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  • Pesquisadores criam fertilizante que “regenera” solos degradados

    Pesquisadores criam fertilizante que “regenera” solos degradados

    A degradação de solos representa um dos maiores desafios ambientais e econômicos do Brasil. Levantamento do MapBiomas mostra que, entre 1986 e 2021, cerca de 25% da vegetação nativa do País entrou em algum processo de degradação. Ou seja, o equivalente a aproximadamente 135 milhões de hectares. A atividade agropecuária figura entre as principais causas desse cenário.

    Para enfrentar o problema, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um novo fertilizante com potencial para recuperar áreas degradadas. A iniciativa reúne especialistas da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e de duas startups incubadas na própria USP: a Quanticom e a MOF Tech.

    Liane Rossi, professora do Instituto de Química da USP e uma das responsáveis pelo desenvolvimento do material, destaca o potencial da tecnologia. “Ele pode funcionar como um regenerador de solo e, portanto, poderia ser aplicado em solos degradados para melhorar a possibilidade de agricultura”, afirma.

    Como funciona a tecnologia

    O fertilizante utiliza Redes Metal-Orgânicas, as MOFs, sigla em inglês para Metal Organic Frameworks. Esses materiais se degradam de forma rápida e controlada e fornecem componentes minerais importantes para o solo. A comunidade científica reconheceu essa tecnologia com o Prêmio Nobel de Química de 2025.

    Liane compara o material a uma esponja. A estrutura porosa, repleta de espaços vazios, permite que as MOFs carreguem substâncias previamente selecionadas para beneficiar o ecossistema do solo. Quando o material se decompõe naturalmente, ele libera esses elementos no ambiente.

    Liane Rossi. Foto: Currículo Lattes

    Apesar dos resultados positivos, a pesquisadora reforça que o novo fertilizante não substitui os produtos tradicionais. “Nos nossos estudos, mantivemos a prática usual de fertilização do solo e adicionamos o novo material, em quantidade menor, como um condicionador, para que os fertilizantes convencionais operem ou sejam melhor aproveitados quando combinados com ele”, explica.

    A origem do projeto

    Uma série de reuniões entre especialistas da USP e da Unesp deu início à parceria. Segundo Liane, os pesquisadores das duas instituições não conheciam as MOFs até então e se interessaram rapidamente pelo potencial do material.

    O projeto evoluiu a partir dessas primeiras conversas e alcançou etapas avançadas de aplicação em campo. “Tivemos 45 meses de financiamento pela Shell. Com isso, montamos uma equipe aqui em São Paulo para a parte de seleção e escalonamento de síntese do material”, relata a pesquisadora.

    As startups criadas na USP também contribuíram diretamente para o avanço da pesquisa. A MOF Tech ampliou a escala de produção do material, enquanto a Quanticom conduziu os estudos de campo.

    Próximos passos dependem de novos investimentos

    O projeto ainda está em desenvolvimento e precisa de financiamento adicional para avançar. “A fase atual demandaria mais estudos e em maior escala em campo. Isso implica maior escala de síntese do material e, então, um possível investimento na MOF Tech”, diz Liane.

    Os estudos já realizados indicam que o produto melhora o desenvolvimento das plantas e a saúde do solo. Ainda assim, a pesquisadora defende a realização de novas etapas de teste antes de definir a disponibilidade do fertilizante para aplicação agronômica em larga escala.

    Por /Jornal da USP

  • Estruvita: fertilizante pode reduzir a dependência do Brasil por fósforo importado

    Estruvita: fertilizante pode reduzir a dependência do Brasil por fósforo importado

    Pesquisadores da Embrapa Agrobiologia (RJ) desenvolveram e testam a estruvita como fertilizante fosfatado de liberação lenta, produzido a partir de dejetos da suinocultura. Os resultados preliminares mostram que o produto consegue suprir até 50% da demanda de fósforo na cultura da soja, mantendo produtividade de 3.500 kg/há. Ou seja, próxima dos 3.560 kg/ha registrados na média nacional em 2025 com fertilização convencional.

    Experimento com estruvita e soja em casa de vegetação. Foto: Caio Inácio/Embrapa

    A tecnologia ganha relevância estratégica diante de um dado preocupante: o Brasil importa cerca de 75% dos fertilizantes fosfatados que consome. Para o coordenador do estudo, pesquisador Caio de Teves Inácio, o projeto vai além da simples substituição de insumos. “Estamos criando uma nova rota tecnológica para o campo brasileiro, alinhada à sustentabilidade, à autonomia e à inovação”, afirma.

    O que é a estruvita e como ela funciona

    A estruvita é um mineral branco, de fórmula química MgNH4PO4·6H2O, composto por cristais de fosfato de magnésio e amônio. Contém aproximadamente 12% de fósforo, 5% de nitrogênio e 10% de magnésio. Os pesquisadores obtêm o material por meio da precipitação química de nutrientes presentes nos efluentes da criação de suínos.

    Sua principal vantagem agronômica está na baixa solubilidade, que permite a liberação gradual de nutrientes acompanhando o ciclo das culturas. Essa característica é especialmente relevante nos solos tropicais brasileiros, altamente ácidos e ricos em óxidos de ferro e alumínio, que tendem a fixar o fósforo rapidamente, tornando-o indisponível para as plantas. A reação alcalina da estruvita no solo contribui ainda mais para aumentar o aproveitamento do nutriente — efeito oposto ao dos fertilizantes solúveis convencionais, que são ácidos.

    “É um paradoxo: temos um recurso promissor, mas pouco se sabe sobre seu comportamento nas nossas condições de solo”, reconhece Inácio. “Os solos predominantemente ácidos e com alta capacidade de adsorção de fósforo são justamente o ambiente onde a estruvita pode fazer a diferença.”

    Economia circular na prática

    O conceito por trás da tecnologia é o da economia circular aplicada ao agronegócio: transformar um passivo ambiental em insumo de alto valor agregado. “Transformamos os efluentes animais, antes um problema ambiental, em um fertilizante agrícola com valor real para o produtor”, explica o pesquisador.

    As recomendações preliminares indicam que a estruvita pode ser usada isolada ou em combinação com fertilizantes solúveis, em doses que variam de 50% a 100% da recomendação agronômica de fósforo, conforme a cultura e o tipo de solo. A equipe também desenvolve um fertilizante organomineral, que combina nutrientes minerais com matéria orgânica, cujos experimentos de difusão de fósforo no solo registraram resultados 50% superiores nos primeiros 28 dias, em comparação com a estruvita granulada pura.

    Benefícios ambientais e nova renda para suinocultores

    Além do ganho agronômico, a adoção da estruvita traz impactos ambientais e econômicos relevantes. Em regiões de suinocultura intensiva, como o Sul e o Centro-Oeste do Brasil, a precipitação da estruvita retira o excesso de nutrientes dos efluentes antes da aplicação no solo, reduzindo o risco de contaminação de águas superficiais e subterrâneas. Esse benefício ainda abre caminho para a ampliação da capacidade produtiva das granjas, hoje limitada pela quantidade de fósforo e nitrogênio que o solo pode receber.

    Experimento com estruvita e soja em casa de vegetação. Foto: Caio Inácio/Embrapa

    Do ponto de vista econômico, a tecnologia cria uma nova fonte de receita para os criadores. Estimativas da Embrapa indicam que propriedades com mais de 5 mil suínos podem gerar cerca de 340 mil toneladas de estruvita por ano no país. “Trata-se de uma alternativa economicamente viável e especialmente atrativa para médios e grandes criadores de suínos”, destaca Inácio.

    Um mercado global em expansão que o Brasil ainda precisa alcançar

    No cenário internacional, o interesse pela estruvita cresceu exponencialmente na última década. Em 2019, mais de 80 instalações de produção já operavam, principalmente em países desenvolvidos com excedentes de fósforo oriundos da pecuária intensiva ou da alta densidade populacional. China, Estados Unidos e Alemanha lideram a pesquisa na área, frequentemente por meio de cooperação internacional.

    O Brasil, no entanto, ainda engatinha nesse campo, o que representa tanto um atraso quanto uma oportunidade. A ausência de estudos locais deixa um vácuo de conhecimento sobre o desempenho da estruvita em condições tropicais, justamente o ambiente onde ela pode apresentar vantagens mais expressivas.

    Alinhamento com o Plano Nacional de Fertilizantes

    A pesquisa está alinhada ao Plano Nacional de Fertilizantes, que busca ampliar a produção doméstica e incentivar fontes alternativas mais eficientes e sustentáveis. Para Inácio, o projeto representa mais do que a busca por um insumo alternativo. “Nossa alta dependência de fertilizantes importados é uma fragilidade estratégica para a segurança alimentar do Brasil. Precisamos de tecnologias que permitam o uso eficiente do fósforo e a recuperação de nutrientes presentes em nossos próprios resíduos”, conclui.

    O estudo conta com financiamento do CNPq e da Embrapa, e reúne pesquisadores da Embrapa Solos (RJ), Embrapa Suínos e Aves (SC), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade de Rio Verde (UniRV) e Instituto Federal Farroupilha (campus Santo Augusto, RS).

    “Acreditamos que a estruvita tem um papel estratégico para o futuro da agricultura brasileira. Nosso trabalho é entregar a base científica para que ela possa ser registrada e adotada com segurança e eficiência no campo”, conclui o pesquisador.

  • Pesquisadores da USP desenvolvem fertilizante inovador

    Pesquisadores da USP desenvolvem fertilizante inovador

    A crescente demanda por alimentos, rações e biocombustíveis sustentáveis está impulsionando cientistas e produtores a buscar soluções inovadoras para garantir a produtividade agrícola. De acordo com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, a população mundial deve atingir 9,7 bilhões até 2050, exigindo um aumento de aproximadamente 47% na produção agrícola global.

    Nesse contexto, o Fertilizante Nitrogenado Multinutriente de Eficiência Aumentada foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). A nova patente promete reduzir significativamente as perdas de nutrientes no solo e melhorar o rendimento das lavouras.

    Bruno Cassim, doutorando pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP e um dos responsáveis pela patente, explica que a produção agrícola tem crescido nas últimas décadas, principalmente pelo uso de fertilizantes nitrogenados como a ureia. “A ureia é o fertilizante nitrogenado mais popular para fornecer nitrogênio às plantas. No entanto, quando aplicada na superfície do solo, pode ser perdida por volatilização de amônia, causando prejuízos econômicos e contaminação de ecossistemas”, afirma Cassim.

    Solução inovadora

    Para resolver o problema da volatilização, a equipe de pesquisadores combinou a ureia com micronutrientes e o estabilizador NBPT. Essa nova formulação visa minimizar as perdas de nitrogênio, garantindo maior aproveitamento do fertilizante e aumento da produtividade no campo. “Com a adição do NBPT e micronutrientes em macro ou nanoescala nos grânulos de ureia, conseguimos diminuir as emissões gasosas de nitrogênio e aumentar a disponibilidade de nutrientes para as plantas”, explica Cassim.

    A tecnologia atende agricultores e empresas do agronegócio, beneficiando tanto grandes quanto pequenos produtores. O fertilizante fornece nitrogênio e micronutrientes essenciais ao crescimento inicial das plantas quando aplicado no momento da semeadura. No entanto, a adubação de cobertura é a forma mais recomendada de uso para maximizar a redução das perdas por volatilização.

    Fase de desenvolvimento

    Atualmente, o fertilizante está em fase de testes e desenvolvimento. Estudos realizados em laboratório e em campo têm mostrado resultados promissores. Contudo, Cassim ressalta que algumas interações físico-químicas entre o estabilizador NBPT e os micronutrientes ainda precisam ser melhor compreendidas antes da comercialização do produto.

    “Estamos confiantes de que esse fertilizante multinutriente pode melhorar a produtividade e a qualidade dos cultivos. Especialmente em um cenário onde a deficiência de micronutrientes se torna cada vez mais comum”, conclui Cassim.

    A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em parceria com o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP), financiou os estudos. Projetos de doutorado e pós-doutorado, orientados pelo professor Rafael Otto da Esalq, resultaram no desenvolvimento da patente.. Além de Cassim, participaram do processo os pesquisadores Izaias Lisboa e Frederico Pereira da Esalq, além de Clelber Prestes do Cena/USP.

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