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  • Mapeamento inédito revela geografia do cacau na Amazônia

    Mapeamento inédito revela geografia do cacau na Amazônia

    Um novo estudo técnico mapeou 121 mil hectares de cacau plantados nos estados do Pará e Rondônia. E traçou pela primeira vez um retrato detalhado da produção cacaueira na Amazônia brasileira. O levantamento multitemporal combina sensoriamento remoto, imagens de radar, inteligência computacional e auditoria em campo para qualificar a expansão da cultura sob a ótica da sustentabilidade, da restauração ambiental e da rastreabilidade exigida pelos mercados internacionais.

    Cacau em área de sistemas agroflorestais (SAF). Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa

    A equipe responsável atualizou os dados do Pará para 2024, já que o último levantamento datava de 2022. Em Rondônia, o estudo estabeleceu a primeira linha de base territorial da cacauicultura estadual. Pesquisadores cruzaram as informações geográficas do cacau com as bases do TerraClass e do Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). E concluíram que o avanço do cacaueiro não derruba floresta nativa: ele ocupa principalmente pastagens e vegetação secundária já alteradas no passado.

    Pesquisadores apresentam resultados na ExpoCacau 2026

    A equipe apresentará os resultados completos em 26 de agosto, durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus (BA). O evento reúne mais de 6 mil participantes e cerca de 60 expositores entre produtores, técnicos, especialistas, empresas e organizações da cadeia do cacau.

    Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental (PA) e autor principal do trabalho, defende que a cacauicultura ocupa papel estratégico na Amazônia contemporânea. Segundo ele, a cultura gera renda para milhares de famílias rurais e recupera solos alterados, devolvendo produtividade a paisagens antes ocupadas por pastagens degradadas.

    Norte concentra metade da produção nacional de cacau

    Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a região Norte responde por 50% de toda a safra nacional de cacau, com produção regional de aproximadamente 148 mil toneladas em um total de 297 mil toneladas colhidas no país. O Pará lidera a produção nacional com cerca de 137,5 mil toneladas de amêndoas secas, volume que representa 46% do cacau brasileiro e 92% do total produzido na região Norte.

    Rondônia ocupa a segunda posição na região Norte e a quarta no país, com colheita estimada em 8,6 mil toneladas de amêndoas. Embora cultive uma área menor que o Pará, o estado se destaca pela eficiência técnica. Sua produtividade média supera 1.250 kg por hectare, uma das maiores do Brasil.

    Metodologia combina satélites, radar e validação em campo

    Mapear cacaueiros em meio à densa vegetação amazônica representa um desafio para a ciência geoespacial, já que as copas das plantas, especialmente em sistemas sombreados, apresentam semelhança espectral com florestas nativas ou vegetações secundárias.

    infográfico

    Para superar essa barreira, a equipe técnica estruturou uma metodologia híbrida de alta precisão, combinando imagens e dados de múltiplos satélites. Imagens com resolução de 50 centímetros permitiram identificar detalhes de meio metro no terreno, diferenciando o cacau cultivado a pleno sol daquele integrado em Sistemas Agroflorestais (SAFs).

    Para confirmar as informações extraídas das imagens, os pesquisadores realizaram expedições de campo em dez municípios das regiões da Transamazônica e Nordeste Paraense, além de municípios de Rondônia. Venturieri explica que a integração entre imagens de radar, satélites de alta resolução e validação em solo gerou informações georreferenciadas de elevada acurácia.

    Pará registra salto de 33% na área plantada

    O mapeamento de 2024 identificou 116.436 hectares cultivados com cacau no Pará, distribuídos em 61 municípios. Em comparação com a linha de base de 2022, que somava 87.309 hectares, a área cultivada cresceu 33,26%, um incremento líquido de 29.128 hectares em apenas dois anos.

    O estudo, no entanto, alerta para a composição tecnológica desse crescimento. Do total expandido entre 2022 e 2024, os produtores implantaram 63% (18.350 hectares) em sistemas de monocultivo a pleno sol. E apenas 37% (10.777 hectares) em Sistemas Agroflorestais, que consorciam o cacaueiro com espécies florestais e frutíferas.

    Venturieri pondera que ambos os sistemas fortalecem a economia rural, mas a maior expansão do cultivo a pleno sol indica que os produtores têm respondido a estímulos econômicos de curto prazo. Para o pesquisador, esse cenário reforça a necessidade de ampliar incentivos públicos para os Sistemas Agroflorestais, que garantem maior diversificação e serviços ecossistêmicos.

    A agricultura familiar sustenta a cacauicultura paraense. O mapeamento identificou 31.843 áreas produtivas, das quais 84,65% têm até 5 hectares e 74,55% não ultrapassam 50 hectares. Medicilândia lidera a produção municipal com 35.203 hectares, seguida por Uruará (17.024 hectares), Brasil Novo (10.162 hectares) e Altamira (7.301 hectares), todos no eixo da Transamazônica e Oeste do Pará. Tomé-Açu, com 6.981 hectares, se consolida como polo de referência em Sistemas Agroflorestais no nordeste paraense.

    Rondônia surge com vocação natural para agrofloresta

    Rondônia passa a contar, pela primeira vez, com um mapeamento territorial completo de sua cacauicultura. O estudo estabeleceu a linha de base estadual em 5.340 hectares cultivados em 51 municípios.

    Diferentemente do Pará, Rondônia concentra sua produção em Sistemas Agroflorestais. Nas áreas antropizadas mapeadas com cacau no estado,  que somam 5.339,83 hectares, os produtores cultivam 62% (3.310 hectares) em SAFs e 38% (2.029 hectares) a pleno sol.

    Foto: Adriano Venturieri/Embrapa

    A cacauicultura rondoniense também se apoia fortemente na agricultura familiar: o levantamento identificou 38.108 áreas produtivas, e 75% delas ocupam até 5 hectares. Jaru lidera a produção estadual com 832,13 hectares, seguido por Porto Velho (352,87 hectares), Theobroma (305,43 hectares), Ouro Preto do Oeste (297,41 hectares) e Mirante da Serra (260,28 hectares). Juntos, 11 municípios respondem por 62,6% da área cultivada no estado.

    Para Venturieri, Rondônia trilha uma trajetória singular e promissora. O mapeamento mostra que sistemas agroflorestais sob gestão da agricultura familiar sustentam mais de 60% da cacauicultura estadual. O pesquisador considera esse cenário um ativo estratégico para estruturar uma cadeia produtiva orientada por padrões socioambientais desde sua origem.

    Dados reforçam conformidade com regras ambientais internacionais

    Bases de monitoramento ambiental mostram que 96% das áreas cultivadas no Pará e 98% em Rondônia ocupam locais desflorestados antes de 2020. Venturieri destaca que essa informação ganha relevância diante da legislação da União Europeia, já que o cacau é uma commodity sujeita a controles rígidos de origem.

    O Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) proíbe a importação de commodities provenientes de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. O mapeamento identificou que produtores implantaram apenas 3,9% do cacau antropizado no Pará e 2% em Rondônia em áreas desmatadas após 2021, dados que permitem aos exportadores gerenciar riscos e comprovar conformidade socioambiental.

    O levantamento ainda identificou 11.444 hectares no Pará e 148,78 hectares em Rondônia de cacau cultivado sob cobertura de florestas nativas, aproveitadas como sombreamento natural.

    Foto: Adriano Venturieri/Embrapa

    Venturieri conclui que a expansão do cacau na Amazônia não impulsiona novo desmatamento. Ela representa, segundo ele, uma solução concreta para reabilitar terras alteradas e gerar renda. O pesquisador define o mapeamento como instrumento indispensável de rastreabilidade para atender tanto à legislação brasileira quanto às exigências do mercado internacional. Para a Amazônia, ele defende que o desafio estratégico não está apenas em ampliar a área cultivada. Mas em garantir que essa expansão ocorra com qualidade territorial, sustentabilidade e competitividade.

    Vitor Stella, do CocoaAction Brasil, reforça que entender a dinâmica de expansão da cacauicultura na Amazônia ajuda a antecipar o futuro da cadeia produtiva. Segundo ele, conhecer para onde a cultura avança, em quais sistemas produtivos e sob quais condições permite identificar gargalos, orientar políticas públicas e direcionar investimentos e assistência técnica para onde são mais necessários. Stella destaca que o objetivo final é fazer a expansão do cacau acontecer de forma sustentável, com mais produtividade, conservação e geração de renda para o produtor rural.

  • Estudo propõe protocolo nacional único para soja e carne bovina

    Estudo propõe protocolo nacional único para soja e carne bovina

    Um estudo do WRI Brasil propõe a criação de um protocolo unificado para as cadeias brasileiras de soja e carne bovina. A iniciativa pretende integrar ferramentas já existentes de monitoramento e rastreabilidade para facilitar o comércio internacional, especialmente com a China, sem estabelecer novas exigências para os produtores.

    Segundo o instituto, o Brasil já dispõe de instrumentos capazes de monitorar o desmatamento e acompanhar a origem da produção agropecuária. No entanto, esses sistemas funcionam de forma isolada e adotam critérios diferentes, o que dificulta sua compreensão por compradores e investidores internacionais.

    Estudo aponta diferenças entre protocolos existentes

    A pesquisa analisou 21 iniciativas, entre protocolos, certificações, acordos voluntários, plataformas públicas e sistemas de rastreabilidade utilizados nas cadeias de soja e carne bovina.

    O levantamento identificou divergências em aspectos como:

    • datas de corte para desmatamento;
    • critérios de avaliação;
    • monitoramento de fornecedores indiretos;
    • auditorias e processos de verificação.

    De acordo com o WRI Brasil, essas diferenças reduzem a credibilidade dos sistemas brasileiros e tornam mais difícil para importadores identificar quais padrões devem ser seguidos.

    Objetivo é integrar regras já existentes

    O estudo reforça que a proposta não cria novas normas para o setor.

    A recomendação é harmonizar os critérios técnicos atualmente utilizados, integrar bases de dados e simplificar os processos de auditoria, criando um referencial único para as cadeias produtivas.

    Na avaliação do instituto, essa integração pode fortalecer a rastreabilidade, reduzir riscos reputacionais e aproximar os sistemas brasileiros das exigências internacionais, incluindo as previstas no Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR).

    China é apontada como parceira estratégica

    O relatório destaca que a China permanece como o principal destino das commodities agropecuárias brasileiras.

    Para os pesquisadores, Brasil e China têm condições de liderar a construção de um padrão internacional voltado para cadeias produtivas livres de desmatamento.

    O documento, intitulado Tracing Responsibility: Strengthening Deforestation Monitoring in Brazil’s Soy and Beef Supply Chains, foi desenvolvido pelo WRI Brasil com apoio da BV Rio, Amigos da Terra, Principles for Responsible Investment (PRI), WRI China e Proforest.

    Recomendações

    No setor pecuário, o estudo recomenda acelerar o monitoramento dos fornecedores indiretos, sem aguardar a implementação completa da identificação individual obrigatória dos animais.

    Além disso, a proposta prevê a migração gradual para sistemas individuais de rastreabilidade, ampliando a transparência da cadeia produtiva.

    Para a cadeia da soja, o estudo recomenda fortalecer a rastreabilidade desde a fazenda de origem. Entre as medidas sugeridas estão a integração de tradings, cooperativas e plataformas estaduais, além da conexão de informações fiscais para tornar os registros mais confiáveis.

  • União Europeia deve adiar novamente aplicação da lei antidesmatamento

    União Europeia deve adiar novamente aplicação da lei antidesmatamento

    A União Europeia deve adiar mais uma vez a lei antidesmatamento, conhecida como EUDR. A Comissão Europeia, braço executivo do bloco, alegou que o sistema de tecnologia da informação não ficará pronto a tempo. Esse sistema vai processar os documentos de due diligence das commodities importadas. O prazo  era 30 de dezembro.

    A comissária de Meio Ambiente, Jessika Roswall, pediu a prorrogação por mais um ano em carta enviada ao Parlamento Europeu. O documento foi encaminhado a Antonio Decaro, presidente da Comissão do Ambiente, do Clima e da Segurança Alimentar. O site Euractiv divulgou a carta, e Roswall confirmou a informação a jornalistas em seguida.

    A EUDR proíbe a entrada de seis commodities no bloco europeu: soja, carne bovina, madeira, café, cacau e borracha. Os derivados desses produtos também entram na regra. Todos precisam comprovar origem sem ligação com desmatamento após 2020. Os importadores devem apresentar documentos de due diligence para confirmar conformidade com a lei.

    A União Europeia aprovou a EUDR em 2023, prevendo início da aplicação em dezembro de 2024.
    No ano passado, exportadores e importadores já tinham pressionado por adiamento. Eles alegaram falta de sistemas de rastreabilidade adequados. Na ocasião, o bloco atendeu ao pedido e adiou a aplicação por um ano.

    Agora, a comissária afirmou que o sistema atual não suporta o volume de dados esperado.
    Segundo Roswall, a estrutura pode gerar lentidão em “níveis inaceitáveis” e causar “disrupções” no cumprimento da lei.

     

  • União Europeia vota hoje possível adiamento da lei antidesmatamento

    União Europeia vota hoje possível adiamento da lei antidesmatamento

    O Parlamento Europeu vota nesta quinta-feira (14) o adiamento da lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR). Em resumo, a proposta sugere postergar a entrada em vigor, inicialmente prevista para 30 de dezembro de 2024, por um ano. Em outubro, o Conselho Europeu recomendou a mudança após pressões de países exportadores e membros do bloco econômico.

    A EUDR proíbe a importação de produtos de sete cadeias agropecuárias oriundos de áreas desmatadas, legal ou ilegalmente, desde 2021. Ou seja, pela nova proposta, grandes e médios empresários seguiriam as regras a partir do fim de 2025. Já pequenos empresários teriam até meados de 2026.

    Mudanças preocupam exportadores

    O adiamento, esperado como um alívio, gerou preocupação. Pelo menos 15 emendas foram apresentadas ao texto, incluindo uma que pode impactar exportadores brasileiros. Entre os produtos afetados estão soja, café, carne bovina, cacau, óleo de palma, borracha natural e madeira.

    Além disso, uma das emendas, proposta pela deputada alemã Christine Schneider, sugere uma nova categoria para países ou regiões “sem risco” de desmatamento. Portanto, para se qualificar, a região precisa demonstrar crescimento das florestas desde 1990, ser signatária do Acordo de Paris e ter regras florestais transparentes e rigorosas.

    Diplomatas brasileiros e europeus temem que a mudança discrimine o Brasil. “Isso criaria uma vantagem competitiva para outros países com menor fiscalização”, explicou um analista europeu.

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    Debate político

    O atual Parlamento Europeu, menos inclinado a políticas ambientais rigorosas, deve analisar as emendas com urgência. No entanto, uma mudança significativa na lei é improvável, segundo fontes em Bruxelas.

    As emendas incluem ainda a responsabilidade única do importador europeu por comprovar que o produto não envolve desmatamento. Além disso, Schneider defende que a medida simplificaria processos e reduziria custos administrativos.

    Próximos passos

    Apesar da votação, a decisão final caberá ao trílogo, que reúne representantes do Parlamento, do Conselho da União Europeia e da Comissão Europeia. O Comitê de Ambiente (Envi) já emitiu parecer sobre a proposta.

    A sessão começa às 9h, horário local, e será acompanhada de perto por diplomatas e representantes do agronegócio brasileiro.