poupar até R$ 1 bilhão

    Monitoramento em tempo real do nitrogênio pode poupar até R$ 1 bilhão

    A agricultura do Estado de São Paulo pode economizar até R$ 1 bilhão por ano ao adotar tecnologias que monitoram o nitrogênio no solo em tempo real. Isso é o que aponta um relatório da empresa Stenon. Esse monitoramento pode reduzir um dos maiores custos da lavoura: o fertilizante nitrogenado.

    Atualmente, o preço da ureia importada gira entre US$ 435 e US$ 475 por tonelada, equivalente a R$ 2.400 a R$ 2.600, mesmo após queda pós-pandemia. Fatores geopolíticos, como a crise no Leste Europeu e sanções dos EUA, pressionam os custos, já que 17% da ureia brasileira vêm do Golfo Pérsico. O custo elevado impacta os produtores de grãos, que gastam mais de um terço do orçamento com nutrição da terra.

    Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) e da Datamar indicam que os agricultores paulistas adquiriram 2,11 milhões de toneladas de fertilizantes no primeiro semestre de 2024. Essa quantidade deve dobrar até o fim do ano, totalizando entre 4,3 e 4,5 milhões de toneladas para a safra completa. Projeta-se que 1,4 milhão de toneladas deste total seja em produtos nitrogenados para os 8 milhões de hectares cultivados no estado. O valor das compras ultrapassa R$ 3,5 bilhões.

    Estudos independentes comprovam que o manejo preciso do nitrogênio pode reduzir o uso entre 20% e 30%, sem perder produtividade. Essa redução equivale a economizar de 0,28 a 0,42 milhão de toneladas do fertilizante, representando uma economia anual entre R$ 0,7 bilhão e R$ 1,1 bilhão.

    Sustentabilidade

    Além da economia, a redução do uso de nitrogênio diminui também a emissão de gases do efeito estufa. Produzir um quilo de ureia emite cerca de 1,9 kg de CO₂ equivalente. Cortar 0,4 milhão de toneladas do insumo evita quase 0,76 milhão de toneladas de CO₂, o que equivale a retirar aproximadamente 165 mil carros das ruas por um ano.

    Niels Grabbert, CEO da Stenon, destaca a importância do monitoramento: “O nitrogênio é um alvo móvel. A aplicação no momento errado perde eficiência”.

    Niels Grabbert, CEO da Stenon. Foto:
    Divulgação/Stenon

    Agrônomos do oeste paulista que aplicaram um sistema de monitoramento registraram reduções de 20% a 42% no uso de nitrogênio em culturas como milho e cana-de-açúcar, mantendo ou aumentando a produtividade. Para pequenos produtores, a economia chega a R$ 250 mil por ano, enquanto grandes corporações podem economizar até 20 vezes mais.

    Com a instabilidade global nas cadeias de suprimentos, a eficiência baseada em dados se torna essencial para a competitividade do agronegócio. O monitoramento em tempo real de nitrogênio, desta forma, pode beneficiar economias locais e fortalecendo a sustentabilidade no campo.

  • Agricultura regenerativa fortalece manejo e reduz emissões de CO2

    Agricultura regenerativa fortalece manejo e reduz emissões de CO2

    Na Fazenda Estância, em Pirassununga, interior de São Paulo, a agricultura regenerativa deixou de ser teoria para se tornar prática diária de manejo. Integrante do programa Bayer ForwardFarming, a propriedade conduzida por Nathalia Vick, administradora e gestora de agronegócios, e Aline Vick, economista, se tornou referência em sustentabilidade ao unir produtividade agrícola, conservação do solo e redução expressiva das emissões de gases de efeito estufa.

    Com 1.200 hectares dedicados às culturas de soja, milho, sorgo, mandioca e cana-de-açúcar, a fazenda tem mostrado resultados consistentes. As análises de pegada de carbono, realizadas entre fevereiro de 2024 e março de 2025, comprovaram que a média da safra 24/25 da soja atingiu 616,4 kg CO2 eq./t, valor 60% menor do que a média nacional (1.526 kg CO2 eq./t). Em um dos talhões avaliados, o índice chegou a 373 kg CO2 eq./t, redução de 76% em relação à média brasileira.

    Ferramenta inédita de medição por talhão

    O cálculo foi feito por meio da Footprint PRO Carbono, ferramenta desenvolvida pela Bayer em parceria com a Embrapa, baseada na metodologia internacional de avaliação do ciclo de vida (ACV). Dessa forma, a tecnologia permite calcular a pegada de carbono por talhão, diferencial em relação a outras ferramentas disponíveis no mercado.

    Aline e Nathalia Vick – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    “É importante ressaltar que cada talhão possui um perfil de solo e histórico de manejo diferente, o que influencia a pegada. Ainda assim, o talhão com maior pegada registrada ainda representa 22% menos do que a média nacional”, afirma Felipe Albuquerque, diretor de Sustentabilidade da divisão agrícola da Bayer para a América Latina.

    No milho segunda safra, a análise também seguiu a mesma metodologia e concluiu que a média da Fazenda Estância foi de 751,71 kg CO2 eq./t, resultado 46% menor que a média brasileira da cultura (1.387 kg CO2 eq./t).

    Manejo regenerativo como caminho sustentável

    As irmãs Vick apostam em técnicas como sucessão milho-soja, integração com braquiária e manutenção da palhada para proteger o solo e melhorar sua fertilidade. “Falar em carbono é falar na medida de vida do solo. Onde tenho mais carbono, tenho mais produtividade”, resume Aline.

    Ela explica que pequenas mudanças fazem diferença. “No caso da soja, substituímos a aplicação de ureia pelo nitrato, que emite menos gases de efeito estufa. Também adotamos tecnologias de precisão que reduzem manobras de maquinário, gerando economia de combustível e, consequentemente, menor emissão”, diz.

    Palhada no solo garante proteção e mantém umidade – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro em Campo

    A transição exigiu convencimento dentro da família, mas hoje os resultados falam por si. “Foi um desafio mostrar que a mudança era positiva. Enfim, todos defendem as práticas regenerativas porque vemos na prática a resiliência da lavoura e os ganhos ambientais”, afirma Aline.

  • Consórcio de bactérias revoluciona cultivo do milho no Brasil

    Consórcio de bactérias revoluciona cultivo do milho no Brasil

    Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) desenvolveram uma técnica inovadora que promete transformar o cultivo do milho no Brasil. O uso combinado de duas bactérias específicas reduziu em 25% a necessidade de fertilizantes nitrogenados, mantendo – e até aumentando – a produtividade das lavouras.

    O nitrogênio é um dos três macronutrientes essenciais para o desenvolvimento das plantas, ao lado do potássio e do fósforo (NPK). Entre eles, é o mais caro e exigido pelas culturas.

    “O nitrogênio é fundamental para o crescimento vegetal, desenvolvimento das raízes e fotossíntese”, explica o engenheiro agrônomo Fernando Shintate Galindo, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Tecnológicas (FCAT) da Unesp.

    Contudo, os fertilizantes nitrogenados apresentam problemas sérios. Sua eficiência raramente supera 50% devido a perdas por lixiviação, volatilização e desnitrificação.

    Impactos ambientais preocupantes

    O uso excessivo desses fertilizantes gera consequências ambientais graves. A aplicação libera óxido nitroso, um gás 265 vezes mais poluente que o dióxido de carbono.

    Este gás permanece na atmosfera por mais de cem anos e contribui para a destruição da camada de ozônio. No solo, o excesso de nitrogênio pode contaminar corpos d’água, causando eutrofização de rios e lagos.

    Brasil: pioneiro em soluções sustentáveis

    O Brasil se destaca mundalmente na redução de fertilizantes nitrogenados em cultivos de leguminosas como a soja. Esta expertise começou nos anos 60, com pesquisadoras pioneiras como Johanna Döbereiner e Mariangela Hungria.

    Hungria foi laureada em maio de 2025 com o Prêmio Mundial da Alimentação, considerado o “Nobel da Agricultura”. A revista Frontiers in Microbiology reconheceu o sucesso brasileiro como um dos 14 exemplos mundiais de uso eficiente de microrganismos na agricultura.

    Durante dois anos, a equipe de Galindo testou a combinação de duas bactérias no cultivo do milho: Azospirillum brasilense e Bacillus subtilis. A primeira é conhecida pela fixação de nitrogênio e estímulo ao crescimento. A segunda promove o desenvolvimento radicular e oferece resistência a pragas e doenças.

    Processo de aplicação de inoculante contendo dois tipos de bactérias nas sementes do milho. Foto: Fernando Galindo/Jornal da Unesp

    O experimento, apoiado pela Fapesp, envolveu testes em três localidades diferentes com quatro configurações de plantio.

    Resultados surpreendentes

    A pesquisa confirmou que o consórcio das duas bactérias, combinado com doses ideais de nitrogênio, melhorou significativamente a eficiência do macronutriente.

    Os benefícios incluíram:

    • Melhor crescimento aéreo e radicular
    • Aumento na captação de CO2
    • Maior eficiência no uso da água
    • Redução do estresse oxidativo

    “A inoculação complementa a adubação nitrogenada com excelentes resultados, mas não a substitui”, esclarece Galindo.

    Economia bilionária

    Os resultados mostraram que a taxa ótima de nitrogênio pode ser reduzida de 240 kg N/ha para 175 kg N/ha. Esta redução mantém a produtividade e ainda a aumenta em 5,2%.

    A economia para o produtor seria de aproximadamente R$ 130 por hectare. Considerando os 22 milhões de hectares de milho no Brasil, a economia total chegaria a R$ 2,86 bilhões anuais.

    Além da economia financeira, a técnica reduziria a emissão de dióxido de carbono em 682,5 kg CO2e/ha.

    “Isso é o visível, aquilo que conseguimos mensurar. Existem ainda questões ambientais e climáticas que não conseguimos mensurar tão bem, mas que precisam ser consideradas”, conclui o pesquisador.

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