A Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 3801/04, de autoria do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que cria o Dia Nacional do Vinho, a ser celebrado no primeiro domingo de junho.
O texto recebeu alterações no Senado para retirar o trecho que previa a inclusão da data no calendário oficial de diferentes ministérios. Agora, a proposta segue para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ), responsável pela redação final, antes de ser encaminhada para sanção presidencial.
Segundo Paulo Pimenta, a produção de vinhos no Brasil teve início com a chegada dos imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul, em 1875.
“O Brasil, portanto, é um país jovem na elaboração de vinhos, comparado a outras tradicionais nações produtoras. Contudo, é evidente o interesse cada vez maior dos brasileiros pelo produto”, afirmou o parlamentar.
De acordo com o deputado, a criação da data busca fortalecer o setor vitivinícola brasileiro e incentivar o turismo nas regiões produtoras.
Atualmente, cerca de 10% dos gaúchos consomem vinho, percentual acima da média nacional, estimada em 1,8% da população brasileira.
“Acreditamos que a criação da data oficial possa estimular a população brasileira a adotar este hábito, que, como é comprovado pela ciência, é benéfico à saúde – desde que o consumo seja moderado, regular, junto das refeições”, declarou Pimenta.
Cadeia do vinho gera milhares de empregos
O setor vitivinícola brasileiro reúne mais de 16 mil famílias de produtores rurais, principalmente em pequenas propriedades familiares.
Além disso, o país possui mais de 600 vinícolas, responsáveis por gerar cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos em toda a cadeia produtiva.
As vitivinícolas controlam todas as etapas da produção, desde o cultivo das uvas até o engarrafamento do vinho.
O FCJ Group está lançando o Únikko Winery Ventures, uma plataforma inédita no Brasil que aplica lógica de investimento, governança e escala a vinícolas, olivais e enoturismo de altitude. A meta inicial é estruturar mais de R$ 100 milhões em investimentos no setor nos próximos dois anos.
A iniciativa nasceu em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira paulista. E opera com base no conceito de Venture Scaling, modelo que combina estruturação financeira, governança, tecnologia e aceleração operacional para transformar ativos isolados em projetos escaláveis. Em vez de atuar diretamente na produção agrícola, a plataforma organiza e valoriza vinícolas, olivais e experiências territoriais para prepará-los para acesso a capital, expansão de mercado e internacionalização.
“O mundo já entendeu o valor do terroir. O que ainda está sendo construído é o valor econômico do território”, afirma Geraldo Santos, fundador e CEO do Únikko Winery Ventures. “O Brasil já produz vinhos e azeites de altitude com qualidade reconhecida. O que faltava era uma estrutura capaz de organizar esse mercado, conectando capital, governança e inteligência para transformar ativos isolados em projetos escaláveis e valorizados.”
Além dos investimentos em produção, o Únikko mira o enoturismo. Em regiões consolidadas como Napa Valley (EUA) e Toscana (Itália), o segmento já funciona como um dos principais propulsores econômicos locais, aquecendo hotelaria, gastronomia, mercado imobiliário e geração de empregos. A proposta é replicar esse ciclo nas regiões de altitude do Brasil, a partir da Serra da Mantiqueira, avançando progressivamente para outros polos produtores.
O setor tem espaço para crescer: o mercado global de vinhos movimenta mais de US$ 400 bilhões por ano, enquanto o enoturismo já supera US$ 60 bilhões globalmente. No Brasil, o país conta com mais de 1.200 vinícolas, muitas em regiões emergentes de altitude que começam a conquistar reconhecimento internacional.
A força do ecossistema FCJ
O projeto conta com a estrutura do FCJ Group, que ao longo dos últimos anos consolidou uma das maiores plataformas de inovação e investimento da América Latina. São mais de 300 startups no portfólio, mais de 1.500 investidores e atuação no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.
trio de empresários à frente Únikko Winery Ventures, que nasceu em São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira paulista. Foto: Divulgação
Para Justino, fundador e CEO do FCJ Group e sócio estratégico da iniciativa, o setor reúne condições ideais para atrair capital qualificado. “Nosso trabalho sempre foi estruturar novos mercados com método, governança e acesso a capital. O setor de vinhos, azeites e experiências de altitude reúne exatamente essas condições: ativos reais, forte identidade territorial e crescente interesse do consumidor premium.”
Captação regulada e expansão global
Os projetos selecionados pela plataforma passarão por aceleração e preparação para atração de capital, organizado por meio de plataformas reguladas pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), já integrantes do Grupo FCJ. A ambição vai além do Brasil. O Únikko planeja levar o modelo para mercados internacionais com características semelhantes. Portanto, posicionando o país como referência global em ativos premium ligados à vitivinicultura e ao enoturismo.
“Se a primeira fase dos vinhos de altitude no Brasil foi marcada pela evolução técnica e pelo reconhecimento da qualidade, a próxima será definida por capital, governança e escala”, conclui Geraldo Santos. “É exatamente nesse ponto que o Únikko Winery Ventures pretende atuar.”
A Serra da Mantiqueira transforma o enoturismo em motor econômico regional. A região combina natureza, gastronomia e agricultura de altitude para atrair visitantes que buscam experiências autênticas relacionadas à produção local de vinhos e azeites.
As vinícolas paulistas expandem operações e consolidam a Mantiqueira como polo estratégico do turismo de experiência no estado de São Paulo. A diversidade de rótulos, circuitos gastronômicos e azeites artesanais converte a Serra em destino preferencial para quem valoriza cultura e produtos regionais.
Dados oficiais confirmam expansão do setor
A Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (Setur-SP) e o Centro de Inteligência da Economia do Turismo (CIET) divulgaram em setembro dados que comprovam o crescimento do enoturismo. O levantamento aponta que 82% das vinícolas aumentaram o número de visitantes desde o lançamento das Rotas do Vinho de São Paulo.
O fluxo turístico cresceu 27% em média nas vinícolas participantes. Cada turista gasta, em média, R$ 204 por visita. A Setur-SP projeta crescimento adicional até o fim do ano.
Vinícola Essenza une dois estados em experiência integrada
A Vinícola Essenza, localizada a 14 quilômetros do centro de Santo Antônio do Pinhal, exemplifica o modelo de negócio que impulsiona o setor. O empreendimento integra as Rotas do Vinho de São Paulo — iniciativa que reúne 66 vinícolas no estado — e recebe visitantes em espaço enogastronômico estruturado.
O fundador e produtor Herbert Sales desenvolveu um conceito que conecta produção e hospitalidade. “A Serra tem uma vocação agrícola consolidada. O enoturismo é a continuidade natural desse processo, porque mostra que cada garrafa representa um território inteiro”, explica Sales.
Foto: Régis Silva/Divulgação
A empresa mantém duas propriedades produtivas. A unidade de Maria da Fé (MG) abriga o olival mais alto do mundo e o vinhedo mais alto do Brasil, a 1.910 metros de altitude. A localização em Santo Antônio do Pinhal funciona como espaço de recepção e degustação.
“Ambas as propriedades estão na Serra da Mantiqueira. Maria da Fé é o coração produtivo e Santo Antônio do Pinhal é o espaço de acolhimento. Essa combinação permite que o visitante tenha uma experiência com os dois terroir”, afirma Herbert Sales.
Reconhecimento internacional marca produção
A Vinícola Essenza conquistou quatro medalhas de Bronze no Decanter World Wine Awards (DWWA) 2025, considerado o maior concurso de vinhos do mundo. Os rótulos premiados incluem Espumante Rosé Extra Brut, Mantikir Merlot 2024, Mantikir Pinot Noir 2024 e Mantikir Alvarinho 2024.
A vinícola também produz azeites premiados a partir das variedades Koroneiki, Grappolo, Arbequina e Coratina. As condições de montanha e o manejo técnico especializado geram produtos de caráter singular.
Herbert Sales atribui os resultados ao estudo contínuo do microclima regional. “As altitudes da Mantiqueira exigem técnicas específicas. Nosso foco é interpretar o solo, o clima e as variedades para alcançar equilíbrio e identidade em cada rótulo”, explica o produtor.
Menu franco-brasileiro harmoniza experiência gastronômica
A Vinícola Essenza lançou em dezembro o novo menu enogastronômico Estação Franco Mantikir. A proposta combina técnicas da culinária francesa com ingredientes regionais da Serra da Mantiqueira.
O menu apresenta quatro etapas harmonizadas com vinhos premiados da vinícola. A experiência começa com welcome drink de espumante Essenza acompanhado de presunto cru produzido localmente. A sequência inclui peixe branco com beurre blanc e caviar de azedinha, corte suíno nobre com demiglacê de mirtilo, filé mignon com molho dijon e mil-folhas de batata, e entremet de café como sobremesa.
Os visitantes também participam de tour pelo espaço produtivo e têm acesso à loja de produtos regionais.
“Nosso propósito é que o visitante entenda o ciclo completo. Do cultivo ao prato, do azeite ao vinho. Tudo o que produzimos aqui na Essenza reflete o mesmo solo e o mesmo clima”, destaca Herbert Sales.
Terroir da Mantiqueira valoriza conceito slow food
O modelo de enoturismo desenvolvido na Serra da Mantiqueira conecta visitantes à origem dos produtos e valoriza o conceito slow food. A proposta enfatiza a relação entre território, produtores e sabores locais.
Herbert Sales durante colheita da safra de uvas 2025. Foto: Régis Silva/Divulgação
“Queremos que o cliente se sinta parte da Mantiqueira e perceba que por trás de cada garrafa há um território vivo, com produtores, histórias e sabores locais. Nosso propósito é mostrar que a Mantiqueira é um território produtivo, inovador e em expansão. A Essenza é um reflexo desse movimento que une sustentabilidade, turismo e qualidade”, conclui Herbert Sales.
Minas Gerais registra uma revolução silenciosa em seus campos. A produção de vinhos finos de qualidade deixou de ser sonho e virou realidade consolidada. O estado conta hoje com aproximadamente 130 vinícolas, número que mais que dobrou desde 2020, quando havia cerca de 50 estabelecimentos.
A transformação começou nas últimas duas décadas. A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) adaptou e validou a tecnologia de dupla poda da videira. Essa inovação permitiu a produção dos famosos “vinhos de inverno”, que trouxeram notoriedade para o setor.
Embora relatos históricos indiquem que a atividade vitícola mineira começou no século XIX, foram os vinhos de inverno que colocaram o estado no mapa nacional da bebida. O crescimento acompanha o sucesso em premiações nacionais e internacionais, além de impulsionar os setores de gastronomia e turismo.
Restaurantes abraçam tradição mineira com cartas de vinhos locais
A chef e historiadora Juliana Duarte incorporou os vinhos mineiros como carro-chefe do restaurante Cozinha Santo Antônio, em Belo Horizonte. “Somos cheios de mineirices em nossos ingredientes, na forma de servir e receber as pessoas”, explica ela.
Foto: Divulgação Epamig/Seapa
A profissional conheceu os vinhos de inverno quando trabalhava como publicitária. Hoje, ela orienta a equipe para sempre oferecer essas opções aos clientes. “As pessoas têm muita curiosidade de conhecer e eu tenho muito orgulho de servir”, destaca.
O menu especial “Mineirices” harmoniza pratos típicos com vinhos produzidos no estado. O restaurante recebe muitos turistas e missões estrangeiras, momento que Juliana aproveira para apresentar a produção local.
Distribuidoras apostam na qualidade dos vinhos mineiros
A Rex Bibendi, distribuidora que atua há mais de 30 anos em Belo Horizonte, descobriu os vinhos mineiros há cerca de 15 anos. A proprietária Dulce Ribeiro buscava opções de vinhos nacionais quando um enólogo do Sul recomendou que ela acompanhasse a nova produção de Minas Gerais.
“A maioria são agricultores estruturados em outras áreas que apostaram nessa nova cadeia, confiando na pesquisa”, conta Dulce. Ela credita o sucesso ao investimento científico da Epamig.
A empresária enxerga os vinhos como tradução da identidade local. “O vinho mineiro não é uma coisa única, cada produtor faz um vinho próprio”, explica. Seu sonho é ver cartas de vinhos representando várias regiões de Minas Gerais.
Setor se organiza para conquistar reconhecimento oficial
O Sindicato da Indústria do Vinho de Minas Gerais (Sindvinho) trabalha junto ao poder público no projeto Selo de Origem Mineira – Uai Wine. A iniciativa prevê que estabelecimentos comerciais ofereçam no mínimo três vinhos mineiros, segundo a presidente Heloísa Bertoli.
Foto: Divulgação Epamig/Seapa
O vice-governador Mateus Simões destaca as ações governamentais para consolidar a cadeia produtiva. O trabalho inclui criação de rotas enoturísticas e apoio a eventos como o Uai Wine, realizado no Palácio da Liberdade.
“Nossos produtos ganham prêmios no mundo inteiro”, afirma José Procópio Stella, presidente da Associação dos Produtores de Uva e Vinho de Minas Gerais (Uva-MG). Ele reforça a necessidade de mostrar aos mineiros que o estado produz vinhos de alta qualidade em todas as regiões.
Enoturismo impulsiona pequenos produtores e economia local
José Procópio Stella, proprietário da centenária vinícola Stella Valentino em Andradas, aposta no turismo rural. Ele estabelece parcerias com outras cadeias produtivas locais, como café, queijos, doces e azeites.
O produtor revela que quase 90% das vinícolas mineiras são pequenas e focam no enoturismo. “O vinho é um dos produtos que mais atrai turistas no mundo”, destaca. Ele projeta o potencial turístico aliado ao contexto histórico, culinária, receptividade e artesanato mineiros.
A combinação desses elementos posiciona Minas Gerais como destino enoturístico em ascensão. O estado consolida nova identidade cultural, somando os vinhos às tradições já reconhecidas nacionalmente.
O IV Festival Vinopar do Vinho Paranaense, realizado no Museu Oscar Niemeyer (MON) em Curitiba nos dias 7 e 8 de junho de 2025, evidenciou o avanço da produção de uva e vinho no Paraná e seu potencial como vetor de desenvolvimento turístico e integração comunitária.
O evento reuniu cerca de 1.200 pessoas, com degustação de mais de 80 rótulos produzidos por 13 vinícolas do estado, além de estandes de queijos artesanais, gastronomia regional e workshops sobre vitivinicultura e enoturismo.
A entrada foi gratuita, mas a degustação exigiu a compra de uma taça personalizada, incentivando a experiência sensorial e o contato direto com os produtores.
O festival contou com palestras e workshops, atraindo também profissionais do setor turístico e gastronômico, ampliando o alcance do evento para além do público consumidor.
Vinho paranaense: qualidade e tradição em ascensão
O Paraná é o quarto maior produtor nacional de uvas, com destaque tanto para uvas de mesa quanto para viníferas voltadas à produção de vinhos finos. A produção de vinho no estado, tradicionalmente ligada à chegada de imigrantes europeus no século XIX, passou por altos e baixos. Mas vive atualmente um ciclo de retomada, com o uso de novas variedades e tecnologias adaptadas ao clima local.
Em 2023, 143 municípios paranaenses produziram uvas para transformação em vinho, totalizando 15.774 toneladas e gerando R$ 57,7 milhões em valor bruto de produção.
O Sul do estado se destaca na produção de vinhos, enquanto o Norte lidera na produção de uvas de mesa, com municípios como Marialva e Uraí entre os principais polos.
As vinícolas presentes no festival incluem nomes como Araucária, Bertoletti, Betiatto, Costantini, Cooperante, Di Turra, Durigan, Família Fardo, Franco Italiano, Legado, RH, Vô Vito e Zanlorenzi.
Enoturismo: nova fronteira para o Paraná
O festival reforçou o papel do vinho como elemento integrador e de valorização do território. Além disso, promove o enoturismo como estratégia para gerar emprego, renda e fortalecer a identidade regional. Muitas vinícolas já oferecem experiências completas, com visitação, hospedagem e gastronomia, ampliando o potencial turístico do estado.
O programa Revitis, criado em 2019 pelo Governo do Estado, atua em quatro frentes. Incentivo à produção, reorganização da comercialização, desenvolvimento do turismo e apoio à agroindústria. Já foram investidos mais de R$ 7,5 milhões, beneficiando mais de 400 agricultores familiares e promovendo a modernização e diversificação do setor.
Reconhecimento
O vinho paranaense vem sendo premiado nacional e internacionalmente, reflexo do investimento em tecnologia, qualificação e integração dos produtores. O festival no MON consolidou-se como vitrine dessa evolução, estimulando o consumo local e o turismo. Além disso, projeta o Paraná como um novo destino relevante no mapa do vinho brasileiro.
“Mostramos aqui a qualidade do vinho paranaense, que está sendo premiado nacional e internacionalmente. Estamos em um potencial muito bom de produção, desenvolvimento tecnológico e aperfeiçoamento”, diz Claudinei Bertoletti, presidente da Vinopar
Assim, o sucesso do festival e o fortalecimento das cadeias produtivas de uva e vinho apontam para um futuro promissor, em que o vinho paranaense conquista espaço à mesa e no roteiro de viagens de brasileiros e estrangeiros.
A 5ª edição da Wine South America (WSA), maior feira de vinhos da América Latina, foi oficialmente aberta nesta terça-feira (6) em Bento Gonçalves, no coração da Serra Gaúcha. O evento, que segue até hoje (8), reúne 430 marcas nacionais e internacionais, batendo recorde de expositores e participação de vinícolas brasileiras.
Na cerimônia de abertura, o governador Eduardo Leite anunciou a liberação de R$ 11,3 milhões para o Fundo de Desenvolvimento da Vitivinicultura (Fundovitis),elevando o total investido no setor para R$ 44,3 milhões. O recurso fortalece a parceria entre a Secretaria da Agricultura (Seapi) e o Consevitis, impulsionando ações estratégicas para a vitivinicultura gaúcha, responsável por 90% da produção nacional de vinho.
Destaques da Wine South America 2025
Crescimento de 20% no número de expositores
Participação de 12 países, com destaque para a estreia de Portugal e dos vinhos de Brasília
Presença marcante da Itália, representada pelo embaixador Alessandro Cortese e pelo cônsul-geral Valerio Caruso
Expectativa de movimentar R$ 100 milhões em negócios durante e após o evento
Fortalecimento do setor e enoturismo
Em seu discurso, o governador Eduardo Leite destacou a resiliência do setor, que superou a maior calamidade da história do RS em 2024. “Esta feira não é só sobre negócios, mas também sobre orgulho e superação”, afirmou.
Foto: César Silvestro/Vagão Filmes
Daniel Panizzi, vice-presidente do Consevitis-RS, reforçou a importância econômica do setor, que envolve 15 mil agricultores e gera 100 mil empregos diretos e indiretos. O enoturismo, que movimenta 70 setores econômicos, representa 10% do PIB gaúcho.
Presenças ilustres e apoio institucional
A abertura contou ainda com a participação do vice-governador Gabriel Souza, do prefeito Diogo Siqueira, e de representantes da Caixa Econômica Federal e do Sebrae Nacional.
A Wine South America 2025 é voltada para profissionais do mercado, incluindo importadoras, distribuidores, sommeliers e estabelecimentos especializados. Com uma programação repleta de degustações, palestras e rodadas de negócios, a feira consolida a Serra Gaúcha como o principal polo vitivinícola do Brasil.
Grão Mogol, município localizado ao pé da Cordilheira do Espinhaço, no Norte de Minas Gerais, está se destacando como referência na produção de uvas e vinhos de alta qualidade, mesmo em condições climáticas desafiadoras típicas do semiárido. Com técnicas modernas de irrigação, manejo adequado e apoio técnico de instituições como a Epamig e a Unimontes, produtores locais têm alcançado produtividade excepcional e reconhecimento nacional.
Apesar da baixa incidência de chuvas – cerca de 900 mm por ano – e do clima quente e seco, os vinhedos de Grão Mogol apresentam produtividade média de 4 quilos por planta da variedade Merlot, com duas safras anuais. Essa performance é resultado da adoção de fertirrigação, manejo eficiente e constante troca de informações entre produtores e pesquisadores. O município já produz vinhos de diversos estilos, incluindo espumantes, vinhos licorosos, brancos, jovens e tintos de guarda, que podem envelhecer por até 20 anos.
Reconhecimento nacional e desenvolvimento local
O sucesso da vitivinicultura local foi reconhecido em 2024, quando o vinho Casa Velha, produzido pela vinícola Vale do Gongo, conquistou a medalha Grande Ouro no Concurso Nacional de Vinhos de Mesa, realizado em Bento Gonçalves (RS), referência nacional no setor. Essa foi a primeira vez que um vinho do Norte de Minas obteve destaque em um concurso desse porte, comprovando o potencial do terroir sertanejo para a produção de vinhos de excelência.
Foto: Diego Vargas /SEAPA
A parceria entre produtores e instituições de pesquisa tem sido fundamental para o avanço da viticultura em Grão Mogol. Segundo a coordenadora do Programa Estadual de Pesquisa em Vitivinicultura da Epamig, Renata Vieira, as condições de solo e clima da região permitem duas safras anuais apenas com manejo de irrigação e poda, sem a necessidade da técnica de dupla poda utilizada em outras regiões do estado. Estudos em andamento buscam aprimorar ainda mais o manejo das variedades cultivadas, especialmente a Merlot.
Impacto econômico e fortalecimento do enoturismo
Além da produção de uvas e vinhos, Grão Mogol também se destaca pelo desenvolvimento do enoturismo. O setor turístico local cresceu mais de 300% nos últimos anos, impulsionado pelas experiências oferecidas nas vinícolas e pela valorização dos produtos regionais. O secretário de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, Thales Fernandes, destacou o potencial do município não apenas para a vitivinicultura, mas também para o cultivo de café, devido à topografia e altitude favoráveis.
Com produção anual de 60 toneladas de uvas e 15 mil litros de vinho, além de uma produtividade de até 50 toneladas por hectare para uvas de mesa, Grão Mogol consolida-se como um novo polo da vitivinicultura brasileira. O microclima local, marcado por noites frias e clima seco, contribui para a qualidade das uvas, favorecendo a maturação fenólica e o controle de patógenos, fatores essenciais para a produção de vinhos premiados.
A produção de vinhos no Brasil tem ganhado destaque nas últimas décadas, tornando-se uma atividade econômica importante, especialmente na região Sul do país. Até agora, oss estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná são os principais responsáveis pela vitivinicultura brasileira, com o Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul, sendo uma das áreas mais renomadas.
O clima temperado e a diversidade de solos da região favorecem o cultivo de diversas variedades de uvas, como Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay. Além disso, a viticultura brasileira tem se destacado pela adoção de técnicas modernas e pela busca por qualidade, resultando em vinhos que conquistam mercados internacionais. Com um crescente interesse por enoturismo, a produção de vinho no Brasil não só contribui para a economia local, mas também promove a cultura e as tradições da região.
Mas agora, o agreste pernambucano também está se tornando um novo polo de produção de vinhos finos, impulsionado por pesquisas inovadoras realizadas pela Embrapa Semiárido, em parceria com a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape) e o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA). Essas pesquisas identificaram seis variedades de uvas recomendadas para a região, comprovando a viabilidade do cultivo local e a qualidade dos vinhos produzidos.
O estudo avaliou dez variedades de uvas europeias em cinco ciclos de produção no campo experimental do IPA, localizado em Brejão (PE). O objetivo foi analisar o comportamento agronômico das variedades, sua adaptação ao clima, a qualidade das uvas, seu potencial enológico e a viabilidade de se produzir vinhos em regiões que tradicionalmente não cultivam videiras.
Variedades de uvas aumentam opções do produtor
Entre as variedades indicadas para a produção de vinhos brancos, destacam-se a Sauvignon Blanc, Muscat Blanc à Petits Grains (conhecido como Moscato Branco) e Viognier. Para os vinhos tintos, as melhores opções são Syrah, Cabernet Sauvignon e Malbec. Segundo a pesquisadora Patrícia Coelho de Souza Leão, da Embrapa, essas cultivares apresentaram excelente desempenho agronômico, produtividade e potencial para vinificação. “Sauvignon Blanc, Syrah e Malbec foram as que mais se destacaram, com uma produtividade média de 10 toneladas por hectare, comparável à do Vale do São Francisco, um polo vinícola consolidado”, explica.
Além disso, as variedades Chardonnay, para vinhos brancos, e Pinot Noir e Petit Verdot, para vinhos tintos, também foram testadas. Contudo, essas uvas não se adaptaram bem às condições locais, apresentando baixo vigor, desenvolvimento vegetativo insatisfatório e produtividade reduzida, conforme explicou a pesquisadora.
O projeto incluiu ainda a avaliação da qualidade dos vinhos produzidos com as uvas cultivadas. A vinificação ocorreu no Laboratório de Enologia da Embrapa Semiárido, utilizando métodos tradicionais em escala experimental. Os vinhos resultantes atenderam às normas da legislação brasileira para vinhos finos secos e obtiveram destaque em análises sensoriais realizadas pela equipe da Escola do Vinho, do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IF Sertão-PE), confirmando o grande potencial da produção vinícola no Agreste de Pernambuco.
A pesquisa tem sido fundamental para impulsionar o cultivo de uvas viníferas e a produção de vinhos de alta qualidade no Agreste pernambucano. Isso vem atraindo investidores interessados no enoturismo como uma nova oportunidade de negócios. “Os resultados estimulam a produção de uvas viníferas na região. Além de fomentar o turismo, a vitivinicultura diversifica a produção agrícola, especialmente para pequenos e médios agricultores, e oferece vinhos de qualidade diferenciada em comparação aos do Semiárido”, comenta Souza Leão.
As variedades abaixo foram avaliadas na pesquisa:
Muscat Blanc à Petits Grains
O ciclo produtivo foi de 129 dias, com uma produtividade média de 6 toneladas por hectare, podendo chegar a 8 toneladas em condições ideais. Cada planta produziu em média 12 cachos, com massa de 148 gramas, e um rendimento de polpa de 74,39%. O vinho branco seco dessa variedade destacou-se pela cor esverdeada com reflexos dourados, aromas tropicais, cítricos e florais, além de um corpo leve com equilíbrio entre álcool e acidez.
Sauvignon Blanc
O ciclo fenológico dessa uva foi de 135 dias, com produtividade média de 11 toneladas por hectare, atingindo até 16 toneladas. Cada planta produziu cerca de 23 cachos, com massa média de 109 gramas e rendimento de polpa de 70,37%. O vinho produzido é límpido, com aromas de frutas brancas, tropicais e cítricas, e oferece um sabor equilibrado e persistente.
Viognier
O ciclo de produção variou entre 132 e 138 dias, com produtividade média de 5 toneladas por hectare, podendo alcançar até 6 toneladas. As plantas produziram, em média, 12 cachos de 94 gramas cada. O vinho seco de Viognier apresentou uma cor amarelo pálido, aromas complexos com notas de mel, baunilha e frutas cítricas, e sabor equilibrado.
Syrah
Com um ciclo fenológico de 144 dias, essa variedade teve uma brotação de 60,37% e produtividade de 10 toneladas por hectare, podendo atingir 14 toneladas. Os cachos pesavam cerca de 110 gramas e o rendimento de polpa foi de 61,73%. O vinho tinto seco apresentou cor rubi, aromas de frutas vermelhas e especiarias, corpo médio e boa persistência.
Cabernet Sauvignon
Com ciclo variando de 149 a 160 dias, essa variedade apresentou uma produtividade de 4 a 5 toneladas por hectare. Cada planta produziu cerca de 10 cachos de 105 gramas cada, com rendimento de polpa de 59,83%. O vinho dessa uva apresentou cor rubi com reflexos acastanhados, aromas de pimentão verde, especiarias, frutas vermelhas em compota e menta, com sabor equilibrado e corpo médio.
Malbec
O ciclo fenológico da Malbec foi de 146 dias, com uma brotação média de 54,65% e produtividade de 10 toneladas por hectare, podendo chegar a 18 toneladas em condições ideais. Os cachos dessa variedade tinham uma massa média de 140 gramas. O vinho tinto seco jovem produzido a partir da Malbec apresentou coloração rubi com reflexos violáceos, brilho intenso e boa limpidez. Os aromas se destacaram por notas de frutas vermelhas e negras, com um toque floral. O sabor era frutado, com corpo leve, resultando em um vinho equilibrado e agradável ao paladar.
União entre pesquisa e empreendedorismo
A pesquisa desenvolvida pela Embrapa Semiárido deu início ao surgimento de uma nova região vinícola no Agreste pernambucano, especialmente na cidade de Garanhuns, ao comprovar a viabilidade do cultivo de uvas em áreas locais. Esse esforço uniu a ciência à iniciativa empresarial, revelando o potencial da vitivinicultura de altitude nessa região.
O médico e empresário Michel Moreira Leite foi pioneiro ao explorar esse potencial. Dono da vinícola Vale das Colinas, ele produz aproximadamente 6 mil garrafas de vinho por ano, já premiadas nacionalmente, tornando-se um exemplo de inovação no Agreste.
Sua jornada começou em 2013, quando ele e sua esposa adquiriram um terreno de 37 hectares na zona rural de Garanhuns, com a intenção de cultivar uvas viníferas. “Não sabíamos por onde começar, então fomos à Embrapa em busca de informações sobre a viabilidade técnica do projeto”, relembra Leite.
No centro de pesquisa, eles descobriram que já existiam experimentos em andamento sobre o cultivo de uvas viníferas no Agreste. A colaboração com a Embrapa foi essencial para o desenvolvimento do projeto piloto na região. Leite firmou um convênio de cooperação técnica, cedendo seu vinhedo para novos estudos.
A partir dessa parceria, em 2018, nasceu a Vale das Colinas. Inicialmente, foram plantadas as variedades Cabernet Sauvignon, Malbec e Muscat Petit Grain em uma área de 3,5 hectares. A primeira colheita, realizada em 2020, marcou o início das atividades de enoturismo da vinícola. Posteriormente, a área cultivada foi expandida para 14 hectares, introduzindo novas variedades, como Syrah, Chenin Blanc e Marselan.
Produção sustentável
Com foco na produção artesanal e sustentável, a Vale das Colinas posiciona-se como uma Vinícola Boutique, priorizando a colheita manual e promovendo visitas e eventos. “Não queremos mecanizar, pois a geração de empregos é um dos nossos compromissos”, afirma Leite.
Atualmente, a vinícola oferece cinco rótulos, entre eles três tintos — Cabana do Vale Reserva (Cabernet Sauvignon), Dona Elisa (Malbec) e Cabana do Vale (Cabernet Sauvignon) — e dois brancos — Dona Cecília (Muscat Blanc à Petits Grains) e Ciranda (Sauvignon Blanc). As primeiras safras foram vinificadas com o apoio da Embrapa e do Instituto Federal do Sertão, em Petrolina. Desde a terceira safra, a vinificação passou a ser feita na própria propriedade, com a última safra resultando em 19.500 garrafas.
Os experimentos e análises comprovaram a viabilidade da produção local e a qualidade dos vinhos produzidos. Foto: Edmea Ubirajara
Leite agora busca reduzir custos e aumentar a competitividade do negócio, mas destaca que o impacto mais significativo foi o desenvolvimento humano na região. “Nossa vinícola fortaleceu a hotelaria e a gastronomia de Garanhuns, impulsionando o turismo local”, afirma.
Crescimento atrai novos produtores
O crescimento da vitivinicultura no Agreste já atraiu outros empreendedores. Como a Vinícola Mello, que começou suas operações em 2021, cultivando variedades como Malbec, Merlot, Cabernet Franc, Chenin Blanc, Chardonnay e Pinot Noir. Além disso, estão sendo realizados estudos com 12 novas variedades para expandir ainda mais o potencial vinícola da região.
Patrícia Souza Leão, pesquisadora da Embrapa, destaca que o sucesso do enoturismo tanto no Agreste quanto no Semiárido pernambucano tem atraído a atenção de empreendedores de outros estados do Nordeste. Projetos de vinhedos estão em desenvolvimento em cidades como Camocim de São Félix, Bonito, Gravatá e Flores, em Pernambuco; Bananeiras, Natuba e Sousa, na Paraíba; e São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte.
“As pesquisas da Embrapa e de seus parceiros têm fortalecido a vitivinicultura no Brasil, criando novas oportunidades de negócios e impulsionando o desenvolvimento econômico no interior do Nordeste”, conclui Souza Leão.
Condições climáticas
A vitivinicultura tropical no Brasil se desenvolve principalmente em duas condições climáticas: nas regiões de clima tropical e subtropical de altitude, e nas áreas semiáridas, como o Submédio do Vale do São Francisco. Neste último caso, as altas temperaturas possibilitam até duas colheitas anuais, conferindo uma vantagem competitiva significativa ao setor.
A vitivinicultura na região contribui para diversificar a produção de pequenos e médios agricultores, gera renda, favorece o turismo e tem atraído a atenção de empreendedores de outros estados do Nordeste. Foto: Edmea Ubirajara
A Microrregião de Garanhuns, localizada a quase 900 metros acima do nível do mar, destaca-se por seu clima de altitude. Ela apresenta uma temperatura média anual de 20,6 ºC. As características climáticas dessa região representam uma transição entre as condições observadas nas vinícolas do Semiárido e nas regiões Sul e Sudeste, permitindo a realização de apenas uma safra por ano.
Próximos passos
O cultivo de videiras voltado para a produção de vinhos finos no Agreste pernambucano está passando por um processo de aprimoramento para estabelecer um sistema de produção mais eficiente e competitivo. Esse é o próximo passo da pesquisa, conforme explica Souza Leão. Com base nos trabalhos já realizados, foram elaboradas recomendações para otimizar o cultivo na região.
A pesquisadora enfatiza a importância da continuidade dos estudos conduzidos pela Embrapa em colaboração com outras instituições, como a Ufape e o IPA. Essas pesquisas abordam aspectos fundamentais do sistema de produção, incluindo técnicas de manejo, avaliação de novas cultivares e clones, redução do ciclo produtivo, práticas de poda e definição do momento ideal para a colheita. O objetivo é aumentar a produção e garantir uvas de maior qualidade para a elaboração de vinhos.
“A qualidade do vinho está diretamente relacionada ao manejo adequado das plantas. Portanto, o avanço dos estudos é essencial para melhorar a competitividade da cadeia produtiva na região. Isso contribuirá para diversificar a economia local, gerando novos empregos e renda”, conclui.
O Agreste pernambucano está se tornando um novo polo de produção de vinhos finos, impulsionado por pesquisas inovadoras realizadas pela Embrapa Semiárido, em parceria com a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape) e o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA). Essas pesquisas identificaram seis variedades de uvas recomendadas para a região, comprovando a viabilidade do cultivo local e a qualidade dos vinhos produzidos.
O estudo avaliou dez variedades de uvas europeias em cinco ciclos de produção no campo experimental do IPA, localizado em Brejão (PE). O objetivo foi analisar o comportamento agronômico das variedades, sua adaptação ao clima, a qualidade das uvas, seu potencial enológico e a viabilidade de se produzir vinhos em regiões que tradicionalmente não cultivam videiras.
Variedades de uvas aumentam opções do produtor
Entre as variedades indicadas para a produção de vinhos brancos, destacam-se a Sauvignon Blanc, Muscat Blanc à Petits Grains (conhecido como Moscato Branco) e Viognier. Para os vinhos tintos, as melhores opções são Syrah, Cabernet Sauvignon e Malbec. Segundo a pesquisadora Patrícia Coelho de Souza Leão, da Embrapa, essas cultivares apresentaram excelente desempenho agronômico, produtividade e potencial para vinificação. “Sauvignon Blanc, Syrah e Malbec foram as que mais se destacaram, com uma produtividade média de 10 toneladas por hectare, comparável à do Vale do São Francisco, um polo vinícola consolidado”, explica.
Além disso, as variedades Chardonnay, para vinhos brancos, e Pinot Noir e Petit Verdot, para vinhos tintos, também foram testadas. Contudo, essas uvas não se adaptaram bem às condições locais, apresentando baixo vigor, desenvolvimento vegetativo insatisfatório e produtividade reduzida, conforme explicou a pesquisadora.
O projeto incluiu ainda a avaliação da qualidade dos vinhos produzidos com as uvas cultivadas. A vinificação ocorreu no Laboratório de Enologia da Embrapa Semiárido, utilizando métodos tradicionais em escala experimental. Os vinhos resultantes atenderam às normas da legislação brasileira para vinhos finos secos e obtiveram destaque em análises sensoriais realizadas pela equipe da Escola do Vinho, do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IF Sertão-PE), confirmando o grande potencial da produção vinícola no Agreste de Pernambuco.
A pesquisa tem sido fundamental para impulsionar o cultivo de uvas viníferas e a produção de vinhos de alta qualidade no Agreste pernambucano. Isso vem atraindo investidores interessados no enoturismo como uma nova oportunidade de negócios. “Os resultados estimulam a produção de uvas viníferas na região. Além de fomentar o turismo, a vitivinicultura diversifica a produção agrícola, especialmente para pequenos e médios agricultores, e oferece vinhos de qualidade diferenciada em comparação aos do Semiárido”, comenta Souza Leão.
As variedades abaixo foram avaliadas na pesquisa:
Muscat Blanc à Petits Grains
O ciclo produtivo foi de 129 dias, com uma produtividade média de 6 toneladas por hectare, podendo chegar a 8 toneladas em condições ideais. Cada planta produziu em média 12 cachos, com massa de 148 gramas, e um rendimento de polpa de 74,39%. O vinho branco seco dessa variedade destacou-se pela cor esverdeada com reflexos dourados, aromas tropicais, cítricos e florais, além de um corpo leve com equilíbrio entre álcool e acidez.
Sauvignon Blanc
O ciclo fenológico dessa uva foi de 135 dias, com produtividade média de 11 toneladas por hectare, atingindo até 16 toneladas. Cada planta produziu cerca de 23 cachos, com massa média de 109 gramas e rendimento de polpa de 70,37%. O vinho produzido é límpido, com aromas de frutas brancas, tropicais e cítricas, e oferece um sabor equilibrado e persistente.
Viognier
O ciclo de produção variou entre 132 e 138 dias, com produtividade média de 5 toneladas por hectare, podendo alcançar até 6 toneladas. As plantas produziram, em média, 12 cachos de 94 gramas cada. O vinho seco de Viognier apresentou uma cor amarelo pálido, aromas complexos com notas de mel, baunilha e frutas cítricas, e sabor equilibrado.
Syrah
Com um ciclo fenológico de 144 dias, essa variedade teve uma brotação de 60,37% e produtividade de 10 toneladas por hectare, podendo atingir 14 toneladas. Os cachos pesavam cerca de 110 gramas e o rendimento de polpa foi de 61,73%. O vinho tinto seco apresentou cor rubi, aromas de frutas vermelhas e especiarias, corpo médio e boa persistência.
Cabernet Sauvignon
Com ciclo variando de 149 a 160 dias, essa variedade apresentou uma produtividade de 4 a 5 toneladas por hectare. Cada planta produziu cerca de 10 cachos de 105 gramas cada, com rendimento de polpa de 59,83%. O vinho dessa uva apresentou cor rubi com reflexos acastanhados, aromas de pimentão verde, especiarias, frutas vermelhas em compota e menta, com sabor equilibrado e corpo médio.
Malbec
O ciclo fenológico da Malbec foi de 146 dias, com uma brotação média de 54,65% e produtividade de 10 toneladas por hectare, podendo chegar a 18 toneladas em condições ideais. Os cachos dessa variedade tinham uma massa média de 140 gramas. O vinho tinto seco jovem produzido a partir da Malbec apresentou coloração rubi com reflexos violáceos, brilho intenso e boa limpidez. Os aromas se destacaram por notas de frutas vermelhas e negras, com um toque floral. O sabor era frutado, com corpo leve, resultando em um vinho equilibrado e agradável ao paladar.
União entre pesquisa e empreendedorismo
A pesquisa desenvolvida pela Embrapa Semiárido deu início ao surgimento de uma nova região vinícola no Agreste pernambucano, especialmente na cidade de Garanhuns, ao comprovar a viabilidade do cultivo de uvas em áreas locais. Esse esforço uniu a ciência à iniciativa empresarial, revelando o potencial da vitivinicultura de altitude nessa região.
O médico e empresário Michel Moreira Leite foi pioneiro ao explorar esse potencial. Dono da vinícola Vale das Colinas, ele produz aproximadamente 6 mil garrafas de vinho por ano, já premiadas nacionalmente, tornando-se um exemplo de inovação no Agreste.
Sua jornada começou em 2013, quando ele e sua esposa adquiriram um terreno de 37 hectares na zona rural de Garanhuns, com a intenção de cultivar uvas viníferas. “Não sabíamos por onde começar, então fomos à Embrapa em busca de informações sobre a viabilidade técnica do projeto”, relembra Leite.
No centro de pesquisa, eles descobriram que já existiam experimentos em andamento sobre o cultivo de uvas viníferas no Agreste. A colaboração com a Embrapa foi essencial para o desenvolvimento do projeto piloto na região. Leite firmou um convênio de cooperação técnica, cedendo seu vinhedo para novos estudos.
A partir dessa parceria, em 2018, nasceu a Vale das Colinas. Inicialmente, foram plantadas as variedades Cabernet Sauvignon, Malbec e Muscat Petit Grain em uma área de 3,5 hectares. A primeira colheita, realizada em 2020, marcou o início das atividades de enoturismo da vinícola. Posteriormente, a área cultivada foi expandida para 14 hectares, introduzindo novas variedades, como Syrah, Chenin Blanc e Marselan.
Produção sustentável
Com foco na produção artesanal e sustentável, a Vale das Colinas posiciona-se como uma Vinícola Boutique, priorizando a colheita manual e promovendo visitas e eventos. “Não queremos mecanizar, pois a geração de empregos é um dos nossos compromissos”, afirma Leite.
Atualmente, a vinícola oferece cinco rótulos, entre eles três tintos — Cabana do Vale Reserva (Cabernet Sauvignon), Dona Elisa (Malbec) e Cabana do Vale (Cabernet Sauvignon) — e dois brancos — Dona Cecília (Muscat Blanc à Petits Grains) e Ciranda (Sauvignon Blanc). As primeiras safras foram vinificadas com o apoio da Embrapa e do Instituto Federal do Sertão, em Petrolina. Desde a terceira safra, a vinificação passou a ser feita na própria propriedade, com a última safra resultando em 19.500 garrafas.
Os experimentos e análises comprovaram a viabilidade da produção local e a qualidade dos vinhos produzidos. Foto: Edmea Ubirajara
Leite agora busca reduzir custos e aumentar a competitividade do negócio, mas destaca que o impacto mais significativo foi o desenvolvimento humano na região. “Nossa vinícola fortaleceu a hotelaria e a gastronomia de Garanhuns, impulsionando o turismo local”, afirma.
Crescimento atrai novos produtores
O crescimento da vitivinicultura no Agreste já atraiu outros empreendedores. Como a Vinícola Mello, que começou suas operações em 2021, cultivando variedades como Malbec, Merlot, Cabernet Franc, Chenin Blanc, Chardonnay e Pinot Noir. Além disso, estão sendo realizados estudos com 12 novas variedades para expandir ainda mais o potencial vinícola da região.
Patrícia Souza Leão, pesquisadora da Embrapa, destaca que o sucesso do enoturismo tanto no Agreste quanto no Semiárido pernambucano tem atraído a atenção de empreendedores de outros estados do Nordeste. Projetos de vinhedos estão em desenvolvimento em cidades como Camocim de São Félix, Bonito, Gravatá e Flores, em Pernambuco; Bananeiras, Natuba e Sousa, na Paraíba; e São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte.
“As pesquisas da Embrapa e de seus parceiros têm fortalecido a vitivinicultura no Brasil, criando novas oportunidades de negócios e impulsionando o desenvolvimento econômico no interior do Nordeste”, conclui Souza Leão.
Condições climáticas
A vitivinicultura tropical no Brasil se desenvolve principalmente em duas condições climáticas: nas regiões de clima tropical e subtropical de altitude, e nas áreas semiáridas, como o Submédio do Vale do São Francisco. Neste último caso, as altas temperaturas possibilitam até duas colheitas anuais, conferindo uma vantagem competitiva significativa ao setor.
A vitivinicultura na região contribui para diversificar a produção de pequenos e médios agricultores, gera renda, favorece o turismo e tem atraído a atenção de empreendedores de outros estados do Nordeste. Foto: Edmea Ubirajara
A Microrregião de Garanhuns, localizada a quase 900 metros acima do nível do mar, destaca-se por seu clima de altitude. Ela apresenta uma temperatura média anual de 20,6 ºC. As características climáticas dessa região representam uma transição entre as condições observadas nas vinícolas do Semiárido e nas regiões Sul e Sudeste, permitindo a realização de apenas uma safra por ano.
Próximos passos
O cultivo de videiras voltado para a produção de vinhos finos no Agreste pernambucano está passando por um processo de aprimoramento para estabelecer um sistema de produção mais eficiente e competitivo. Esse é o próximo passo da pesquisa, conforme explica Souza Leão. Com base nos trabalhos já realizados, foram elaboradas recomendações para otimizar o cultivo na região.
A pesquisadora enfatiza a importância da continuidade dos estudos conduzidos pela Embrapa em colaboração com outras instituições, como a Ufape e o IPA. Essas pesquisas abordam aspectos fundamentais do sistema de produção, incluindo técnicas de manejo, avaliação de novas cultivares e clones, redução do ciclo produtivo, práticas de poda e definição do momento ideal para a colheita. O objetivo é aumentar a produção e garantir uvas de maior qualidade para a elaboração de vinhos.
“A qualidade do vinho está diretamente relacionada ao manejo adequado das plantas. Portanto, o avanço dos estudos é essencial para melhorar a competitividade da cadeia produtiva na região. Isso contribuirá para diversificar a economia local, gerando novos empregos e renda”, conclui.