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  • Espécies exóticas de moluscos crescem 215% no Brasil em 15 anos

    Espécies exóticas de moluscos crescem 215% no Brasil em 15 anos

    O número de espécies exóticas de moluscos registradas no Brasil saltou de 26 para 82 entre 2011 e 2025, um crescimento de 215% em apenas 15 anos. O dado integra o primeiro inventário de abrangência nacional sobre esses organismos no país e classifica 20 dessas espécies como invasoras, ou seja, capazes de gerar prejuízos ecológicos, socioeconômicos ou sanitários. Entre elas estão o mexilhão-dourado e o caramujo-africano, dois dos casos mais conhecidos de invasão biológica no território brasileiro.

    O levantamento reúne organismos terrestres, de água doce e marinhos, e revela uma expansão acelerada que preocupa pesquisadores. A equipe também identificou 13 espécies criptogênicas, cuja origem os cientistas ainda não conseguiram determinar com precisão.

    Pesquisadores identificam lacunas no monitoramento

    “Observamos uma taxa acelerada de introdução de moluscos não nativos no Brasil e lacunas persistentes no conhecimento taxonômico e ecológico dessas espécies”, afirma Marcel Sabino Miranda, que participou do estudo durante pós-doutorado no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), com bolsa da FAPESP.

    Fabrizio Marcondes Machado, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), liderou a pesquisa em parceria com cientistas de diferentes instituições e estados brasileiros. A revista Biological Invasions publicou o estudo em abril deste ano.

    Os autores defendem o fortalecimento urgente das medidas de biossegurança e dos esforços de detecção precoce. Eles também recomendam a criação de programas de monitoramento de longo prazo em todos os ambientes afetados, além da definição clara da qualidade e magnitude dos impactos já registrados.

    “Algumas espécies são bem problemáticas, como o mexilhão-dourado e o caramujo-africano, mas não sabemos se a maioria está causando algum dano ou pode vir a causar”, explica Miranda, que atualmente cumpre estágio de pós-doutorado na Universidade do Alabama, nos Estados Unidos, também com bolsa da FAPESP.

    Mexilhão-dourado e caramujo-africano lideram os prejuízos

    O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) chegou ao Brasil provavelmente no início dos anos 1990, após percorrer uma longa rota de invasões que começou na China. A espécie se espalhou por boa parte da América do Sul e hoje provoca entupimentos e perda de eficiência em usinas hidrelétricas. Mesmo com um plano de controle em curso, o molusco continua prosperando pelo país. Estimativas indicam que o combate à espécie já consumiu cerca de US$ 10 milhões no Brasil.

    mexilhão dourado
    Mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei). Foto: Luciano de Souza/Wikimedia Commons

    Produtores introduziram o caramujo-africano (Lissachatina fulica) no país como alternativa ao escargot, mas abandonaram o cultivo, e a espécie se espalhou pelo território nacional. O molusco pode se tornar uma praga agrícola e ainda funciona como hospedeiro intermediário do nematoide Angiostrongylus cantonensis, parasita causador de meningite.

    Segundo os pesquisadores, o Brasil ainda reúne poucas informações sobre moluscos invasores, mesmo com as invasões biológicas figurando entre as principais ameaças à biodiversidade global. No país, os estudos sobre espécies exóticas costumam concentrar o foco em peixes, artrópodes e mamíferos.

    Levantamento cobre mar, água doce e ambientes terrestres

    O caso do mexilhão Perna perna ilustra a complexidade de classificar a origem de uma espécie. Presente em todo o litoral brasileiro e cultivado para consumo humano, o molusco já foi apontado como introduzido no país, já que também ocorre na África, região considerada sua origem. Segundo essa hipótese, a espécie teria chegado ao Brasil no século 16, durante as grandes navegações.

    Estudos arqueológicos e moleculares mais recentes, no entanto, mudaram essa versão. As pesquisas identificaram uma população de Perna perna que se separou da linhagem africana há 2 mil anos e já ocorria no Brasil antes da chegada dos portugueses, em 1500. Os cientistas reclassificaram a espécie como nativa da América do Sul, descartando a hipótese de introdução humana.

    O inventário organiza as espécies não nativas em três ambientes. No mar e nos estuários, os pesquisadores contabilizaram 32 espécies não nativas e quatro criptogênicas. Na água doce (rios, lagos e lagoas)  o levantamento aponta 17 espécies não nativas e nenhuma criptogênica. Em ambientes terrestres, a equipe documentou 33 espécies não nativas e nove criptogênicas.

    Classificação segue critérios do MMA e da IUCN

    Os pesquisadores classificaram as espécies conforme diretrizes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da Classificação de Impacto Ambiental para Táxons Exóticos (EICAT), da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

    A categoria “não nativas contidas” reúne espécies com propagação restrita, como as mantidas em cativeiro, ou já sob controle em determinada área geográfica. Já a categoria “detectadas” engloba espécies presentes no ambiente, mas com ocorrências isoladas, sem sinais de crescimento populacional que indiquem estabelecimento ou disseminação.

    As espécies “estabelecidas” completam o ciclo de vida em ambiente natural e mostram sinais de crescimento populacional, ainda sem impactos negativos evidentes. Já as “invasoras” são espécies não nativas já estabelecidas no país que causam impacto ecológico, socioeconômico ou sanitário comprovado.

    Por fim, a categoria “deficiente de dados” reúne espécies com evidências de uma população estabelecida, mas sem informações suficientes para confirmar sua identidade ou medir seu nível de impacto. “A maioria nós apenas detectamos, não temos muita informação. O ideal é que fossem realizados grandes estudos e políticas para avaliar os possíveis impactos e planos para conter ou erradicar as espécies que causam prejuízos. Um estudo como esse, porém, é um primeiro passo importante nessa direção”, conclui Miranda.

    André Julião | Agência FAPESP

  • Invasora e perigosa: Rã que “muge” é monitorada em Florianópolis

    Invasora e perigosa: Rã que “muge” é monitorada em Florianópolis

    A presença da rã-touro (Aquarana catesbeiana) passou a ser monitorada em Florianópolis após registros confirmados no bairro Ratones.

    A espécie é considerada exótica invasora e preocupa autoridades ambientais devido ao seu potencial de impacto sobre ecossistemas locais.

    Espécie invasora e de alto impacto ecológico

    Originária da América do Norte, a rã-touro foi introduzida no Brasil em 1935 para criação comercial.

    Hoje, é classificada como uma das espécies de maior risco ambiental por sua alta capacidade de adaptação e reprodução.

    Predação e risco para fauna nativa

    Segundo pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a rã-touro é uma predadora generalista.

    Sua dieta inclui peixes, anfíbios, répteis e pequenos mamíferos, o que amplia seu impacto ambiental.

    Além disso, seu porte avantajado facilita a ocupação de nichos ecológicos antes ocupados por espécies nativas.

    Monitoramento e ações em campo

    A primeira confirmação oficial ocorreu em outubro de 2025, com ações coordenadas pela FLORAM em parceria com a Prefeitura de Florianópolis.

    Desde então, foram realizadas operações de campo que resultaram na captura de exemplares juvenis e adultos.

    Os animais coletados foram encaminhados para análises laboratoriais, incluindo testes para doenças como ranavírus e quitridiomicose.

    Risco de disseminação e alerta ambiental

    A presença da espécie em múltiplas propriedades indica possível expansão silenciosa da população.

    Autoridades reforçam a importância do monitoramento contínuo e da detecção precoce para evitar impactos maiores sobre a fauna local.

  • Introdução de espécies exóticas reduz rendimento da pesca no rio Paraná

    Introdução de espécies exóticas reduz rendimento da pesca no rio Paraná

    Análise de dados coletados ao longo de 20 anos no trecho superior do rio aponta queda de 50% nos ganhos econômicos com a pesca, com peixes nativos cada vez menores. Já os invasores, que têm valor de mercado mais baixo, são cada vez mais abundantes

    O rendimento pesqueiro caiu cerca de 50% em duas décadas no Alto Rio Paraná, divisa entre os estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. A queda é um efeito da invasão de espécies exóticas e da ocupação humana na região, de acordo com estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution.

    Os autores analisaram dados coletados entre 2002 e 2022 pelo Programa Ecológico de Longa Duração da Planície de Inundação do Alto Rio Paraná (PELD-PIAP), que desde o ano 2000 investiga e cataloga a biodiversidade e as condições ambientais na área. No período analisado, o tamanho médio dos peixes explorados comercialmente diminuiu. Ao mesmo tempo, os ganhos econômicos com a pesca caíram pela metade.

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    “À medida que aumentou a degradação ambiental por causa da ocupação humana, espécies nativas como o pintado [Pseudoplatystoma corruscans] passaram a ser menos capturadas pelos pescadores e no monitoramento realizado pelo PELD-PIAP, com os indivíduos encontrados cada vez menores”, explica Dieison Moi, primeiro autor do trabalho, realizado durante pós-doutorado no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) com bolsa a FAPESP. “Ao mesmo tempo, invasores como o tucunaré [Cichla sp.], nativo da bacia amazônica, aumentaram de tamanho corporal e tornaram-se mais abundantes”, complementa.

    Além dos conhecidos danos aos ecossistemas provocados pela substituição de espécies nativas por invasoras, como perda de biodiversidade, para os pescadores a troca também é prejudicial em termos econômicos. Isso porque, em média na região, os peixes nativos têm valor de mercado 80% superior aos invasores. Enquanto os cada vez mais raros pintados nativos podiam custar cerca de R$ 47 (US$ 8,26) por quilo na época da publicação do estudo, por exemplo, a mesma quantidade dos abundantes tucunarés invasores valia cerca de R$ 9 (US$ 1,65).

    “A substituição de espécies nativas por invasoras é um fenômeno que tem sido observado no mundo todo. Com grave impacto na biodiversidade e na vida de populações humanas que dependem da pesca. No entanto, poucos estudos possuem uma amostragem contínua como a que usamos. E que demonstra o tamanho do problema de forma bastante clara”, comenta Gustavo Quevedo Romero, professor do IB-Unicamp e autor sênior do trabalho.

    Rio grande, peixes pequenos

    Atualmente, Romero coordena três projetos apoiados pela FAPESP. Incluindo um no âmbito do Programa BIOTA e outro no do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (23/01589-0, 22/10765-3 e 19/08474-8).

    Com 5.695 quilômetros de extensão, o Paraná é o segundo maior rio da América do Sul e quarto do mundo em área de drenagem. Apesar de ocupar 10% do território nacional, sua bacia tem a maior concentração populacional do Brasil, com 32% da população do país. Em 1984, a porção mais alta do rio recebeu a Usina Hidrelétrica Itaipu Binacional, alterando profundamente os ecossistemas locais.

    Rio Paraná é uma das principais vias de integração do Mercosul. Foto: Kiko Sierich/MTur

    Para o estudo, os pesquisadores analisaram oito ambientes — cinco lagos e três rios — ao longo da planície de inundação do Alto Rio Paraná. Eles amostraram cada ambiente quatro vezes ao ano, uma em cada estação. Em cada local, colocaram redes de pesca sempre nos mesmos pontos, onde permaneceram por 24 horas, realizando três coletas diárias de peixes de diferentes tamanhos.

    Métodos

    Para analisar a ocupação humana na região entre 2002 e 2022, os pesquisadores recorreram a mapas gerados por satélite disponíveis no MapBiomas, em que as áreas foram classificadas em naturais (florestas, terras alagadas e corpos d’água) e humanas (áreas agrícolas e cidades).

    Os autores observaram uma correlação entre a perda de espécies nativas e a intensificação da ocupação humana. Para 31 espécies nativas (36,9%) houve ligação direta entre fenômenos como o desmatamento e a urbanização e a diminuição de biomassa, seja em quantidade de indivíduos ou no tamanho deles. Apenas três espécies nativas (3,5%) se beneficiaram.

    Com as invasoras ocorreu o inverso. 20 espécies (37%) se beneficiaram da intensificação do uso do solo e apenas duas (3,7%) foram prejudicadas, quando analisado o mesmo critério. Ao mesmo tempo, pesquisadores associaram o aumento no tamanho corporal das espécies nativas ao maior potencial pesqueiro da região. Por outro lado, o aumento no tamanho corporal das invasoras reduziu o potencial pesqueiro da região.

    “A presença de espécies não nativas causa uma erosão do suprimento de serviços ecossistêmicos nessa região. Há um efeito em cascata, em que a ocupação humana reduz a cobertura de áreas naturais, prejudicando espécies nativas e favorecendo invasoras. Com isso, as nativas diminuem em tamanho e presença, o que causa um declínio na pesca”, afirma Moi.

    Resultados

    Da perspectiva da provisão de serviços ecossistêmicos, os resultados do estudo demonstram como pode ser muito mais efetivo desenvolver estratégias de conservação e manejo dos recursos naturais do que introduzir espécies não nativas. No entanto, as políticas públicas que buscam enfrentar o problema normalmente fazem o contrário. Facilitando ou mesmo incentivando a introdução de peixes advindos de outros ambientes.

    Em foto com lente chamada de olho de peixe, pesquisadores realizam coletas no rio Paraná: enquanto os cada vez mais raros pintados nativos podiam custar R$ 47/kg na época da publicação do estudo, o quilo dos abundantes tucunarés invasores valia cerca de R$ 9. Foto: Celso Ikedo/PELD-PIAP

    “Precisamos de recursos para estudos de longo prazo como o PELD-PIAP, que por sua vez podem fornecer as evidências científicas necessárias para dar base para as políticas públicas nesse campo e beneficiar as espécies e a população humana”, afirma o pesquisador.

    Além da Unicamp, o estudo teve participação de pesquisadores das universidades estaduais de Maringá (UEM) e Santa Catarina (Udesc), federais de São Carlos (UFSCar) e Santa Catarina (UFSC) e de universidades do Uruguai e do Reino Unido.

    Por André Julião | Agência FAPESP

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