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  • Como a Raízen planeja reorganizar R$ 65 bilhões em dívidas sem declarar falência

    Como a Raízen planeja reorganizar R$ 65 bilhões em dívidas sem declarar falência

    A Raízen, uma das maiores empresas de energia do Brasil, protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras. A empresa apresentou o plano depois de obter apoio inicial de credores que representam mais de 40% do passivo, percentual exigido pela legislação para formalizar esse tipo de processo.

    O movimento acontece em um momento de pressão crescente sobre o endividamento corporativo no país. Dados da Serasa Experian mostram que os pedidos de recuperação judicial cresceram mais de 26% no primeiro semestre de 2025, reflexo dos juros elevados, da restrição de crédito e da deterioração do fluxo de caixa em diferentes setores.

    Empresa tem caixa, mas age antes que o problema escape do controle

    A Raízen ainda mantém cerca de R$ 17 bilhões em caixa. O pedido, portanto, não indica incapacidade imediata de pagamento. Mas uma tentativa de reorganizar a estrutura financeira antes que a pressão da dívida comprometa as operações.

    Para Marcos Pelozato, advogado, contador e especialista em reestruturação empresarial, essa postura é estratégica. “Quando uma empresa desse porte busca reorganizar o passivo antes de perder o controle da situação, ela adota uma postura estratégica de gestão de crise. O objetivo da recuperação extrajudicial é preservar a operação e renegociar dívidas de forma estruturada”, afirma.

    O plano prevê um período de negociação com os credores antes da homologação, etapa comum em processos extrajudiciais que permite discutir condições de pagamento, prazos e eventuais ajustes enquanto a empresa conduz a reestruturação.

    Metade da dívida está com bancos; outra parte envolve mercado de capitais

    A estrutura do passivo explica a complexidade da negociação. Aproximadamente metade das dívidas da Raízen está concentrada em bancos e instituições financeiras. A outra parcela envolve investidores institucionais e detentores de títulos emitidos no mercado de capitais.

    Entre as medidas previstas está a conversão de parte da dívida em participação acionária, cerca de 40% do passivo pode se transformar em capital da empresa. A estratégia reduz o endividamento e fortalece o balanço financeiro. Com a operação concluída, a expectativa é que a alavancagem caia para cerca de três vezes o Ebitda.

    “A conversão de dívida em capital permite reduzir a pressão financeira sem interromper a atividade da empresa. Os credores passam a participar do resultado futuro e o negócio ganha tempo para se reorganizar”, explica Pelozato.

    Recuperação extrajudicial não é falência

    Apesar dos valores expressivos, o pedido não significa falência nem paralisação das operações. A recuperação extrajudicial é um instrumento previsto na legislação brasileira para renegociar dívidas diretamente com credores, sem acionar um processo judicial mais amplo.

    “Existe um estigma muito grande no Brasil em relação à recuperação. Muitos associam automaticamente à falência, mas são situações completamente diferentes. A recuperação é um mecanismo criado justamente para preservar empresas viáveis e proteger empregos”, diz o especialista.

    O que muda para o consumidor e para o mercado

    Para o mercado, o pedido da Raízen reforça a percepção de que empresas intensivas em capital e altamente alavancadas seguem vulneráveis ao ambiente de crédito restritivo. Nos últimos anos, o custo do crédito elevou significativamente o peso das dívidas corporativas. Especialmente em companhias com ciclos longos de investimento.

    Marcos Pelozato, advogado, contador e especialista em reestruturação empresarial. Foto: Divulgação

    Para o consumidor final, o impacto tende a ser limitado. Como a recuperação extrajudicial preserva as operações, a produção e o fornecimento de energia e combustíveis continuam normalmente.

    “O objetivo da recuperação é justamente evitar uma ruptura na cadeia produtiva. Quando a reestruturação ocorre de forma bem conduzida, ela protege fornecedores, clientes e trabalhadores”, afirma Pelozato.

    Como evitar chegar a esse ponto

    Na avaliação do especialista, crises desse tipo raramente surgem de forma repentina. São resultado de deterioração gradual de indicadores, acúmulo de passivos e ausência de medidas preventivas.

    Monitorar o nível de endividamento, renegociar passivos com antecedência e manter um planejamento financeiro estruturado estão entre as principais estratégias para evitar uma reestruturação de emergência.

    “A pior decisão em uma crise é esperar o problema crescer. Empresas que monitoram indicadores, renegociam dívidas com antecedência e mantêm disciplina financeira conseguem atravessar períodos turbulentos sem precisar recorrer a medidas mais drásticas”, conclui Pelozato.

    Para ele, a gestão preventiva se tornou uma necessidade,não apenas uma boa prática. “Reestruturação não deve ser vista só como resposta a uma crise, mas como parte da estratégia de gestão financeira de longo prazo das empresas.”

  • Com dívida de R$ 65 bi, Raízen aciona recuperação extrajudicial e busca apoio

    Com dívida de R$ 65 bi, Raízen aciona recuperação extrajudicial e busca apoio

    A Raízen (RAIZ4) protocolou nesta quarta-feira (11) pedido de recuperação extrajudicial na Comarca da Capital de São Paulo para reestruturar aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras. A joint venture entre a Cosan (CSAN3) e a Shell construiu o plano em acordo com seus principais credores quirografários (aqueles sem garantia real) e já obteve adesão expressa de detentores de mais de 47% das dívidas financeiras, percentual mínimo exigido para protocolar o pedido.

    O processo tem escopo estritamente financeiro. Dívidas com clientes, fornecedores, revendedores e demais parceiros comerciais ficam fora do plano e continuarão sendo honradas normalmente, conforme os contratos vigentes.

    O que o plano prevê

    Segundo a companhia, o plano de reestruturação pode incluir injeção de capital pelos acionistas, conversão de parte das dívidas em participação acionária, alongamento de prazos de pagamento, mudanças na estrutura societária e venda de ativos.

    A Raízen terá 90 dias, a partir do processamento da recuperação extrajudicial, para atingir o percentual mínimo necessário à homologação do plano. Uma vez homologado, o acordo passa a vincular 100% dos créditos sujeitos às novas condições de pagamento. Inclusive aqueles cujos detentores não aderiram voluntariamente.

    Shell e família Ometto entram com R$ 4 bilhões

    Parte central do processo é a capitalização de R$ 4 bilhões liderada pela Shell. O plano prevê um aporte de R$ 3,5 bilhões da petroleira britânica e mais R$ 500 milhões de um veículo de investimento ligado à família do empresário Rubens Ometto, controlador da Cosan. O capital reforçaria o caixa da empresa enquanto ela renegocia as dívidas com os credores.

    Foto: Divulgação Raízen

    A Cosan, por sua vez, não deve participar diretamente da capitalização, embora acompanhe as negociações na condição de acionista. “Nós como acionistas e conselheiros temos acompanhado esta evolução e acreditamos que nos próximos dias a gente deva ter novos desdobramentos desse plano”, afirmou o CEO da holding, Marcelo Martins, em teleconferência com analistas.

    Como a Raízen chegou até aqui

    A situação financeira da Raízen se deteriorou ao longo dos últimos anos sob o peso de investimentos elevados em expansão, instabilidade climática nas safras de cana-de-açúcar e juros altos no Brasil. Fatores que corroeram o caixa da maior produtora de etanol de segunda geração do mundo. A dívida líquida da empresa alcançou R$ 55,3 bilhões no fim de dezembro de 2024, segundo dados divulgados anteriormente pela companhia.

    Nos dias que antecederam o anúncio, a Cosan já sinalizava ao mercado que uma solução estava próxima. O CEO Marcelo Martins descreveu as conversas com credores e acionistas como “bastante avançadas”. “Isso tudo acabou resultando em uma conversa estruturada com os credores, e que nós acreditamos hoje que deva levar a uma evolução que a gente possa encontrar uma solução satisfatória para o mercado que resolva definitivamente o problema de Raízen”, disse o executivo.

    Foto: Divulgação – Raízen

    Em fevereiro, a própria Raízen já havia comunicado ao mercado que avaliava a recuperação extrajudicial como caminho para reorganizar o endividamento.

    O que é recuperação extrajudicial?

    Diferente da recuperação judicial, processo mais amplo que envolve o Judiciário desde o início. E suspende execuções, a recuperação extrajudicial permite que empresas negociem diretamente com credores e levem o acordo ao juiz apenas para homologação. O mecanismo, previsto na Lei 11.101/2005, é mais célere e preserva melhor a imagem da companhia perante o mercado, segundo especialistas em direito empresarial.

    A Raízen é uma das maiores empresas do agronegócio brasileiro, com operações em açúcar, etanol, incluindo etanol de segunda geração a partir do bagaço de cana, e distribuição de combustíveis. A companhia opera mais de 35 usinas no Brasil e está presente em mais de 6.000 postos de combustíveis sob as bandeiras Shell e Raízen.

  • Crise judicial: Bayer negocia novo acordo sobre Roundup

    Crise judicial: Bayer negocia novo acordo sobre Roundup

    A Bayer, multinacional alemã do setor químico e farmacêutico, enfrenta uma crise sem precedentes desde a aquisição da Monsanto em 2018. Após comprar a empresa por US$ 63 bilhões, a Bayer passou a responder por mais de 67 mil processos judiciais nos Estados Unidos. A maioria relacionada ao herbicida Roundup, acusado de causar câncer em usuários.

    Desde o início das ações, a Bayer já desembolsou mais de US$ 11 bilhões em indenizações, valor que representa o maior acordo da história da indústria farmacêutica. Apesar disso, milhares de processos seguem ativos, principalmente no Missouri, estado onde a Monsanto tem sede. A empresa ainda mantém cerca de US$ 6,2 bilhões em provisões legais. Mas o montante pode não ser suficiente diante do volume de litígios e das recentes derrotas em tribunais americanos, incluindo sentenças superiores a US$ 1,5 bilhão em danos punitivos.

    Estratégias: acordo judicial ou recuperação judicial da Monsanto

    A Bayer negocia um novo acordo coletivo para encerrar as ações pendentes. Mas caso não obtenha sucesso, prepara-se para solicitar a recuperação judicial da Monsanto nos EUA, utilizando o Chapter 11, mecanismo semelhante à recuperação judicial brasileira. Essa estratégia permitiria concentrar os processos em um tribunal de falências, suspendendo temporariamente as ações e ganhando tempo para reestruturação financeira.

    Grandes empresas como Johnson & Johnson e 3M já tentaram manobras semelhantes, mas enfrentaram resistência da Justiça americana. O cenário para a Bayer é desafiador. O valor de mercado da empresa caiu para cerca de US$ 25 bilhões, menos da metade do que foi pago pela Monsanto.

    Desde a aquisição, o valor de mercado da Bayer despencou 80%. Em 2024, a empresa registrou prejuízo líquido de € 2,55 bilhões, com queda nas vendas da divisão agrícola e forte concorrência dos genéricos asiáticos. Para enfrentar a crise, a Bayer obteve autorização dos acionistas para diluir suas ações em até 35%. E assim,  captar US$ 9 bilhões, buscando recursos para lidar com as indenizações e manter suas operações.

    Roundup no centro da controvérsia

    O Roundup é um herbicida à base de glifosato. Ele é amplamente utilizado em lavouras de soja, milho e algodão nos EUA. Segundo o Serviço Geológico dos EUA, cerca de 300 milhões de libras de glifosato são aplicadas anualmente no país. A Bayer defende a segurança do produto, citando pareceres da Agência de Proteção Ambiental (EPA), que não encontrou evidências conclusivas de relação entre o glifosato e o câncer. No entanto, tribunais americanos têm decidido em sentido contrário, responsabilizando a Monsanto por não alertar sobre possíveis riscos à saúde.

    A Bayer aguarda uma decisão da Suprema Corte dos EUA, prevista para junho de 2025, sobre a admissibilidade de um novo recurso relacionado aos processos do glifosato. Paralelamente, a empresa intensifica o lobby junto ao Congresso americano para aprovar leis que limitem sua responsabilidade civil futura. A expectativa é encerrar ou estabilizar os litígios nos próximos 12 a 18 meses, segundo executivos da companhia.

    Posição no Brasil

    Entramos em contato com a assessoria da Bayer no Brasil, para saber se essa mudança afetaria o Brasil. Publicamos a resposta na integra abaixo.

    “Apesar do histórico científico claro, a indústria de litígios dos EUA continua a usar informações enganosas para questionar a segurança do glifosato em busca de retornos financeiros. A luta contra a indústria de litígios já custou mais de US$ 10 bilhões até o momento, sem uma resolução clara. Uma coisa é certa: não podemos continuar a vender um produto já aprovado e perder bilhões de dólares fazendo-o. Infelizmente, estamos nos aproximando de um ponto em que os esforços da indústria de litígios vão nos forçar a parar de vender este produto.

    E por mais que glifosato seja o assunto hoje, não há dúvidas de que todos os produtos de proteção de cultivos podem ser alvo da indústria de litígios. É por isso que, nos EUA, estamos ativamente engajados em esforços legislativos, nas esferas federal e estaduais, para apoiar políticas que protejam o acesso de agricultores a um produto essencial de proteção de cultivos. A agência regulatória americana (EPA) tem afirmado repetidamente que o glifosato é seguro para uso conforme instruções de bula. E a legislação que apoiamos reforça o a autoridade da EPA em suas decisões rigorosas e embasadas em ciência. Essa consistência garante que o rótulo segue a lei, ajudando a eliminar as premissas infundadas dos ataques legais que têm solicitado uniformidade nos rótulos nos EUA.

    Nenhuma decisão foi tomada até aqui. E nós não trabalhamos com um cronograma específico. Conforme mencionamos na nossa mais recente divulgação de resultados, estamos focados em uma série de itens prioritários neste ano para contermos o litígio relacionado a glifosato. Esperamos que possamos encontrar uma solução para que não sejamos obrigados a interromper as vendas desse produto.”

    Desafio

    A crise envolvendo Bayer, Monsanto e Roundup representa um dos maiores desafios jurídicos e financeiros já enfrentados por uma multinacional do setor químico e agrícola. O desfecho das negociações e possíveis mudanças na legislação americana devem definir o futuro da empresa e do mercado global de defensivos agrícolas nos próximos anos.

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  • Gigante do agro entra em recuperação judicial

    Gigante do agro entra em recuperação judicial

    O Grupo Martins, referência no setor agropecuário e localizado em Marcelândia, no Mato Grosso, entrou oficialmente em recuperação judicial após acumular uma dívida de R$ 58,7 milhões. A decisão foi deferida pela juíza Giovana Pasqual de Mello, da 4ª Vara Cível de Sinop, e publicada no Diário da Justiça Eletrônico em 4 de abril. O grupo enfrenta os efeitos da crise que tem impactado o agronegócio brasileiro, agravada por fatores econômicos e climáticos.

    A recuperação judicial do Grupo Martins reflete um cenário preocupante no setor agropecuário, marcado por uma combinação de desafios internos e externos. Entre os principais fatores que levaram ao colapso financeiro da empresa estão:

    • Oscilações nos preços das commodities agrícolas, como a soja.
    • Aumento dos custos de produção, especialmente insumos.
    • Quebras de safra causadas por eventos climáticos extremos.
    • Impactos da pandemia da COVID-19 na economia global.
    • Elevação da taxa Selic, que encareceu o crédito rural.
    • Conflitos geopolíticos internacionais afetando o mercado global.

    Apesar de esforços administrativos, como a venda de ativos e cortes de despesas, o grupo não conseguiu evitar o agravamento da situação financeira.

    Com o deferimento do pedido, todas as ações e execuções contra o Grupo Martins ficam suspensas por 180 dias, conforme previsto na legislação. A empresa tem um prazo improrrogável de 60 dias para apresentar seu plano de recuperação. Caso não o faça, corre o risco de ter o processo convertido em falência. Durante esse período, os credores podem se manifestar em até 15 dias para habilitar créditos ou contestar os valores apresentados.

    Caminho para reestruturação

    A recuperação judicial, regulamentada pela Lei nº 11.101/2005, é uma ferramenta que permite empresas em dificuldades renegociarem dívidas com credores enquanto buscam manter suas operações. O caso do Grupo Martins é emblemático, destacando a necessidade de políticas eficazes para mitigar riscos econômicos e climáticos no agronegócio.

    Com o plano aprovado pela Justiça, o grupo busca reorganizar suas finanças e garantir a continuidade das atividades agrícolas, essenciais para sua receita. A situação também evidencia um aumento nos pedidos de recuperação judicial no Brasil, especialmente no setor agropecuário, que enfrenta desafios como volatilidade nos mercados internacionais e custos elevados.

    O caso do Grupo Martins acende um alerta sobre a vulnerabilidade econômica do agronegócio brasileiro frente às adversidades climáticas e financeiras. Especialistas apontam que medidas estratégicas são necessárias para proteger produtores médios e grandes diante das instabilidades do mercado global. Enquanto isso, o grupo tenta se reestruturar para preservar sua operação e evitar a falência definitiva.

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