Tag: Embrapa Gado de Leite

  • Novo software reduz consanguinidade e acelera ganho genético no Gir Leiteiro

    Novo software reduz consanguinidade e acelera ganho genético no Gir Leiteiro

    A pecuária leiteira brasileira ganhou um novo aliado tecnológico para equilibrar dois objetivos que, historicamente, competem entre si: acelerar o ganho genético e conter a consanguinidade dos rebanhos. A Embrapa Gado de Leite (MG) e a Associação Brasileira de Criadores de Gado Gir Leiteiro (ABCGIL) desenvolveram em parceria um sistema de simulação de acasalamentos que amplia a eficiência da seleção genética e monitora a endogamia na raça Gir Leiteiro.

    O pesquisador da Embrapa Gado de Leite João Cláudio Panetto descreve a ferramenta como um consultor digital para o produtor. O software cruza valores genéticos estimados e parentescos genômicos e indica, a partir desses dados, os acasalamentos mais produtivos e geneticamente seguros.

    Como a endogamia ameaça a produtividade do rebanho

    A endogamia surge como subproduto natural da seleção intensa, explica o pesquisador da Embrapa Gado de Leite Marcos Barbosa da Silva. Quando o produtor utiliza repetidamente os touros líderes de sumários (catálogos técnicos que reúnem os resultados de avaliações genéticas de bovinos) para acelerar a produção de leite, a base genética da raça tende a estreitar. Esse processo abre espaço para a chamada depressão endogâmica, que produz o efeito inverso do desejado, segundo Silva.

    Foto: Rubens Neiva / Embrapa

    A depressão endogâmica reduz a fertilidade dos animais, diminui a persistência da lactação, encurta a longevidade das vacas e favorece o aparecimento de anomalias genéticas.

    O software identifica riscos antes da inseminação

    O novo sistema ataca esse problema na origem. Ao simular o acasalamento entre uma matriz e um touro do sumário, ou mesmo um touro que ainda não teve seus resultados publicados, o programa calcula instantaneamente o coeficiente de consanguinidade do futuro produto. Quando esse índice ultrapassa os limites biológicos recomendados, o sistema emite um alerta. E oferece ao produtor alternativas de reprodutores que mantêm o ganho genético sem comprometer a saúde do plantel.

    O Laboratório de Bioinformática e Genômica Animal (LBGA) da Embrapa Gado de Leite comanda o processamento dessa densa massa de dados. E transforma a ciência em recomendação prática para o campo. O avanço da genotipagem em larga escala multiplicou o volume de informações disponível por animal: de dezenas de dados de pedigree, os pesquisadores hoje analisam centenas de milhares de marcadores moleculares, os SNPs.

    O laboratório funciona como o motor analítico do programa. Ele processa algoritmos complexos que predizem valores genéticos no formato de PTA (Predicted Transmitting Ability, ou Habilidade Prevista de Transmissão). E calculam os parentescos genômicos entre todos os pares possíveis de touros e vacas, o que garante ao produtor um teto seguro para os acasalamentos.

    Quatro funções ampliam o controle sobre o rebanho

    A inteligência analítica estruturada pelo Laboratório de Bioinformática entrega soluções que vão além do controle de parentesco, segundo Panetto. O sistema reúne quatro funções principais:

    • Otimização pelo novo IPGL — o sistema calibra as sugestões com base no Índice de Produção do Gir Leiteiro (IPGL) reformulado, que equilibra volume de leite, sólidos (gordura e proteína) e precocidade sexual.
    • Filtro de doenças hereditárias — o programa testa todos os touros e libera apenas animais sem mutações recessivas para enfermidades fatais ou debilitantes, como DUMPS (Deficiência da Uridina Monofosfato Sintase), CVM (Doença do Complexo de Má Formação Vertebral) e BLAD (Deficiência de Adesão Leucocitária Bovina).
    • Segmentação para qualidade do leite — o produtor filtra reprodutores com base na genotipagem para as variantes de beta-caseína, que definem a produção de leite A2, e de kappa-caseína, ligada diretamente ao maior rendimento na fabricação de queijos.
    • Predição para Fertilização In Vitro (FIV) — o software incorpora estimativas genéticas voltadas para a eficiência reprodutiva das doadoras, na produção de óvulos, e atende assim a uma demanda central dos criadores que utilizam biotecnologias de reprodução assistida.

    A ferramenta consolida a transição para a bioeconomia digital

    O papel do Laboratório de Bioinformática e Genômica Animal reforça a transição da pesquisa agropecuária tradicional para a era da bioeconomia digital. Ao centralizar as análises no LBGA, a Embrapa garante que os modelos preditivos acompanhem a evolução demográfica da raça em tempo real.

    Foto: Rubens Neiva / Embrapa

    Para os criadores associados à ABCGIL, a tecnologia representa a democratização do melhoramento genético de precisão. O acesso rápido a relatórios de simulação reduz o erro na fazenda e diminui custos com descartes involuntários. Além de consolidar a competitividade do Gir Leiteiro nos mercados nacional e internacional.

    Consanguinidade descontrolada cobra um preço alto do produtor

    Silva alerta que a busca por acelerar o ganho genético pode criar uma armadilha invisível para o rebanho quando o produtor recorre repetidamente a poucos reprodutores de destaque. O acasalamento entre animais aparentados estreita a base genética e origina a depressão endogâmica, um fenômeno biológico que afeta diretamente o bolso do produtor.

    A consanguinidade sem controle produz quatro impactos principais:

    • Queda na produção e na persistência — níveis elevados de endogamia reduzem a produção total por lactação e a capacidade da vaca de manter o pico de produção por mais tempo.
    • Prejuízos reprodutivos — a taxa de abortos aumenta significativamente, cresce a incidência de natimortos, repetem-se as crias e atrasa a idade ao primeiro parto das novilhas.
    • Vulnerabilidade imunológica — animais com endogamia elevada tendem a apresentar um sistema imune mais frágil. Isso eleva a incidência de doenças comuns no manejo leiteiro, como a mastite.
    • Manifestação de defeitos genéticos — genes recessivos prejudiciais, que normalmente ficariam ocultos, passam a se encontrar. Esse cruzamento resulta no nascimento de bezerros com malformações ou síndromes metabólicas fatais.

    Os pesquisadores da Embrapa Gado de Leite recomendam manter o coeficiente de consanguinidade individual de cada animal abaixo de 6,25%. Acima desse patamar, as perdas zootécnicas e econômicas tendem a se tornar evidentes no dia a dia da propriedade.

    O modelo se expande para além do Gir Leiteiro

    O software gerido pela ABCGIL atende, por enquanto, exclusivamente o universo do Gir Leiteiro. Ainda assim, a inteligência científica desenvolvida pela Embrapa Gado de Leite já funciona como matriz tecnológica para toda a cadeia pecuária nacional, e o modelo de predição de endogamia e seleção molecular avança em duas frentes:

    1. Plataforma Genômica Multirracial — uma iniciativa inédita vai integrar os bancos de dados da ABCGIL (Gir Leiteiro), da Associação Brasileira dos Criadores de Girolando e da Associação Brasileira de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (ABCBRH). O produtor poderá simular e prever com precisão o resultado do cruzamento entre raças puras e sintéticas. E assim otimizar a formação do rebanho mestiço diretamente pelo sistema.
    2. Sistemas equivalentes no setor — o conceito de acasalamento dirigido por bioinformática já se replica nas principais entidades da pecuária. A Associação de Criadores da Raça Girolando mantém ferramentas dedicadas a monitorar a consanguinidade e fixar as frações de grau de sangue ideais (1/2, 3/4 e 5/8). A ABCBRH utiliza índices genômicos para gerenciar a diversidade genética de uma base com mais de 2 milhões de animais registrados. E a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) disponibiliza módulos de acasalamento que calculam a consanguinidade predita pelo pedigree, também para outras raças zebuínas de aptidão leiteira, como Guzerá e Sindi.

    A padronização dessas ferramentas de precisão pela Embrapa garante que, independentemente da raça escolhida, o produtor brasileiro tenha acesso a decisões baseadas em dados. E consiga mitigar prejuízos econômicos antes mesmo da inseminação ou da transferência de embrião.

  • Angus se prepara para o nascimento dos primeiros animais de edição gênica

    Angus se prepara para o nascimento dos primeiros animais de edição gênica

    Entre o final de março e o início de abril, o projeto de edição gênica da raça Angus, liderado pela Associação Brasileira de Angus e Ultrablack em parceria com a Embrapa Gado de Leite, espera o nascimento de seus primeiros cinco exemplares. O processo busca gerar animais com maior tolerância ao calor e mais resistência a doenças comuns à espécie.

    O objetivo principal é produzir exemplares com características genéticas avançadas. Por exemplo, como maior tolerância ao calor e resistência ao carrapato, sem a introdução de DNA de outras espécies. Isso significa que os animais não se enquadram como transgênicos, pois as alterações genéticas podem surgir naturalmente por meio de cruzamentos.

    Processo de edição gênica

    O levantamento iniciou em 2024, com a seleção de reprodutores para doação de sêmen, produção e edição de embriões, seguida da transferência para receptoras. A equipe da Embrapa em Juiz de Fora (MG) conduz a pesquisa, acompanha o nascimento dos animais e realiza testes para avaliar a eficiência da edição gênica.

    Todo o processo é submetido à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para validação dos procedimentos e resultados. A Associação Brasileira de Angus e Ultrablack reforça o compromisso com o respeito às normas e legislação vigentes. Essa abordagem garante que os cientistas considerem os animais como não transgênicos.

    A edição gênica representa um avanço significativo no melhoramento genético da raça Angus, permitindo que os criadores tenham acesso a tecnologias de ponta. “O papel da Associação é estar na vanguarda do melhoramento genético. Oferecendo o que há de mais tecnológico para os criadores”, destaca Mateus Pivato, diretor-executivo da entidade.

    Leia mais:
    + Agro em Campo: Entenda o que é o óleo de bagaço de oliva, confundido com azeite
    + Agro em Campo: Femagri 2025 apresentará soluções tecnológicas para produtores