Tag: Dia Internacional da Mulher

  • Empreendedorismo feminino transforma a agricultura familiar em Rondônia

    Empreendedorismo feminino transforma a agricultura familiar em Rondônia

    Cada vez mais mulheres ocupam espaço no campo e comandam empreendimentos rurais que impulsionam a economia de Rondônia. Com determinação e apoio de políticas públicas, produtoras vêm se destacando pela capacidade de transformar desafios em oportunidades e de gerar emprego e renda nas comunidades locais.

    A piscicultora Nara Regina de Souza Cruz, trabalha 10 anos no campo. Foto: Jéssica Ocampo/Secom Rondônia

    A piscicultora Nara Regina de Souza Cruz é um dos exemplos dessa força feminina. Há mais de dez anos, ela atua na produção de pescado e lidera uma agroindústria no Estado. “Temos uma agroindústria de pescado e contamos com o apoio da Emater, da Seagri e do governo estadual. Também fornecemos peixe para a merenda escolar”, conta Nara, que trabalha na chácara onde vive com a família.

    Filha de ribeirinho, Nara diz que a paixão pelo campo vem da própria história de vida. “Fui criada à beira do rio, vendo meu pai pescar. Senti falta dessa rotina quando morei na cidade e decidi voltar para mostrar aos meus filhos e netos o valor da terra. No início foi difícil, mas as lutas nos fazem crescer. Hoje incentivo outras mulheres a acreditarem que é possível prosperar no campo”, afirma.

    Na área de agroindústria de laticínios, a produtora Jéssica Félix também representa o protagonismo feminino na agricultura familiar. Ela iniciou sua trajetória há sete anos, motivada pelo amor à terra e pelo legado da família. “A paixão pelos queijos nasceu do desejo de transformar o leite em alimento com identidade. Participo de todas as etapas, da produção às vendas. Isso me conecta ao que faço”, destaca.

    Desafios

    Entre os desafios, Jéssica cita a busca por reconhecimento em um mercado competitivo. “Foi preciso conquistar respeito em um setor predominantemente masculino. Mesmo com as dificuldades, cada obstáculo fortalece. A mulher no campo é força, gestão e sensibilidade. Estamos na produção, nas vendas, e ainda cuidamos da família e dos colaboradores”, ressalta.

    Outra história de sucesso vem de Jaqueline Lugon Figueiredo, de Porto Velho. Ela atua com a criação e o abate de frangos em um frigorífico familiar que gera cerca de 25 empregos diretos. “Cuidamos das aves desde o nascimento até o abate, que ocorre com 41 dias. Nosso trabalho garante renda e fortalece a agricultura familiar”, explica.

    A trajetória de Jaqueline começou com a produção de polpa de frutas, fornecida por mais de uma década à merenda escolar. “Decidimos investir no frigorífico de frango e seguir no campo, como meus pais sempre fizeram. Eles são minha inspiração”, conta.

    O governador Marcos Rocha destaca a importância das políticas voltadas ao fortalecimento das mulheres rurais. “Elas têm papel essencial no desenvolvimento de Rondônia. Nosso governo continua investindo em ações que incentivem a participação feminina no agronegócio e na agricultura familiar”, afirmou.

    O secretário de Agricultura, Luiz Paulo, complementa que o crescimento do setor produtivo está diretamente ligado ao protagonismo das mulheres. “A contribuição feminina é fundamental para o fortalecimento das cadeias produtivas no Estado”, destacou.

  • Produtoras do Piauí assumem liderança em projetos de agricultura familiar

    Produtoras do Piauí assumem liderança em projetos de agricultura familiar

    Na zona rural de Teresina e em diversos municípios do Piauí, cresce o número de mulheres à frente da produção agrícola. Elas participam de todas as etapas da cadeia produtiva, do plantio à comercialização. E vêm consolidando um papel decisivo na economia rural do estado.

    A Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) tem priorizado políticas públicas voltadas às mulheres rurais. Segundo a secretária Rejane Tavares, cerca de 30% dos recursos dos programas da pasta são destinados a projetos liderados por mulheres. “Temos priorizado as mulheres rurais em quase todos os nossos programas”, destaca.

    Produtoras que inspiram o campo piauiense

    Em Coivaras, na localidade Malhada Alta, a produtora Leslly Raquel Costa dos Santos lidera a Associação de Produtores e Criadores do município. Com seis hectares, ela cultiva melancia, principal cultura local, além de milho, feijão verde e outras lavouras. Em 2025, Leslly colheu 179 toneladas de melancia e comercializou parte da produção por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e do Programa de Alimentação Saudável (PAS).

    “Conseguimos escoar volumes significativos para a Nova Ceasa. Ainda enfrentamos desafios na comercialização, mas seguimos com fé e persistência”, afirma a produtora, que também gera empregos temporários durante a colheita e contribui para a economia local.

    Para ela, a agricultura representa mais do que renda: é sinônimo de força e esperança. “Acordamos cedo, enfrentamos muitos desafios, mas acreditamos que vale a pena”, destaca.

    De autônoma a produtora rural em Teresina

    No Assentamento Vale da Esperança, na zona sudeste de Teresina, Cleidimar Oliveira de Araújo Sousa transformou a rotina da família ao investir na agricultura familiar. Antes autônoma, hoje cultiva hortaliças, feijão, milho, macaxeira e abóbora, além de criar pequenos animais.

    “O trabalho na agricultura aumentou nossa renda e melhorou nossa alimentação. Vendemos ao PAA, ao PAS e também na feira da Universidade Federal do Piauí”, conta. A renda mensal chega a cerca de um salário mínimo, sem contar os alimentos consumidos em casa.

    Agricultura como sinônimo de independência

    A produtora Antônia Soares de Moura Costa, conhecida como Toinha, é outro exemplo de protagonismo feminino no campo. Moradora da Serra do Gavião, em Teresina, ela cultiva três hectares e integra um grupo de 30 agricultores, sendo mais da metade mulheres, que compartilham uma área coletiva de oito hectares.

    A agricultora Antônia Soares de Moura Costa, conhecida como Toinha. Foto: Arquivo Pessoal

    Toinha cultiva banana, caju e acerola, além de aproveitar integralmente o fruto do caju para doces, pães e conservas. Parte da produção é vendida em feiras organizadas pela SAF e por programas de compra pública. “Com as vendas, nossa renda mensal chega a R$ 1,6 mil”, afirma.

    Essas histórias refletem a força do trabalho feminino na agricultura familiar piauiense. Nas comunidades rurais, as mulheres vêm consolidando espaço, ampliando a renda e garantindo alimentos saudáveis à população. O protagonismo delas mostra que a agricultura familiar é, acima de tudo, uma forma de resistência e de vida no campo.

  • Força feminina transforma a produção rural em Divino, Minas Gerais

    Força feminina transforma a produção rural em Divino, Minas Gerais

    No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a força feminina no campo mineiro se revela nas histórias das produtoras de Carangolinha de Cima, comunidade rural de Divino, na Zona da Mata de Minas Gerais. Lá, as mulheres transformam a terra e o sustento das famílias por meio da agricultura familiar.

    Cerca de 60% dos 200 moradores da comunidade são mulheres, responsáveis por todas as etapas da produção agrícola, do plantio à comercialização. Elas cultivam cafés especiais, hortaliças, frutas, farinhas, quitandas e doces, abastecendo feiras locais, mercados e programas de alimentação escolar.

    “Aprendi com minha mãe, que já se foi, a respeitar a natureza e trabalhar com amor”, conta Renata de Souza Gomes, de 40 anos. Agricultora e formada em Educação do Campo pela UFV, ela se dedica à produção de cafés especiais e mantém vivas as tradições da família em Carangolinha de Cima.

    Gerações

    A história de Renata reflete a força feminina de várias gerações. Ela vive com a avó, Geisha Neto de Souza, a dona Zica, de 90 anos, e com as tias Neli, Ana, Vanilda e Romilda. A jovem Valentina, de 12 anos, filha de Romilda, já demonstra vontade de seguir no mesmo caminho. “Aqui plantamos banana, feijão, abóbora, mandioca, abacate, manga, amora, pitanga… A lista é grande”, celebra Renata.

    A tradição começou com dona Zica, que, ainda no século passado, plantou as primeiras lavouras ao lado do marido. Para Renata, as mulheres sempre sustentaram o campo, mesmo quando o reconhecimento era raro. “Antes, cuidávamos dos quintais e da família, garantindo alimento e afeto. Hoje, temos orgulho de dizer que somos produtoras rurais”, afirma.

    Essa mudança trouxe independência financeira e visibilidade. “Muitos homens ainda perguntam por meu pai ou marido, e eu respondo com orgulho: pode falar comigo. Nada nos impede”, diz Renata, que estampa em suas embalagens a frase “Produzido por mulheres”.

    Apoio e protagonismo feminino

    O trabalho das produtoras de Carangolinha de Cima recebe apoio técnico da Emater-MG, vinculada à Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa). As ações incluem assistência no cultivo, capacitação e acesso a tecnologias agrícolas. “Participo de cursos e dias de campo que ampliam nosso conhecimento e fortalecem a produção”, conta Renata.

    Em 2025, a comunidade foi beneficiada pelo Programa Irriga Minas, que distribuiu kits de irrigação a 49 agricultores familiares de Divino. 27 deles destinados a mulheres da comunidade. Com o sistema de irrigação, as produtoras aumentaram a oferta de alimentos e o fornecimento ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), gerando mais renda para as famílias.

    “Ampliar a produção e fortalecer o protagonismo feminino no campo é essencial para o desenvolvimento rural sustentável”, destaca Emanuella Costa Torres, extensionista da Emater em Divino.

  • Crédito rural impulsiona protagonismo feminino no campo

    Crédito rural impulsiona protagonismo feminino no campo

    Entre 2023 e 2025, as produtoras rurais responderam por 43,2% dos financiamentos concedidos a pessoas físicas pelo Fundo de Expansão do Agronegócio Paulista (FEAP), segundo dados da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O programa estadual financia investimentos voltados à modernização das propriedades, ao aumento da produtividade e à geração de renda no campo.

    O avanço da presença feminina no crédito rural paulista reforça uma tendência global de maior protagonismo das mulheres na produção de alimentos. Em 2026, a FAO, agência da ONU para Alimentação e Agricultura, declarou o Ano Internacional da Mulher Agricultora, iniciativa que estimula políticas públicas de igualdade no meio rural e reconhece o papel das produtoras na segurança alimentar mundial.

    Além das linhas de financiamento, o governo paulista atua com assistência técnica, extensão rural e pesquisa agropecuária para fortalecer a gestão das propriedades e ampliar a renda das famílias rurais. Segundo o secretário de Agricultura, Geraldo Melo Filho, o crédito tem sido uma ferramenta estratégica nesse processo. “O fortalecimento da presença feminina no agro passa por instrumentos concretos de apoio. O crédito rural amplia oportunidades, incentiva investimentos e impulsiona o desenvolvimento econômico das famílias do campo”, afirma.

    FEAP Mulher amplia inclusão produtiva no campo

    Entre os destaques das políticas voltadas às produtoras está o FEAP Mulher Agro SP, linha de crédito destinada exclusivamente às mulheres. Desde 2023, o programa já liberou R$ 27 milhões em financiamentos e beneficiou mais de mil agricultoras em várias regiões do estado.

    Cada produtora pode contratar até R$ 30 mil, com prazo de pagamento de até 84 meses, carência de 12 meses e juros de 2% ao ano. Os projetos são elaborados e acompanhados por técnicos da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral) e do ITESP, que orientam a aplicação dos recursos e oferecem suporte na gestão da propriedade.

    Para o secretário executivo do FEAP, Felipe Alves, o crédito rural funciona como uma porta de entrada para outros serviços públicos. “O financiamento é muitas vezes o primeiro contato estruturado entre a produtora e a assistência técnica. A partir daí, surgem melhorias na gestão, aumento da produtividade e adoção de boas práticas no campo”, destaca.

    Crédito transforma a rotina de produtoras rurais

    O impacto do crédito rural aparece em histórias como a da produtora Fernanda Torres da Silva, do município de Cerqueira César. Há cerca de dez anos, ela administra com a família o Sítio São Pedro, de 18 hectares, voltado à bovinocultura leiteira.

    Em 2024, Fernanda acessou a linha do FEAP Mulher Agro SP e investiu R$ 25 mil na compra de uma ordenha mecânica. O equipamento modernizou a rotina da propriedade e reduziu o tempo de trabalho. “Antes, eu demorava quase três horas para tirar o leite de 20 vacas. Agora, esse processo leva menos de uma hora. Sobra tempo para cuidar de outras atividades da fazenda”, conta.

    Resultados como o de Fernanda demonstram como o crédito à mulher rural vem se consolidando como um instrumento de inclusão produtiva e fortalecimento da liderança feminina no agronegócio paulista.

  • Conheça as polenteiras de Nova Veneza

    Conheça as polenteiras de Nova Veneza

    No interior de Goiás, a 30 quilômetros de Goiânia, uma cidade preserva mais do que arquitetura e festas típicas: preserva a alma da imigração italiana. E quem carrega esse peso, com orgulho e tacho na mão são, sobretudo, as mulheres.

    Foto: Raquel Pinho/Divulgação

    No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, Nova Veneza homenageia aquelas que sustentam a herança italiana com trabalho, memória e generosidade. A cidade, fundada em 1958 por descendentes de imigrantes italianos que chegaram ao Brasil entre 1870 e 1920, consolidou-se como principal referência da cultura ítalo-goiana no estado. Especialmente por meio do Festival Italiano de Nova Veneza, que chega à 20ª edição em 2026.

    Mas os números e as datas contam apenas parte da história. A cultura italiana em Nova Veneza sobrevive, acima de tudo, nas cozinhas, quintais e roças onde mães e avós ensinaram suas filhas a cozinhar, rezar e existir.

    O matriarcado que preserva uma cultura

    Desde os primeiros anos de ocupação do solo goiano, foram as mulheres que transmitiram de geração em geração os valores, os hábitos e as receitas trazidos da Itália. A proximidade com os filhos fez da mãe a principal guardiã da identidade cultural no ambiente doméstico. Na cozinha, o ensino nunca parou.

    É nesse contexto que a história das irmãs Ana Maria (68), Iranilda Maria,a Nida (62) e Divina Aparecida (59) ganha significado especial. Há quase 20 anos, o trio integra a equipe de polenteiras do Festival Italiano de Nova Veneza, um grupo de quase 40 mulheres que mantém fila de espera para quem quer degustar a famosa polenta italiana do evento.

    As três são netas de italianos que vieram para Goiás trabalhar em fazendas de compatriotas. O avô as chamava, coletivamente, de “as Marias”. “Quando ele chamava uma Maria, estava chamando todas nós”, lembra Dona Ana, com carinho.

    Da roça ao festival: uma receita passada de mão em mão

    A polenta entrou na vida das irmãs antes mesmo de saberem o que era tradição. Na infância, a mãe preparava o prato no fogão da roça. Às vezes no lanche, com leite; outras vezes no almoço, com caldo de frango e arroz. Um cruzamento espontâneo entre a culinária italiana e a goiana.

    “Minha mãe foi muito importante pra mim, ensinou da polenta e muita coisa boa para nós”, diz Divina. Nida recorda que o prato era presença certa nas refeições: “Era mais comum na hora do lanche, com leite, mas ela também fazia para comer no almoço com caldo de frango e arroz.”

    Ana fecha o ciclo com uma observação simples e poderosa: “Minha mãe aprendeu com a avó dela, que provavelmente também teve uma mãe como professora. Agora estamos juntas todos os anos fazendo polenta, para não deixar a cultura morrer.”

    Mesmo fora do calendário do festival, as irmãs não param. Amigos, familiares e conhecidos batem à porta pedindo polenta. E elas fazem, sempre de bom grado.

    Uma nova geração na cozinha

    A tradição não para nas irmãs. Os netos demonstram cada vez mais interesse pelas raízes, e alguns já participam do festival. Dona Ana conta que a 19ª edição marcou a estreia do neto João Pedro na equipe. E que ele já confirmou presença na 20ª.

    “Tem que pôr eles mais novos para trabalhar, para aprender. Porque nós já estamos velhas e não aguentando muita coisa”, diz Ana, entre risos.

    Foto: Raquel Pinho/Divulgação

    A renovação também motiva Nida: “Os novinhos têm que aprender a fazer igual, para fazer um trem bão e gostoso, porque não pode faltar polenta pra ninguém.” Com leveza na voz, ela completa: “Eu quero continuar sendo polenteira enquanto Deus me der saúde.”

    Divina ressalta o espírito coletivo que transforma o trabalho pesado em celebração: “O povo fica todo animado, é gostoso. A gente deixa de ser só uma equipe e se torna uma grande família. É cansativo, é pesado o serviço, mas pela união a gente fica mais forte.”

    O Festival Italiano de Nova Veneza integra o calendário oficial de grandes eventos gastronômicos de Goiás. A 20ª edição, com o tema Brindiamo Storia e Sapori (Brindando História e Sabores!), acontece de 28 a 31 de maio de 2026, na cidade que nasceu da imigração italiana e recebe mais de 150 mil visitantes nos quatro dias de festa.

    As polenteiras já aqueceram os tachos.

  • Dia Internacional da Mulher expõe desigualdades entre gênero e raça no Brasil

    Dia Internacional da Mulher expõe desigualdades entre gênero e raça no Brasil

    O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, estimula debates sobre conquistas e desafios relacionados à igualdade de gênero. No entanto, especialistas alertam para a necessidade de ampliar a discussão: de que mulher realmente estamos falando? No Brasil, as desigualdades recaem com maior peso sobre as mulheres negras, que enfrentam simultaneamente as barreiras do racismo e do sexismo.

    Um levantamento inédito divulgado em 2025 pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com a Vital Strategies e a Umane, revela que 72% das mulheres negras apontam múltiplas razões para sofrer discriminação. É um índice superior ao dos homens negros (62,1%). A pesquisa utilizou pela primeira vez a Escala de Discriminação Cotidiana, que mede a frequência de situações discriminatórias na rotina dos brasileiros. O estudo mostra ainda que 84% das pessoas negras já foram vítimas de racismo.

    Realidade salarial

    Os dados reforçam uma realidade persistente. Um levantamento do Instituto Locomotiva, feito para a iO Diversidade, mostra que mulheres negras com ensino superior recebem, em média, 55% menos do que homens brancos com a mesma formação. Enquanto elas ganham R$ 3.571, eles recebem cerca de R$ 7,9 mil. Para a cofundadora da consultoria Inaperê, Dedé Ladeira, o dado evidencia que a educação, sozinha, não é suficiente para romper barreiras estruturais.

    A desigualdade também aparece no acesso à proteção previdenciária. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2022, 21,2% das mulheres negras ocupadas entre 16 e 59 anos não conseguiam contribuir para a Previdência. Entre os homens brancos, o percentual era de apenas 6,8%.

    “Não é possível tratar o Dia Internacional da Mulher de forma homogênea”, afirma Dedé Ladeira. “Quando observamos a realidade das mulheres negras, percebemos que gênero e raça operam juntos na produção das desigualdades. Essa conversa precisa acontecer nas escolas, nas famílias e em todos os espaços de formação.”

    Educação

    No campo educacional, o debate ganha ainda mais força. Embora as mulheres representem a maioria entre os docentes, a presença feminina não se traduz em equidade racial nos cargos de liderança. Segundo o Instituto Ethos, as mulheres negras seguem sub-representadas nos espaços de poder e decisão.

    Dedé propõe que redes de ensino repensem suas práticas. “As escolas precisam se perguntar: estamos contratando de forma equitativa? Temos políticas claras de diversidade na gestão? Como anda a saúde mental das mulheres negras, que convivem com sobrecarga e racismo institucional?”, provoca.

    Para a Inaperê, a construção de uma cultura escolar antirracista exige ações concretas: criação de protocolos de acolhimento, revisão de processos seletivos, formação continuada em letramento racial e espaços seguros de escuta. “Falar de equidade no Dia da Mulher é reconhecer que algumas mulheres enfrentam obstáculos adicionais. Ignorar isso é perpetuar desigualdades”, conclui Dedé.

  • Mulheres agricultoras assumem gestão do campo

    Mulheres agricultoras assumem gestão do campo

    A produtora rural Elisiane Soster acorda cedo em Belmonte, no Extremo Oeste de Santa Catarina. Junto com a mãe, Salete Pasini Soster, ela toca uma propriedade com 70 hectares de lavoura, 45 vacas em lactação e toda a rotina da cria e recria de bezerras. A dupla faz parte de um grupo ainda restrito no Brasil: mulheres que exercem a gestão de negócios rurais.

    O último Censo Agropecuário do IBGE, realizado em 2017, contabilizou quase um milhão de mulheres na liderança de propriedades rurais,  18,7% do total. O número representa avanço em relação ao censo anterior, de 2006, quando a participação era de apenas 12,7%. Ainda assim, a sub-representação expõe um histórico de invisibilidade: as mulheres respondem por 45% da força de trabalho na agropecuária brasileira, mas raramente ocupam o posto de gestoras.

    Para ampliar esse protagonismo, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora, com foco na promoção de políticas públicas que fortaleçam o papel feminino no campo. Em Santa Catarina, a Epagri já caminha nessa direção há anos.

    Capacitação que transforma vidas e negócios

    Entre 2019 e 2025, o programa Flor-E-Ser, da Epagri, formou mais de 1.300 mulheres do campo e da pesca em gestão, empreendedorismo e liderança. Nos últimos dois anos, o número de capacitadas dobrou. A procura é tão alta que as turmas já não dependem de divulgação: as próprias participantes recrutam novas alunas.

    “Temos listas de espera enormes e nem precisamos mais divulgar as capacitações, porque as mulheres que participaram incentivam as demais a fazer”, afirma Cianarita Caron Figueiró, coordenadora do Programa Capital Humano e Social da Epagri.

    Os relatos recolhidos pela empresa apontam um impacto que vai além do profissional. Muitas participantes descrevem o curso como um divisor de águas em suas vidas. “Muitas mulheres relatam que, após o curso, sentem-se verdadeiramente integradas ao planejamento da propriedade, assumindo funções estratégicas na gestão e posições de liderança na comunidade”, destaca Ciana. Para ela, o principal ganho das capacitações é o resgate da autoestima, o combustível que leva as mulheres a tomar iniciativas e impulsionar o crescimento do negócio rural.

    Jovens mulheres e a sucessão familiar

    Outra frente de atuação da Epagri é o programa Ação Jovem Rural e do Mar, voltado à sucessão familiar nas propriedades rurais. De 2021 a 2025, mais de 320 mulheres passaram pelo curso. Homens ainda representam cerca de 75% dos participantes, mas a Epagri aposta em ações estratégicas para mudar esse cenário.

    No ano passado, a empresa assumiu a gestão compartilhada dos cinco Cedups Agrotécnicos com a Secretaria de Estado da Educação, integrando pesquisa, extensão rural e ensino técnico. Hoje, mulheres representam 30% dos estudantes das unidades. Uma das barreiras identificadas é estrutural: os Cedups oferecem alojamento apenas para homens. A construção de espaços femininos está prevista a médio prazo.

    “Os agricultores já conhecem a Epagri e confiam na empresa, presente em todos os municípios. A sensibilização por parte dos extensionistas é muito importante nesse sentido”, afirma Andréia Meira, diretora de Ensino Agrotécnico da Epagri. Ela também vê na parceria com o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e a Cooperativa Aurora um estímulo extra: a partir de 2025, alunos poderão atuar como jovens aprendizes com bolsas de R$ 750.

    “As mulheres têm um papel muito importante na sucessão familiar no campo, por isso a Epagri tem todo o interesse em estimular a profissionalização”, reforça Andréia.

    “Gestão não tem gênero”

    Elisiane Soster conhece esse caminho na prática. Quando o pai faleceu, há quatro anos, ela e a mãe assumiram integralmente a propriedade. Vieram com isso o ceticismo alheio e a determinação de provar o contrário.

    “Logo após o falecimento do meu pai, algumas pessoas duvidaram se daríamos conta. Mas transformamos isso em combustível. Hoje mostramos, na prática, que gestão não tem gênero. Tem competência e responsabilidade”, diz ela.

    Eliane Soster, acima ao lado da mãe Salete Pasini Soster. Foto: Arquivo pessoal

    Técnica em Agropecuária, Elisiane participou do Ação Jovem Rural da Epagri em 2016, aos 21 anos. Hoje cursa Tecnologia em Gestão Financeira, presta consultoria a famílias rurais em processos sucessórios e realiza palestras em empresas, cooperativas e instituições. É também coautora do livro Rainhas Internacionais do Agro, que reúne relatos de mulheres agricultoras de vários países.

    “Percebo que as mulheres estão buscando mais espaço e assumindo decisões estratégicas. Muitas fazem tudo, mas ainda não se reconhecem como gestoras. Acredito que estamos vivendo uma transição: a mulher sempre esteve no campo, mas agora ela está se posicionando como líder”, conclui Elisiane.

  • Conheça as mulheres por trás de uma das maiores vinícolas do Brasil

    Conheça as mulheres por trás de uma das maiores vinícolas do Brasil

    No universo do vinho brasileiro, poucas histórias combinam tradição familiar e visão de mercado com tanta coerência quanto a da vinícola Lidio Carraro. E no centro dessa trajetória estão duas mulheres: Isabel Carraro, matriarca da família, e Patricia Carraro, diretora criativa de marketing. Mãe e filha. Posturas distintas. Um mesmo propósito.

    Isabel Carraro. Divulgação vinícola Lidio Carraro

    No Dia Internacional da Mulher, a vinícola gaúcha, sediada no Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, escolhe reconhecer o papel concreto dessas duas figuras, não com discursos genéricos, mas com uma narrativa construída ao longo de décadas de trabalho, decisões difíceis e muito vinho.

    A liderança que acolhe

    Isabel Carraro é esposa de Lidio Carraro e mãe de Patricia, Giovanni e Juliano. Avó de nove netos, ela exerce a liderança de forma natural, firme nos momentos de crise, sensível no cotidiano da empresa familiar.

    Seu espírito empreendedor esteve presente nos três grandes momentos da vinícola: implantação, expansão e consolidação. Nos períodos mais difíceis, foi Isabel quem manteve o equilíbrio entre as decisões de negócio e a coesão familiar. Afinal, nenhuma estratégia empresarial sustenta uma empresa de origem familiar sem o suporte humano que vem de dentro de casa.

    Além do papel interno, Isabel é o rosto da hospitalidade da Lidio Carraro. Frequentemente, recebe clientes, parceiros e visitantes na sede da vinícola boutique, transformando cada visita em uma experiência que vai além do vinho na taça. Esse gesto repetido ao longo dos anos criou algo raro no setor: uma comunidade de pessoas que se sentem parte da família Carraro.

    A guardiã da identidade da marca

    Se Isabel firmou as bases, Patricia Carraro assumiu a missão de projetar esse legado para o mercado nacional e internacional. Como diretora criativa de marketing, ela zela pela identidade visual, pelo posicionamento estratégico e pela narrativa que acompanha cada rótulo da vinícola.

    Internamente, Patricia carrega a descrição de “guardiã dos valores da família”, e o papel justifica o título. Cada campanha, cada lançamento e cada reposicionamento de marca passam pelo seu olhar, com uma premissa clara: inovar sem descaracterizar, crescer sem perder a essência.

    Com uma visão feminina e contemporânea, Patricia transformou a comunicação da Lidio Carraro em extensão direta da filosofia purista que orienta a produção dos vinhos. Para ela, o desafio permanente é “preservar quem somos enquanto avançamos” — especialmente num setor em que o novo parece, cada vez mais, disputar espaço com o autêntico.

    Um legado a quatro mãos

    A história da Lidio Carraro poderia se resumir à trajetória de uma vinícola que cresceu e ganhou reconhecimento. Mas ela é, antes de tudo, a história de uma família que soube permanecer unida. E de duas mulheres com perfis complementares que ajudaram a construir não apenas uma empresa, mas uma cultura organizacional.

    Isabel representa a base: a segurança, o acolhimento e a força silenciosa que sustenta decisões importantes. Patricia representa o movimento: a estratégia, a criatividade e o olhar que conecta o passado ao futuro.

    Juntas, elas sintetizam o que a Lidio Carraro celebra neste 8 de março: a liderança feminina que une gerações, preserva valores e projeta crescimento, com autenticidade e sem abrir mão de quem se é.

  • Alagoas lança projeto para fortalecer o protagonismo feminino no campo

    Alagoas lança projeto para fortalecer o protagonismo feminino no campo

    Com o objetivo de valorizar o protagonismo feminino no campo e fortalecer o enfrentamento à violência de gênero, a Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (Seagri) lançou o projeto “Mulheres: Raízes da Resistência”. A iniciativa integra a Política Estadual Alagoas Lilás e busca promover igualdade, garantir direitos e incentivar a liderança das trabalhadoras rurais.

    O lançamento contou com a presença do vice-governador Ronaldo Lessa, do secretário Marcelo Melo, além de representantes de movimentos sociais e lideranças femininas do campo. O projeto percorrerá municípios alagoanos com campanhas educativas, rodas de conversa e ações de conscientização sobre direitos, serviços públicos e igualdade de gênero.

    Durante a cerimônia, Marcelo Melo destacou dados do IBGE que apontam o avanço da presença feminina na agricultura. 25% dos estabelecimentos agropecuários de Alagoas são liderados por mulheres, acima da média nacional de 19%. O secretário, no entanto, alertou para os desafios ainda existentes. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, 80% das mulheres rurais já presenciaram ou vivenciaram algum tipo de violência.

    “Quem produz e sustenta o campo não pode continuar enfrentando desigualdade e violência. Este projeto representa um compromisso permanente com as mulheres que movimentam a economia rural de Alagoas”, afirmou Melo.

    Importância de políticas públicas

    O vice-governador Ronaldo Lessa reforçou a importância de políticas públicas voltadas para inclusão produtiva e equidade de gênero. Segundo ele, a economia solidária tem sido protagonizada por mulheres:

    “Elas lideram cooperativas e fortalecem a organização social do campo. Nosso papel é garantir condições para que essa produção continue transformando vidas”, disse Lessa.

    A presidente do Fórum de Combate à Violência Contra a Mulher do Campo, Maria Rita Rosa dos Santos, considerou o lançamento uma conquista histórica para o reconhecimento das trabalhadoras rurais.

    O evento também marcou a criação da premiação “Mulheres: Raízes da Resistência”, que homenageia mulheres com trajetória de liderança e transformação social no campo. Entre as homenageadas estão Inês Santos da Silva, dirigente sindical em Teotônio Vilela; o Grupo Mulheres do Dom, coletivo que atua desde 2007 na promoção do empoderamento feminino; e Daiana Oliveira, militante da reforma agrária e da agroecologia.

    Outras mulheres homenageadas incluem Raquel Braz do Nascimento, primeira presidente mulher do Sindicato Rural de Branquinha; Ivonete Fernandes, agricultora familiar e líder sindical em Arapiraca; Jakeline Maria dos Santos, agrônoma e empreendedora rural; Margarida Maria da Silva, assentada da reforma agrária; Helena Maria dos Santos Alve, presidente de associação em Junqueiro; Maria José Alves, referência no cooperativismo em Alagoas; e Maria das Dores de Oliveira Cavalcante, produtora cultural e liderança comunitária em União dos Palmares.

    Com o projeto “Mulheres: Raízes da Resistência”, o governo de Alagoas reafirma o compromisso de tornar a igualdade de gênero no campo uma política permanente, fortalecendo o papel das mulheres na agricultura familiar e na construção de um meio rural mais justo e sustentável.

  • Liderança feminina cresce na indústria de máquinas agrícolas

    Liderança feminina cresce na indústria de máquinas agrícolas

    A presença feminina avança de forma consistente na indústria de máquinas agrícolas, fortalecendo a inovação, a modernização de processos e novos modelos de liderança. Em um ambiente historicamente dominado por homens, a AGCO mostra que a transformação cultural está em curso.

    Nos últimos cinco anos, a participação de mulheres no quadro total da companhia cresceu de 13% para 16%. O avanço é ainda mais expressivo entre os cargos de gestão, onde a liderança feminina passou de 11% para 18%. Na manufatura, as profissionais agora representam 13% do total, ante 8% em 2019. O equilíbrio também chega às novas gerações: as mulheres ocupam hoje 48% das vagas de estágio da empresa.

    Expansão regional e novos talentos

    As unidades fabris da AGCO no Brasil refletem esse movimento de expansão. A planta de Canoas (RS) concentra 19% de mulheres em seu quadro, seguida de Ibirubá (RS), com 15%, que registrou o maior crescimento da companhia. Um salto de 9% nos últimos cinco anos. Já as fábricas de Mogi das Cruzes (SP) e Santa Rosa (RS) mantêm 9% de participação feminina.

    Embora as áreas corporativas continuem com a maior presença de mulheres, com 46% das profissionais, setores como Engenharia e Manufatura mostram avanços consistentes e sustentáveis.

    Mulheres que transformam processos

    A engenheira Marina Maletzke, da unidade de Ibirubá, atua na modernização dos processos produtivos e participou de projetos de automação industrial, como a produção robotizada da plantadeira Momentum. Mais de 60% dos conjuntos soldados da linha são realizados de forma automatizada. Para Marina, atuar em áreas técnicas exige postura firme e confiança para converter barreiras em oportunidades de diálogo e evolução.

    Marina Maletzke é engenheira e atua em área estratégica da manufatura na fábrica da AGCO, em Ibirubá (RS). Foto: AGCO

    Em Canoas, a engenheira de produção Mariana Peteffi, de 27 anos, iniciou a carreira como estagiária e hoje comanda uma equipe de 60 profissionais responsáveis pela usinagem na fabricação de tratores. Ela afirma que conquistar credibilidade como mulher jovem na gestão industrial é um desafio, mas também uma oportunidade de mostrar resultados e inspirar outras profissionais.

    Diversidade como estratégia de inovação

    Para estimular a pluralidade e consolidar uma cultura inclusiva, a AGCO criou em 2025 o Comitê de Diversidade e Inclusão. O grupo atua nos pilares de Talento, Cultura, Mercado e Comunidade, com o objetivo de promover respeito, equidade e ideias criativas dentro das operações da empresa.

    Mariana Peteffi coordena iniciativas para ampliar a eficiência e qualidade dos processos de usinagem na fábrica da AGCO, em Canoas (RS). Foto: AGCO

    Segundo Angélica Kanashiro, vice-presidente de Recursos Humanos da AGCO América Latina e Business Partner Global para Massey Ferguson, a diversidade impulsiona o desenvolvimento do negócio e fortalece a competitividade no mercado.

    “A inclusão vai além de uma métrica de recursos humanos; ela é um elemento estratégico que potencializa a inovação e amplia a capacidade da indústria de atender às demandas dos agricultores em escala global”, destaca Kanashiro.