Tag: eventos climáticos extremos

  • El Niño até 2027: por que seus contratos agrícolas podem não estar protegidos

    El Niño até 2027: por que seus contratos agrícolas podem não estar protegidos

    INPE, INMET e CEMADEN já confirmaram o El Niño em 2026. As três instituições projetam que o fenômeno siga ativo pelo menos até o início de 2027. Diante disso, o agronegócio brasileiro entra em um novo ciclo de risco.

    O fenômeno muda o regime de chuvas e eleva as temperaturas. Além disso, ameaça compromissos contratuais: entregas, transporte, fornecimento e capacidade de pagamento entram na mira dos efeitos climáticos.

    Um levantamento recente mostra o tamanho da preocupação. Diversas empresas brasileiras já projetam os impactos do El Niño sobre agronegócio, logística, transporte e seguros. Entre os riscos mapeados estão quebra de safra, aumento da inadimplência e maior sinistralidade.

    Contratos precisam prever riscos climáticos com clareza

    Por isso, a advogada Ana Franco Toledo, sócia do escritório Dosso Toledo Advogados, defende que o momento pede uma nova análise sobre os contratos do setor. “Durante muito tempo, eventos climáticos foram tratados nos contratos como situações excepcionais. Hoje, diante da maior frequência e intensidade desses fenômenos, é preciso avaliar se as cláusulas existentes realmente oferecem proteção para as partes”, afirma.

    Segundo ela, um contrato de fornecimento agrícola precisa prever, de forma clara, o que acontece quando uma quebra de safra ou um evento climático impede o cumprimento de uma obrigação.

    Ainda assim, a especialista alerta: as cláusulas de caso fortuito e força maior ganham relevância, mas não podem virar um atalho automático. “A ocorrência de um evento climático não significa, por si só, que uma empresa ou produtor estará automaticamente isento de suas obrigações. É necessário analisar o contrato, a natureza do evento, a possibilidade de previsão, as consequências concretas e a relação entre o fenômeno e o eventual descumprimento.”

    Impacto atinge toda a cadeia produtiva

    O El Niño não afeta apenas quem produz diretamente no campo. As alterações no regime de chuvas também repercutem sobre transportadoras, armazéns, indústrias processadoras, fornecedores de insumos, instituições financeiras e empresas que dependem de produtos agrícolas.

    As previsões oficiais para o trimestre agosto-setembro-outubro reforçam esse cenário desigual. Enquanto o Sul deve registrar chuvas acima da média, o centro-norte do país tende a enfrentar volumes abaixo do esperado. Além disso, as temperaturas devem ficar acima da média em boa parte do território nacional.

    Para o advogado Ricardo Dosso, também sócio do escritório, esse contexto transforma a gestão contratual em uma ferramenta de proteção empresarial. “Quando uma propriedade ou uma indústria depende de uma cadeia de fornecimento, um problema climático em um determinado ponto pode produzir efeitos em toda a operação. Por isso, as empresas precisam olhar seus contratos de forma integrada, avaliando prazos de entrega, volumes, preços, garantias, seguros e mecanismos para situações extraordinárias.”

    Ele chama atenção especial para os contratos de longo prazo. “Uma empresa que assina hoje um contrato de fornecimento para os próximos meses precisa considerar que estará atravessando um período de maior incerteza climática. Não significa deixar de fazer negócios, mas estabelecer regras claras para situações em que as condições originalmente previstas sejam profundamente alteradas.”

    Seguro rural não substitui o planejamento jurídico

    O seguro rural também merece atenção redobrada. Neste ano, a necessidade de proteção financeira diante dos riscos climáticos ganhou ainda mais peso.

    Contudo, segundo Ana Franco Toledo, contratar uma apólice não substitui o planejamento jurídico. “Seguro e contrato são instrumentos complementares. O produtor precisa entender exatamente quais riscos estão cobertos pela apólice e, ao mesmo tempo, verificar quais são suas responsabilidades perante compradores, fornecedores e parceiros comerciais. Uma coisa não substitui a outra.”

    Por isso, Ricardo Dosso reforça a importância da documentação em eventuais disputas. Laudos, registros meteorológicos, documentos da produção e comunicações entre as partes precisam ser preservados desde já, já que será fundamental comprovar o que aconteceu e como o evento climático afetou o cumprimento da obrigação.

    Prevenção pode evitar disputas milionárias

    Diante de um El Niño potencialmente forte, os especialistas defendem uma mudança de postura no setor. O planejamento jurídico deve acontecer antes do problema, não depois que a safra já tiver sido perdida.

    “O melhor momento para discutir como uma empresa ou produtor vai lidar com um evento climático é antes que ele aconteça. Depois do prejuízo, as alternativas são muito mais limitadas. A revisão preventiva dos contratos permite estabelecer responsabilidades e procedimentos de forma clara”, afirma Ana.

    Além disso, Ricardo Dosso destaca que a prevenção também protege a relação comercial entre as partes. “Um contrato bem estruturado não serve apenas para proteger uma empresa em uma eventual disputa. Ele também oferece previsibilidade para que as partes saibam como agir diante de uma situação extraordinária. Em um agronegócio cada vez mais profissionalizado, administrar riscos climáticos também é administrar riscos jurídicos e financeiros.”

    Com o El Niño já confirmado e a possibilidade de persistir até 2027, os especialistas recomendam agir agora. Produtores rurais e empresas do agronegócio devem aproveitar o período que antecede os principais ciclos produtivos para revisar contratos, conferir coberturas de seguro, organizar documentos e estabelecer, com antecedência, mecanismos para situações de força maior e desequilíbrio econômico.

  • Agricultores recebem R$ 2,45 bi do BNDES após perdas climáticas

    Agricultores recebem R$ 2,45 bi do BNDES após perdas climáticas

    O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 2,45 bilhões em crédito para produtores rurais que perderam safras devido a eventos climáticos extremos. O banco liberou os recursos em apenas um mês de operação do programa BNDES Liquidação de Dívidas Rurais, que começou a aceitar protocolos no dia 16 de outubro.

    Os agricultores familiares e médios produtores receberam R$ 1,5 bilhão do total, o que representa 61% dos recursos aprovados até agora. O programa já atendeu 485 municípios distribuidos em 16 estados brasileiros, com cerca de 8,3 mil operações aprovadas. O valor médio por operação chega a R$ 296 mil.

    Governo prioriza segurança alimentar e desenvolvimento econômico

    “O presidente Lula determinou o lançamento deste programa para assegurar um caminho responsável aos agricultores afetados por eventos climáticos extremos”, afirma Aloizio Mercadante, presidente do BNDES. “Estamos garantindo fôlego financeiro e fortalecendo quem sustenta a produção de alimentos do país e um setor que é um dos principais motores do desenvolvimento econômico.”

    O governo federal destinou R$ 12 bilhões ao programa, que oferece prazo de até nove anos para pagamento, com um ano de carência. Os produtores podem usar os recursos para liquidar operações de crédito rural de custeio e investimento. Além de Cédulas de Produto Rural (CPR) contratadas até 30 de junho de 2024.

    Quem pode acessar o programa

    Produtores rurais, associações, condomínios rurais e cooperativas agrícolas podem contratar o programa por meio da rede de instituições financeiras parceiras credenciadas ao BNDES. No entanto, alguns critérios devem ser atendidos.

    Os interessados precisam estar localizados em municípios que tiveram declarações de estado de calamidade pública ou situação de emergência entre 2020 e 2024, reconhecidas pelo Governo Federal em decorrência de eventos climáticos adversos. Esses municípios também devem ter registrado perdas superiores a 20% em duas de suas principais atividades agrícolas no período.

    Além disso, os produtores devem comprovar perdas acima de 30% em duas ou mais safras entre 2020 e 2025.

    Prioridade para pequenos e médios produtores

    O programa reserva pelo menos 40% dos recursos para beneficiários do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) e do Programa Nacional de Apoio aos Médios Produtores (Pronamp). Esses segmentos são considerados mais vulneráveis aos efeitos das perdas de safra.

    Os 60% restantes atendem a liquidação de dívidas rurais de outros programas agrícolas federais, como Moderfrota, Inovagro, Moderagro e Prodecoop, entre outros.

  • Mudanças climáticas elevam risco de tornados no Brasil

    Mudanças climáticas elevam risco de tornados no Brasil

    O tornado que destruiu 90% da cidade de Rio Bonito do Iguaçu (PR) acendeu um alerta sobre os efeitos das mudanças climáticas. O fenômeno, considerado extremo, deve servir como sinal de urgência para as autoridades que participam da Conferência da ONU sobre o Clima (COP30), em Belém (PA).

    Tornados e condições climáticas

    O secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, afirmou que o episódio revela o agravamento das condições climáticas no país e no mundo. Segundo ele, os últimos dez anos foram os mais quentes da história. “O que aconteceu no Paraná é grave e se repete em várias regiões do Brasil e do mundo”, destacou Astrini. “Esses eventos deveriam entrar no debate da COP, mas muitas vezes as discussões ficam distantes da realidade.”

    O especialista espera que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencione o desastre durante a abertura oficial da conferência, na segunda-feira (10). Para Astrini, a fala de Lula pode ajudar a sensibilizar líderes globais sobre a urgência de ações concretas. “O Brasil é vulnerável. Nossa agricultura e nossa matriz energética dependem da regularidade climática. Esperamos que essa realidade influencie as decisões da COP”, afirmou.

    A oceanógrafa Renata Nagai, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) com apoio do Instituto Serrapilheira, explica que as mudanças climáticas não causam diretamente os tornados, mas podem torná-los mais frequentes e intensos. “O aumento da queima de combustíveis fósseis eleva os gases de efeito estufa e aquece a atmosfera e os oceanos”, explicou Nagai. “Com mais calor e umidade, cresce a energia disponível para eventos meteorológicos extremos.”

    Entenda o fenômeno

    A pesquisadora lembra que os tornados são colunas de ar em rotação, formadas em tempestades intensas. Apesar de atingirem áreas pequenas, causam grandes destruições quando tocam o solo. A combinação de ar quente e alta umidade favorece o fenômeno.

    O professor Michel Mahiques, também da USP, reforça que o aquecimento global intensifica as diferenças de temperatura e pressão atmosférica, o que amplia o risco de fenômenos extremos. “Essas variações se acentuam com o avanço das mudanças climáticas, aumentando a probabilidade de tornados e tempestades severas”, explicou.

    O tornado no Paraná, segundo especialistas, é mais um exemplo do impacto direto das mudanças climáticas no cotidiano. O episódio reforça a necessidade de ações urgentes e coordenadas para conter o aquecimento global e proteger populações vulneráveis.

  • CMN limita crédito emergencial a produtores do RS

    CMN limita crédito emergencial a produtores do RS

    O Conselho Monetário Nacional (CMN) decidiu restringir o acesso à linha especial de crédito de R$ 12 bilhões aos produtores rurais do Rio Grande do Sul. A medida foi aprovada em reunião extraordinária na quinta-feira (9) e divulgada nesta sexta-feira (10).

    A criação do programa ocorreu há dez dias para apoiar produtores afetados por eventos climáticos extremos. Porém, com a nova decisão, apenas agricultores e pecuaristas de municípios gaúchos em situação de emergência ou calamidade pública, declarada por pelo menos três anos entre 2020 e 2024, poderão acessar o crédito com recursos do Tesouro.

    Produtores de outros estados ainda poderão recorrer à linha com recursos livres das instituições financeiras, prevista na Medida Provisória 1.314/2025. Essa MP criou duas modalidades de crédito especiais para renegociação de dívidas de crédito rural e de Cédulas de Produto Rural (CPR).

    Condições especiais de renegociação

    As linhas oferecem condições diferenciadas para renegociar, amortizar ou quitar dívidas. Elas beneficiam produtores de todos os portes, cooperativas e associações. O CMN já havia regulamentado a medida provisória no fim de setembro.

    Segundo o Ministério da Fazenda, o Rio Grande do Sul tem sido o estado mais afetado por desastres climáticos recorrentes nos últimos anos. “O estado tem enfrentado eventos extremos com frequência, o que justifica medidas específicas de apoio à recuperação financeira e produtiva”, informou a pasta em nota.

    Municípios elegíveis

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) definiu a metodologia para calcular as perdas agrícolas por município e divulgou a lista de cidades aptas a participar do programa. Ao todo, 1.363 municípios brasileiros estão habilitados, sendo 403 no Rio Grande do Sul, o equivalente a 29,5% do total.
    O volume de R$ 12 bilhões com crédito extraordinário será mantido integralmente no Orçamento, assim como as taxas de juros, os limites de crédito e os prazos de reembolso.

    Composição do CMN

    O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, preside o CMN e também conta com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet.

     

  • Estudo revela como mudanças climáticas causaram tragédias no Brasil

    Estudo revela como mudanças climáticas causaram tragédias no Brasil

    O ano de 2023 entrou para a história brasileira pelos piores motivos: registrou a maior chuva em 24 horas já documentada no país, uma seca amazônica sem precedentes e uma sequência devastadora de ciclones no Rio Grande do Sul. O saldo trágico ultrapassou 120 vítimas fatais e alertou a população sobre uma realidade inescapável: as mudanças climáticas chegaram ao Brasil.

    Um estudo publicado nos Anais da Academia de Ciências de Nova York, conduzido por 19 pesquisadores brasileiros, finalmente esclarece os mecanismos atmosféricos por trás dessa onda de desastres. A pesquisa, liderada pela professora Luana Pampuch, da Unesp de São José dos Campos, revela como o El Niño, combinado ao aquecimento global, criou condições perfeitas para uma tempestade catastrófica de eventos extremos.

    Litoral paulista: a maior chuva da história

    Na madrugada de 18 para 19 de fevereiro de 2023, o litoral norte de São Paulo viveu seu pior pesadelo climático. Em apenas 24 horas, Bertioga registrou 682,8 mm de precipitação – um recorde nacional absoluto. O resultado: 65 mortos e 338 pessoas desabrigadas.

    O fenômeno começou quando uma massa de ar frio do Oceano Atlântico colidiu com o ar quente sobre o litoral. Esse encontro, comum na região, tornou-se catastrófico devido a condições anormais: as águas do Atlântico estavam entre 1°C e 2°C mais quentes que o usual, criando mais vapor d’água para alimentar as tempestades.

    “O ar quente, ao ser empurrado para cima pela frente fria, esfria e perde capacidade de reter umidade. Com oceanos mais quentes, há mais vapor disponível, resultando em chuvas extremamente volumosas”, explica o estudo.

    A Serra do Mar intensificou ainda mais o desastre. Seu relevo íngreme força o ar úmido a subir rapidamente, provocando as chamadas chuvas orográficas. Somado ao aquecimento oceânico – 0,9°C acima da média pré-industrial devido aos gases de efeito estufa – o cenário tornou-se explosivo.

    Rios voadores alimentaram a tragédia

    Outro fator crucial foram os “rios voadores”, tecnicamente conhecidos como jatos de baixos níveis sul-americanos. Esses fluxos atmosféricos transportam umidade da Amazônia para o sul do Brasil, mas são bloqueados pela Cordilheira dos Andes e redirecionados, intensificando precipitações em regiões específicas.

    “Não fizemos análises de atribuição específicas neste artigo, mas o aumento na frequência e intensidade de eventos climáticos extremos é compatível com um planeta em aquecimento”, afirma Camila Carpenedo, líder do Núcleo de Estudos sobre Variabilidade e Mudanças Climáticas da UFPR.

    Amazônia: quando os rios secaram

    Enquanto o Sudeste afogava em chuvas, a Amazônia sufocava na seca. Em 2023, o rio Amazonas despencou de 15,80 metros para apenas 12,70 metros em Manaus – mínima histórica que paralisou o transporte fluvial e devastou comunidades ribeirinhas.

    Foto: Divulgação Portal.Gov

    O culpado principal foi o El Niño, fenômeno climático cíclico registrado desde 1578. Durante episódios de El Niño, os ventos alísios enfraquecem, impedindo que águas quentes do Pacífico se desloquem para oeste. Isso altera drasticamente os padrões de circulação atmosférica global.

    Como funciona a Célula de Walker

    Em condições normais, as águas quentes do Pacífico concentram-se próximo à Ásia, criando uma zona de baixa pressão com muitas nuvens e chuvas sobre a Amazônia. Durante o El Niño, essas águas quentes permanecem próximas à costa das Américas, deslocando a zona chuvosa e deixando a região amazônica sob alta pressão atmosférica – sinônimo de céu limpo e seca prolongada.

    “Atmosfera e oceano estão conectados. Há um acoplamento entre as duas coisas”, destaca Luana Pampuch.

    O aquecimento global amplifica esse processo. Quanto mais quente a Terra, mais intensas são as variações provocadas pelo El Niño, gerando estiagens mais severas onde já se espera seca e chuvas mais violentas onde já chove naturalmente.

    A reversão climática provocada pelo El Niño também gerou uma zona de alta pressão sobre o Centro-Oeste brasileiro, resultando na temperatura mais alta já registrada no país: 44,8°C em Araçuaí (MG), em 19 de novembro de 2023.

    Rio Grande do Sul: quatro ciclones devastadores

    Entre junho e outubro de 2023, o Rio Grande do Sul enfrentou quatro ciclones extratropicais notáveis, deixando um rastro de destruição que prenunciava a megaenchente de 2024.

    O primeiro, em junho, foi o mais letal: despejou 80% da precipitação mensal esperada em poucas horas, matou 16 pessoas e desabrigou 10 mil. Em setembro, outro ciclone atingiu 106 cidades, especialmente o Vale do Taquari, fazendo 54 vítimas fatais e afetando 359 mil pessoas.

    Foto: Divulgação Agência Brasil – Rafa Neddermeyer

    A localização geográfica do Rio Grande do Sul o coloca próximo à frente polar – a fronteira turbulenta entre o ar gelado da Antártida e o ar quente dos trópicos. Essa zona, localizada entre os paralelos 30° e 60°, é berço natural de ciclones extratropicais.

    Diferente dos furacões tropicais, esses ciclones formam-se quando massas de ar frio e quente colidem, criando áreas de baixa pressão que funcionam como um “ralo” atmosférico, sugando ar ao redor e gerando redemoinhos gigantes de nuvens.

    “O espaço de tempo entre um ciclone e outro vai ser maior com o aquecimento global, então a atmosfera acumula mais energia. Além disso, ar mais quente armazena mais vapor de água, resultando em chuvas mais intensas”, explica Luiz Felippe Gozzo, professor de Meteorologia da Unesp Bauru.

    O futuro é preocupante

    As projeções científicas são alarmantes. Caso o planeta atinja 2°C acima dos níveis pré-industriais até 2100, trajetória provável nas políticas atuais, todos os fenômenos de 2023 se intensificarão.

    Os números projetados impressionam:

    • Chuvas fortes: 1,7 vezes mais frequentes e 14% mais intensas
    • Estiagens: 2,4 vezes mais comuns
    • Ciclones: menos frequentes, porém significativamente mais intensos

    “A América do Sul deve enfrentar eventos extremos mais intensos e contrastantes, com chuvas mais fortes em algumas regiões e secas mais longas em outras, impactando agricultura, recursos hídricos, biodiversidade e aumentando a vulnerabilidade social”, alertam Gozzo e Pampuch.

    Vale lembrar: 2024 já ultrapassou pontualmente a marca de 1,5°C de aquecimento (1,55°C), demonstrando que o futuro previsto pelos cientistas está se tornando presente mais rápido do que esperado.

    Entendendo as emissões: de 1850 a hoje

    O ponto de referência para medir o aquecimento global é o período entre 1850 e 1900, quando já havia industrialização, mas em escala insuficiente para afetar o clima perceptivelmente. Nessa época, a humanidade havia emitido apenas 12 gigatoneladas de carbono desde a Revolução Industrial.

    Entre 1901 e 2013, porém, as emissões dispararam para 380 gigatoneladas – mais de 30 vezes o total anterior. O resultado: a maior parte do aquecimento global aconteceu no século 20 e continua acelerando no século 21.

    A complexidade da atribuição climática

    Determinar a parcela exata de responsabilidade do aquecimento global em cada evento extremo é um desafio científico complexo. Fenômenos atmosféricos funcionam como dominós: uma pequena alteração em um parâmetro pode desencadear reações catastróficas em cadeia.

    “Nem todo evento extremo ocorre por causa do aquecimento global”, reconhecem os pesquisadores. Mas o padrão é inegável: os eventos estão ficando mais frequentes, mais intensos e mais imprevisíveis.

    Enquanto meteorologistas trabalham para decifrar esse quebra-cabeça climático, a responsabilidade pela prevenção recai sobre governos, empresas e sociedade. Infelizmente, as medidas tomadas até agora ainda estão muito aquém do necessário para evitar tragédias ainda piores nas próximas décadas.

    Com informações do Jornal da Unesp – Bruno Vaiano

  • Governo cria grupo para discutir dívidas de produtores rurais do RS 

    Governo cria grupo para discutir dívidas de produtores rurais do RS 

    O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) oficializou nesta semana por meio da Portaria nº 812 publicada no Diário Oficial da União, a criação de um Grupo de Trabalho Interinstitucional voltado ao endividamento dos produtores rurais do Rio Grande do Sul. A iniciativa busca reunir informações e elaborar propostas para enfrentar os impactos econômicos provocados por eventos climáticos extremos no estado.

    O grupo será presidido pelo ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro. E terá como secretaria-executiva a Secretaria de Política Agrícola (SPA/Mapa), responsável por oferecer o suporte técnico e administrativo às atividades.

    Com composição ampla, o comitê inclui representantes do próprio Mapa, da Casa Civil, dos Ministérios do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e da Fazenda. Além do Banco Central do Brasil, BNDES e Banco do Brasil. Também participam parlamentares das Comissões de Agricultura do Senado e da Câmara, representantes do governo do Rio Grande do Sul, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), das federações Farsul e Fetag-RS e da Famurs.

    De acordo com o texto publicado, o grupo se reunirá ordinariamente a cada quinze dias. E poderá ser convocado extraordinariamente pelo presidente ou por 80% dos seus integrantes. O prazo para conclusão dos trabalhos é de 120 dias, contados após a designação oficial dos membros.

    A medida integra o pacote de ações anunciado em abril por Carlos Fávaro em conjunto com a Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR), da Câmara dos Deputados. Como parte desse esforço, o Conselho Monetário Nacional (CMN) já havia autorizado, no fim de maio, a prorrogação por até três anos das dívidas bancárias de produtores gaúchos prejudicados pela forte estiagem que atingiu diversos municípios no início de 2025.

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