Tag: Embrapa Soja

  • Promip e Embrapa Soja firmam parceria para ampliar manejo integrado de pragas na soja

    Promip e Embrapa Soja firmam parceria para ampliar manejo integrado de pragas na soja

    Promip e Embrapa Soja firmaram uma carta de intenção para ampliar a adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP) na sojicultura brasileira. O acordo foi oficializado durante a 40ª Reunião de Pesquisa da Soja, em Londrina (PR), e marca um avanço na integração entre pesquisa e campo.

    Carina Rufino – chefe de transferência de tecnologia da Embrapa Soja e Marcelo Poletti – CEO da Promip. Foto: Divulgação

    A iniciativa prevê ações conjuntas de capacitação e treinamento de produtores rurais. O objetivo é expandir o acesso ao programa Soja Rota + Sustentável, desenvolvido pela Promip, que reúne treinamentos e práticas voltadas ao uso integrado de controle biológico e defensivos químicos no manejo de pragas.

    O movimento ocorre em um cenário em que especialistas buscam reduzir a distância entre o conhecimento técnico gerado pela pesquisa e sua aplicação prática nas lavouras. Apesar dos avanços científicos, a adoção do MIP ainda permanece abaixo do potencial em várias regiões produtoras.

    Segundo o CEO da Promip, Marcelo Poletti, a parceria fortalece a conexão entre ciência e produtor. Ele destaca que a iniciativa amplia a capacitação no campo e contribui para sistemas de produção mais eficientes e economicamente viáveis. Poletti também afirma que o programa Soja Rota + Sustentável incentiva uma evolução contínua no manejo integrado de pragas.

    A chefe de transferência de tecnologia da Embrapa Soja, Carina Rufino, ressalta que a cooperação amplia o alcance do conhecimento técnico, inclusive por meio de ferramentas digitais. Ela aponta que o MIP melhora a tomada de decisão no campo e gera impactos positivos na sustentabilidade econômica e social da produção.

    Diálogos para o Uso Prático do MIP em Soja

    Durante o workshop “Diálogos para o Uso Prático do MIP em Soja”, realizado paralelamente ao evento, especialistas discutiram os desafios da adoção do manejo integrado. O pesquisador Adeney de Freitas Bueno destacou que a tecnologia já apresenta resultados consistentes, como redução de custos, preservação de inimigos naturais e aumento da rentabilidade.

    Para ele, o principal desafio está na ampliação do uso dessas ferramentas. Bueno defende a necessidade de compreender as barreiras enfrentadas pelos produtores, como receios e dificuldades operacionais, para desenvolver estratégias mais eficazes de adoção.

    O evento também reuniu diferentes elos da cadeia produtiva. O produtor rural Luiz Carlos de Castro abordou formas de engajar agricultores no manejo sustentável. Enquanto Amália Borsari, da CropLife Brasil, apresentou a visão da indústria sobre a integração de táticas de manejo.

    No encerramento, Marcelo Poletti destacou o conceito de MIP regenerativo dentro da proposta Rota + Sustentável, com foco em experiências práticas e nos principais gargalos enfrentados nas propriedades.

    O workshop reuniu pesquisadores, consultores, indústria e produtores, reforçando a importância da integração da cadeia para fortalecer sistemas produtivos mais rentáveis e sustentáveis, além de ampliar a disseminação das Boas Práticas Agrícolas no Brasil.

  • Uso de bioinsumos aumenta produtividade da soja em 8,33% no Paraná

    Uso de bioinsumos aumenta produtividade da soja em 8,33% no Paraná

    Desde a safra 2015/2016, a Embrapa Soja e o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) acompanham em campo o uso da fixação biológica do nitrogênio (FBN) em lavouras comerciais de soja no estado. Em dez anos de validação, os pesquisadores registraram aumento médio de 8,33% na produtividade com a coinoculação de sementes, que combina dois ou mais microrganismos benéficos para potencializar a FBN.

    Os resultados constam da publicação “Coinoculação da soja com Bradyrhizobium e Azospirillum na safra 2024/2025 no Paraná”, que reúne dados de Unidades de Referência Tecnológica (URTs) distribuídas em lavouras comerciais. O trabalho é assinado por André Mateus Prando, Arnold Barbosa de Oliveira, Divania de Lima, Edison Ulisses Ramos Júnior, Edivan José Possamai, Eliana Aparecida Reis, Marco Antonio Nogueira e Mariangela Hungria.

    Segundo André Prando (Embrapa Soja) e Edivan Possamai (IDR-Paraná), as URTs permitiram testar a tecnologia em condições reais de produção e comprovaram que a inoculação e a coinoculação aumentam a produtividade e eliminam a necessidade de adubação nitrogenada mineral na cultura. Na avaliação dos pesquisadores, o pacote tecnológico garante mais rentabilidade ao produtor e benefícios ambientais para toda a sociedade.

    Coinoculação ganha espaço nas lavouras comerciais

    A rede de URTs estruturada pelo IDR-Paraná com apoio da Embrapa levou a inoculação com bactérias do gênero Bradyrhizobium ao protocolo de validação de tecnologias na safra 2015/2016. A partir da safra 2017/2018, o grupo passou a validar também a coinoculação com Azospirillum, bactéria promotora de crescimento de plantas que atua em sinergia com o Bradyrhizobium para elevar o rendimento da soja.

    Na safra 2024/2025, a equipe coletou dados em 22 URTs instaladas em lavouras comerciais de 17 municípios paranaenses, em diferentes regiões do estado. Essas áreas representam diversos tipos de solo, clima, sistemas de cultivo, culturas antecessoras (como milho segunda safra, trigo, aveia e azevém), épocas de semeadura e níveis tecnológicos, o que torna os resultados um retrato fiel da realidade produtiva.

    O levantamento de Embrapa Soja e IDR-Paraná mostra que as áreas coinoculadas produziram, em média, 3.916 kg/ha de grãos, contra 3.615 kg/ha nas áreas sem inoculação. Nas URTs com coinoculação, a produtividade superou a média do Paraná (3.663 kg/ha) e a média nacional (3.561 kg/ha) da safra 2024/2025, segundo dados da Conab.

    Adoção cresce entre produtores paranaenses

    Na média estadual, 64% dos produtores consultados declararam utilizar algum tipo de inoculante na soja na safra 2024/2025. A coinoculação com Bradyrhizobium e Azospirillum alcançou 28% das áreas de soja no estado, conforme pesquisa de mercado da ANPII Bio em parceria com a Kynetec.

    Adoção de inoculantes em soja no PR promove aumento médio de 8,33% na produtividade. Foto: Antonio Neto/Embrapa

    Pesquisas da Embrapa Soja conduzidas por Mariangela Hungria e Marco Antonio Nogueira mostram que a inoculação anual com Bradyrhizobium garante altos tetos produtivos, mesmo em áreas tradicionais, sem necessidade de fertilizante nitrogenado. A partir da safra 2013/2014, a Embrapa passou a recomendar a coinoculação, que associa duas estirpes de Azospirillum brasilense (Ab-V5 e Ab-V6) às bactérias Bradyrhizobium.

    Segundo Hungria, plantas coinoculadas apresentam nodulação mais precoce e abundante, o que amplia os ganhos obtidos em relação à inoculação apenas com Bradyrhizobium. O desempenho observado nas URTs confirma o potencial da tecnologia para aumentar a eficiência do uso de bioinsumos na soja paranaense.

    Impacto nacional: economia bilionária e menor emissão de CO2

    No Brasil, cerca de 85% dos 47 milhões de hectares de soja já utilizam inoculação anual com bactérias fixadoras de nitrogênio. A coinoculação cresce de forma acelerada e já alcança aproximadamente 35% das áreas cultivadas, de acordo com ANPII Bio/Kynetec.

    Em 2024, a inoculação e a coinoculação, que dispensam o uso de fertilizantes nitrogenados, geraram economia estimada em US$ 25 bilhões para os sojicultores. No mesmo ano, o uso dessas bactérias evitou a emissão de mais de 260 milhões de toneladas de CO2 equivalente, reforçando o papel dos bioinsumos na descarbonização da agricultura brasileira.

    FBN sustenta competitividade da soja brasileira

    A fixação biológica do nitrogênio é um dos pilares de sustentabilidade do sistema produtivo da soja no país, já que a cultura demanda cerca de 80 kg de N por tonelada de grãos colhida. Ao suprir esse nutriente via bactérias, o produtor reduz despesas com adubo nitrogenado e aumenta a competitividade da soja no mercado internacional.

    A inoculação e a coinoculação da soja no Brasil promovem uma economia estimada em 25 bilhões de dólares. Foto: Antonio Neto/Embrapa

    De acordo com André Prando, a FBN ocorre a partir da simbiose entre bactérias do gênero Bradyrhizobium e as plantas de soja, que formam nódulos nas raízes. As plantas hospedam e nutrem as bactérias, que em troca capturam o nitrogênio atmosférico, convertem o N2 em amônia pela ação da enzima nitrogenase e entregam compostos nitrogenados para o desenvolvimento da cultura.

    A Embrapa ressalta que a inoculação é indispensável em áreas de primeiro ano de soja ou em regiões que ficaram muito tempo sem a cultura, onde as populações naturais de bactérias fixadoras são baixas ou inexistentes. Mesmo em áreas consolidadas, a recomendação é inocular a cada safra, via sementes ou no sulco de semeadura, porque a prática incrementa a nodulação e o rendimento da lavoura, como demonstram diversos estudos de campo.

  • Tecnologia de aplicação garante uso seguro de defensivos

    Tecnologia de aplicação garante uso seguro de defensivos

    A correta tecnologia de aplicação de pesticidas é determinante para a eficiência e a segurança na produção de alimentos. Com esse foco, a Embrapa Soja (PR) e a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) reuniram orientações práticas voltadas aos desafios enfrentados no uso de defensivos agrícolas em condições de campo. As informações integram a publicação Tecnologia de Aplicação de Pesticidas, que será lançada durante o Show Rural Coopavel 2026, em Cascavel (PR).

    Foto: Rafael Soares/Embrapa

    De acordo com o pesquisador Dionísio Gazziero, da Embrapa Soja, todo processo de controle, desde o diagnóstico até a aplicação do produto, deve observar critérios técnicos e ambientais. “O uso de pesticidas requer equipamentos em boas condições, regulagem adequada e conhecimento técnico para atingir o alvo com segurança humana e ambiental”, destaca.

    Lançamento ocorre durante o Show Rural Coopavel

    A publicação será apresentada na Vitrine de Tecnologias da Embrapa, entre os dias 9 e 13 de fevereiro, durante o Show Rural Coopavel 2026. Assinam o material os pesquisadores Cleber Maciel, Dionísio Gazziero, Rafael Theisen, Luiz Gustavo Bridi e Fernando Adegas.

    Os autores ressaltam que a eficiência da aplicação depende da escolha correta do produto, do respeito às recomendações técnicas e do monitoramento das condições climáticas. “Desde o momento em que a calda sai do pulverizador até atingir o alvo, seguir as orientações é essencial para evitar perdas e contaminações”, complementa Gazziero.

    Condições climáticas e tamanho das gotas influenciam resultados

    Fatores ambientais exercem grande peso sobre a eficiência da aplicação. Ventos fortes, baixa umidade e altas temperaturas aumentam riscos de deriva e evaporação. Segundo Cleber Maciel, as condições ideais envolvem velocidades de vento entre 3,2 e 6,5 km/h, umidade mínima de 55% e temperatura inferior a 30 °C.

    O tamanho das gotas também é decisivo. Gotas muito finas favorecem a cobertura, mas ficam mais suscetíveis à deriva; gotas maiores reduzem contaminações e atendem melhor à aplicação de herbicidas mimetizadores da auxina. “A escolha correta das pontas de pulverização e da pressão de trabalho é estratégica para evitar fitointoxicação e impacto ambiental”, observa o pesquisador da Unicentro.

    Regulagem e calibração de pulverizadores são pontos críticos

    A regulagem e calibração dos pulverizadores está entre os principais gargalos do setor. Gazziero afirma que inspeções de campo mostram alto índice de equipamentos operando com falhas, o que compromete o controle e a segurança ambiental. “A calibração correta garante que o volume de calda aplicado corresponda ao planejado, evitando desperdícios e desuniformidade”, explica.

    Problemas como vazamentos, bicos desgastados e filtros obstruídos são comuns e reduzem a qualidade da aplicação. Para os especialistas, a manutenção preventiva, a capacitação de operadores e o respeito às condições ambientais representam medidas essenciais para aprimorar o manejo fitossanitário no país.

    Misturas em tanque exigem atenção

    As misturas em tanque de diferentes produtos, como herbicidas, fungicidas, inseticidas e fertilizantes foliares, são prática comum no campo para otimizar tempo e custos. No entanto, exigem atenção redobrada. “Incompatibilidades físicas e químicas podem entupir bicos, formar espuma e até provocar fitotoxicidade nas culturas”, alerta Maciel.

    Por isso, os pesquisadores reforçam a importância de seguir estritamente as recomendações técnicas de cada produto. “O sucesso do manejo fitossanitário depende não apenas do produto, mas da forma como ele é aplicado. A capacitação e o uso consciente da tecnologia são fundamentais para garantir produtividade com segurança para o aplicador, o consumidor e o meio ambiente”, conclui Gazziero.

  • Congresso da Soja reúne 2 mil participantes e debate futuro do grão

    Congresso da Soja reúne 2 mil participantes e debate futuro do grão

    Com cerca de 2 mil congressistas, o X Congresso Brasileiro de Soja (CBSoja) e o Mercosoja 2025 reuniram, entre os dias 21 e 24 de julho, representantes do Brasil, Argentina, Paraguai e delegações da China em Campinas (SP). Promovido pela Embrapa Soja, o evento celebrou os 100 anos da introdução da soja no Brasil, discutindo o cenário atual da cultura e os caminhos para os próximos anos.

    A programação técnica incluiu 4 grandes conferências e 15 painéis, com mais de 50 palestras ministradas por especialistas nacionais e internacionais. Temas como sustentabilidade, geopolítica, relações comerciais, edição gênica e bioinsumos dominaram os debates, apontando tendências para a cadeia produtiva da soja, que responde por 6,4% do PIB nacional e gera cerca de 2 milhões de empregos no país.

    Biotecnologia, clima e mercado estiveram no centro das discussões

    “O retorno do público foi muito positivo sobre a diversidade das temáticas abordadas, que foram desde a fitossanidade até a relação Brasil-China”, avalia o presidente do congresso, Fernando Henning, pesquisador da Embrapa. Já o vice-presidente, Marco Antonio Nogueira, destacou o ambiente propício para interações técnicas e oportunidades de negócios. “Os congressistas encontraram um espaço equilibrado entre ciência, inovação e mercado”.

    Foto: Agro Em Campo/ Pedro H. Lopes

    Um dos pontos altos foi o workshop internacional “Soybean2035”. Que debateu o uso da biotecnologia na próxima década com pesquisadores da China, EUA, Argentina, Canadá e Brasil. Também houve miniworkshops práticos sobre fertilidade do solo, nematoides, plantas daninhas, bioinsumos e barreiras ao desenvolvimento radicular.

    Henning reforça que a edição gênica chegou para ficar, com produtos já em fase avançada de lançamento, como a soja com alto teor de ácido oleico e diferenciais de proteína. “Estamos entrando em uma nova era, que alia produtividade e nichos de valor agregado”, afirma.

    Pesquisa, inovação e reconhecimento científico

    A Sessão Pôster apresentou 321 trabalhos técnico-científicos em três categorias. Os destaques foram:

    • Acadêmico: Programa Soja Baixo Carbono, de Emily Matsubara (representada por Samuel Roggia);

    • Pós-graduação: Microrganismos promotores de crescimento na soja, de Bruno Emanoel Teixeira;

    • Profissional: Soybean seed industrial and nutraceutical quality, de Constanza Soledad Carrera.

    Segundo o chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno, o congresso reforçou a importância de discutir a cultura em ano de COP 30, que ocorrerá no Brasil. “As questões climáticas e a agricultura digital foram amplamente debatidas, mostrando o quanto a sustentabilidade irá pautar o futuro da soja.”

    Para Nogueira, o CBSoja e o Mercosoja 2025 consolidaram-se como fórum estratégico, reunindo grandes empresas, pequenos empreendedores, pesquisadores e representantes do setor público. “A Arena de Inovação foi um espaço fundamental para o diálogo entre ciência e mercado, com retorno positivo dos expositores”, afirma.

    A próxima edição do Congresso Brasileiro de Soja e Mercosoja está prevista para 2028.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Cientista brasileira premiada reforça papel dos biológicos no agro

    + Agro em Campo: Presidente do CBSoja aponta rumos e inovação para o setor da soja

  • Cientista brasileira premiada reforça papel dos biológicos no agro

    Cientista brasileira premiada reforça papel dos biológicos no agro

    A pesquisadora Mariangela Hungria, da Embrapa Soja, foi laureada em 2025 com o Prêmio Mundial de Alimentação (World Food Prize), conhecido como o “Nobel da Agricultura”, foi idealizado por Norman E. Borlaug. Referência mundial em fixação biológica do nitrogênio.  Após a realização de sua palestra, “Bioinsumos para a promoção de crescimento e nutrição”, no painel sobre  Bioinsumos na cultura da soja, durante o X CBSoja, na tarde de terça-feira, 23, ela concedeu uma entrevista coletiva aos jornalistas presentes no evento. Acompanhe os principais momentos.

    Como a senhora recebeu o reconhecimento da World Food Prize Foundation?

    Vejo como um prêmio a uma vida dedicada à pesquisa. Fui eleita por um comitê internacional que avalia indicações do mundo todo. Imagino que minha persistência tenha contado: comecei a trabalhar com biológicos quando só se falava em adubação química. Nunca desisti, mesmo quando diziam que era perda de tempo. Hoje, colhemos os frutos.

    A senhora costuma falar em “micro revolução verde”. O que isso significa?

    É uma contraposição à Revolução Verde tradicional, baseada em químicos pesados. A nossa é com micro-organismos, algo mais sustentável e adaptado ao Brasil tropical. Comecei nos anos 70, com muita resistência. Hoje, 85% da soja usa inoculantes. Isso mostra que valeu a pena acreditar.

    A trajetória na Embrapa foi decisiva?

    Totalmente. Tive grandes mentores e, quando vim para Londrina, pude montar meu laboratório e fazer ciência com liberdade. Isso me deu autonomia para perseguir resultados de alta produtividade. A meta sempre foi pensar grande: se funciona pro grande, vai funcionar pro pequeno também.

    Esse modelo brasileiro pode ser exportado?

    Já é. Trabalhei por dez anos num projeto com a África Subsaariana. A realidade tropical aproxima muito o Brasil e o continente africano. Fizemos testes e os resultados foram semelhantes. Com transferência de tecnologia, podemos acelerar o desenvolvimento agrícola de lá.

    A pesquisa brasileira em fixação biológica reduziu a dependência externa?

    Com certeza. Só na última safra, economizamos quase 27 bilhões de dólares com nitrogênio que não precisamos importar. Sem nossas bactérias, seria inviável produzir soja nesse nível. E isso vem de 70 anos de pesquisa ininterrupta. Não pode parar.

    Quais os principais desafios atuais?

    Estamos enfrentando temperaturas altíssimas no solo, como em áreas do MATOPIBA. Isso afeta as bactérias. Já estamos estudando novas formulações e protetores. A pesquisa precisa ser contínua, porque os desafios mudam o tempo todo.

    Foto: Agro Em Campo/ Pedro H. Lopes

    O Brasil está preparado para expandir o uso de biológicos?

    O conhecimento está pronto. Mas o acesso ainda é concentrado no Sul, Sudeste e Centro-Oeste. No Norte e Nordeste, falta distribuição. Estamos firmando parcerias, como com a Copadap, para garantir que os pequenos agricultores também recebam esses produtos.

    O que impede que tecnologias prontas saiam das gavetas?

    Muitas vezes, a indústria não vê viabilidade econômica. Temos produtos excelentes para culturas como morango, mas que são ignorados. Falta investimento, vontade política e também conhecimento sobre como transformar pesquisa em produto. Precisamos de apoio nessa ponte.

    Existe preconceito contra os biológicos?

    Sim, especialmente pelo marketing agressivo dos químicos. Tem gente que ainda recomenda 30 kg de nitrogênio para a soja — o que não é necessário. Também precisamos combater o uso indiscriminado de biológicos. Cada solo tem uma necessidade específica. Biológicos não são “tudo junto agora”.

    É seguro produzir o próprio biológico na fazenda?

    Só se houver controle de qualidade. Há casos de contaminação com patógenos humanos. É preciso estrutura, pessoas treinadas e boas práticas. Talvez associações ou cooperativas possam viabilizar isso, mas não é simples. A Embrapa não vende, mas orienta quem quer fazer direito.

    E na próxima safra, os biológicos ganham ainda mais espaço?

    Sim. O uso de inoculantes e tecnologias biológicas tende a crescer fortemente na safra 2025/26. Já vemos um movimento firme nesse sentido, e ele se intensificou com a crise de fertilizantes provocada pela pandemia e pela guerra. Muitos produtores perceberam o valor dos biológicos na prática. Ainda há espaço para ampliação, principalmente no Norte e Nordeste, onde o acesso é mais difícil. Mas, com a estruturação de parcerias e uma distribuição mais democrática, a expectativa é de crescimento sólido. Como dissemos, o conhecimento está pronto — só falta ele chegar a todos os agricultores.

    Conheça a trajetória de Mariangela Hungria

    Mariangela Hungria é engenheira agrônoma formada pela Esalq/USP, com mestrado em Solos e Nutrição de Plantas pela mesma instituição, doutorado em Ciência do Solo pela UFRRJ e pós-doutorado por três universidades de renome: Cornell University, University of California-Davis e Universidade de Sevilla.

    Pesquisadora da Embrapa desde 1982, iniciou sua carreira na unidade Agrobiologia, em Seropédica (RJ), e desde 1991 atua na Embrapa Soja, em Londrina (PR). Ao longo das décadas, se consolidou como uma das principais referências em microbiologia agrícola, com foco especial em fixação biológica de nitrogênio.

    Foi reconhecida entre os 100 mil cientistas mais influentes do mundo, segundo levantamento da Universidade de Stanford (EUA) em 2020. Em 2022 e 2025, liderou o ranking brasileiro nas áreas de Fitotecnia e Agronomia, segundo o site Research.com, especializado em avaliação de impacto acadêmico.

    Entre os diversos prêmios recebidos, destacam-se homenagens da Frente Parlamentar da Agropecuária, da Fundação Bunge, do Lenovo-Academia Mundial de Ciências e o Prêmio Frederico Menezes. Em 2025, foi agraciada com o Prêmio Mulheres e Ciência, concedido pelo CNPq em parceria com o Ministério das Mulheres, o British Council e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Presidente do CBSoja aponta rumos e inovação para o setor da soja

    + Agro em Campo: Consórcio de bactérias revoluciona cultivo do milho no Brasil

  • Presidente do CBSoja aponta rumos e inovação para o setor da soja

    Presidente do CBSoja aponta rumos e inovação para o setor da soja

    A soja completa 100 anos de cultivo no Brasil em um momento decisivo para o agro. Mais do que celebrar a trajetória da cultura que transformou o país em potência agrícola, o 10º Congresso Brasileiro de Soja e o Mercosoja discutem caminhos para manter o protagonismo do setor nos próximos anos. À frente do evento, o pesquisador A da Embrapa Soja – Sementes e Grãos e presidente do congresso, Fernando Henning, defende que o agricultor é um empresário que precisa gerar lucro com sustentabilidade e estar preparado para desafios climáticos, políticos e tecnológicos. Nesta entrevista ao portal Agro Em Campo, Henning fala sobre os principais debates do congresso, a presença internacional, os avanços em biotecnologia e a importância da formação técnica na base da cadeia.

    Qual é o principal objetivo do Congresso?

    Esse é o maior evento técnico-científico da cadeia da soja, uma das grandes alavancas do agro brasileiro. Nosso tema, “100 anos de soja: pilares do amanhã”, foi escolhido para refletir tudo o que construímos no passado e o que estamos fazendo para garantir um futuro sustentável. Conseguimos adaptar a soja ao ambiente tropical com muito sucesso — isso não pode ser esquecido.

    Quem participa do evento?

    O congresso é para todos: produtor rural, assistência técnica, revendas, grandes empresas, pesquisadores públicos e privados, estudantes. É um fórum onde quem já está no agro se encontra com quem está chegando agora. Essa troca de experiências é essencial.

    Quais os principais desafios da cadeia hoje?

    Temos dificuldades a cada safra, mas é preciso antecipar novos desafios. Nem toda resposta da pesquisa vem de uma safra pra outra. Precisamos trabalhar com tempo, prever cenários e propor soluções baseadas em ciência e tecnologia.

    Fernando Henning –
    Pesquisador Embrapa Soja- Sementes e Grãos e Presidente do 10º Congresso Brasileiro  de Soja e Mercosoja – Foto: Agro Em Campo/ Pedro H. Lopes

    Sustentabilidade foi destaque já no primeiro dia. Por quê?

    A soja brasileira é constantemente questionada lá fora, principalmente quanto à sustentabilidade. E neste ano, teremos a COP 30 no Brasil. Por isso, começamos o congresso mostrando dados concretos de que é possível produzir com responsabilidade ambiental e rentabilidade. Sustentabilidade também significa lucro. O agricultor é um empresário.

    Quais soluções estão sendo debatidas nesse contexto?

    Temos temas como soja de baixo carbono, que se conecta com o plantio direto — um sistema em que o Brasil é referência global. Outro destaque é o novo ZARC, com níveis de manejo. Essa ferramenta ajuda o produtor a entender melhor os riscos climáticos e a escolher a melhor estratégia antes de ir ao banco buscar crédito ou seguro.

    O evento também aborda fitossanidade e qualidade de sementes?

    Sim. A Embrapa tem como missão garantir práticas sustentáveis também no manejo de doenças, pragas e plantas daninhas. Os ensaios de rede orientam o produtor na escolha dos produtos. E falamos muito sobre semente de qualidade, algo que impacta diretamente toda a cadeia. Ainda temos problemas com pirataria, mas mostramos o quanto uma semente legal, de alta qualidade, agrega valor ao grão.

    Qual a relação entre isso e o mercado internacional, como a China?

    A China é nosso principal comprador. Se começarmos com semente boa, temos mais chance de entregar um grão com padrão superior. Essa conexão é clara. Também trouxemos especialistas para discutir a diplomacia do agro, algo fundamental diante da instabilidade geopolítica atual. Produzir é importante, mas entender o cenário internacional é essencial.

    O agricultor brasileiro está preparado para lidar com essa complexidade?

    Sim. O nível técnico está mais alto a cada ano. O produtor busca informações, participa de fóruns como este. E não é só ele. O CBSoja também é um espaço para quem está chegando. Temos a Sessão Pôster, com mais de 320 trabalhos de universidades e centros de pesquisa. Isso pode virar uma nova solução no campo.

    Há também um workshop com visão de futuro. Do que se trata?

    O Workshop Internacional discute os próximos dez anos em genética, melhoramento e biotecnologia. É uma visão conjunta de Brasil, Argentina, Estados Unidos, Canadá e China. Também falamos sobre a lei de cultivares, edição gênica e medidas contra a pirataria. Queremos mostrar que o agro do futuro está sendo construído agora.

    Como se dá a troca de experiências entre os participantes?

    Temos um momento chamado Mãos à Obra, com cinco cases desafiadores do mercado. O objetivo é promover discussões olho no olho, em sala, com interação direta. O Congresso é isso: compartilhar, aprender, evoluir. Sabemos quem são os concorrentes, mas aqui somos parceiros.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Consórcio de bactérias revoluciona cultivo do milho no Brasil

    + Agro em Campo: Nova safra deve reduzir preço do café

  • Sustentabilidade: conheça o Programa Soja Baixo Carbono

    Sustentabilidade: conheça o Programa Soja Baixo Carbono

    O Programa Soja Baixo Carbono (PSBC) busca valorizar a soja produzida com práticas sustentáveis que reduzem emissões de gases de efeito estufa (GEEs). Em geral, a iniciativa pretende certificar sistemas de produção que comprovadamente combatem o aquecimento global, garantindo maior valor ao grão brasileiro.

    Metodologia baseada em ciência

    Coordenado pela Embrapa Soja, o PSBC envolve especialistas de diversas unidades da Embrapa e representantes do setor produtivo. A metodologia inclui a mensuração de benefícios ambientais e a certificação de práticas com baixa emissão de carbono. Sete empresas apoiam o projeto: Bayer, Bunge, Cargill, Coamo, Cocamar, GDM e UPL.

    O PSBC validará o protocolo em 25 lavouras-piloto localizadas em cinco macrorregiões sojícolas do Brasil. As validações ocorrerão entre as safras 2023/24 e 2024/25, assegurando a credibilidade das práticas adotadas.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Herbicidas hormonais ameaçam produção de uva no Rio Grande do Sul
    + Agro em Campo: Conheça o umbu, fruta típica da Caatinga

    Objetivo e funcionamento do selo SBC

    O selo Soja Baixo Carbono (SBC) distinguirá produtores que adotam tecnologias e manejos capazes de reduzir emissões de GEEs. O protocolo segue o modelo MRV (mensurável, reportável e verificável), garantindo aceitação internacional e credibilidade científica.

    Além disso, para conquistar o selo SBC, as áreas precisam superar os estoques de carbono do sistema de produção modal de cada região. Ao mesmo tempo, o uso de insumos sustentáveis e boas práticas, como o sistema plantio direto e manejo integrado de pragas, também será avaliado.

    Benefícios para produtores e mercado

    Produtores que aderirem ao selo SBC poderão acessar financiamentos com juros mais baixos, mercados mais exigentes e pagamentos por serviços ambientais. A adesão é voluntária, mas exige conformidade com legislação ambiental e trabalhista.

    Conexão com o Plano ABC+

    O PSBC está alinhado ao Plano ABC+ (2020-2030), que promove tecnologias sustentáveis na agropecuária. Ou seja, estratégias como bioinsumos, plantio direto e integração lavoura-pecuária-floresta ajudam a reduzir a intensidade de emissão de carbono no setor.

    Próximos passos do PSBC

    A validação do protocolo será concluída até 2026, quando o selo SBC entrará em operação no mercado. Em resumo, a iniciativa reafirma o compromisso do Brasil com a sustentabilidade e fortalece a posição da soja brasileira no mercado global.