Tag: estudos

  • Como aplicar Baculovírus corretamente para controlar lagartas na soja, milho e algodão

    Como aplicar Baculovírus corretamente para controlar lagartas na soja, milho e algodão

    O Baculovírus controla lagartas por ingestão: ao consumir folhas tratadas, o inseto ingere o vírus, que se multiplica no seu interior e provoca a morte. O processo é seletivo, ou seja, não afeta outros organismos nem humanos. O que consolida o agente biológico como ferramenta estratégica no Manejo Integrado de Pragas (MIP).

    Tegumento da lagarta. Foto: Divulgação

    O pesquisador da Embrapa Dr. Fernando Valicente, pioneiro nos estudos do Baculovírus no Brasil, apresentou orientações técnicas detalhadas durante encontro virtual com produtores promovido pela Promip, empresa brasileira especializada em controle biológico de pragas.

    Protocolo de aplicação

    Para garantir eficiência, o produtor deve seguir critérios técnicos específicos. A recomendação é usar bico leque e atingir volume de calda entre 100 e 120 litros por hectare. Volumes menores funcionam, desde que a cobertura das plantas seja adequada.

    Outros pontos críticos incluem: o uso de espalhante adesivo para melhorar a aderência do produto às folhas, ajuste do pH da calda entre 5 e 7, e aplicação a partir das 16h, horário em que as lagartas iniciam a alimentação. O momento ideal de aplicação fica entre seis e dez dias após a germinação da cultura.

    Como a ciência avalia a eficiência

    A metodologia científica para avaliar o Baculovírus começa com a coleta de lagartas em campo, em diferentes estágios de desenvolvimento. Os insetos vão para laboratório, em ambiente controlado, onde pesquisadores os monitoram por no mínimo sete dias após a aplicação. Esse período permite observar os efeitos do vírus em lagartas recém-nascidas, pequenas e em estágios avançados.

    “A avaliação correta da eficiência exige o cumprimento de todas as etapas de verificação. Só assim é possível confirmar o nível de controle obtido e ajustar as estratégias de manejo”, afirmou Valicente.

    Quatro décadas de pesquisa brasileira

    Os estudos com Baculovírus na Embrapa começaram nos anos 1980, com foco na lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), uma das principais pragas do milho no Brasil. O trabalho de Valicente foi decisivo para transformar uma solução experimental em ferramenta comercial viável.

    A parceria entre a Embrapa e empresas privadas resultou em formulações em pó molhável, com maior vida útil e flexibilidade de uso. Entre os materiais disponíveis, destacam-se o isolado 19 e o isolado 6, com comportamentos distintos após a infecção.

    Diferença entre isolados

    O isolado 19 rompe o tegumento da lagarta, sua camada externa, logo após a infecção, liberando grande quantidade de partículas virais no ambiente e favorecendo a disseminação natural do vírus na lavoura. O isolado 6 também age sobre o tegumento, mas de forma mais lenta: a ruptura ocorre entre oito e dez dias após a infecção.

    Marcelo Poletti, CEO da Promip/Dr. Fernando Valicente, pesquisador da Embrapa. Foto: Divulgação

    Para Marcelo Poletti, CEO da Promip, a iniciativa reforça o compromisso de levar informação técnica qualificada ao campo. “O Baculovírus é uma ferramenta extremamente eficiente, mas, como toda solução biológica, exige conhecimento e precisão na aplicação para alcançar o máximo desempenho”, disse.

  • Microplásticos em resíduos orgânicos: o que está acontecendo?

    Microplásticos em resíduos orgânicos: o que está acontecendo?

    Um estudo realizado por cientistas da Nova Zelândia revelou uma descoberta preocupante: resíduos orgânicos amplamente utilizados como fertilizantes e condicionadores de solo contêm altos níveis de microplásticos. A pesquisa levanta sérias questões sobre os impactos ambientais e agrícolas dessas partículas microscópicas.

    De acordo com o portal Phys.org, os pesquisadores analisaram diferentes tipos de resíduos orgânicos usados na agricultura, como biossólidos (lodo de esgoto), vermicomposto (compostagem com minhocas), composto a granel (proveniente de coletas seletivas e instalações industriais) e compostos ensacados vendidos em lojas de jardinagem.

    Os resultados foram alarmantes: cada quilograma de resíduo analisado continha entre 1.100 e 2.700 partículas de microplástico. Além disso, os cientistas descobriram que até mesmo os plásticos biodegradáveis não estavam se decompondo na velocidade esperada, o que aumenta sua acumulação no solo.

    “Mesmo os plásticos biodegradáveis não estão se degradando como previsto, o que levanta preocupações sobre os impactos de longo prazo dos microplásticos na saúde e produtividade do solo”, afirmou Helena Ruffell, pesquisadora da Universidade de Canterbury.

    Como os microplásticos afetam a agricultura e a saúde?

    A presença de microplásticos em fertilizantes representa uma ameaça dupla: além de comprometer a qualidade do solo e o crescimento das plantas, também indica que essas partículas podem estar em níveis mais altos no corpo humano do que se pensava anteriormente.

    Estudos mostram que os microplásticos podem reduzir a capacidade das plantas de absorver nutrientes, prejudicando seu desenvolvimento. Além disso, pesquisas indicam que essas partículas podem entrar na cadeia alimentar, sendo ingeridas por animais e humanos. Já foram detectadas até no cérebro e associadas ao aumento do risco de problemas respiratórios.

    “Os resíduos orgânicos são essenciais para fornecer carbono e nutrientes ao solo, ajudando a reduzir as emissões de gases do efeito estufa e promovendo a economia circular”, destacou Ruffell. No entanto, a contaminação por microplásticos pode comprometer esses benefícios.

    O que está sendo feito para combater os microplásticos?

    Diante desse cenário, cientistas buscam soluções para reduzir a presença de microplásticos no meio ambiente. Algumas iniciativas incluem:

    • O uso de materiais orgânicos, como biochar, para ajudar a remover microplásticos do solo.
    • O desenvolvimento de filtros para impedir que essas partículas cheguem à água potável.
    • Pesquisas para encontrar maneiras mais eficientes de degradar plásticos antes que se tornem microplásticos.

    Com o aumento da conscientização sobre os impactos dos microplásticos, a busca por alternativas sustentáveis se torna ainda mais urgente para garantir a segurança alimentar e a preservação ambiental.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Projeto amplia financiamentos para agricultores familiares da Região Norte
    + Agro em Campo: Conheça os maiores rios do Brasil

  • Biocarvão de eucalipto ajuda na melhoria do solo

    Biocarvão de eucalipto ajuda na melhoria do solo

    Um estudo recente realizado no Centro Experimental Central do Instituto Agronômico (IAC), em Campinas (SP), trouxe novas evidências sobre os efeitos do biochar (biocarvão) de eucalipto na qualidade de solos argilosos em ambientes tropicais. A pesquisa, conduzida em parceria com a Embrapa Meio Ambiente e a Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul, teve duração de 28 meses e focou na eficácia do biocarvão em solos altamente intemperizados, que apresentam significativa presença de óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio.

    Isabella Lucon, professora da Faculdade de Agronegócios de Holambra (Faagroh), explica que o solo utilizado no estudo, típico de regiões tropicais, é naturalmente desafiador para a agricultura devido à sua baixa fertilidade e alta acidez. “No entanto, a aplicação de biochar se mostrou promissora na melhoria de propriedades físicas e químicas do solo”, observa.

    O biocarvão, produzido a partir de resíduos de eucalipto por meio de pirólise, foi incorporado ao solo e seus efeitos foram monitorados durante dois ciclos de cultivo de milho, nas safras de 2016/2017 e 2017/2018.

    Resultados do estudo

    Ruan Carnier, bolsista na Embrapa Meio Ambiente, destaca que os resultados indicaram melhorias significativas na fertilidade do solo. “A aplicação do biochar aumentou a disponibilidade de nutrientes essenciais, como fósforo, cálcio e potássio, na camada de solo de 5 cm a 10 cm de profundidade. Esses elementos são fundamentais para o crescimento saudável das plantas, e seu aumento pode contribuir para aumentar a produtividade agrícola em solos previamente deficientes”, afirma Carnier.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Brusone – fungo que ameaça produção de trigo avança no mundo
    + Agro em Campo: Novo melão híbrido tem alta produtividade e sabor adocicado

    Cristiano Andrade, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, complementa que, além das melhorias químicas, o biochar também influenciou positivamente as propriedades físicas do solo. A densidade aparente, que indica a compactação do solo, diminuiu, enquanto a porosidade total aumentou. “Essas mudanças são benéficas para a estrutura do solo, facilitando a penetração das raízes e a movimentação de água e ar, que são essenciais para a saúde das plantas”, enfatiza Andrade.

    Retenção de água e desafios

    Outro aspecto positivo observado foi o aumento da capacidade do solo em reter água. Para cada tonelada de biochar aplicada, houve um incremento de 500 litros de água disponível por hectare. Essa retenção hídrica pode ser crucial em períodos de estiagem, especialmente para culturas com menor demanda hídrica, como algumas culturas de inverno.

    Aplicação do biocarvão – Foto- Isabella Lucon

    Entretanto, o estudo também revelou limitações importantes na aplicação do biochar em solos argilosos de regiões tropicais. Embora tenha havido melhorias na porosidade e na retenção de água, a resistência do solo à penetração, que indica a facilidade com que as raízes podem crescer, não foi significativamente afetada. Além disso, os pesquisadores apontam para a questão do custo-benefício. Já que doses maiores de biochar podem ser necessárias para efeitos mais expressivos, elevando os custos. O estudo não detectou mudanças significativas nos níveis de micronutrientes ou no carbono orgânico do solo, o que poderia limitar os benefícios a longo prazo.

    Implicações e futuras pesquisas

    Este estudo destaca a importância de considerar as características específicas do solo e do ambiente ao avaliar a eficácia do biocarvão. Em regiões tropicais com solos argilosos, o uso de biochar pode trazer benefícios, mas esses são mais discretos em comparação a outros tipos de solo. Portanto, antes de recomendar sua aplicação em larga escala, é crucial realizar análises econômicas e experimentos de longo prazo que levem em conta as particularidades de cada região.

    Os pesquisadores enfatizam que, apesar das limitações, o biochar continua sendo uma ferramenta promissora para a melhoria do solo. Especialmente em áreas onde a sustentabilidade agrícola é uma preocupação. Eles apontam para a necessidade de mais pesquisas em campo para entender melhor as interações do produto com diferentes tipos de solo e condições climáticas. As futuras pesquisas deverão se concentrar em otimizar as doses e métodos de aplicação para maximizar os benefícios. Isso enquanto se avaliam os custos e a viabilidade econômica para os agricultores.

     

  • Citricultura brasileira pode gerar US$ 7,72 por tonelada de gás carbônico

    Citricultura brasileira pode gerar US$ 7,72 por tonelada de gás carbônico

    Uma nova estimativa aponta que o preço do carbono na citricultura brasileira é de US$ 7,72 por tonelada de gás carbônico equivalente (tCO2e). Este valor, inédito para a produção de laranjas, pode servir como referência para o mercado voluntário de carbono e iniciativas de pagamento por serviços ambientais. A precificação indica o quanto deve ser pago pelos gases de efeito estufa que deixam de ser emitidos pela atividade, cobrindo os custos econômicos, sociais e ambientais envolvidos.

    A estimativa é resultado de um estudo realizado pela Embrapa Territorial, que analisou 297 municípios do cinturão citrícola brasileiro, localizado na Região Sudeste. Cada hectare de pomar de citros é capaz de estocar cerca de duas toneladas de carbono anualmente, contribuindo para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa.

    A analista da Embrapa, Daniela Tatiane de Souza, destacou que existem poucos estudos no Brasil sobre a precificação do carbono na agricultura, e este é o primeiro voltado especificamente para o setor citrícola, que é um dos mais importantes entre as cadeias exportadoras do agronegócio nacional. “Estamos fazendo um trabalho pró-ativo para traçar perspectivas e estabelecer referências com base em metodologias adotadas internacionalmente”, explicou.

    O papel do gás carbônico

    O gás carbônico, por ser o gás de efeito estufa mais emitido desde a industrialização, tornou-se um indicador ambiental. Para efeitos comparativos, a geração de outros gases de efeito estufa é convertida em toneladas de CO2 equivalente. A estimativa do preço do carbono cria um incentivo financeiro para investimentos em tecnologias e práticas mais sustentáveis, como a melhoria nas práticas de adubação. Isso pode reduzir a emissão de óxido nitroso.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Alta no azeite impulsiona consumo de óleo de amendoim no Brasil
    + Agro em Campo: Variante de fungo ameaça acabar com banana no mundo

    A combinação dos “custos sociais do carbono” e do “custo marginal de abatimento” orientou os cálculos para a citricultura, utilizando dados socioeconômicos e ambientais. O primeiro atribui valor monetário às consequências das emissões de gases de efeito estufa, enquanto o segundo considera o custo tecnológico para reduzir essas emissões.

    Este trabalho faz parte de um projeto da Embrapa e do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus)

    A pesquisa levou em conta dados como o Produto Interno Bruto (PIB) municipal, a participação da agricultura nesse indicador, as emissões per capita de CO2 e a área dos municípios. O estudo revelou que quanto maior o PIB de uma localidade, maior o valor do carbono. Isso devido ao dinamismo econômico que tende a gerar maiores emissões.

    Estoques de carbono e biodiversidade

    Este trabalho faz parte de um projeto da Embrapa e do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), que avalia a dinâmica dos estoques de carbono e da biodiversidade em áreas citrícolas de São Paulo e Minas Gerais. A pesquisa estimou os estoques de carbono no cinturão citrícola em 36 milhões de toneladas, considerando pomares, solo e áreas de vegetação nativa.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Queimadas destroem plantações e preocupam os produtores
    + Agro em Campo: Inteligência Artificial promete revolucionar a gestão de irrigação na agricultura

    Além disso, o projeto identificou 314 espécies de animais silvestres na região, incluindo 268 aves, 28 mamíferos e 18 anfíbios e répteis. A diversidade da fauna é um indicativo da saúde ambiental das áreas citrícolas.

    O Brasil é responsável por 35% da produção mundial de laranja e 75% do comércio internacional de suco de laranja. Na última safra, a produção foi de 307,22 milhões de caixas, com exportações de suco ultrapassando 2,8 milhões de toneladas. A citricultura movimenta cerca de US$ 14 bilhões por ano, destacando-se como um setor vital para a economia brasileira.

  • Saiba a relação entre crédito de carbono e recuperação de pastagens

    Saiba a relação entre crédito de carbono e recuperação de pastagens

    Um estudo realizado pela Embrapa Meio Ambiente analisou o impacto da recuperação de pastagens degradadas no sudeste do Brasil sobre o balanço de carbono e as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Realizado ao longo de cinco anos, a pesquisa abrangeu desde uma pastagem degradada até sua renovação com fertilização nitrogenada, destacando os desafios na implementação de programas de créditos de carbono em pastagens.

    O levantamento alerta para os desafios da implementação de programas de créditos de carbono em pastagens. E destaca que fatores como mudanças nas práticas agrícolas e eventos climáticos extremos podem comprometer a eficácia e a permanência do sequestro de carbono.

    Impacto da recuperação de pastagens

    De acordo com Osvaldo Cabral, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente que coordenou o experimento, a assimilação de dióxido de carbono observada na pastagem degradada não compensou o carbono removido pelo pastejo. Dessa forma, contribui para a continuidade do processo de degradação do solo.

    Por outro lado, a pastagem reformada e adubada conseguiu fixar carbono a uma taxa superior à meta estabelecida pela Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil. No entanto, essa taxa não foi suficiente para neutralizar as emissões geradas durante o processo de renovação, quando o solo foi arado e permaneceu sem cobertura.

    Importância do monitoramento e práticas de manejo

    O estudo enfatiza a importância do monitoramento contínuo do balanço de dióxido de carbono, principalmente em anos de baixa precipitação. Isso ajuda a avaliar o impacto das práticas de manejo sobre as emissões líquidas de GEE, incluindo óxido nitroso e metano.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Preço dos ovos têm queda acentuada em julho
    + Agro em Campo: Costa Rica abre mercado para abacate brasileiro

    A adoção de práticas adequadas de manejo pode evitar e até reverter a degradação das pastagens, melhorando a capacidade de armazenamento de carbono e contribuindo com os compromissos climáticos do Brasil.

    Política de Agricultura de Baixo Carbono e desafios futuros

    A pesquisa destaca o papel crucial da Política de Agricultura de Baixo Carbono (ABC) do Governo brasileiro, que visa recuperar milhões de hectares de pastagens degradadas. No entanto, apenas um terço das áreas-alvo foi reabilitado, e a falta de monitoramento formal dificulta a avaliação dos impactos.

    Para o novo ciclo do Plano ABC+ (2020-2030), o foco será a governança e o uso de critérios científicos para mensuração e relatórios.  Isso visa superar os desafios identificados no estudo e potencializar os benefícios da recuperação de pastagens no sudeste do Brasil.

    Os resultados completos do estudo estão disponíveis na publicação “Eddy covariance fluxes of greenhouse gasses observed in a renewed pasture in the southeast of Brazil”.

    Com esse estudo, fica evidente a necessidade de práticas contínuas e bem monitoradas para alcançar uma recuperação sustentável das pastagens. E sua importancia  para contribuir significativamente para a mitigação das mudanças climáticas.