Tag: extrativismo

  • Sem crédito, sem escala: a solução que muda a produção de borracha na Amazônia

    Sem crédito, sem escala: a solução que muda a produção de borracha na Amazônia

    A cadeia da borracha na Amazônia sempre esbarrou nos mesmos obstáculos. Falta crédito, sobra incerteza, e a produção acaba ficando aquém do potencial. Agora, um arranjo que avança no interior do Amazonas começa a mexer nessa lógica e chama atenção pelos resultados recentes.

    Presente em cinco municípios, Manicoré, Eirunepé, Pauini, Barcelos e Canutama, o chamado Arranjo da Borracha ganhou tração nos últimos ciclos e vem se consolidando como uma alternativa prática para estruturar a sociobioeconomia na região.

    Crescimento que chama atenção

    Entre as safras 2022/2023 e 2024/2025, o número de negócios comunitários envolvidos subiu de sete para onze. Esse avanço não ficou só no papel. Na safra mais recente, o arranjo movimentou cerca de R$ 3,1 milhões e beneficiou diretamente 636 famílias extrativistas.

    Na prática, isso significa mais previsibilidade de renda em um setor historicamente marcado por instabilidade. Além disso, indica que a organização coletiva começa a reduzir um problema crônico da região: a dificuldade de acessar mercados de forma consistente.

    O crédito que muda o jogo

    O ponto central do modelo está no chamado crédito educativo. Diferente de linhas tradicionais, ele está vinculado a contratos de venda. Assim, as associações conseguem capital de giro antes da entrega da produção.

    Isso resolve gargalos antigos. Entre eles, a falta de escala, os custos logísticos elevados e, principalmente, a ausência de previsibilidade. Com o financiamento alinhado à comercialização, o risco diminui e o planejamento melhora.

    A Conexsus lidera essa estrutura, oferecendo o crédito a custo zero e articulando parceiros que entram com capital para reduzir riscos e sustentar a operação.

    Um dos mecanismos mais relevantes do arranjo é o uso da conta escrow. Nela, o comprador deposita o pagamento da produção, mas o dinheiro só é liberado conforme as condições acordadas previamente.

    Esse detalhe técnico faz diferença. Ele aumenta a transparência, reduz conflitos e cria um ambiente mais seguro para ambos os lados. Para o produtor, significa menos risco de inadimplência. Para o comprador, maior controle sobre a entrega.

    Mais do que financiamento

    O modelo não se limita ao crédito. Ele inclui capacitação em gestão, protocolos comerciais e adequação a padrões de mercado, como rastreabilidade e indicadores socioambientais.

    Na safra 2025/2026, o arranjo avançou mais um passo com a implementação de um protocolo de gestão que permite liberar recursos conforme a demanda de cada negócio comunitário. Os repasses ocorrem entre agosto e dezembro, acompanhando o ritmo produtivo local.

    Esse processo é monitorado pelo programa Veredas, que acompanha o uso dos recursos e reforça a sustentabilidade das operações.

    Um sinal para a sociobioeconomia

    Ao conectar conhecimento tradicional com exigências de mercado, o Arranjo da Borracha reposiciona uma cadeia histórica da Amazônia. Mais do que aumentar a produção, ele reorganiza a forma como o valor circula.

    Pedro Frizo, diretor da Conexsus, resume o impacto: “Entendemos o Arranjo da Borracha como caso exemplar de conexão entre negócios comunitários e empresas compradoras, onde o crédito educativo, acompanhado de assistência técnica e financeira, têm o potencial de fortalecer as organizações e expandir significativamente a sua capacidade de geração de renda.”

    O que está em jogo vai além da borracha. O modelo começa a mostrar que, quando crédito, mercado e organização caminham juntos, até cadeias consideradas estagnadas podem ganhar novo fôlego.

  • Queda na colheita do pinhão deve elevar preços na Serra Catarinense

    Queda na colheita do pinhão deve elevar preços na Serra Catarinense

    Santa Catarina inicia no próximo dia 1º de abril mais uma safra de pinhão. A região serrana, que concentra as maiores florestas de araucária do Estado, deve colher 3,7 mil toneladas neste ano, uma queda de 32% em comparação com 2025.

    No ano passado, os 18 municípios da Serra produziram 5,4 mil toneladas e movimentaram mais de R$ 32 milhões. A redução na oferta, no entanto, traz um alívio para os produtores: a expectativa é de que os preços subam.

    Segundo a Epagri, o quilo do pinhão pode alcançar valores iguais ou superiores à média de R$ 6,44 pagos ao produtor em 2025. “A lei da oferta e da procura deve compensar a quebra na safra”, afirma o gerente regional da Epagri em Lages, José Márcio Lehmann.

    O pinhão representa uma importante fonte de renda para os moradores da Serra Catarinense. Das 34 mil famílias rurais cadastradas pelo IBGE na região, cerca de 10 mil (30%) incluem o extrativismo da semente no orçamento doméstico.

    Lehmann destaca que a Epagri acompanha os dados municipais e oferece suporte técnico para que os produtores aproveitem a safra com segurança e qualidade. “Em 2025, a colheita já havia sido menor que em 2024. Agora, reduzimos ainda mais, mas os valores devem equilibrar a balança”, completa.

  • Tucumã transforma vidas de mulheres e combate violência doméstica no Pará

    Tucumã transforma vidas de mulheres e combate violência doméstica no Pará

    A coleta e comercialização de tucumã e outras espécies nativas fortalecem a autonomia feminina e combatem a violência doméstica na Ilha de Cotijuba, em Belém. Uma pesquisa publicada na Revista Brasileira de Ciências Sociais mostra como o extrativismo se transformou em ferramenta de empoderamento e resistência territorial para as mulheres paraenses.

    A Embrapa Amazônia Oriental coordenou o estudo entre 2022 e 2023 e concluiu que as práticas extrativistas ultrapassam a geração de renda. O trabalho redefine o papel social das mulheres na região, oferece proteção contra agressões domésticas e promove protagonismo político em uma área que enfrenta forte pressão imobiliária e crescimento turístico.

    Movimento feminino cria rede de acolhimento e proteção

    O estudo analisou a atuação do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém (MMIB) e identificou como o grupo oferece refúgio e condições de liderança para suas integrantes. A pesquisadora Dalva Mota destaca que a autonomia pessoal e política das extrativistas representa o impacto mais significativo do trabalho.

    “Em um contexto que apresenta desigualdades de gênero e violência doméstica, o MMIB atua como rede de acolhimento”, explica Mota. Relatos coletados pela pesquisa mostram que a participação no movimento permitiu que muitas mulheres rompessem ciclos de submissão. Uma das entrevistadas descreve o MMIB como um “refúgio” contra crises conjugais e a imposição exclusiva do trabalho doméstico.

    Mulheres lideram decisões e estrutura organizacional

    A coordenação do movimento conta exclusivamente com mulheres, que garantem autonomia na tomada de decisões. Homens associados têm direito apenas ao voto, sem acesso a cargos de direção. Essa estrutura fortalece a autoestima e promove qualificação profissional de mulheres que, em sua maioria, vivenciaram trabalho doméstico precoce e migraram em busca de melhores oportunidades.

    Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    Uma multinacional brasileira de cosméticos estabeleceu parceria comercial com o grupo em 2002 para fornecimento de priprioca (planta aromática amazônica). O acordo se estendeu posteriormente ao tucumã (fruto de palmeira amazônica), inserindo as mulheres em uma “bioeconomia inclusiva” repleta de desafios.

    As extrativistas traduzem seus valores locais para a lógica capitalista de preços e metas, enquanto desafiam a demanda industrial por escala de produção. Segundo as pesquisadoras Ana Felicien e Dalva Maria da Mota, a experiência do MMIB prova que a bioeconomia na Amazônia envolve relações sociais complexas e a manutenção da floresta preservada.

    Tucumã resiste a mudanças climáticas e protege território

    O tucumã (Astrocaryum vulgare Mart.) surge como símbolo de resistência ecológica na região. Enquanto o açaí, principal cultura local,sofreu com secas recentes, o tucumã demonstrou resiliência ao fogo e às alterações climáticas, garantindo alternativa econômica viável para as famílias.

    A atividade ajuda a preservar a paisagem da ilha, hoje fragmentada pelo desmatamento e pela especulação imobiliária que expulsa famílias de seus quintais produtivos. A Ilha de Cotijuba possui praias tranquilas de água doce e atrai interesse turístico crescente.

    “Para as mulheres de Cotijuba, o extrativismo representa uma forma de ‘segurar a terra’. E garantir que, mesmo em meio a pressões urbanas, suas vidas e saberes continuem a florescer”, afirmam as pesquisadoras.

    A pesquisa demonstra que a coleta de frutos nativos na Amazônia combina desenvolvimento econômico, preservação ambiental e transformação social, oferecendo modelo replicável para outras comunidades tradicionais.

  • Conheça o baru; árvore só existe na América do Sul

    Conheça o baru; árvore só existe na América do Sul

    O baruzeiro (Dipteryx alata), árvore nativa do Cerrado, surge como uma alternativa promissora para sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Atualmente, o eucalipto predomina nesses sistemas, mas o baruzeiro apresenta vantagens adicionais: além da madeira de qualidade, produz sementes altamente valorizadas no mercado nacional e internacional.

    O baru, também conhecido como cumaru ou cumbaru, tem registrado aumento significativo de demanda, impulsionado por seu alto valor nutricional. De acordo com a revista Fact.MR, a previsão de crescimento da comercialização desse produto é de 25% ao ano entre 2019 e 2029. O Brasil lidera a produção mundial, exportando quase metade das sementes, sendo 25% destinadas à Europa e 22% aos Estados Unidos.

    Esse crescimento reflete a busca por alimentos saudáveis. O baru é considerado um superalimento, pois possui alto teor de proteína (quase 30% de seu peso), além de ser rico em vitamina C, ferro, polifenóis, flavonoides e antocianinas.

    Oportunidade para comunidades rurais

    Atualmente, a maior parte da produção provém do extrativismo. No entanto, a crescente demanda pode superar a capacidade de oferta, tornando essencial o desenvolvimento de sistemas de plantio comercial. Para Fernando Rocha, pesquisador da Embrapa Cerrados, essa iniciativa pode aumentar a produção e a renda dos produtores rurais.

    O baruzeiro se destaca nos sistemas integrados devido ao seu potencial econômico e adaptação ao ambiente. “O baru pode ser uma nova fonte de renda para os produtores, pois além da semente, sua madeira é valorizada”, explica a pesquisadora Maria Madalena Rinaldi.

    Rocha acrescenta que a árvore já é preservada espontaneamente pelos pecuaristas. “Quando limpam a área, eles retiram todas as árvores, exceto o baruzeiro, pois ele fornece sombra e alimento para os animais.”

    Avanços na produção de mudas

    Um dos principais desafios para a domesticação do baruzeiro é a produção de mudas de qualidade. Atualmente, não há metodologia estabelecida para sua reprodução assexuada, essencial para garantir a uniformidade das plantas. No entanto, pesquisas da Embrapa avançam em técnicas como enxertia e estaquia, apresentando resultados promissores.

    Com a enxertia, o percentual de pegamento das mudas pode chegar a 60%, com potencial para atingir 90% com aprimoramento da técnica. Outra abordagem inovadora envolve a estaquia, onde ramos lenhosos e reguladores de crescimento foram usados para induzir o enraizamento.

    Sementes de qualidade e novos experimentos

    Para um cultivo eficiente, é fundamental utilizar sementes de qualidade. Pesquisadores da Embrapa Cerrados avaliaram mais de 2.200 amostras de frutos colhidos no Distrito Federal e Minas Gerais, analisando aspectos como tamanho, rendimento em polpa e teor de proteína.

    Além disso, estão sendo conduzidos experimentos inéditos para testar a adaptação do baruzeiro em ILPF. Cerca de 400 mudas serão plantadas em uma área de três hectares na Embrapa Cerrados. O cultivo será realizado em três etapas: inicialmente com soja ou sorgo, seguido de culturas anuais e, por fim, pastagens para a inserção de animais.

    Sustentabilidade e mercado internacional

    O baruzeiro representa uma opção sustentável e rentável. Segundo Kolbe Soares, analista da WWF-Brasil, o baru se insere em um mercado global crescente de produtos nativos do Cerrado, como pequi e babaçu. Seu comércio fortalece comunidades extrativistas e reduz a pressão pelo desmatamento.

    Fernando Rocha alerta para a necessidade de um sistema de produção estruturado, evitando que o cultivo comercial seja desenvolvido por outros países, como ocorreu com a macadâmia, levada da Oceania para os Estados Unidos no século 19.

    O baruzeiro se destaca como uma alternativa viável e lucrativa para sistemas ILPF, oferecendo benefícios ambientais, econômicos e sociais. Além disso, com o avanço das pesquisas e o fortalecimento do cultivo comercial, a árvore pode consolidar-se como um importante ativo para a agropecuária brasileira.

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