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  • Óleo de pequi melhora hidratação da pele, confirmam testes clínicos

    Óleo de pequi melhora hidratação da pele, confirmam testes clínicos

    Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP desenvolveram uma tecnologia capaz de transformar o óleo de pequi em cosmético hidratante de alta eficácia. O grupo encapsulou o óleo em nanoestruturas chamadas lipossomas, incorporando-o a géis e outras bases aquosa. Algo até então inviável por conta da incompatibilidade do óleo com a água e de seu odor marcante.

    Os testes clínicos confirmaram os benefícios: apenas duas horas após a aplicação do gel com as nanoestruturas, os participantes apresentaram hidratação imediata e significativa da pele, melhora da função barreira cutânea e maior suavidade na textura superficial. Os resultados constam de artigo publicado na revista científica Pharmaceutics.

    A farmacêutica Letícia Kakuda, responsável pela pesquisa e doutoranda sob orientação dos professores Patrícia Maia Campos e Wanderley Oliveira, explica que a escolha do pequi combinou motivação científica e cultural. “O pequi é um símbolo do Cerrado e da biodiversidade brasileira, já usado na alimentação e na medicina popular, mas ainda pouco explorado em produtos de alto valor agregado”, afirma.

    Da polpa ao nanossistema

    O processo começa com a extração do óleo da polpa do fruto por método mecânico a frio, prensas que trituram o fruto em baixas temperaturas. Essa técnica preserva os nutrientes, antioxidantes e demais propriedades naturais da matéria-prima. O óleo de pequi concentra ácidos graxos, carotenoides, tocoferóis (vitamina E) e antioxidantes naturais, combinação com alto apelo para cuidados com pele e cabelos.

    Para contornar a incompatibilidade com sistemas aquosos, a equipe recorreu aos lipossomas. Elas são estruturas esféricas nanométricas formadas por camadas de lipídios semelhantes às das membranas celulares. “Eles têm água no interior e no meio externo e, entre essas duas regiões, existe uma dupla camada lipídica onde podemos incorporar substâncias com afinidade por óleo, como o óleo de pequi”, descreve Letícia.

    Além da versão líquida, os pesquisadores desenvolveram uma versão em pó, chamada lipossoma liofilizado. O processo retira a água das nanoestruturas, transformando-as em pó que, ao receber reidratação, reconstitui lipossomas com características praticamente idênticas às originais. Segundo a pesquisadora, o formato facilita o armazenamento, o transporte e a incorporação em fórmulas, com maior estabilidade físico-química e microbiológica em relação à versão aquosa.

    Menos óleo, mais eficiência

    As nanoestruturas protegem o óleo de pequi da luz, do oxigênio e da temperatura, reduzindo oxidação e degradação ao longo do tempo. Outro ponto de destaque é a possibilidade de usar concentrações menores do ativo na fórmula sem perder eficácia. “Ao organizar o óleo em sistemas nanoestruturados, abre-se a possibilidade de usar menores concentrações. E ainda assim, alcançar uma eficácia igual ou superior em estudos clínicos”, afirma Letícia.

    A composição lipídica dos lipossomas também tem afinidade com os lipídios da camada mais externa da pele, o que favorece a tolerabilidade e reduz o risco de irritação. O resultado são estruturas biocompatíveis com a barreira cutânea que contribuem para melhor desempenho do produto final. Incluindo hidratação, redução da perda transepidérmica de água e suavização do microrrelevo cutâneo.

    Apesar dos resultados promissores, o produto ainda deve levar algum tempo para chegar ao mercado. A equipe avaliou apenas os efeitos imediatos. Os próximos estudos preveem testes com o óleo encapsulado em outros sistemas lipídicos nanoestruturados e análises de uso prolongado. Especialmente em pele madura, com foco em hidratação, função barreira, manchas, poros, oleosidade e densidade dérmica ao longo do tempo.

    Carolina Castro/Jornal da USP