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  • Espécies únicas de coral-de-fogo do Brasil enfrentam risco crescente de extinção

    Espécies únicas de coral-de-fogo do Brasil enfrentam risco crescente de extinção

    Os recifes de coral brasileiros enfrentam os efeitos combinados do aquecimento dos oceanos, da degradação ambiental e dos sucessivos eventos de branqueamento. O cenário é especialmente preocupante porque o país concentra os únicos sistemas recifais do Atlântico Sul. Eles estão distribuídos ao longo de cerca de 3 mil quilômetros de litoral. E contam com uma diversidade singular de corais-de-fogo, do gênero Millepora. Das quatro espécies que ocorrem no Brasil, três são exclusivas da costa nacional.

    O agravamento desse cenário acaba de ganhar reconhecimento oficial. Em atualização recente da Lista Nacional de Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção, publicada pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo ICMBio em abril deste ano, todas as espécies brasileiras de coral-de-fogo tiveram sua classificação de risco elevada.

    Millepora braziliensis e Millepora laboreli passaram a ser consideradas “criticamente em perigo”, categoria imediatamente anterior à extinção na natureza; Millepora alcicornis, também encontrada no Caribe, foi reclassificada como “em perigo”, após mortalidade superior a 90% registrada nos últimos eventos de branqueamento; e Millepora nitida passou à categoria “quase ameaçada”.

    “Millepora braziliensis é um animal com distribuição extremamente restrita, o que aumenta muito o risco. Um único evento de branqueamento em massa pode ser suficiente para extinguir a espécie”, alerta Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), coordenador de pesquisas do Projeto Coral Vivo e bolsista Jovem Pesquisador da FAPESP.

    Estratégias

    A velocidade das mudanças tem levado pesquisadores a discutir estratégias que até recentemente pareciam distantes da conservação de recifes: manter espécies ameaçadas fora do ambiente natural. “Já estamos debatendo como manter essas espécies vivas em sistemas artificiais, porque a natureza atual, modificada pelo ser humano, pode se tornar incompatível com a existência delas”, diz Mies, que também coordena o monitoramento nacional de recifes coralíneos, financiado pelo Coral Vivo e pela Petrobras.

    Esqueleto de recife de coral
    Esqueletos de colônias de Millepora alcicornis e Mussismilia harttii mortas devido ao branqueamento ocorrido em 2023-2024. Foto: Marcelo Kitahara / Cebimar

    O alerta é reforçado por estudo publicado pelo pesquisador na revista Coral Reefs em 2025. Baseado no maior esforço coordenado já realizado para monitorar o branqueamento no Atlântico Sul, o trabalho mostra que o evento global de branqueamento de 2023–2024 provocou perdas severas em recifes brasileiros, especialmente no Nordeste, e que a repetição desses episódios vem reduzindo a capacidade de recuperação dos ecossistemas.

    Ondas de calor e branqueamento

    O principal motor desse declínio é o aquecimento dos oceanos e o aumento da frequência de ondas de calor marinhas, associados às mudanças climáticas. O aumento anômalo da temperatura da água provoca o branqueamento dos corais, fenômeno em que os organismos expulsam as zooxantelas — microalgas responsáveis por grande parte de sua nutrição, que vivem dentro de seus tecidos. Sem essas algas, os corais perdem sua coloração característica e entram em estresse fisiológico severo. Embora o branqueamento possa ser reversível, episódios intensos ou prolongados frequentemente levam à morte das colônias.

    O branqueamento em massa vem sendo estudado há décadas, mas pesquisadores apontam 2016 como um ponto de virada nos recifes brasileiros, quando uma forte anomalia de temperatura atingiu diferentes trechos da costa nacional – acompanhando uma tendência que já vinha sendo observada em outras partes do mundo. Na época, pesquisadores questionaram se esse crescimento refletia apenas a ampliação do monitoramento ou se os eventos estavam, de fato, se tornando mais frequentes. Em 2019, contudo, uma nova onda de calor afetou os recifes com intensidade ainda maior. A diferença é que, dessa vez, havia mais grupos de pesquisa atuando simultaneamente em diferentes regiões do país, ampliando a capacidade de observação e tornando o monitoramento mais abrangente.

    Recordes de temperatura

    Entre 2023 e 2025, o planeta registrou um dos maiores episódios globais de branqueamento já documentados, afetando 84% das áreas recifais em 82 países e territórios. No mesmo período, recordes de temperatura da superfície do mar foram sucessivamente quebrados.

    Esqueletos de colônias de Millepora alcicornis e Mussismilia harttii mortas devido ao branqueamento ocorrido em 2023-2024
    Esqueletos de colônias de Millepora alcicornis e Mussismilia harttii mortas devido ao branqueamento ocorrido em 2023-2024. Foto: Marcelo Kitahara / Cebimar

    Segundo Ruy Kenji, professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o monitoramento dos recifes combina observações de campo com dados de satélite. “Utilizamos sistemas como o Coral Reef Watch [um serviço da NOAA, a agência de pesquisas oceânicas e atmosféricas dos Estados Unidos]. Ela acompanha anomalias térmicas em tempo quase real. Os dados mostram claramente que regiões ao norte de Salvador têm experimentado eventos mais intensos de aquecimento do que a costa leste da Bahia [macrorregião que se estende ao sul da capital baiana até o Espírito Santo], por exemplo”, explica.

    Essa diferença regional, contudo, não reduz a gravidade do problema. “O aquecimento está expandindo as áreas tropicais. Regiões antes frias estão ficando mais quentes, o que poderia favorecer a expansão dos corais. Mas a velocidade de mortalidade nas áreas atuais é tão alta que não dá tempo dessa migração acontecer”, afirma.

    Os efeitos já aparecem em campo. “Temos testemunhado um declínio quase completo em algumas áreas”, relata Guilherme Longo, professor do Departamento de Oceanografia e Limnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Segundo ele, há regiões em que restam apenas esqueletos antigos, já recobertos por outros organismos, de colônias antes abundantes.

    O estresse invisível dos recifes

    Além do aquecimento global, pressões locais tornam os recifes ainda mais vulneráveis. Poluição por esgoto e fertilizantes, contaminação por agrotóxicos, aumento da carga de sedimentos e sobrepesca comprometem a saúde e reduzem a capacidade de recuperação dos corais.

    Marcelo Kitahara, oceanógrafo do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP) e também bolsista Jovem Pesquisador da FAPESP, destaca o papel dos peixes herbívoros nesse equilíbrio. “Esses peixes controlam o crescimento de algas que competem diretamente com os corais. Sem eles, as algas proliferam e podem sufocar as colônias”, explica. O resultado é um efeito combinado: recifes já fragilizados pelas mudanças climáticas globais tornam-se ainda mais sensíveis aos impactos locais.

    Pesquisas recentes também tentam entender se algumas populações possuem maior resistência ao calor. Após o evento de branqueamento de 2019, Kitahara e sua equipe compararam o DNA de colônias da espécie Millepora alcicornis coletadas antes e depois da onda de calor, em Arraial d’Ajuda e Abrolhos, na Bahia. “Identificamos certos genótipos associados a mecanismos de reparo de DNA que parecem conferir maior resistência ao estresse térmico”, afirma.

    Os resultados sugerem algum potencial adaptativo, mas ainda insuficiente para garantir a sobrevivência das populações mais ameaçadas. “Tudo depende do número de sobreviventes. Em alguns locais, simplesmente não encontramos mais colônias vivas”, diz Kitahara, que também é pesquisador associado do Smithsonian Institution.

    Peixe-tubícula-brasileiro, com sua toca em uma colônia do coral Mussismilia hispida
    Peixe-tubícula-brasileiro, com sua toca em uma colônia do coral Mussismilia hispida. Foto: Marcelo Kitahara / Cebimar

    Entre a conservação e a intervenção

    A possibilidade de manter corais ameaçados em ambientes artificiais, como tanques ou aquários — estratégia conhecida como conservação ex situ — começa a ganhar espaço entre pesquisadores brasileiros. “Se quisermos garantir a continuidade de algumas espécies, talvez seja necessário remover parte das colônias da natureza e mantê-las em condições controladas”, afirma Mies. Segundo ele, essa alternativa já vem sendo discutida no país, especialmente para as espécies Millepora laboreli e Millepora braziliensis, consideradas criticamente ameaçadas, mas ainda não saiu do papel. “É preciso muita cautela”, alerta.

    Segundo ele, a estratégia ainda enfrenta desafios técnicos, financeiros e éticos. “É preciso definir quem tem capacidade para manter esses organismos, garantir financiamento de longo prazo e estabelecer prioridades claras de conservação.”

    Longo ressalta que qualquer intervenção exige cuidado extremo. “Estamos falando de organismos muito sensíveis, que dependem de condições ambientais específicas. Qualquer intervenção exige muito cuidado e responsabilidade”, afirma.

    Ainda assim, diante da aceleração das mudanças climáticas, esse debate ganha espaço em diferentes países. Pesquisadores já testam estratégias de conservação ativa em laboratório, incluindo reprodução assistida, bancos genéticos e cultivo de colônias mais resistentes ao calor.

    Austrália

    Na Austrália, cientistas ligados à Great Barrier Reef Foundation e ao Australian Institute of Marine Science vêm testando diferentes abordagens para aumentar a resistência dos corais ao aquecimento dos oceanos. Entre as iniciativas estão o cruzamento seletivo de colônias naturalmente resistentes ao calor e técnicas de “treinamento térmico”, nas quais organismos cultivados em ambientes controlados são expostos gradualmente a temperaturas mais altas para estimular mecanismos de adaptação ao estresse térmico. Pesquisadores também investigam o uso de microalgas e bactérias termorresistentes para fortalecer a sobrevivência das colônias durante os eventos de branqueamento.

    Nos Estados Unidos, a NOAA também incorporou corais resistentes ao calor à sua estratégia nacional de resiliência de recifes, incluindo reprodução seletiva em laboratório, cultivo de colônias e transplante de fragmentos em áreas degradadas.

    Apesar do avanço nas pesquisas, a comunidade científica ressalta que nenhuma dessas estratégias garante a sobrevivência dos recifes em larga escala, especialmente diante do agravamento acelerado do aquecimento global. Na Flórida, por exemplo, uma onda de calor marinha até então sem precedentes, em 2023, devastou colônias cultivadas em viveiros e transplantadas para cinco áreas de restauração conduzidas pela NOAA.

    Desafio só aumenta

    O desafio pode se tornar ainda maior nos próximos meses. Em junho, a agência norte-americana anunciou que o fenômeno El Niño voltou a se estabelecer no Pacífico tropical e pode atingir intensidade moderada ou forte, aumentando o risco de novas ondas de calor marinhas e, consequentemente, de episódios de branqueamento em massa dos corais.

    Enquanto isso, o monitoramento dos recifes brasileiros vem sendo ampliado. Após o evento de branqueamento de 2019, pesquisadores de diferentes regiões do país criaram um protocolo nacional de acompanhamento dos recifes, em uma ação do Projeto Coral Vivo, liderado por Mies. O objetivo é padronizar métodos, compartilhar dados e acompanhar de forma mais sistemática os corais brasileiros.

    Segundo Kenji, da UFBA, que colabora com o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Ambientes Coralíneos (PAN Corais), os dados de mortalidade ainda precisam ser interpretados com cautela. “Trabalhamos com amostragens. Assim, quando falamos em 100% de mortalidade, estamos nos referindo ao que foi observado em determinadas áreas. Pode haver pequenos remanescentes que não conseguimos detectar”, explica.

    Peixe-anjo-rainha e, ao fundo, uma colônia do coral-cérebro-da-Bahia, Mussismilia braziliensis, em Abrolhos (BA)
    Peixe-anjo-rainha e, ao fundo, uma colônia do coral-cérebro-da-Bahia, Mussismilia braziliensis, em Abrolhos (BA). Foto: Marcelo Kitahara / Cebimar

    A atualização da lista nacional também manteve em categorias de ameaça dois dos principais corais construtores de recifes do país. A Mussismilia braziliensis, classificada como “vulnerável”, e Mussismilia harttii, considerada “em perigo”.

    Biodiversidade

    Embora ocupem apenas 0,1% da área marinha global, os recifes de coral concentram aproximadamente um quarto de toda a biodiversidade oceânica conhecida. Funcionam como abrigo, berçário e fonte de alimento para milhares de espécies, além de contribuírem para a pesca, o turismo e a proteção costeira. “Ainda temos dificuldade de entender que tudo está conectado. O que acontece na Amazônia influencia o oceano, e o que acontece no oceano afeta o clima e as florestas”, diz Longo.

    “Portanto, estamos diante de uma possível extinção causada diretamente por nós”, reflete Mies. Para os pesquisadores, o desafio agora não é apenas compreender a velocidade das mudanças nos recifes. Mas decidir até onde a intervenção humana deve ir para evitar a perda definitiva de espécies que existem apenas no Brasil.

    / Revista Fapesp

  • Arquipélago em São Paulo serve de área de reprodução para tubarões ameaçados de extinção

    Arquipélago em São Paulo serve de área de reprodução para tubarões ameaçados de extinção

    Criticamente ameaçado de extinção, o tubarão-mangona (Carcharias taurus) parece ter encontrado um refúgio na costa norte de São Paulo para acasalar e se reproduzir. É o que revela um estudo realizado por cientistas e mergulhadores no Arquipélago de Alcatrazes, uma área marinha protegida localizada a 35 quilômetros do litoral de São Sebastião.

    Os resultados foram publicados no Journal of Fish Biology por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São Vicente e do Instituto de Pesca.

    Apoiados pela FAPESP e pela Petrobras, os pesquisadores registraram uma fêmea com marcas recentes de acasalamento no verão e outra grávida no inverno. Os estudos disponíveis até então relatavam que os mangonas se acasalavam na Argentina, no Uruguai e no sul do Brasil e depois migravam para as águas mais quentes da costa sudeste brasileira para a gestação e parto.

    “Mostramos que eles estão aqui não apenas no inverno, como se pensava, mas também no verão, realizando todo o ciclo reprodutivo em águas brasileiras”, conta Ana Clara Athayde, primeira autora do estudo e bolsista da FAPESP no Instituto do Mar (IMar) da Unifesp.

    Unidades de conservação marinhas

    Os registros foram realizados no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes e reforçam a importância das unidades de conservação marinhas tanto para as espécies quanto para os serviços ecossistêmicos, como a provisão de alimento para as comunidades de pescadores. A área de proteção, criada em 2016, é gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

    “Existem registros históricos da captura incidental de mangonas na costa de São Paulo, mas não havia nenhum registro científico até o feito por nós no inverno de 2022 em Alcatrazes”, conta Fabio Motta, professor do IMar-Unifesp e coordenador de projeto apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa BIOTA.

    A maior parte dos registros foi obtida por meio dos chamados BRUVs, sigla em inglês para sistemas de estéreo-filmagens subaquáticas remotas com isca. Nessa técnica, um suporte com duas câmeras e um braço com iscas na ponta é mantido submerso por cerca de uma hora. Depois de as imagens serem realizadas em diversos pontos, são analisadas para a detecção das espécies flagradas pelo equipamento.

    Ciência cidadã

    Para o trabalho, os BRUVs foram postos na água 315 vezes em 38 pontos do arquipélago, em profundidades que variavam de 2 a 50 metros. As amostragens foram realizadas no inverno e no verão, entre 2022 e 2025, como parte do programa Mar de Alcatrazes, dedicado ao monitoramento da biodiversidade do arquipélago e patrocinado pela Petrobras.

    Os tubarões foram contados e medidos a partir das imagens. Além dos registros feitos pelos pesquisadores, o estudo contou com a colaboração de mergulhadores recreativos que visitam o arquipélago regularmente, num modelo de ciência cidadã. O biólogo e condutor de mergulho Guilherme Bertuzo, que também assina o artigo, conseguiu filmar nove indivíduos de tubarão-mangona durante o verão de 2024, entre 5 e 10 metros de profundidade.

    “Os tubarões-mangona têm uma morfologia muito particular, com tamanho e posição das nadadeiras que os diferencia de outras espécies costeiras do Atlântico Sudoeste. Por isso, conseguimos identificá-los mesmo quando a visibilidade não era das melhores”, relata Motta.

    Sempre que possível, os pesquisadores identificaram ainda o sexo e o grau de maturidade (juvenil ou adulto), além de marcas corporais distintivas. A gravidez era inferida com base na distensão da região ventral do corpo das fêmeas.

    Além disso, um método publicado pouco antes nos Estados Unidos permitiu estimar o tempo em que as fêmeas tinham acasalado, a partir das marcas de mordidas deixadas pelos machos durante a cópula, e o tempo de gestação.

    “Ao observar a cicatrização dessas feridas em fêmeas em cativeiro e compará-las com outras na natureza, a partir de registros de ciência cidadã, esses pesquisadores conseguiram estimar quando ocorreu a cópula e, por conseguinte, o tempo de gestação. Utilizando esse método, mostramos que as fêmeas estão em Alcatrazes na cópula”, diz Athayde.

    Criticamente ameaçado

    O tubarão-mangona apresenta um modo de reprodução bastante especializado e particular. Na espécie, foi descrito pela primeira vez o chamado canibalismo intrauterino, em que os filhotes, ainda no ventre da mãe, se alimentam dos óvulos, por vezes já fecundados, e mesmo dos irmãos mais novos.

    Com isso, normalmente as fêmeas geram apenas dois filhotes por gestação, que costuma durar de 9 a 12 meses e pode ocorrer a cada dois anos. Os filhotes nascem grandes, com cerca de 90 centímetros. A baixa fecundidade é uma das fragilidades desta e de outras espécies de tubarão, que não dão conta de suportar a pressão da pesca e outros impactos, como a poluição marinha e a perda de hábitats.

    Segundo os pesquisadores, uma vez que o mangona é uma espécie migratória, o arquipélago de Alcatrazes e outras áreas de proteção marinha próximas, como a laje de Santos e a ilha da Queimada Grande, podem formar um corredor ecológico importante para a conservação.

    Em 2025, Alcatrazes foi designada uma Área Importante para Tubarões e Raias (ISRA, na sigla em inglês), como parte de um programa da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que identificou áreas do tipo no mundo inteiro.

    “Nossos resultados reforçam a importância dessa unidade de conservação em particular, mas também de outras áreas onde a pesca é controlada, para proteger os tubarões costeiros. Além disso, ao revelar a dinâmica espacial e temporal da espécie, o estudo pode dar suporte para estratégias de conservação”, encerra Motta.

    Autor: André Julião | Agência FAPESP

  • Especialistas mostram risco de extinção dos jumentos

    Especialistas mostram risco de extinção dos jumentos

    Cientistas e ativistas apontaram risco de extinção dos jumentos, durante audiência na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados nesta quinta-feira (14). Eles também pediram a imediata aprovação do Projeto de Lei 2387/22, que proíbe o abate do animal para consumo, comércio ou exportação.

    A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável debateu o assunto. Foto: Vinicius Loures / Câmara dos Deputados

    O número de jumentos do Brasil passou de 1,3 milhão, no fim dos anos 90, para 78 mil, em 2025. Portanto, com queda de 94%, segundo The Donkey Sanctuary, instituição internacional dedicada ao tema. Há risco de extinção da espécie até 2030. A redução está associada ao abate do animal para aproveitamento da pele, usada como fonte de colágeno na produção do ejiao, remédio da medicina tradicional chinesa. A carne de jumento também é um subproduto para ração animal.

    Esse fluxo internacional vem sendo alimentado de forma ilegal pelo Brasil, como disse José Roberto Lima, presidente da Comissão de Medicina Veterinária Legal da Bahia.

    “Os animais são capturados pelo Nordeste inteiro, depois levados para fazendas e aglomerados para formar lotes. Depois, eles são encaminhados para o frigorífico, que faz o abate e depois os leva para a exportação de carne e pele. Eles não têm nenhum histórico de saúde ou rastreabilidade antes dessas fazendas porque eles são de origem ilegal.”

    Além disso, nesses animais, já foram constatados casos de anemia infecciosa equina e mormo, doença infectocontagiosa grave causada por bactéria.

    Exportação

    José Roberto Lima mostrou dados de exportações por meio de frigoríficos de Amargosa, Simões Filho e Itapetinga, na Bahia. A maior parte foi para China e Hong Kong, mas também há registro de remessas para a União Europeia.

    O diretor das Américas da The Donkey Sanctuary, o mexicano Eduardo Santurtun, lembrou que, desde 2024, a União Africana proíbe o abate de jumentos nos 55 países do continente. Ele apelou para que o Brasil lidere esse movimento entre os países latino-americanos.

    “É muito importante o papel que o Brasil tem para a proteção dos jumentos agora e também para o papel que tem e que pode ter na América Latina.”

    Organizador do debate, o deputado Célio Studart (PSD-CE) garantiu pressão para a Comissão de Constituição e Justiça concluir a votação do projeto de lei sobre o tema, já aprovado nas Comissões de Agricultura e de Meio Ambiente da Câmara.

    Deputado Célio Studart (PSD – CE) prometeu pressionar pela votação do projeto que proíbe o abate dos animais. Foto: Vinicius Loures / Câmara dos Deputados

    “Ele já está pronto para votação na CCJ há mais de 2 anos e, nesse intervalo, são quase 250 mil jumentos que morreram nesse tempo.”

    Preservação da Caatinga

    Coordenadora de campanhas na The Donkey Sanctuary, a bióloga Patrícia Tatemoto explicou a inviabilidade dos jumentos para a criação intensiva, como ocorre com bovinos, por exemplo.

    Patrícia Takemoto destacou papel dos jumentos na preservação da Caatinga. Foto: Vinicius Loures / Câmara dos Deputados

    No entanto, eles podem ser amplamente aproveitados como animais de estimação, na agricultura familiar e principalmente na preservação de ecossistemas nativos, como o da Caatinga.

    “Os jumentos fazem controle de espécies invasoras, consomem plantas que outras espécies nativas não consomem, conseguem encontrar água e trazer água à superfície. Há publicações (sobre isso) inclusive na (revista) Science. Promovem dispersão de sementes, fazem restauração ecológica e contribuem para restauração da megafauna que foi extinta no final do pleistoceno, uma outra era geológica, e religam teias alimentares.”

    The Donkey Sanctuary estima que existam 53 milhões de jumentos no mundo, dos quais 10% sejam abatidos para a produção do ejiao. O mercado desse remédio chinês passou de US$ 3,8 bilhões, em 2015, para US$ 7,2 bilhões, em 2022. A demanda por pele de jumento estava em torno de 1,2 milhão de unidades, em 2013, e tem projeção de chegar a 6,8 milhões em 2027.

    Há alternativas em estudo para a produção do ejiao a partir de colágeno bioecológico, de forma mais “ética, sustentável e segura”, segundo os especialistas.

    Fonte: Agência Câmara de Notícias

  • O que aconteceria se as baratas desaparecessem? Biólogos explicam papel no meio ambiente

    O que aconteceria se as baratas desaparecessem? Biólogos explicam papel no meio ambiente

    Ninguém gosta de barata, e isso é quase um consenso. No entanto, esse inseto rejeitado e onipresente desempenha funções ecológicas essenciais. Se elas sumissem amanhã, provocariam um efeito em cadeia surpreendente.

    No ambiente natural, as baratas decompõem matéria orgânica. Além disso, contribuem para a polinização com hábitos herbívoros e servem de alimento para diversas espécies. Vespas, pequenos mamíferos e aves dependem delas para sobreviver. “Alguns insetos predam baratas, como certas vespas, aliadas no controle de infestações. Elas também integram a dieta de mamíferos e aves”, diz o biólogo André Coppe, do Instituto de Biociências da USP.

    “Lixeiras do meio ambiente”

    As baratas evitam até o transbordamento de esgotos. Esses locais úmidos, escuros e cheios de decomposição favorecem sua proliferação. Assim, elas decompõem detritos humanos diretamente.

    “De modo geral, as baratas atuam como ‘lixeiras do meio ambiente’. Dejetos e descartes humanos viram alimento para elas e outros decompositores”, explica o biólogo Matheus D’Oran, mestrando no Museu de Zoologia da USP.

    O que aconteceria se as baratas sumissem?

    Seu desaparecimento geraria um efeito dominó. Elas sustentam a cadeia alimentar e a ciclagem de nutrientes. “Predadores especializados, parasitoides e plantas dependentes delas sofreriam primeiro e poderiam sumir”, afirma Coppe.

    Em seguida, predadores superiores perderiam alimento. O lixo se acumularia, os odores aumentariam e a fertilidade do solo cairia. Por fim, o setor agropecuário sentiria o impacto no equilíbrio ecológico.

    Importância real, distância necessária

    Reconhecer o papel ecológico das baratas não significa conviver com elas dentro de casa. As espécies urbanas circulam por esgotos, lixo e dejetos, carregando microrganismos que representam risco real de contaminação. Manter a higiene domiciliar, evitar o acúmulo de lixo e não deixar restos de comida expostos são os passos básicos recomendados pelos especialistas.

    “As baratas existem por conta própria, sem razões utilitárias, e ocupam seus próprios nichos, se aproveitando, por vezes, do impacto que nosso sistema econômico gera no meio ambiente. Esses bichos surgiram naturalmente neste planeta e não evoluíram com o objetivo de satisfazer as necessidades humanas”, conclui D’Oran.

  • O que aconteceu com Bubbles? Veja a vida atual do chimpanzé de Michael Jackson

    O que aconteceu com Bubbles? Veja a vida atual do chimpanzé de Michael Jackson

    Ele viajou o mundo em jatos particulares, dormiu em quartos de luxo e apareceu em capas de revista ao lado do maior popstar de todos os tempos. Bubbles, o chimpanzé de Michael Jackson, foi por anos um símbolo da excentricidade do Rei do Pop, tão famoso quanto qualquer celebridade humana da época. Hoje, aos 43 anos, ele vive uma realidade completamente diferente e, em muitos aspectos, muito mais adequada.

    Longe dos holofotes, Bubbles está no Centro para Grandes Primatas (Center for Great Apes), em Wauchula, na Flórida. Pesa 84 kg, lidera um grupo de chimpanzés com calma e autoridade, e passou a se dedicar a uma atividade improvável para quem o conheceu filhote: pintura.

    Do Rancho Neverland a um santuário na Flórida

    A trajetória de Bubbles com Michael Jackson começou nos anos 1980, quando o cantor o adquiriu ainda filhote. Durante quase duas décadas, o chimpanzé foi tratado como um membro da família, acompanhando Jackson em turnês, eventos públicos e na vida cotidiana no Rancho Neverland.

    No entanto, o que funcionava quando Bubbles era pequeno e dócil tornou-se insustentável com o tempo. Chimpanzés adultos são animais de força bruta, comportamento imprevisível e necessidades sociais complexas que nenhum ambiente doméstico consegue suprir. Em 2005, Bubbles foi transferido para o santuário na Flórida, onde chegou junto de outros primatas vindos da indústria do entretenimento, todos com histórias parecidas: criados por humanos, deslocados de sua natureza e precisando reconstruir uma vida entre os seus.

    Com o espólio de Jackson pagando suas contas, Bubbles pinta quadros, lidera um grupo de primatas e vive longe das câmeras — (Foto: Reprodução/Jim Smeal)

    Artista, líder e cheio de personalidade

    Dentro do santuário, Bubbles encontrou algo que o Neverland nunca pôde oferecer: identidade própria. Ele é descrito pela equipe do Centro para Grandes Primatas como um indivíduo de personalidade tímida, porém cativante, com um lado travesso que aparece nas horas mais inesperadas. Não é raro que ele surpreenda tratadores com jatos d’água ou uma pitada de areia, apenas por diversão.

    Além disso, desenvolveu um talento genuíno para a pintura. Bubbles passa longos períodos criando obras coloridas e só as entrega quando considera que estão prontas. Essa característica revela algo que a ciência confirma sobre chimpanzés: são animais com vida mental rica, capazes de preferências estéticas e comportamentos que vão muito além do instinto básico.

    Por outro lado, o papel social que ele construiu no grupo também chama atenção. Bubbles é o líder de um grupo que inclui Oopsie, Boma, Kodua e Stryker, e exerce essa liderança com equilíbrio, sem agressividade desnecessária.

    Fake news e o alerta do santuário

    Com o lançamento do filme biográfico Michael, o interesse por Bubbles voltou à tona nas redes sociais, mas trouxe consigo um problema sério: desinformação. Imagens circulando com o animal interagindo fisicamente com humanos são falsas, geradas por inteligência artificial. O santuário veio a público para esclarecer o caso e reforçar sua política.

    “Como um santuário credenciado, o bem-estar dos primatas vem sempre em primeiro lugar. Não permitimos contato físico”, declarou a instituição em nota oficial.

    Além disso, o Centro desmentiu boatos de que Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e protagonista do filme, teria visitado Bubbles. Isso nunca aconteceu. O alerta é importante: a banalização do contato entre humanos e primatas em redes sociais alimenta uma cultura que prejudica diretamente o bem-estar desses animais e incentiva o tráfico de espécies silvestres.

    Vale lembrar que o sustento de Bubbles continua garantido pelo espólio de Michael Jackson, que financia seus cuidados de forma vitalícia no santuário.

    O que a vida de Bubbles ensina

    No filme, o diretor Antoine Fuqua optou por representar Bubbles com CGI, sem usar nenhum animal real nas gravações. A decisão respeita não só o chimpanzé específico, mas sinaliza uma mudança de mentalidade na indústria do entretenimento em relação ao uso de animais silvestres como acessórios de celebridade.

    Após 20 anos de vida tranquila em Wauchula, Bubbles se tornou, sem querer, um símbolo de outra natureza: o de que animais selvagens não pertencem a mansões, turnês ou tapetes vermelhos. Eles pertencem a espaços que respeitam o que são. Assim, o chimpanzé mais famoso da cultura pop finalmente encontrou o seu próprio Neverland, um lugar onde ele pode ser, simplesmente, um chimpanzé.

  • Falta de presas ameaça extinção da onça-pintada na Mata Atlântica

    Falta de presas ameaça extinção da onça-pintada na Mata Atlântica

    A onça-pintada (Panthera onca) enfrenta, na Mata Atlântica, uma ameaça que vai além da destruição de habitat e da caça direta ao animal: a escassez de alimento. Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros revelou que a disponibilidade de presas do maior felino das Américas caiu a níveis críticos mesmo dentro de áreas protegidas do bioma, que cobre cerca de 15% do território nacional e se estende por 17 estados nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, além de partes da Argentina e do Paraguai.

    Os pesquisadores apontam que espécies fundamentais para a dieta da onça, como o porco-do-mato (Tayassu pecari), o cateto (Dicotyles tajacu) e os cervídeos, sofrem pressão intensa de caça humana. A situação já chegou a um nível que provavelmente não sustenta populações viáveis do felino no bioma, que hoje abriga menos de 300 exemplares. Se o quadro piorar, a Mata Atlântica pode se tornar o primeiro bioma do mundo a perder um predador de topo da cadeia alimentar.

    Os resultados foram publicados na revista Global Ecology and Conservation com apoio da FAPESP. E contaram com a participação de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Cananeia (IPeC), do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e do Projeto Onças do Iguaçu – Instituto Pró-Carnívoros.

    Armadilhas fotográficas revelam cenário alarmante

    A equipe combinou dados sobre a dieta e os hábitos alimentares da onça-pintada com um levantamento de campo realizado em nove áreas protegidas da Mata Atlântica, usando armadilhas fotográficas. A partir dessas informações, os pesquisadores estimaram a abundância e a biomassa de 14 espécies de presas em regiões com diferentes densidades populacionais do felino.

    Os resultados expõem uma disparidade brutal. No Corredor Verde, a biomassa de presas chega a 638 kg, enquanto nas áreas costeiras, como a Serra do Mar, o índice despenca para míseros 8,2 kg. Não por acaso, é justamente nessas regiões costeiras que a onça-pintada está ausente ou ocorre em densidades extremamente baixas.

    “Constatamos uma situação alarmante de baixa abundância de espécies-chave de presas da onça-pintada. Mesmo em áreas protegidas, onde se esperava que a situação fosse melhor em termos de conservação”, afirma Katia Ferraz, professora da Esalq-USP e coordenadora do estudo. “Muito provavelmente, o declínio dessas presas é uma das principais causas para a situação crítica em que a onça-pintada se encontra nesse bioma.”

    Acesso humano às áreas protegidas explica a escassez

    O estudo identificou um padrão claro: as presas são mais abundantes onde o acesso humano é mais difícil. Regiões de relevo acidentado e distantes de centros urbanos concentram mais animais. Já as áreas próximas a vilas e cidades, ou com relevo que facilita a entrada de pessoas, apresentam drasticamente menos presas. Sinal direto da pressão da caça ilegal, que persiste mesmo dentro das unidades de conservação.

    “A baixa disponibilidade de presas está relacionada ao maior acesso das pessoas às áreas protegidas. Isso sugere uma relação direta com a pressão de caça”, explica Ferraz. “Além da pressão sobre a própria onça, há uma pressão muito forte sobre as populações de presas, o que leva ao declínio do felino.”

    No Corredor Verde, a combinação de áreas mais isoladas, melhor conectividade entre parques e iniciativas contínuas de combate à caça ilegal, como o Projeto Onças do Iguaçu, ajuda a manter uma base de presas capaz de sustentar populações viáveis. Já na faixa costeira, a proximidade de metrópoles como São Paulo e Curitiba e o histórico de pressão humana explicam a escassez persistente, apesar dos esforços de conservação em curso.

    Parque Nacional do Iguaçu: um oásis em meio à crise

    Entre as áreas analisadas, o Parque Nacional do Iguaçu se destacou como um dos últimos refúgios da Mata Atlântica onde predador e presas coexistem em níveis relativamente saudáveis. A menor altitude do parque favorece maior abundância de fauna , padrão observado em outras áreas do bioma. E a atuação do Projeto Onças do Iguaçu faz diferença concreta no campo.

    O projeto atua em três frentes. A primeira é a pesquisa aplicada sobre ecologia alimentar e corredores de vegetação. Depois, engajamento comunitário para transformar o medo em conhecimento. E por fim coexistência, com orientações a produtores rurais sobre manejo do gado para reduzir conflitos com o felino.

    Os resultados são visíveis. “Em 2009, tínhamos entre 9 e 11 animais no parque. Nos últimos 15 anos, a população quase dobrou”, conta Yara Barros, coordenadora-executiva do projeto. O avanço da agricultura e a redução da pecuária no entorno também contribuíram, já que diminuíram as mortes por retaliação de fazendeiros. “A caça representa uma grande ameaça porque, muitas vezes, quem entra na floresta para caçar as presas da onça acaba matando o animal incidentalmente”, explica Barros.

    A iniciativa já inspira vizinhos. “Estamos criando uma rede trinacional com parceiros do Paraguai e da Argentina para compartilhar e replicar nossa experiência”, afirma a coordenadora.

    Para os autores do estudo, os dados apontam um caminho claro. Enquanto algumas regiões ainda funcionam como refúgios ecológicos, outras exigem ações urgentes de controle da caça, recuperação da fauna e gestão do uso humano. Sem isso, o maior predador das Américas corre o risco real de desaparecer definitivamente da Mata Atlântica.

    Elton Alisson | Agência FAPESP

  • Ibama apreende 1,5 tonelada de peixe-vermelho em operação no Ceará

    Ibama apreende 1,5 tonelada de peixe-vermelho em operação no Ceará

    Agentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apreenderam 1,5 tonelada de peixes-vermelhos no litoral oeste do Ceará. A ação ocorreu  no porto pesqueiro de Camocim, durante a operação permanente Fiscaero.

    Foto: Divulgação/Ibama/CE

    O responsável pela embarcação recebeu multa superior a R$ 50 mil por pesca ilegal. Os fiscais constataram que o barco não possuía autorização para capturar a espécie, que pertence à família do pargo e está ameaçada de extinção.

    A operação Fiscaero monitora embarcações possivelmente ligadas à cadeia de exportação do pargo no litoral cearense. O peixe-vermelho está em período de defeso até 30 de abril, o que proíbe sua captura e comercialização.

    A legislação ambiental brasileira tipifica a comercialização de produtos de animais silvestres sem autorização como crime ambiental. O Decreto nº 6.514/2008 e a Lei nº 9.605/1998 estabelecem as sanções para esse tipo de infração, incluindo multas e outras penalidades administrativas.

    O descumprimento das normas do defeso também sujeita os infratores às penalidades previstas na legislação vigente. O período de defeso protege espécies ameaçadas durante sua fase reprodutiva, garantindo a preservação dos estoques pesqueiros.

  • Choquinha-de-alagoas: ave mais rara do Brasil voltou a se reproduzir

    Choquinha-de-alagoas: ave mais rara do Brasil voltou a se reproduzir

    Quatro novos filhotes da choquinha-de-alagoas (Myrmotherula snowi) nasceram na Estação Ecológica de Murici, em Alagoas, e recolocaram em debate o estado crítico da conservação da biodiversidade brasileira. A espécie figura entre as aves mais raras do mundo: pesquisadores conhecem apenas 12 indivíduos vivos, todos confinados a um único fragmento de Mata Atlântica no Nordeste do Brasil.

    A IUCN classifica a choquinha-de-alagoas como criticamente ameaçada na Lista Vermelha, a categoria mais grave antes da extinção declarada. A ave sobrevive exclusivamente dentro dos cerca de seis mil hectares protegidos de Murici, considerado seu último refúgio conhecido no planeta.

    95% da floresta, perdida

    O contexto que explica tamanha vulnerabilidade é histórico e geográfico. A Fundação SOS Mata Atlântica estima que o Brasil preserva apenas 12% da cobertura original do bioma. Ao norte do Rio São Francisco, região onde a choquinha-de-alagoas vive, a devastação chegou a aproximadamente 95% da floresta original. Esse é um dos índices mais altos de destruição de qualquer bioma tropical no mundo.

    Esse cenário de fragmentação extrema isola populações, reduz a diversidade genética e aumenta exponencialmente o risco de extinção local. O novo registro de reprodução, embora positivo, não elimina a fragilidade estrutural da situação: uma única área protegida, cercada por décadas de desmatamento, sustenta toda a população conhecida da espécie.

    Monitoramento contínuo como linha de defesa

    O caso reforça o papel central do monitoramento ativo e do manejo direto para evitar que espécies como essa cruzem o ponto de não retorno. Sem acompanhamento sistemático em campo, os quatro filhotes provavelmente passariam despercebidos. E com eles, informações essenciais sobre comportamento reprodutivo, território e saúde da população.

    A discussão extrapola as fronteiras brasileiras. A Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) estima que mais de um milhão de espécies enfrentam risco de extinção no mundo. O relatório coloca na mesa questões que governos, financiadores e sociedade civil ainda respondem de forma insuficiente: quanto investir, como priorizar e quem deve liderar a proteção de ecossistemas críticos.

    No caso da choquinha-de-alagoas, a resposta até agora veio de pesquisadores de campo e de uma única estação ecológica. O nascimento dos quatro filhotes prova que a espécie ainda luta. A pergunta é se as políticas públicas conseguirão acompanhar esse esforço antes que seja tarde demais.

  • Corais-de-fogo brasileiros enfrentam risco de extinção silenciosa, alertam cientistas

    Corais-de-fogo brasileiros enfrentam risco de extinção silenciosa, alertam cientistas

    Especialistas alertam que os corais-de-fogo brasileiros podem estar caminhando para uma “extinção silenciosa”. A conclusão integra estudo apoiado pela FAPESP e publicado na revista científica Coral Reefs, que analisou o impacto do branqueamento de corais durante a onda de calor de 2024.

    O Instituto Coral Vivo, com apoio da Petrobras, conduziu o monitoramento após o primeiro evento severo de branqueamento que atingiu o Brasil em 2019. Os pesquisadores acompanharam as colônias antes, durante e depois da mais recente crise térmica, provocada pelo fenômeno El Niño-Oscilação Sul no início de 2024.

    Espécie endêmica perde todas as colônias monitoradas

    Os resultados revelam um cenário alarmante para a Millepora braziliensis, espécie que existe apenas no Brasil. A pesquisa registrou branqueamento de 100% e perda total da cobertura viva nas colônias monitoradas em Tamandaré (PE). O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) já classificam a espécie como criticamente ameaçada de extinção.

    Outra espécie endêmica, a Millepora nitida, apresentou 40% de branqueamento, mas não registrou perdas significativas de cobertura durante o mesmo período.

    “Os resultados reforçam que precisamos adotar medidas urgentes de conservação para proteger os corais, principalmente as populações de M. braziliensis, que enfrentam risco elevado de extinção”, afirma Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador do estudo.

    O pesquisador destaca que as ondas de calor provocadas pelo El Niño, combinadas com o aquecimento global causado pela emissão de gases de efeito estufa, intensificam a ameaça sobre essas espécies.

    Negligência histórica compromete conservação

    Os cientistas historicamente negligenciaram os corais-de-fogo em monitoramentos. Diversas razões explicam essa lacuna: o difícil acesso às colônias, sua localização nas bordas dos recifes e a menor abundância de três das quatro espécies brasileiras em comparação aos corais verdadeiros.

    “No entanto, os corais-de-fogo possuem importância ecológica comparável aos corais verdadeiros, uma vez que contribuem para a complexidade do ecossistema e oferecem abrigo para outras espécies animais”, explica Mies, que também dirige cientificamente o Instituto Coral Vivo.

    O estudo tem como primeiros autores Laura Marangoni, do Instituto Coral Vivo, e Tarciso Roberto Sena da Silva, mestrando da UFRPE sob orientação de Ralf Cordeiro, que coordenou o monitoramento.

    Branqueamento global atinge 84% dos recifes

    O branqueamento representa a maior ameaça aos recifes de coral mundialmente. O fenômeno ocorre quando a temperatura da água sobe e as zooxantelas — microalgas que vivem dentro do esqueleto dos corais e fornecem alimentos — passam a produzir compostos danosos. Os corais expelem essas algas, ficam brancos e podem morrer por falta de energia.

    O evento de 2023-2024 marcou a quarta ocorrência global do tipo e também afetou os corais verdadeiros da costa brasileira, como relata outro estudo do grupo publicado em setembro de 2025. Em Maragogi (AL), o branqueamento atingiu 96% dos corais; em Porto de Galinhas (PE), 84%. Mundialmente, 84% dos recifes sofreram com o fenômeno no mesmo período.

    Quatro espécies, três endêmicas

    Os pesquisadores monitoraram a M. nitida em três pontos do Recife de Fora, em Porto Seguro (BA). A M. braziliensis teve suas colônias analisadas em Tamandaré (PE), dentro da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, que se estende até Maceió (AL).

    Outras duas espécies de coral-de-fogo habitam águas brasileiras. A M. alcicornis, presente também no Caribe, recebe mais atenção dos pesquisadores e apresenta maior abundância, embora também inspire preocupação.

    A M. laboreli, terceira espécie endêmica do Brasil, restringe-se ao Parcel do Manuel Luís, na costa do Maranhão. O difícil acesso ao local gera enorme lacuna de informações sobre seu estado de conservação.

    “As últimas notícias que tivemos, de um grupo que esteve ali em 2022, indicam que havia poucas colônias vivas. A situação pode ter piorado após a onda de calor de 2023-2024. Porém, não temos dados suficientes para afirmar com precisão”, conta Mies.

    Extinção pode ocorrer em poucos anos

    O pesquisador não hesita em afirmar que essas espécies podem desaparecer nos próximos anos, caso novos eventos de branqueamento ocorram — o que considera inevitável. Por enquanto, qualquer solução imediata parece impossível sem que haja redução da emissão de gases de efeito estufa que aquecem o planeta e favorecem as ondas de calor.

    Iniciativas de restauração, nas quais cientistas cultivam corais em laboratório e os introduzem na natureza, ainda não se mostraram bem-sucedidas. A prática demanda altos investimentos, competindo por recursos com outras iniciativas de conservação, e os corais introduzidos morrem em ondas de branqueamento subsequentes.

    No entanto, os pesquisadores lembram que estudos já demonstraram que corais em unidades de conservação tendem a sofrer menos com o branqueamento do que aqueles fora dessas áreas protegidas.

    “Diferentemente do branqueamento de 2019, quando não estávamos preparados, documentamos bem o que está ocorrendo agora, a fim de subsidiar políticas públicas. Precisamos fortalecer as ações de conservação e aumentar a conscientização sobre a importância de conter as mudanças climáticas”, conclui Mies.

    André Julião | Agência FAPESP

  • Tatu-canastra – encontro com dupla revela beleza e risco de espécie ameaçada

    Tatu-canastra – encontro com dupla revela beleza e risco de espécie ameaçada

    Um vídeo gravado recentemente em uma estrada brasileira está chamando a atenção de moradores e biólogos ao registrar dois tatus-canastra (Priodontes maximus) caminhando juntos durante o dia. Considerada a maior e mais rara espécie de tatu do mundo, essa aparição dupla é um evento incomum, já que esses animais são naturalmente solitários e de hábitos noturnos. A filmagem, feita por uma pessoa que passava pelo local, não só revela a curiosidade comportamental, mas também reacende o alerta para o risco crítico de extinção que essa espécie emblemática enfrenta.

    A cena, que mostra os dois indivíduos adultos cruzando uma via, é surpreendente. Como explica o biólogo José Fernando de Sousa Lima, estudioso de mamíferos, “ele passa a maior parte do dia entocado, só sai durante a noite. O que faz ele sair durante o dia é ser incomodado”. Esse “incômodo” pode ser provocado por ataques de outros animais, pela presença de caçadores ou, como apontado em outro contexto, por eventos climáticos extremos, como cheias no Pantanal, que forçam os animais a buscar terrenos mais altos e secos.

    Um gigante sob ameaça: a situação atual do tatu-canastra

    A afirmação presente no vídeo de que o tatu-canastra está em risco de extinção é, infelizmente, verdadeira e alarmante. A situação atual da espécie é classificada como Vulnerável (VU) em nível global pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). No entanto, a realidade é ainda mais grave em biomas específicos do Brasil. Na Mata Atlântica, por exemplo, a espécie é categorizada como Criticamente em Perigo (CR), o que significa que está a um passo da extinção nesse ecossistema.

    Os principais fatores que levaram e ainda mantêm o tatu-canastra nessa situação precária são:

    • Perda e fragmentação de habitat: a expansão agropecuária e o desmatamento para cultivos como a soja e a pecuária, além de monoculturas de eucalipto, destroem e fragmentam o ambiente natural desses animais. O Cerrado, um de seus habitats, já perdeu mais de 80% de sua vegetação nativa em algumas regiões, como Mato Grosso do Sul.
    • Caça ilegal: a caça predatória, seja para consumo de sua carne – considerada um “petisco” em algumas regiões – seja por retaliação de apicultores (já que os tatus podem destruir colmeias para comer larvas), é uma ameaça significativa. Apesar de ser crime ambiental com pena de detenção e multa, a prática ainda persiste.
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    • Atropelamentos: a construção de rodovias próximas aos seus habitats corta os corredores naturais por onde os tatus se deslocam. Com grandes áreas de vida (podem se deslocar por vastos territórios), eles são forçados a cruzar estradas, resultando em muitos atropelamentos. O Cerrado é recordista nesse triste índice, com 22 animais vitimados nos últimos 14 anos.
    • Poluição e contaminação: uma ameaça silenciosa e recentemente descoberta preocupa os cientistas. Um estudo de 2025 revelou contaminação por microplásticos e metais pesados (como chumbo, cromo e manganês) em 100% das amostras de fezes de tatus-canastra analisadas no Parque Estadual do Rio Doce (MG). Essa poluição, oriunda de rejeitos de mineração, fertilizantes agrícolas e lixo, pode causar infertilidade, danos orgânicos e tumores, impactando a longo prazo a sobrevivência da população.

    Curiosidades sobre o tatu-canastra

    • Engenheiro do ecossistema: suas enormes tocas (com até 5m de profundidade) abrigam mais de 70 outras espécies. Que as usam como refúgio térmico e contra predadores .
    • Gigante solitário: pode medir 1,5m e pesar mais de 50 kg. É o maior tatu do mundo.
    • Visão péssima, olfato excelente: localiza seu alimento favorito (cupins e formigas) principalmente pelo olfato apurado.
    • Baixa taxa reprodutiva: o intervalo entre gestações pode chegar a três anos, o que dificulta muito a recuperação de suas populações.
    • Esperança e esforços de conservação

    Portanto, apesar do cenário desafiador, existem iniciativas robustas empenhadas em reverter o destino do tatu-canastra. O Projeto Tatu-Canastra, liderado pelo Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), completa mais de uma década de pesquisas e é uma luz no fim do túnel. O projeto atua em vários fronts:

    • Pesquisa e monitoramento: utiliza colares com GPS e armadilhas fotográficas para entender os padrões de movimento, saúde e genética da espécie. Recentemente, monitorou simultaneamente oito indivíduos, um recorde.
    • Engajamento comunitário: diálogo com proprietários de terras para criar corredores ecológicos e conscientizar sobre a importância do animal. Desenvolve até um selo “Apicultor Amigo do Tatu-canastra” para mitigar conflitos.
    • Educação ambiental: leva informação a milhares de alunos em escolas rurais e urbanas, transformando o tatu em um símbolo de conservação.

    O programa é tão relevante que é o único representante da América Latina concorrendo ao prestigiado Prêmio Beauval Nature 2025.

    Tabela: status de conservação do tatu-canastra (priodontes maximus) em diferentes biomas

    Um símbolo de resistência

    O vídeo casual que flagrou dois tatus-canastra é mais do que uma simples curiosidade. É também um registro raro da resistência de uma espécie à beira do desaparecimento. Cada avistamento como esse é um lembrete valioso de que esses gigantes discretos ainda persistem em meio às pressões humanas.

    Sua sobrevivência a longo prazo, no entanto, não depende da sorte de encontros fortuitos. Mas sim da manutenção e expansão de esforços de conservação, da aplicação efetiva das leis ambientais e da conscientização de toda a sociedade sobre seu papel crucial como “engenheiros” dos ecossistemas brasileiros. Portanto, preservar o tatu-canastra, como bem resumiu um fiscal ambiental, é sinônimo de preservar o Cerrado, o Pantanal e a Mata Atlântica.

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