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  • Milho consorciado com braquiária afeta produtividade

    Milho consorciado com braquiária afeta produtividade

    A escolha da braquiária no consórcio com milho não é um detalhe: ela pode preservar ou comprometer a produção de grãos. Um estudo da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, em Jaboticabal, identificou diferenças significativas no desempenho do milho quando consorciado com a braquiária híbrida Mavuno e com a braquiária ruziziensis.

    Os resultados fazem parte do estudo “A consorciação com braquiárias e a adubação nitrogenada afetam o desempenho do milho?”. Ele foi conduzido pela engenheira agrônoma Tainá Garcia Paiares, sob orientação do professor Anderson Prates Coelho e coorientação do pesquisador Victor Augusto da Costa Escarela. O trabalho avaliou o desempenho agronômico e produtivo do milho consorciado com diferentes braquiárias e doses de nitrogênio em cobertura.

    O interesse pelo tema acompanha a expansão do uso de forrageiras em sistemas consorciados impulsionada pelos benefícios que essas espécies trazem à conservação do solo, à ciclagem de nutrientes, à formação de palhada e à sustentabilidade do sistema produtivo. Entender como cada material se comporta durante o desenvolvimento do milho tornou-se, assim, fundamental para reduzir riscos e aumentar a eficiência do sistema.

    Os pesquisadores conduziram o experimento entre outubro de 2025 e abril de 2026. E compararam três sistemas de cultivo: milho solteiro, milho consorciado com braquiária híbrida Mavuno e milho consorciado com braquiária ruziziensis, além de diferentes doses de nitrogênio em cobertura.

    Mavuno iguala produtividade do milho solteiro; ruziziensis reduz colheita em 13%

    O milho cultivado em consórcio com a braquiária híbrida Mavuno apresentou produtividade de grãos equivalente à do milho solteiro. Já o consórcio com ruziziensis reduziu a produção em aproximadamente 13%. Na comparação direta entre os dois consórcios, o milho consorciado com Mavuno rendeu 1.332 kg de grãos a mais por hectare do que o consorciado com ruziziensis. Ou seja, uma diferença equivalente a cerca de 22 sacas por hectare.

    Em termos econômicos, essa diferença mostra que a escolha da braquiária pode pesar muito mais no bolso do produtor do que apenas o preço da semente. Tomando como referência o preço médio de R$ 65,55 por saca apurado pelo Indicador ESALQ/BM&FBovespa (Cepea) em julho de 2026, as 22 sacas extras por hectare do sistema com Mavuno podem representar cerca de R$ 1.450 a mais por hectare em receita bruta. Em uma área de 100 hectares, essa vantagem pode chegar a R$ 143 mil adicionais apenas na produção de grãos, na comparação com o sistema com ruziziensis.

    Por que o desempenho muda entre as forrageiras

    O estudo atribui o melhor resultado do Mavuno ao seu desenvolvimento inicial mais equilibrado. O que reduz a competição com o milho por luz, água e nutrientes justamente na fase em que a cultura define seu potencial produtivo. A Urochloa ruziziensis, por outro lado, cresce de forma inicial mais agressiva. E compromete características agronômicas importantes, como altura de plantas, diâmetro de colmo e componentes de produção — o que reduz a produtividade final.

    Sistema radicular da braquiária híbrida Mavuno alcança mais de 4 metros de profundidade. Foto: Divulgação / Unesp

    O trabalho também revelou o potencial forrageiro da braquiária híbrida Mavuno em cultivo exclusivo. Ela acumulou 14.280 kg de matéria seca por hectare, contra 9.603 kg/ha da ruziziensis. Ou seja, um indicativo de alto potencial para formação de biomassa em sistemas de integração lavoura-pecuária.

    Para Tiago Penha Pontes, engenheiro agrônomo e gerente técnico da Wolf Seeds empresa responsável pelo desenvolvimento da braquiária híbrida Mavuno, os resultados reforçam a importância de tratar a escolha da forrageira como parte da estratégia produtiva da propriedade.

    “O consórcio deixou de ser apenas uma ferramenta para formação de palhada. Hoje, o produtor precisa pensar em um sistema que preserve a produção de grãos do milho. E ao mesmo tempo, entregue benefícios para o solo e para a produção de forragem”, explica.

    Segundo Pontes, a pesquisa amplia a discussão sobre o papel das forrageiras nos sistemas de produção. “O consórcio não é uma receita única. Cada material tem um comportamento agronômico diferente e isso precisa ser considerado na tomada de decisão”,  conclui.

  • Por que o feijão ficou 8% mais caro? Estudo aponta os motivos

    Por que o feijão ficou 8% mais caro? Estudo aponta os motivos

    O varejo alimentar brasileiro fechou junho com a inflação concentrada nos itens básicos da cesta de consumo. Questões de oferta regional e sazonalidade impulsionaram o feijão, que liderou as altas do período com avanço de 8% na média nacional. Os legumes vieram na sequência, com incremento de 4,2%. Os dados constam do estudo “Variações de Preços: Brasil & Regiões”, elaborado pela Neogrid, ecossistema de tecnologia e inteligência de dados voltado à gestão da cadeia de suprimentos.

    O preço médio do feijão saltou de R$ 8,05 para R$ 8,70 entre maio e junho, com o Centro-Oeste e o Sul puxando o movimento de forma mais expressiva. Os legumes, por sua vez, subiram de R$ 7,93 para R$ 8,26, com destaque para a região Norte, onde o avanço chegou a 11,3%.

    Para Marcelo Alves, gerente executivo de Dados da Neogrid, o encarecimento reflete a sensibilidade dessas categorias ao clima. “O cenário atual reforça a importância de um abastecimento inteligente no varejo. Com oscilações regionais tão distintas, a capacidade de adequar a reposição e a precificação com precisão para cada praça torna-se um diferencial competitivo”, afirma o executivo.

    Higiene e limpeza também registram altas

    Além dos itens de hortifrúti, o papel higiênico contabilizou alta de 1,8% no país, passando de R$ 1,50 para R$ 1,53. O detergente líquido acompanhou o movimento com alta de 1,7%, enquanto a água sanitária avançou 1,4%.

    Em direção oposta, alguns itens aliviaram o orçamento das famílias em junho. O café em pó e em grãos recuou 3,2%, com o preço médio caindo de R$ 65,20 para R$ 63,09. O açúcar registrou queda de 2,8%, saindo de R$ 3,59 para R$ 3,49. Ovos (-1,8%), óleo (-1,7%) e xampu (-1,5%) completam a lista das principais quedas nacionais.

    Pressão acumulada no ano preocupa

    O balanço entre dezembro de 2025 e junho de 2026 confirma os legumes como o item de maior valorização, com alta acumulada de 50,2% — de R$ 5,50 para R$ 8,26. O feijão vem logo atrás, com elevação de 36,7% no período. Leite UHT (23,1%), carne bovina (6,5%) e farinha de mandioca (5%) fecham a lista das maiores altas do ano.

    “Para os próximos meses, a tendência é de que a pressão sobre hortifrútis e feijão continue. O equilíbrio entre o encarecimento dos itens essenciais e a estabilidade nas demais categorias será determinante para a percepção de inflação e o ritmo de consumo das famílias no segundo semestre, exigindo acompanhamento em tempo real dos estoques para evitar rupturas e perdas financeiras”, analisa Alves.

    Na região Sudeste, o feijão liderou as altas com avanço de 8,4%, seguido pelos legumes (3%), papel higiênico (2,8%), cerveja (2,3%) e detergente líquido (1,6%). Em contrapartida, os ovos puxaram os recuos com queda de 5,5%, seguidos pela carne suína (-3,5%), açúcar e farinha de mandioca (-3,3% cada) e café em pó e em grãos (-2,9%).

  • Como cães rurais estão mudando o comportamento de onças-pardas

    Como cães rurais estão mudando o comportamento de onças-pardas

    Cães e seres humanos mantêm uma das relações mais antigas da história da domesticação. Descendentes dos lobos, os cães figuram entre os primeiros animais domesticados, em um processo iniciado entre 15 mil e 50 mil anos atrás. Atualmente, a população mundial de cães ultrapassa 1 bilhão de indivíduos, espalhados por praticamente todos os ambientes ocupados pelo homem.

    A maioria desses animais vive dentro de casas e apartamentos, principalmente em áreas urbanas. Uma parcela menor, pouco comum no Brasil, corresponde a cães selvagens, sem vínculo com pessoas. Entre esses dois extremos, no entanto, existe um grupo bem mais numeroso do que costuma aparecer no debate público: os cães rurais de vida livre.

    Esses animais têm tutor, recebem alimento e possuem um local para retornar ao fim do dia, mas permanecem soltos, percorrendo fazendas, estradas, plantações e áreas de vegetação nativa. Durante esses deslocamentos, muitos acabam entrando em Unidades de Conservação e passam a interagir com a fauna silvestre.

    Estudo da Unesp investiga efeito dos cães sobre o maior predador do estado

    Essa dinâmica motivou uma pesquisa conduzida por cientistas da Unesp, que resultou no artigo “Puma in check: How domestic dogs influence the behavior of a top predator”, publicado na revista Biological Conservation. O estudo analisou como a presença de cães afeta o comportamento da onça-parda, o maior predador terrestre que ainda ocupa grande parte do estado de São Paulo.

    Matilha de cães transitando por unidade de conservação é observada por armadilhas fotográficas usadas no estudo
    Matilha de cães transitando por unidade de conservação é observada por armadilhas fotográficas usadas no estudo. Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

    O resultado surpreendeu os próprios pesquisadores: em vez de intimidar os cães, como se esperava de um predador de topo de cadeia, a onça-parda passou a modificar sua rotina para evitar locais onde os cachorros haviam passado.

    Onças demoram até seis dias para retomar áreas usadas por cães

    A equipe instalou 67 armadilhas fotográficas em duas unidades de conservação do interior paulista: a Estação Ecológica de Santa Bárbara e a Floresta Estadual de Águas de Santa Bárbara. As câmeras mostraram que, após a passagem de um cão, a onça-parda leva em média 74 horas para retornar ao mesmo ponto. O animal só retoma o uso rotineiro daquela área cerca de cinco a seis dias depois.

    Esse padrão indica uma estratégia consistente de afastamento em relação aos cães, mesmo sem a ocorrência de confronto direto entre as duas espécies.

    Cão é flagrado por armadilha fotográfica caminhado por unidade de conservação localizada no interior paulista
    Cão é flagrado por armadilha fotográfica caminhado por unidade de conservação localizada no interior paulista. Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

    A bióloga Rita Bianchi, professora da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, no câmpus de Jaboticabal, explica que a ideia de analisar grandes felinos surgiu a partir do crescimento no número de registros de cães dentro de áreas já monitoradas pelo grupo de pesquisa. “Em algumas unidades de conservação percebemos que, a cada nova amostragem, aumentava o número de registros de cães. Isso despertou nossa preocupação. Queríamos entender por que eles estavam ocupando essas áreas e quais consequências isso poderia trazer para a fauna nativa”, conta a pesquisadora.

    Onça-parda foi escolhida por ser espécie adaptável e de dieta generalista

    Os cientistas escolheram a onça-parda como um dos focos do estudo não apenas por sua posição de predador de topo, mas também por sua adaptabilidade a diferentes habitats e por sua dieta generalista. As imagens obtidas pelas armadilhas fotográficas revelaram que cães e onças utilizam as mesmas áreas, mas em horários diferentes. Em vez de abandonar totalmente certos ambientes, a onça reorganiza o uso do espaço ao longo do tempo, o que reduz as chances de encontro com os cães.

    Foto: Rodolpho Gonçalves da Silva

    Rodolpho Gonçalves da Silva, primeiro autor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade da Unesp, admite que os resultados contrariaram suas expectativas iniciais. “Como um amante de grandes felinos, eu achava que a onça-parda ia impor respeito e controlar a área. Os cães poderiam ser uma ameaça para animais pequenos, mas quando chegasse um animal maior o cenário ia mudar. Então foi uma surpresa quando rodamos a análise e vimos que as onças demoravam para voltar a uma determinada área depois da passagem dos cães”, diz o pesquisador.

  • Estudo revela estagnação da demanda da China por alimentos

    Estudo revela estagnação da demanda da China por alimentos

    A China foi o principal motor do crescimento das exportações agropecuárias brasileiras nas últimas duas décadas. Mas esse impulso pode estar perdendo força. Um estudo publicado na Revista de Economia Contemporânea da UFRJ, assinado por pesquisadores da Embrapa Territorial e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), aponta que o consumo per capita de alimentos no país asiático cresce em ritmo cada vez menor e se aproxima de uma estabilização.

    A analista Daniela Tatiane de Souza, da Embrapa Territorial, explica que o fenômeno segue um padrão clássico descrito pela Lei de Engel: quando a renda das famílias sobe, elas primeiro melhoram a alimentação, mas chegam a um ponto de saturação. A partir daí, os recursos adicionais vão para bens duráveis e lazer, não para mais comida. “As pessoas vão aumentando e diversificando o consumo de alimentos, mas há um ponto a partir do qual não conseguem comer mais e querem outras coisas”, resume o professor Marcelo Pinho, da UFSCar e coautor do estudo.

    Os números que revelam a mudança

    Os dados ilustram bem essa transição. O consumo per capita de leite na China crescia a taxas superiores a 10% ao ano na primeira década dos anos 2000. Entre os triênios 2010–2012 e 2020–2022, esse ritmo caiu para 0,6% ao ano. A trajetória das frutas é ainda mais reveladora: o consumo saiu de 4,3 kg por habitante ao ano, nos anos 1960, para 108,7 kg em 2022, hoje superior ao do Brasil. No caso das carnes, a evolução foi de 9,9 para 107 kg por habitante ao ano, índice que supera a média europeia.

    Algumas categorias já registram queda absoluta no consumo: raízes, tubérculos, carne suína e bebidas alcoólicas. No outro extremo, óleo de girassol, chá e café ainda crescem em ritmo acelerado. Este último impulsionado pela urbanização e pela adoção de hábitos ocidentais entre os chineses.

    O que o passado ensina e porque o Brasil não deve se iludir

    Em 2012, os mesmos pesquisadores já haviam identificado sinais de amadurecimento do mercado agroalimentar chinês. Mesmo assim, as exportações brasileiras para a China continuaram crescendo com vigor na década seguinte. Como explicar essa aparente contradição?

    Pinho aponta a resposta: a China aumentou as importações de insumos, em especial soja para ração animal, não de alimentos prontos para consumo humano. Essa distinção é central para entender a estratégia chinesa. O país estimula a produção interna de alimentos para consumo direto e aceita depender de fornecedores externos apenas para matérias-primas. A preocupação com a segurança alimentar, ancorada numa população de 1,4 bilhão de pessoas e na memória de períodos de fome severa, define essa política com precisão.

    Dos seis alimentos mais consumidos pelos chineses, arroz, trigo, ovos, carne suína, leite e carne de aves, apenas o leite tem coeficiente de importação superior a 10%. Quando as importações de carne bovina se aproximaram de um quarto do consumo interno, o governo impôs restrições. “Eles não estão dispostos a uma exposição muito grande ao risco de depender de importações de alimentos, mesmo para um produto de elite como a carne bovina”, analisa Pinho.

    Exportações brasileiras: sem queda, mas sem o boom de antes

    Os autores avaliam que a estabilização do consumo chinês não deve provocar redução das exportações brasileiras no curto prazo. Mas também não vai sustentar os saltos registrados nos últimos 20 anos. O crescimento recente dependeu, em grande parte, da abertura chinesa a insumos como soja e celulose. A continuidade desse fluxo depende de a China manter essa abertura, já que enfrenta limites para expandir sua produção agrícola interna.

    Há, porém, um risco que os pesquisadores não descartam: a China pode buscar e fomentar fornecedores alternativos ao Brasil. “Eles são muito agressivos comercialmente e não podemos subestimar sua capacidade de adaptação e inovação”, alerta Souza. Que, ao mesmo tempo, reconhece que o agronegócio brasileiro tem competências para defender suas posições competitivas.

    A dupla dependência que preocupa

    O chefe-geral da Embrapa Territorial, Gustavo Spadotti, chama atenção para um risco sistêmico que vai além do volume de exportações. “A China não é apenas nosso maior cliente, mas também um dos nossos fornecedores críticos de fertilizantes. Somos simultaneamente dependentes dela para vender e para produzir. Isso exige uma releitura estratégica dessa relação comercial”, afirma.

    O alerta ganhou concretude em março de 2026, quando a China suspendeu, sem prazo definido, todas as suas exportações de fertilizantes fosfatados. Para Spadotti, a saída passa por diversificação: novos mercados, como os previstos no Acordo Mercosul-União Europeia e no Oriente Médio, investimentos em infraestrutura logística e avanços na autonomia de insumos agrícolas. “A ciência nos diz o que está acontecendo. A geopolítica nos diz o que fazer a respeito”, resume.

    O Brasil no centro do tabuleiro global

    Outro artigo sobre o tema, assinado pelo pesquisador da Embrapa Pedro Abel Vieira Júnior e pelo professor da Unicamp Antônio Márcio Buainain, reforça a singularidade da posição brasileira. Com apenas 7% das terras aráveis do mundo, a China precisa alimentar quase 20% da população global, e tornou-se o maior importador mundial de alimentos. O Brasil foi quem melhor aproveitou essa equação, combinando vantagens agroecológicas com as necessidades chinesas.

    Mas os autores advertem que a fase de crescimento movida puramente pelo mercado pode estar chegando ao fim. “A expansão até aqui foi guiada pelo mercado, mas a sustentabilidade futura dessa relação exige acordos políticos”, escrevem. Garantir previsibilidade, atrair investimentos de longo prazo e reduzir incertezas para os dois lados dependerá, cada vez mais, de diplomacia, não apenas de produtividade.

  • Por que tomar café depois das 20h pode ser mais perigoso do que você imagina

    Por que tomar café depois das 20h pode ser mais perigoso do que você imagina

    Tomar café à noite para se manter acordado pode ter um efeito que vai além da simples falta de sono: de acordo com um novo estudo científico, o hábito pode aumentar a impulsividade e induzir a comportamentos arriscados. Uma equipe de biólogos da Universidade do Texas em El Paso (UTEP) conduziu a pesquisa, publicada na revista iScience, e o estudo representa um avanço importante na compreensão de como o horário de consumo da cafeína afeta o cérebro.

    O estudo examinou como o consumo noturno de cafeína afeta a inibição e a impulsividade em moscas-das-frutas. Os pesquisadores Erick Saldes, Paul Sabandal e Kyung-An Han lideraram o estudo. A equipe não escolheu o modelo animal de forma aleatória: a espécie Drosophila melanogaster aparece amplamente em pesquisas científicas devido às suas semelhanças genéticas e neurais com os seres humanos, o que a torna ideal para investigar comportamentos como a impulsividade.

    A motivação para a pesquisa partiu de um dado simples, mas revelador. “A cafeína é a substância psicoativa mais consumida no mundo, com cerca de 85% dos adultos nos Estados Unidos a utilizando regularmente”, afirmou Sabandal, professor assistente de pesquisa no Departamento de Ciências Biológicas da UTEP. “Dada a popularidade da cafeína, queríamos explorar se fatores adicionais influenciam seu impacto no controle comportamental.”

    Como os experimentos foram feitos

    As moscas consumiram cafeína sob diversas condições, em diferentes doses, consumo noturno versus diurno e em combinação com privação de sono. E depois foram avaliadas quanto à impulsividade por meio da exposição a um forte fluxo de ar, um estímulo naturalmente desagradável que normalmente as faz parar de se mover.

    Os resultados foram claros. “Em condições normais, as moscas param de se mover quando expostas a um forte fluxo de ar”, explicou Saldes, atualmente especialista em pesquisa científica na Universidade de Illinois College of Medicine Peoria e ex-doutorando da UTEP. “Descobrimos que as moscas que consumiram cafeína à noite tiveram mais dificuldade em suprimir o movimento. Exibindo comportamentos impulsivos, como voos imprudentes, mesmo diante dessas condições adversas.” O consumo durante o dia, por sua vez, não gerou o mesmo efeito.

    Mulheres são mais sensíveis ao efeito noturno da cafeína

    Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito às diferenças entre os sexos. Apesar de apresentarem níveis comparáveis de cafeína no organismo, as fêmeas demonstraram impulsividade significativamente maior do que os machos após o consumo noturno da substância.

    Para Han, a explicação ainda precisa ser aprofundada. “As moscas não têm hormônios humanos como o estrogênio. O que sugere que outros fatores genéticos ou fisiológicos estão por trás dessa maior sensibilidade nas fêmeas”, pontuou a professora. “Compreender esses mecanismos nos ajudará a entender melhor como a fisiologia noturna e os fatores específicos do sexo modulam os efeitos da cafeína.”

    Alerta para trabalhadores noturnos

    Os achados podem ter implicações diretas para trabalhadores em turnos noturnos, profissionais de saúde, militares e outras pessoas que consomem café regularmente durante a madrugada para manter o estado de alerta. Além disso, os pesquisadores alertam que esses grupos podem estar inadvertidamente expostos a um maior risco de julgamento prejudicado e tomada de decisões impulsivas.

    A professora Han conduziu o estudo no laboratório que coordena no Departamento de Ciências Biológicas da UTEP, onde a equipe se concentra na base neurobiológica da plasticidade comportamental, incluindo aprendizado, memória e dependência. Além de interações gene-ambiente relevantes para o Alzheimer e demências relacionadas.

    Os pesquisadores concluem que os resultados revelam um risco até então pouco reconhecido no uso noturno de cafeína. E que compreender esses mecanismos pode ajudar a desenvolver diretrizes mais precisas sobre o horário ideal de consumo.

  • Epagri inicia estudo para viabilizar cultivo comercial do limão japonês em Santa Catarina

    Epagri inicia estudo para viabilizar cultivo comercial do limão japonês em Santa Catarina

    A Epagri iniciou um estudo pioneiro para avaliar a adaptação e o desempenho do limão Yuzu, conhecido como limão japonês, nas condições climáticas de Santa Catarina. A pesquisa tem o objetivo de abrir caminho para a produção comercial da fruta no estado, explorando um mercado com alto potencial gastronômico e econômico.

    Assinatura do acordo: secretário Admir Edi Dalla Cort (Sape), Elina Onaka, Shigeru Ohara, Koji Kamiyo (Ogon No Mura) e Dirceu Leite (Epagri)

    Na última semana a Epagri firmou, em Florianópolis, um acordo de cooperação com a empresa japonesa Ogon No Mura, especializada em produtos à base de Yuzu. O convênio garante aos pesquisadores catarinenses acesso ao material genético original da fruta, cultivada nos pomares da companhia na província de Tokushima, no Japão.

    Segundo o presidente da Epagri, Dirceu Leite, a parceria fortalece o trabalho da instituição em criar novas oportunidades para os agricultores catarinenses. “Queremos introduzir culturas promissoras que garantam renda e desenvolvimento às famílias rurais, e acreditamos que o Yuzu pode ser uma delas”, afirmou.

    O secretário da Agricultura e Pecuária, Admir Edi Dalla Cort, ressaltou que Santa Catarina é referência nacional pela diversidade agrícola e pela afinidade cultural com o Japão. “Estamos de braços abertos para essa parceria, que une tradição e inovação em benefício do agronegócio catarinense”, destacou.

    Com a conclusão do estudo, a Epagri poderá solicitar o registro do cultivar junto ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), etapa necessária para liberar o plantio e a comercialização da espécie no país. Produtores poderão utilizar o yuzu tanto para extrair suco quanto para produzir óleos essenciais e outros subprodutos.

    Testes em regiões frias e serranas

    A pesquisa concentra-se nas regiões mais frias e de maior altitude de Santa Catarina, que apresentam condições climáticas semelhantes às de Tokushima, onde as temperaturas variam de -10°C a 40°C. Um dos pomares experimentais será implantado em Frei Rogério, no Meio-Oeste catarinense, município de forte presença da cultura japonesa. O produtor Ernesto Eisaku Onaka abrirá espaço em sua propriedade para testar o cultivo do Yuzu ao lado de plantações de alho, pêssego e goiaba-serrana.

    De acordo com a agrônoma Luana Castilho Maro, coordenadora do projeto e pesquisadora da Estação Experimental de Itajaí, ainda não há registro do Yuzu no Brasil. “O acordo com a Ogon No Mura permite o acesso direto ao germoplasma. E também acelera o processo de introdução da espécie, que antes enfrentava morosidade burocrática”, explicou.

    Coordenadora da pesquisa, Luana Castilho Maro, estima período de até cinco anos para conclusão da pesquisa. Foto: Aires Mariga/Epagri

    O material genético será importado do Japão e passará por quarentena no Instituto Agronômico de São Paulo (IAC), a fim de eliminar riscos fitossanitários. Após a liberação, parte das mudas será enviada à Estação Experimental da Epagri em Itajaí, enquanto outras seguirão para testes em São Joaquim e Frei Rogério.

    O estudo terá duração estimada de quatro a cinco anos. “Depois de comprovada a adaptabilidade e obtido o registro, produtores e viveiristas poderão cultivar e comercializar o Yuzu legalmente no país”, afirmou Luana. Durante o período, os pesquisadores catarinenses manterão um intercâmbio técnico com especialistas da região produtora de Tokushima.

    Potencial e perspectivas

    A Epagri acredita que o Yuzu pode transformar o mapa da citricultura catarinense, hoje restrita a regiões livres de geadas. “Essa variedade suporta ampla variação térmica, o que permite expandir a produção para áreas até então consideradas inaptas para citros”, avaliou Luana.

    O empresário japonês Koji Kamiyo, fundador da Ogon No Mura, afirmou que a empresa pretende cultivar 100 hectares de Yuzu no projeto inicial. E atingir mil hectares a longo prazo. A companhia fatura cerca de US$ 3 milhões por ano, com 40% da produção destinada à exportação para França e Estados Unidos.

    Para o diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Epagri, Reney Darrow, o acordo traz um diferencial importante: a garantia de mercado para o produto. “Esse encadeamento entre pesquisa e comercialização dá mais segurança ao investimento e reforça nosso compromisso em fazer o produtor catarinense prosperar”, concluiu.

  • Irrigação correta de trigo no Cerrado reduz emissão de gases

    Irrigação correta de trigo no Cerrado reduz emissão de gases

    A irrigação estratégica do trigo no Cerrado corta pela metade a emissão de gases de efeito estufa, aponta estudo inédito. A pesquisa foi conduzida pela Embrapa Cerrados e avaliou o manejo hídrico em condições tropicais. Os cientistas comprovaram que irrigar no momento correto mantém a produtividade e, ao mesmo tempo, reduz impactos climáticos.

    Além disso, o estudo definiu o ponto de equilíbrio entre rendimento da lavoura e sustentabilidade ambiental.
    Segundo os pesquisadores, o solo funciona como uma esponja que armazena água para as plantas. O melhor momento para irrigar ocorre quando o solo já consumiu 40% da água disponível. Para chegar a esse resultado, os cientistas testaram quatro níveis de esgotamento da umidade do solo. Os índices avaliados foram 20%, 40%, 60% e 80% antes de cada nova irrigação. O objetivo foi medir produtividade, consumo de água e emissão de gases poluentes. Os resultados foram publicados na revista Sustainability MDPI, em artigo científico internacional.

    Ponto ideal garante produção e menor impacto climático

    Foto: divulgação – Embrapa/Joseani Antunes

    Após dois anos, os pesquisadores identificaram 40% como o nível ideal de reposição da água no solo. Nesse cenário, o trigo apresentou alta produtividade e baixas emissões de gases de efeito estufa. Segundo a pesquisadora Alexsandra Oliveira, esse manejo gerou o melhor Potencial de Aquecimento Global.
    O indicador considera as emissões de óxido nitroso e metano na lavoura. Com irrigação aos 40%, a produção média chegou a 6,8 toneladas por hectare. Ao mesmo tempo, as emissões de óxido nitroso ficaram abaixo de 3 quilos por hectare. Esse gás é quase 300 vezes mais poluente que o dióxido de carbono.

    Por outro lado, o maior impacto ambiental ocorreu com irrigação após 60% de consumo da água do solo. Nesse caso, o Potencial de Aquecimento Global atingiu 1.185,8 quilos de CO₂ equivalente. Além disso, a produtividade caiu para 5,69 toneladas por hectare.

    Em comparação, o manejo aos 40% reduziu 41,3% das emissões totais. Ainda assim, garantiu quase 20% mais produtividade na lavoura. Oliveira afirma que pequenos ajustes geram grande efeito ambiental. Segundo ela, irrigação tardia eleva as emissões e prejudica a eficiência climática.

    Solo muito seco favorece gases poluentes

    A pesquisa mostrou que longos períodos de seca do solo estimulam a produção de gases nocivos.
    Depois disso, a irrigação intensa provoca reações microbianas indesejadas. Esses processos aumentam as liberações de óxido nitroso e metano.

    O pesquisador Jorge Antonini comparou o solo a uma caixa-d’água subterrânea. Segundo ele, excesso e falta de água provocam perdas produtivas e ambientais. Ele destaca que precisão hídrica garante rendimento e menor emissão de poluentes.

    Metano vira aliado em condição ideal

    O estudo também trouxe um achado importante sobre o comportamento do metano. Em vez de emitir esse gás, o solo passou a absorvê-lo da atmosfera. Esse efeito ocorreu nas condições ideais de irrigação observadas no experimento. De acordo com Oliveira, o solo bem drenado favorece microrganismos consumidores de metano.
    Assim, um vilão climático virou aliado da produção sustentável.

    Experimento ocorreu no Cerrado entre 2022 e 2024

    O estudo foi realizado na área da Embrapa Cerrados, em Planaltina, no Distrito Federal. As lavouras seguiram o sistema de plantio direto em sucessão soja-trigo. Os pesquisadores utilizaram as cultivares BRS 4782 RR e BRS 264.

    Para controle da umidade, o grupo instalou sondas a 70 centímetros de profundidade. O pesquisador Artur Müller explicou que essa é a principal região das raízes do trigo. Já as emissões foram medidas por câmaras estáticas fechadas. Esse método é adotado pelo IPCC, da Organização das Nações Unidas.

    Trigo irrigado ganha papel estratégico

    O trigo irrigado já ocupa mais de 30 mil hectares no Cerrado. A cultura ajuda a reduzir a dependência brasileira de importações. Além disso, fortalece a produção em regiões tropicais.

    O estudo avaliou, pela primeira vez, o sistema sucessão soja-trigo irrigado. Os dados confirmam viabilidade produtiva com menor impacto ambiental. Para Oliveira, o manejo aos 40% otimiza água e fertilizantes.
    A pesquisadora defende produção de trigo com baixo carbono nos trópicos.

    Próximos estudos ampliam análise climática

    A equipe vai testar irrigação em sistemas com milho, café e soja. Os pesquisadores querem avaliar efeitos de longo prazo no clima. Também buscam soluções para tornar o Brasil referência em agricultura sustentável.
    Com isso, esperam conciliar produtividade, segurança alimentar e conservação ambiental.

  • Abelhas podem ajudar no combate ao Aedes aegypti

    Abelhas podem ajudar no combate ao Aedes aegypti

    Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Brasília (UnB) e de duas startups de Ribeirão Preto encontraram um composto capaz de matar larvas de Aedes aegypti na própolis da abelha sem ferrão conhecida como mandaçaia (Melipona quadrifasciata). Os resultados foram publicados na revista Rapid Communications in Mass Spectrometry.

    O trabalho é fruto de apoios da FAPESP e de um projeto financiado pelo Ministério da Saúde para a busca de agentes larvicidas naturais que combatam o mosquito causador de viroses como dengue, febre amarela, chikungunya e zika. Atualmente, esse combate é feito usando um inseticida químico bastante tóxico ao ambiente.

    “As abelhas são conhecidas por recolher materiais na natureza para compor a colônia, que em certos casos podem atuar protegendo contra bactérias e fungos invasores. Fizemos uma série de análises na geoprópolis, que mistura resinas vegetais com partículas de terra ou argila em sua composição [a própolis tradicional é feita apenas com resinas, cera e secreções das abelhas]. Observamos que o diterpeno presente nela era responsável pela atividade larvicida”, explica Norberto Peporine Lopes, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP).

    Lopes coordena o projeto “Inventariando o metabolismo secundário através da metabolômica: contribuição para a valoração da biodiversidade brasileira”, apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa BIOTA.

    Própolis

    Em larvas de Aedes aegypti, os pesquisadores compararam a ação da própolis tradicional, produzida pela abelha-europeia (Apis mellifera), com a da geoprópolis da mandaçaia. A primeira teve uma atividade muito baixa, mesmo após 72 horas de exposição. Nos ensaios com a geoprópolis, porém, ocorreu a morte de 90% das larvas em 24 horas e de 100% em 48 horas.

    Análises realizadas com ferramentas computacionais apontaram o diterpeno como o mais provável agente larvicida entre os compostos presentes na geoprópolis. Ao estudar os hábitos das abelhas em Bandeirantes, no Paraná, onde a geoprópolis foi coletada, observou-se que as mandaçaias visitam frequentemente plantações de pinus (Pinus elliottii), espécie de árvore do hemisfério Norte cultivada no Brasil para a exploração de madeira e resina.

    “Era sabido que a composição química da própolis é influenciada pelas resinas coletadas para a construção e proteção dos ninhos. Assim como pela composição florística do ambiente, do bioma e de fatores sazonais. Nesse caso, ficou claro que a resina do pinus, processada pela saliva das mandaçaias, é que proporciona a ação larvicida”, conta Luís Guilherme Pereira Feitosa, primeiro autor do artigo, realizado com apoio da FAPESP durante doutorado na FCFRP-USP.

    Abelha brasileira

    As mandaçaias são especialmente interessantes porque são de fácil cultivo, não têm ferrão e são nativas do Brasil. Uma das ideias dos pesquisadores é a valoração de outros produtos produzidos por elas, além do mel.

    No caso da própolis, a da mandaçaia se diferenciou da de outras abelhas nativas analisadas no estudo, encontradas no mesmo município: a borá (Tetragona clavipes), a mirim (Plebeia droryana) e a jataí (Tetragonisca angustula). A própolis das três espécies, também nativas e sem ferrão, teve baixa atividade larvicida.

    Os pesquisadores explicam que o volume de geoprópolis produzido pelas mandaçaias é muito baixo, o que torna inviável seu uso como agente larvicida. No entanto, o fato de o diterpeno estar na resina do pinus é uma boa notícia. A indústria já produz essa resina em larga escala para aplicações como solventes e colas. Portanto, isso permite submetê-la a processos químicos que imitam as transformações realizadas pelas mandaçaias.

    “São modificações que podem formar moléculas com maior atividade do que o composto original. E que podem ser induzidas em biorreatores, equipamentos presentes na indústria farmacêutica”, afirma Lopes.

    Segundo Feitosa, o estudo utilizou um fluxo de trabalho que combina diferentes técnicas de espectrometria de massas, método que também serve para identificar compostos com os mais variados propósitos. “Atualmente, buscamos moléculas naturais com ação contra tumores”, diz o pesquisador, que agora realiza pós-doutorado na FCFRP-USP.

    Descoberta

    A professora Laila Salmen Espindola, da UnB, coordenou o projeto do Ministério da Saúde. E proporcionou ainda a descoberta de outro composto larvicida, presente no óleo essencial de uma planta já produzida em larga escala. O ministério mantém os dados da descoberta, que ainda aguarda publicação.

    Os pesquisadores, inclusive, produziram um pó e um comprimido à base do óleo essencial que protegem a água por até 24 dias. O pó mata imediatamente as larvas, enquanto o comprimido, de liberação lenta, se dissolve aos poucos e mantém a água livre dos mosquitos.

    É possível ler o artigo Characterization of larvicidal diterpene resin acids in Melipona quadrifasciata geopropolis via LC-ESI-MS/MS, GC–MS and computational analysis no seguinte link: https://analyticalsciencejournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/rcm.10025.

    Por André Julião | Agência FAPESP 

    Errata: fomos alertados pelo nosso leitor, o educador Gerson Pinheiro, que a foto que ilustrava essa matéria era de uma espécie invasora. Por isso a imagem foi alterada. Obrigado Gerson. 

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    Chocolate amargo e frutas vermelhas melhoram qualidade de vida

    Um estudo científico publicado na renomada revista Nature Food está revolucionando nossa compreensão sobre nutrição e longevidade. A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional de cientistas da Austrália, Áustria e Reino Unido, acompanhou mais de 120.000 participantes por uma década e descobriu que o consumo estratégico de certos alimentos pode ser o segredo para uma vida mais longa e saudável.

    Os flavonóides – compostos bioativos encontrados em alimentos vegetais – demonstraram efeitos extraordinários na saúde humana. O estudo revela que:

    • Redução de 16% na mortalidade por todas as causas com ingestão diária de 500mg de flavonoides (equivalente a 2 xícaras de chá)
    • Diminuição de 10% no risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e problemas respiratórios
    • Proteção adicional contra câncer e doenças neurodegenerativas quando há diversidade no consumo

    “Esta é a primeira vez que demonstramos cientificamente que a variedade de flavonóides é tão crucial quanto a quantidade consumida”, explica o professor Tilman Kuhn, da Universidade Médica de Viena e coautor do estudo.

    Os alimentos campeões em flavonóides

    A pesquisa identificou os principais alimentos que devem fazer parte de uma dieta protetora:

    • Chocolate amargo (70-85% cacau): rico em flavonóis, melhora a pressão arterial e humor
    • Frutas vermelhas (mirtilos, morangos, framboesas): potentes em antocianinas, combatem diabetes
    • Maçãs (com casca): contêm quercetina, com efeito anti-inflamatório
    • Chás (verde, preto, branco): fontes concentradas de catequinas
    • Frutas Cítricas (laranjas, limões): ricas em flavanonas que fortalecem imunidade

    A revolução da diversidade alimentar

    O estudo descobriu que participantes que consumiam flavonóides de diversas fontes obtiveram benefícios 20% maiores na prevenção de doenças crônicas comparados àqueles que consumiam a mesma quantidade de um único tipo.

    “A variedade amplia os benefícios de forma sinérgica. Trocas simples na dieta podem gerar ganhos reais para a saúde pública”, afirma a professora Aedín Cassidy, da Queen’s University Belfast e uma das líderes da pesquisa.

    Como incorporar na rotina

    Nutricionistas sugerem estas estratégias baseadas nas últimas evidências:

    • Café da manhã: chá verde + mix de frutas vermelhas com iogurte natural
    • Lanche da manhã: 20-30g de chocolate amargo (70% cacau ou mais)
    • Almoço: salada colorida com vegetais roxos e laranjas como acompanhamento
    • Lanche da tarde: maçã com casca + punhado de nozes
    • Jantar: peixe grelhado com brócolis e vinho tinto (com moderação)

    Especialistas alertam que:

    • O chocolate deve ser consumido na versão amarga e em porções de 20-30g/dia
    • Pessoas com enxaqueca devem moderar o consumo devido à presença de tiramina
    • O estudo é observacional e fatores como estilo de vida também influenciam os resultados.

    Esta pesquisa, uma das mais abrangentes já realizadas sobre o tema, oferece bases científicas para novas diretrizes de saúde pública. “Estamos apenas começando a entender o potencial dos compostos vegetais na prevenção de doenças”, comenta Dianna Bowles, bioquímica da Universidade de York.

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    CNA aponta gargalos de energia para irrigação no Brasil

    A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) identificou os principais desafios energéticos para a irrigação no país. O levantamento propõe melhorias na infraestrutura elétrica para atender ao crescimento da agricultura irrigada.

    O estudo foi desenvolvido pela Universidade Federal de Itajubá (MG), sob encomenda do Sistema CNA. A equipe do Núcleo de Pesquisa e Extensão do Instituto de Recursos Naturais (Neiru) conduziu a análise. Em geral, o documento avalia o cenário atual e projeta a demanda energética da irrigação até 2040. Segundo a CNA, o fornecimento de energia de qualidade é essencial para manter a produção agropecuária e garantir a segurança alimentar no Brasil e no mundo. Ou seja, o objetivo do estudo é subsidiar políticas públicas, apoiar o planejamento setorial e orientar investimentos em energia rural.

    Gargalos

    A pesquisa mostra onde estão os maiores gargalos e destaca regiões que exigem expansão da infraestrutura elétrica. A equipe técnica baseou as projeções nas áreas com potencial de crescimento da irrigação. Além disso, o estudo apontou demanda reprimida em todas as regiões com agricultura irrigada. Ao mesmo tempo, também identificou deficiência na oferta de energia elétrica, com baixa qualidade ou ausência do serviço no campo.

    Para estimar os investimentos necessários, o estudo desenvolveu dois indicadores: o Índice de Adensamento Rural (IAR) e a Energia Não Suprida (ENS). O IAR mede a presença de rede elétrica de média tensão nas zonas rurais. Já o ENS analisa a continuidade do fornecimento às áreas irrigadas.

    Segundo os indicadores, a energia elétrica no campo ainda é insuficiente. “A falta de energia impede o funcionamento dos equipamentos de irrigação e compromete a produção agrícola”, destaca o documento.

    Capacidade do sistema elétrico

    O levantamento também avaliou a capacidade do sistema elétrico de atender à demanda futura. Para isso, o país precisa expandir a rede em 5% a 7% ao ano. A Região Norte enfrenta os maiores desafios estruturais. Em alguns Estados, será necessário ampliar a rede em mais de 20% ao ano.

    A análise também mapeou os 16 polos de agricultura irrigada no Brasil. Hoje, há um déficit de 2,5 gigawatts para abastecer essas regiões. Até 2040, a demanda deve chegar a 5 gigawatts, segundo projeção já adotada pelo setor no Atlas da Irrigação.

    A CNA reforça que o crescimento da irrigação exige políticas públicas articuladas com o setor elétrico. As diretrizes devem considerar a realidade do campo e planejar o atendimento à futura demanda dos irrigantes.

    O estudo também propõe ajustes no Prodist (Procedimentos de Distribuição de Energia Elétrica) e na Política Nacional de Irrigação. As mudanças visam alinhar os instrumentos normativos às necessidades das áreas irrigadas.

    A análise histórica das políticas setoriais revelou ausência de estratégias específicas para o atendimento energético da irrigação. Nenhuma política energética considerou, até agora, as áreas irrigadas como prioridade.

    A CNA utilizou como base o estudo da Esalq/USP, a Base de Dados Geográficos da Aneel (BDGD/2022) e o Atlas da Irrigação da ANA. As fontes garantem coerência com as demandas reais do setor produtivo.

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