Tag: Drawback

  • Páscoa agridoce: chocolate fica mais caro mesmo com queda de 60% no preço do cacau

    Páscoa agridoce: chocolate fica mais caro mesmo com queda de 60% no preço do cacau

    O consumidor brasileiro vai pagar mais pelo chocolate nesta Páscoa. E a queda de cerca de 60% nos preços internacionais do cacau ainda não explica o contrário. O mercado vive um cenário agridoce em 2026: as cotações das amêndoas recuaram nas bolsas, mas os efeitos não chegaram às prateleiras. A razão é direta; boa parte da indústria comprou a matéria-prima quando os preços ainda estavam nas máximas históricas.

    Ao longo de 2025, fabricantes reajustaram portfólios, reformularam produtos e repassaram custos ao consumidor. Com a demanda ainda pressionada, o setor entra na principal data do calendário chocolateiro sem folga de margem.

    Os dados confirmam o movimento. Na Europa, produtos à base de cacau atingem os maiores preços dos últimos anos. Nos Estados Unidos, os índices de preços ao produtor e ao consumidor seguem elevados, mesmo com correções recentes. No Brasil, chocolates em barra e doces registraram variações acima do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). Um sinal claro de que o consumidor vai sentir o impacto no bolso.

    Brasil entre os maiores processadores do mundo

    O país ocupa a oitava posição no ranking mundial de processamento de cacau, posição que mantém nas últimas cinco safras. Esse peso global torna ainda mais relevantes as discussões sobre abastecimento e fluxo comercial. Especialmente agora, quando o setor acumula desafios em diversas frentes.

    A capacidade de processamento brasileira supera a produção doméstica. Para cobrir a diferença, o país recorre às importações: em média, 17% das amêndoas processadas vieram do exterior nos últimos cinco anos, com cerca de 80% originárias da Costa do Marfim.

    É justamente nesse ponto que o cenário se complica. A suspensão das importações de amêndoas do principal fornecedor africano, combinada com mudanças no regime de drawback, aumenta as preocupações com a atividade de moagem no país e eleva as incertezas sobre o abastecimento de médio e longo prazo.

    Exportações mostram comportamento misto em 2026

    No comércio exterior, os primeiros dois meses do ano revelam um quadro dividido. As exportações de pó de cacau caíram 23% entre janeiro e fevereiro na comparação com o mesmo período de 2025, enquanto as de manteiga avançaram 37%. O movimento é inverso ao do ano passado, quando o pó cresceu 21% e a manteiga recuou 13%.

    Mesmo com exportações de manteiga e pó ainda acima da média histórica em fevereiro, o setor opera sob pressão crescente.

    “A Páscoa deste ano reforça um cenário agridoce para o mercado de cacau. Embora a recente correção das cotações internacionais possa sinalizar algum alívio adiante, os efeitos ainda não chegam de forma clara ao consumidor final”, afirma Carolina França, analista de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets. “Enquanto isso, a indústria segue lidando com um ambiente de demanda fragilizada e desafios adicionais para o abastecimento e a operação no Brasil.”

  • Drawback do cacau cai de 2 anos para 6 meses: o que muda para produtores e indústria

    Drawback do cacau cai de 2 anos para 6 meses: o que muda para produtores e indústria

    O governo federal reduziu de dois anos para seis meses o prazo máximo para importação de amêndoas de cacau com isenção de Imposto de Importação em regime de drawback. A mudança, publicada no Diário Oficial da União por meio da Medida Provisória 1341/2026, atende a uma demanda do setor produtivo e contou com atuação direta da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e das federações de agricultura e pecuária da Bahia (Faeb), do Espírito Santo (Faes), do Pará (Faepa) e de outros estados produtores.

    O drawback é um mecanismo tributário que suspende impostos sobre insumos importados quando a indústria os utiliza para fabricar produtos destinados à exportação, como manteiga, pó e líquor de cacau. Adotado em todo o mundo como instrumento de competitividade no comércio exterior, o regime passou a funcionar, segundo produtores, como ferramenta de pressão sobre os preços da amêndoa nacional.

    Crise de preços motivou a medida

    O contexto que levou à MP é de colapso nos preços ao produtor. A arroba do cacau, que no início de 2025 era comercializada entre R$ 800 e R$ 1.000. E fechou em R$ 175,00 em 13 de março de 2026. Uma queda de 5,41% apenas naquele dia, segundo o Mercado do Cacau. Sobre esse preço ainda incidem descontos médios de aproximadamente R$ 100 aplicados pelas indústrias processadoras na compra da amêndoa nacional.

    Em 2025, as importações brasileiras de cacau totalizaram 112,8 mil toneladas, alta de 16,8% sobre as 96,6 mil toneladas do ano anterior, com 41,6 mil toneladas originárias da Costa do Marfim. Os portos da Bahia concentraram quase 70 mil toneladas do produto estrangeiro desembarcado no país.

    Para o diretor técnico adjunto da CNA, Maciel Silva, o instrumento estava distorcendo o mercado interno. “Como as importações de amêndoas são realizadas predominantemente via regime de drawback, o instrumento pode estar associado ao aumento dos estoques da indústria no mercado interno e prejudica o produtor com baixa remuneração”, afirma. Segundo ele, ao limitar o prazo a seis meses, a MP busca compatibilizar o uso do regime com a necessidade de maior equilíbrio entre a demanda industrial e a sustentação da produção nacional.

    Como funcionava e o que muda

    Antes da MP, as empresas tinham até 12 meses, prorrogáveis por mais 12, para exportar os derivados produzidos a partir das amêndoas importadas com benefício fiscal. Porém, com a nova regra, esse prazo cai para seis meses, sem possibilidade de prorrogação para essa categoria de insumo.

    Foto: Wenderson Araujo/Sistema CNA/Senar

    A intenção do governo é limitar a formação de grandes estoques de cacau importado e tornar o mercado mais alinhado à oferta interna. A expectativa do setor produtivo é que a medida force as moageiras a comprar mais amêndoa brasileira. Especialmente em estados como Bahia e Pará, que concentram a maior parte da cacauicultura nacional.

    Indústria contesta e projeta perdas bilionárias

    A mudança, porém, abriu um impasse com a indústria processadora. A Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau afirma que o governo adotou a medida sem diálogo com o setor e pode gerar efeitos negativos na cadeia produtiva. Atualmente, cerca de 22% das amêndoas processadas no país são importadas. E 99% dessas operações estão vinculadas ao regime de drawback.

    A indústria brasileira tem capacidade instalada próxima de 275 mil toneladas por ano. Mas processa cerca de 195 mil toneladas, operando com aproximadamente 30% de ociosidade. Para a AIPC, reduzir o acesso ao insumo importado amplia essa ociosidade sem resolver o problema de preços. E que. portanto, segundo a entidade, deriva da dinâmica global de oferta e demanda.

    Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) projeta que a medida pode resultar em perda de mais de 5 mil empregos formais e informais. Além da redução das exportações de derivados entre US$ 400 milhões e US$ 700 milhões, equivalente a até R$ 3,5 bilhões, em cinco anos.

    Produtores agradecem, mas pedem mais

    A Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC) agradeceu a medida. Mas fez ressalvas sobre o impacto a longo prazo: “O ponto central continua sendo o retorno da previsão de safra do cacau brasileiro. É a partir dessa informação que se poderá avaliar, com responsabilidade, se existe ou não necessidade de importação de cacau.”

    Vale lembrar que a MP entra em vigor imediatamente. Mas o Congresso Nacional do Brasil precisa convertê-la em lei em até 120 dias. Caso contrário, a medida perde a eficácia e gera insegurança jurídica para toda a cadeia.