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  • Crise: falta de vacinas contra clostridioses ameaça o rebanho brasileiro

    Crise: falta de vacinas contra clostridioses ameaça o rebanho brasileiro

    O Brasil, dono do maior rebanho comercial bovino do mundo, enfrenta desde agosto de 2025 um cenário inédito: a escassez de vacinas contra clostridioses. Esse grupo de doenças bacterianas é responsável por mais de 400 mil mortes de animais por ano no país. O que começou como um alerta localizado no Piauí rapidamente se transformou numa crise sanitária de alcance nacional, com produtores de Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Acre sem acesso a imunizantes nas prateleiras das revendas agropecuárias.

    E o perigo é grande:

    • 400 mil animais mortos por clostridioses por ano no Brasil
    • R$ 1,1 bi em prejuízos diretos estimados anualmente ao setor
    • 100% de taxa de mortalidade após infecção confirmada

    Um gatilho e uma cadeia de consequências

    O estopim da crise foi a identificação de reações adversas graves, incluindo mortes, associadas a lotes das vacinas Excell 10, da Dechra Brasil, e Resguard Multi, da Vaxxinova International. Segundo nota técnica da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), com base em informações do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), foram registradas 612 mortes suspeitas em bovinos, ovinos e caprinos em diferentes estados, levando à interdição total dos lotes envolvidos e à suspensão da fabricação de um dos produtos.

    O impacto imediato foi a retirada de parte significativa do estoque disponível do mercado, mas o que veio a seguir agravou ainda mais o quadro. Segundo o MAPA, fabricantes tomaram decisões mercadológicas de descontinuar a produção e a comercialização dos imunizantes entre o final de 2025 e janeiro de 2026. Portanto, reduzindo drasticamente a oferta num setor já fragilizado pela concentração industrial.

    A doença que não tem tratamento

    As clostridioses são causadas por bactérias do gênero Clostridium, presentes no solo e no intestino dos animais. Elas são capazes de permanecer no ambiente por anos na forma de esporos. Quando encontram condições favoráveis, provocam doenças como botulismo, carbúnculo sintomático, gangrena gasosa e enterotoxemia, todas com evolução fulminante. Um animal infectado pode morrer entre 12 e 48 horas após os primeiros sintomas, muitas vezes sem sinais prévios. A taxa de mortalidade é de 100% nos casos confirmados, e o tratamento, na prática, é inviável. A única saída é a prevenção. E a prevenção depende de vacinas.

    A queda na vigilância sanitária agravou ainda mais a situação após o encerramento da vacinação obrigatória contra a febre aftosa, concluído depois de o Brasil conquistar o status de país livre da doença. Especialistas alertam que a mobilização de produtores em torno das campanhas de aftosa funcionava também como um reforço indireto para outras vacinações, incluindo as clostridioses. Com o fim desse protocolo, parte dos rebanhos ficou mais vulnerável.

    Cronologia da crise

    • Agosto 2025: MAPA é notificado sobre reações adversas no Piauí; lotes das vacinas Excell 10 (lotes 016/2024 e 018/2024) são interditados preventivamente.
    • Setembro 2025: Adapar (PR) emite nota técnica; 612 mortes suspeitas em análise nos estados. Fabricação da Resguard Multi (Vaxxinova) é suspensa.
    • Dezembro 2025 – Janeiro 2026: Fabricantes descontinuam produção e comercialização por decisão mercadológica, agravando o desabastecimento.
    • Março – Abril 2026: MAPA libera 14,6 milhões de doses em ações emergenciais, combinando produção nacional e importações.
    • Maio 2026: Sindan projeta entrega de 8 a 10 milhões de doses mensais até dezembro, com expectativa de superar 100 milhões de doses no ano.

    O que o governo está fazendo

    Pressionado pelo setor produtivo, o MAPA adotou medidas emergenciais: passou a estimular fabricantes nacionais a ampliar a produção, acelerar processos de fiscalização e registro, e facilitar a importação de imunizantes. O resultado parcial foi a liberação de 14.640.910 doses entre março e abril de 2026. Mas o volume não atende à demanda de um rebanho bovino estimado em mais de 220 milhões de cabeças, já que parte dos animais necessita de revacinação anual.

    Em 5 de maio de 2026, o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) divulgou projeção de entrega entre 8 e 10 milhões de doses mensais até o fim do ano, com possibilidade de ampliação no segundo semestre. A meta é disponibilizar mais de 100 milhões de doses até dezembro. Para os produtores que já perderam animais nos últimos meses, no entanto, qualquer chegada de vacinas chega tarde demais.

    O que os produtores podem fazer agora

    Enquanto o abastecimento não se normaliza, especialistas e agências de defesa agropecuária recomendam redobrar os cuidados de manejo: descartar carcaças corretamente para evitar contaminação das pastagens, não reutilizar agulhas, eliminar materiais cortantes nas instalações e monitorar fontes de água.

    Em casos de suspeita de mortes relacionadas a clostridioses, o produtor deve fazer a notificação pelo sistema e-SISBRAVET. Ou nos escritórios locais dos órgãos estaduais de defesa agropecuária. Quando vacinas estiverem disponíveis, a prioridade deve ser a vacinação de bezerros (a partir de 3 meses) e de vacas prenhes (um mês antes do parto). Além da revacinação anual do rebanho.

    Nota do MAPA

    O Mapa emitiu uma nota oficial sobre o tema:

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informa que o atual cenário de desabastecimento de vacinas contra clostridioses decorre, principalmente, de decisões mercadológicas adotadas por fabricantes, que descontinuaram a produção e a comercialização desses imunizantes entre o final de 2025 e janeiro de 2026.

    Com o objetivo de mitigar os impactos desse cenário, o Mapa vem atuando junto à indústria de insumos veterinários para estimular a ampliação da fabricação e das importações, bem como para acelerar os procedimentos de fiscalização e liberação das vacinas.

    Como resultado das ações emergenciais adotadas, o Ministério liberou, nos meses de março e abril de 2026, o total de 14.640.910 doses de vacinas contra clostridioses, entre produtos de fabricação nacional e importados.

    Além disso, o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan) informou, em 5 de maio de 2026, estimativa inicial de entrega entre 8 milhões e 10 milhões de doses mensais até dezembro, com possibilidade de ampliação no segundo semestre. A projeção é de que possam ser disponibilizadas mais de 100 milhões de doses até o final do ano.

  • Ministério pede suspensão de vacina após mais de 100 mortes

    Ministério pede suspensão de vacina após mais de 100 mortes

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) determinou a suspensão imediata do uso da vacina Excell 10, dos lotes 016/2024 e 018/2024, após mais de 100 mortes repentinas de bovinos, caprinos e ovinos nos municípios de Simões e Curral Novo do Piauí, além de registros em outras cidades do estado e em outros estados do Nordeste, como Sergipe, Rio Grande do Norte e Maranhão. A medida vale também para os casos em que o imunizante já havia sido adquirido antes da suspensão.

    A Dechra Brasil fabrica a vacina para prevenir a clostridiose, um conjunto de doenças provocadas por bactérias do gênero Clostridium, comuns no ambiente e no trato intestinal dos animais, que podem causar morte súbita nos rebanhos. Os sintomas relatados pelos produtores incluem edema no local da aplicação, febre transitória e apatia. E os casos de morte começaram a ser notificados cerca de dez dias após a vacinação.

    Foto: Wenderson Araujo/Trilux/Sistema CNA/Senar

    O caso está sendo investigado em conjunto pelo Ministério da Agricultura, a Agência de Defesa Agropecuária do Piauí (Adapi) e a Universidade Federal do Piauí (UFPI). Também com apoio da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e de laboratórios em São Paulo. As equipes coletaram amostras dos animais mortos para analisar se a vacina está diretamente relacionada às mortes e verificar possíveis falhas no processo de fabricação, armazenagem ou aplicação do produto. Os responsáveis pelas investigações devem divulgar os resultados em até 30 dias.

    A Dechra Brasil divulgou nota informando que está colaborando com as investigações e, de forma preventiva, suspendeu a distribuição dos lotes identificados. A empresa reafirmou seu compromisso com a qualidade, eficácia e segurança dos seus produtos, garantindo que as análises detalhadas continuarão até a conclusão do caso.

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    Além do Piauí, foram confirmados relatos de mortes de animais imunizados com os mesmos lotes da vacina em outros estados nordestinos. Incluindo Sergipe, Rio Grande do Norte, Maranhão e Ceará, totalizando mais de 500 animais mortos, segundo informações recentes. A maioria dos produtores afetados são agricultores familiares que dependem economicamente dos rebanhos, o que agrava o impacto socioeconômico da situação.

    O Ministério da Agricultura orienta os produtores e revendedores a interromperem o uso e comercialização das vacinas dos lotes 016/2024 e 018/2024. E também comunicarem quaisquer novos casos suspeitos pelo canal FalaBR. Até o momento, não foram registrados problemas em outros lotes da vacina.

    “Neste momento o Mapa está dedicado e atuando de forma coordenada e integrada com os órgãos estaduais de defesa sanitária para confirmar a causa dos óbitos dos animais e adotar todas as medidas necessárias para proteção da produção pecuária”, destacou o secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart.

    Nota oficial

    Em nota oficial publicada na noite desta quinta-feira, o MAPA fez um histórico com a ordem cronológica das ações do Ministério da Agricultura e Pecuária:

    • Após avaliação do caso, o Mapa, em 13 de agosto de 2025, iniciou o processo de fiscalização, solicitando à empresa relatórios de farmacovigilância do produto suspeito.
    • Em 14 de agosto de 2025, foi realizada fiscalização no laboratório fabricante, em Londrina (PR), com levantamento das notificações do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC), além da verificação do processo de fabricação e do controle de qualidade da vacina.
    • No dia seguinte foi emitida ordem de apreensão cautelar das frações dos lotes 016/2024 e 018/2024 da vacina EXCELL 10 na distribuidora que comercializou unidades da vacina associadas à notificação da ADAPI. De forma complementar, o Mapa solicitou à fabricante o painel de distribuição da vacina em todo o país. Na mesma data, 15 de agosto, a empresa encaminhou comunicado aos distribuidores e lojistas para que fossem interrompidas as vendas dos lotes 016/2024 e 018/2024 da vacina EXCELL 10.
    • Três dias depois, em 18 de agosto, o Mapa iniciou a apreensão dos lotes na distribuidora localizada em Teresina (PI), coletando amostras para análise fiscal em laboratório da rede oficial. Após avaliação dos dados de distribuição, a ordem de apreensão foi estendida a todos os estados em 19 de agosto.
    • Na sequência, em 20 de agosto, a empresa emitiu comunicado oficial de recolhimento dos lotes 016/2024 e 018/2024, direcionado a distribuidores, médicos-veterinários e lojistas.

    Mortes notificadas

    Até o momento, foram notificados ao Mapa os óbitos de 194 ovinos, 4 caprinos e 1 bovino. As ações de fiscalização e investigação seguem em andamento, por meio de inspeções no estabelecimento fabricante/proprietário, e realização de testes em amostras dos lotes da vacina e dos animais que vieram a óbito. A estimativa inicial de conclusão do processo de investigação é de 60 dias.

    O Mapa esclarece que a clostridiose é uma doença fatal causada por toxinas de bactérias do gênero Clostridium spp., apresentando sintomas como inchaço muscular, manqueira, incoordenação motora e, em casos graves, rigidez muscular, tremores, trismo, opistótono (arqueamento do corpo com cabeça para trás) e convulsões.

    A vacinação continua sendo considerada uma estratégia eficaz no combate à clostridiose. O Ministério ressalta, ainda, que o consumo de produtos de origem caprina, ovina e bovina provenientes de animais saudáveis e inspecionados pelo Serviço Veterinário Oficial é seguro.

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