Em um marco histórico para a cafeicultura, a Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer) elegeu Mariana Velloso Heitor como a primeira mulher a presidir seu conselho de administração. Heitor, parte da terceira geração de uma família de cafeicultores, assume o cargo após 12 anos de gestão na fazenda do grupo. E com uma trajetória consolidada na Expocacer, onde ocupava a vice-presidência.
“Me sinto lisonjeada por fazer parte deste marco histórico, agradeço a confiança do conselho em me escolher para o cargo. Estarei à disposição dos nossos cooperados para ouvi-los e, juntamente com o Vice-Presidente Antonio Mazzo e a Diretoria Executiva, realizarmos iniciativas que tragam as soluções necessárias, com o objetivo de promover a Expocacer, os nossos cooperados e uma cafeicultura de qualidade com impacto positivo”, afirma Heitor.
Mulheres conquistando espaço no café
A nomeação de Mariana Heitor reflete uma tendência crescente de maior representatividade feminina na indústria do café. Dados da International Coffee Organization apontam que mulheres gerem entre 20% e 30% das fazendas de café globalmente, respondendo por até 70% da mão de obra na produção, dependendo da região. No Brasil, 13,2% dos estabelecimentos do setor são liderados por mulheres.
A nova presidente expressa que seu legado se encontra no movimento criado ao longo dos anos para valorizar o papel da mulher no setor.
“Um exemplo é o projeto Elas no Café, que criamos há 10 anos. E visa capacitar e incentivar a presença feminina no setor por meio de cursos teóricos e práticos. Este é um projeto que considero um marco no meu caminho e no da cooperativa. Estima-se que ao longo do programa mais de 400 mulheres foram capacitadas. E isto só reafirma que estamos no caminho certo, com compromisso a diversidade e inclusão. Nós, mulheres, fizemos diferença na história da cafeicultura e vamos continuar fazendo por meio das próximas gerações”, afirma a Presidente.
Trajetória reconhecida
Mariana Heitor acumula experiência como conselheira de Administração e Fiscal da Expocacer, além de ser ativa participante em programas como a plataforma Sebrae/Educampo. Seu trabalho na cafeicultura rendeu-lhe o Prêmio Mulher do Agro 2022, promovido pela Bayer e pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).
Simão Pedro de Lima, Diretor Presidente Executivo da Expocacer, demonstra confiança na nova gestão: “A diretoria executiva está alinhada aos propósitos da Expocacer e às diretrizes estabelecidas pelo Conselho de Administração. Maria Heitor e Antonio Mazzo, agora como presidente e vice-presidente respectivamente, darão sequência ao planejamento estratégico da cooperativ. Liderando com a qualidade, competência, dedicação e experiência que os caracterizam como excelentes administradores. Uma ótima escolha feita pelo Conselho de Administração”.
No Dia Internacional da Mulher, destacamos o crescimento da participação feminina em diversas profissões. Empresas de diferentes setores têm investido em programas de inclusão e desenvolvimento para ampliar as oportunidades e valorizar o protagonismo das mulheres.
A Eldorado Brasil Celulose é um exemplo de empresa que aposta na diversidade, garantindo a presença feminina em áreas antes dominadas por homens, como inovação, tecnologia, operações e sustentabilidade.
Ana Carolina Tessarini, gerente de Desenvolvimento, Atração e seleção da Eldorado Brasil. Foto: Divulgação Eldorado Brasil Celulose
“Empenhada cada vez mais em ter um olhar especial e inclusivo para as mulheres, desde o processo seletivo até a fomentacão de novas lideranças, a Eldorado ampliou a participação feminina. A empresa desenvolve programas específicos, como a mentoria, promovendo um ambiente de valorização”, explica Ana Carolina Tessarini, gerente de Desenvolvimento, Atração e Seleção da empresa.
Agda Maria de Oliveira Silva, de 32 anos, da etnia Guarani Kaiowa, iniciou como ajudante florestal e, após um curso de operação de tratores, hoje comanda uma das máquinas em campo.
Agda Maria, tratorista. Foto: Divulgação Eldorado Brasil Celulose
“Me senti bem valorizada enquanto profissional, pessoa e mulher. Algumas pessoas pensam que ser tratorista é profissão masculina, mas mostramos que não. As mulheres podem estar onde quiserem”, destaca Agda.
Para reforçar essa inclusão, a empresa criou em 2024 sua primeira turma de tratoristas composta apenas por mulheres. Formada por oito colaboradoras, o treinamento foi alinhado com o Programa Trilha de Carreira, que impulsiona o desenvolvimento profissional de forma igualitária, fortalecendo a confiança para que elas ocupem quaisquer posições almejadas, seja como tratorista ou em cargos de liderança.
Mulheres nas estradas: força sobre rodas
Letícia Rios de Lima, de 35 anos, é motorista de tritrem na Eldorado Brasil, transportando madeira em caminhões de até 30 metros e com capacidade para o transporte de até 74 toneladas.
Letícia Rios, motorista tritrem na Eldorado Brasil. Foto: Divulgação Eldorado Brasil Celulose
“Ser motorista de tritrem é uma conquista, pois estamos ocupando uma vaga que antes era só masculina. Mostramos nossa força para toda a sociedade”, enfatiza Letícia.
A segurança é prioridade na empresa, que investe em tecnologia para otimizar a gestão logística e garantir melhores condições de trabalho para os condutores. Aliás, a tecnologia embarcada nesses veículos, aliada à gestão logística, permite tomadas de decisões rápidas, elevando o desempenho da operação e a disponibilidade dos caminhões e garantindo mais segurança para os condutores.
Mulheres na liderança: transformando o setor portuário
Em Santos (SP), Fernanda de Souza Machado atua como especialista em Segurança Aduaneira e Regulatória no Terminal EBLog.
“A Eldorado Brasil tem dado abertura para que a presença feminina no setor portuário cresça, promovendo diversidade, inovação e competitividade”, ressalta Fernanda.
Fernanda Machado, especialista em Segurança Aduaneira e Regulatória, no Terminal EBLog. Foto: Divulgação Eldorado Brasil Celulose
Na rotina do trabalho, Fernanda alia resiliência, conhecimento técnico e capacidade de adaptação para lidar com uma estrutura complexa e um ambiente regulatório em constante evolução que exigem sustentabilidade nas operações logísticas, tecnologia e visão estratégica para antecipar e mitigar riscos. Além disso, como mulher, atuando em um ambiente historicamente masculino, um desafio adicional é reforçar a presença feminina em espaços de decisão. “Felizmente, vejo mudanças positivas e mais oportunidades para mulheres assumirem papéis estratégicos no setor”, diz a especialista
Mulheres na indústria: crescimento e apoio
A operadora de painel do setor de águas, Isabela Cristina da Silva Alves, de 18 anos, celebra a evolução da presença feminina na indústria.
“Ver essa mudança e fazer parte de uma gestão que valoriza talentos é um orgulho. Sempre tive apoio para crescer profissionalmente e conciliar a carreira com a maternidade”, afirma Isabela, mãe de dois filhos.
Isabela Alves, operadora de painel. Foto: Divulgação Eldorado Brasil Celulose
Durante a segunda gravidez, ela recebeu apoio do programa “Gerar Saúde do Bebê”, que oferece suporte integral às gestantes da empresa.
Engenharia: a evolução da presença feminina
A presença feminina na engenharia também cresce. Em 2019, apenas 12% dos registros profissionais eram de mulheres, percentual que chegou a 20% em 2023. Do total de 1,1 milhão de registros profissionais, apenas 200 mil pertencem ao público feminino, incluindo, além de engenheiras, agrônomas, meteorologistas, geógrafas e geólogas, entre outras profissões do sistema.
A engenharia civil é a preferência delas na hora da escolha do curso, conforme aponta a análise dos dados do Censo da Educação Superior, realizado pelo Ministério da Educação. Entre as 25.934 concluintes dos cursos de engenharia em todo o país no ano de 2023, pouco mais de 8 mil, ou 30%, optaram pela Civil.
Victória Fassioni, de 27 anos, engenheira civil em Goiânia, comemora sua trajetória.
“A engenharia me escolheu. Sempre fui determinada e nunca pensei que poderia ser subjugada por ser mulher. Com respeito e competência, vamos rompendo barreiras culturais”, conta Victória, que comanda sua primeira obra de grande porte.
Engenheira civil Victoria Cunha Fassioni, que atualmente comanda obras do residencial Wellness Marista, da Sim Incorporadora. Foto: Arquivo pessoal
Mas mesmo tendo consciência da enorme responsabilidade que tem, isso não assusta a jovem engenheira, que diz do que mais gosta em sua profissão. “O que me atraiu na Engenharia Civil é o dinamismo do dia a dia de uma obra, os desafios de subir uma obra do zero e ver as atividades acontecendo. Gosto muito também dessa questão de comandar as equipes de uma obra, que tem funções específicas, mas igualmente importantes para todo o conjunto da obra”, enfatiza.
Empresas inclusivas transformam carreiras
A Aperam South America, maior produtora de aços planos especiais da América Latina, criou um programa de inclusão em 2021, ampliando a contratação de mulheres e sua presença em cargos de liderança.
Gisele Polati, que iniciou como estagiária, hoje é CFO da empresa, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo de diretora da Aperam. A promoção ao cargo de CFO (Chief Financial Officer) veio logo após seu retorno da licença-maternidade, algo ainda pouco comum no mundo corporativo.
Gisele Polati se tornou, em setembro de 2024, a primeira mulher diretora da Aperam. Foto: Divulgação Aperam
“Parece óbvio, mas não é como o mercado funciona para as mulheres. Fico feliz por ser a primeira e espero não ser a única”, afirma.
Inclusão na indústria e no agro
A Aperam não só incentiva a presença feminina em posições de liderança, mas também promove a inclusão das mulheres na indústria e no agronegócio. A operadora de alto-forno Jessica Fernandes Carvalho Sudário, que trabalha na siderúrgica de Timóteo (MG), ocupa uma função que ainda hoje, segundo ela, “muitos dizem ser para homem”
Jessica Fernandes foi a primeira forneira da Aperam. Hoje, ela tem mais duas colegas na mesma função. Foto: Elvira Nascimento
Edilaine Soares da Rocha conquistou o cargo de operadora de máquinas na Aperam BioEnergia. Ela opera pás carregadeiras e equipamentos específicos para efetuar a carga de madeira e a descarga de carvão na área dos fornos, bem como realiza o carregamento de carretas e a limpeza e conservação das praças de estocagem. “Lugar de mulher é onde ela quiser”, enfatiza Edilaine.
Edilaine foi recentemente promovida ao cargo de operadora de máquinas – carga e descarga na Aperam BioEnergia. Foto: Divulgação Aperam BioEnergia
Rayane Ferreira da Silva, inicialmente foi contratata como auxiliar de silvicultura, e ficou nesta função por dois anos. Rayane hoje, também atua como operadora de máquinas na empresa. “Meu primeiro dia foi muito difícil, achei que não ia dar conta, mas continuei. Às vezes, me pego pensando que, se estivesse desistido no início, não estaria aqui hoje onde estou, não teria conquistado as coisas que conquistei. Estou muito feliz e muito orgulhosa de mim”, conta
Hoje operadora de máquinas, Rayane Ferreira da Silva foi a primeira mulher contratada para ser auxiliar de silvicultura. Foto: Divulgação
Crescimento da mão de obra feminina no agronegócio impulsiona diversidade
Entre 2023 e 2024, o setor registrou um aumento de mais de 300 mil mulheres, consolidando a presença feminina em diversas áreas, desde a gestão de propriedades rurais até os centros de pesquisa e cargos de representação técnica.
De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP), no terceiro trimestre de 2024, o número de mulheres no agronegócio alcançou 10.751.012, um aumento de 332.343 em relação ao mesmo período de 2023. Esse crescimento demonstra que o campo está se tornando mais jovem, tecnológico e, sobretudo, mais feminino.
Foto: Divulgação BRANDT Brasil
A valorização da experiência familiar e a busca por conhecimento técnico têm sido fatores determinantes para o sucesso das mulheres no agronegócio. Muitas, como Izabela Batalini, unem o legado familiar à formação acadêmica, aplicando seus conhecimentos em áreas como administração, finanças e agronomia.
Foto: Divulgação BRANDT Brasil
A pesquisa e o desenvolvimento de soluções inovadoras também atraem mulheres talentosas para o setor. Ana Claudia Ruschel, pesquisadora em Fitopatologia na Fundação MS, trilhou um caminho de dedicação e estudo para levar tecnologias eficientes aos produtores rurais.
Foto: Divulgação BRANDT Brasil
No campo, a presença feminina se destaca na representação técnica e nas vendas. Dayanne Mororó, Representante Técnica de Vendas da BRANDT Brasil, conecta inovações tecnológicas às necessidades dos produtores, contribuindo para otimizar resultados e garantir a produtividade.
Investir em diversidade dá lucro
As experiências dessas mulheres mostram que as empresas, como Eldorado e da Aperam, que investem em diversidade têm colhido resultados positivos, promovendo ambientes mais inovadores, igualitários e produtivos.
Neste 8 de Março, Dia da Mulher, histórias como as dessas profissionais não apenas celebram conquistas, mas reforçam a urgência de ambientes inclusivos. Como ressalta Gisele Polati: “Diversidade não é só um ideal – é um motor para negócios mais competitivos e humanos”.
Apesar dos avanços, a participação feminina no agronegócio ainda enfrenta desafios, como a desigualdade salarial e a necessidade de maior reconhecimento. No entanto, o crescimento do número de mulheres no setor e o destaque que vêm alcançando em diferentes áreas são sinais de que o agronegócio brasileiro está caminhando rumo a um futuro mais diverso e igualitário.
Em um marco para a gestão de recursos hídricos, a Bahia celebra o crescente protagonismo feminino nos Comitês de Bacias Hidrográficas (CBHs). Atualmente, 7 dos 14 CBHs do estado são liderados por mulheres, refletindo um avanço significativo na representatividade e na governança das águas.
O aumento da participação feminina na liderança dos CBHs acompanha uma tendência nacional de crescimento da presença das mulheres em espaços de decisão. No Brasil, as mulheres ocupam 38% dos cargos de liderança, embora esse número caia para 28% na alta gestão3. Na Bahia, o empreendedorismo feminino representa 45% das instituições formalizadas, indicando avanços e desafios a serem superados.
Lucélia Berbert lidera no CBH Leste uma diretoria formada exclusivamente por mulheres e enfatiza a importância de garantir transparência e comprometimento no cumprimento das decisões do Comitê. Já Lia Dognani, do CBH Grande, atribui sua liderança à competência e busca fortalecer a participação dos membros, além de ampliar o conhecimento sobre a bacia.
Primeira mulher indígena a integrar a diretoria
A eleição de Luciana Kiriri como 2ª secretária do CBH Grande representa um marco, sendo a primeira mulher indígena a integrar a diretoria. Ela enfatiza a importância de aproximar o Comitê das comunidades tradicionais, buscando integrar diferentes realidades e promover o diálogo.
Ana Odália Sena, presidente do CBHPIJ e coordenadora do Fórum Baiano de Comitês de Bacias Hidrográficas, reconhece os desafios enfrentados para fortalecer os Comitês, como a implementação dos instrumentos de gestão e a ausência de cobrança pelo uso da água no estado. Apesar disso, ela destaca o papel central das mulheres no gerenciamento e conservação da água, desde o âmbito doméstico até a gestão pública.
O protagonismo feminino nos CBHs baianos impulsiona uma gestão hídrica mais inclusiva, eficiente e inovadora. Ao ocupar cargos de liderança com competência e comprometimento, essas mulheres promovem a integração das comunidades, o fortalecimento da participação social e a conscientização ambiental. Portanto, contribuindo para a sustentabilidade das bacias hidrográficas da Bahia.
No coração do Pará, uma revolução silenciosa está transformando a vida de agricultoras. O curso “Meliponicultura para Mulheres”, realizado em Paragominas, despertou a paixão pela criação de abelhas nativas sem ferrão, uma atividade promissora para a economia local e a preservação ambiental.
Antes vistas como ameaças, as abelhas sem ferrão agora encantam as mulheres da zona rural. “A minha visão das abelhas mudou completamente. Hoje eu quero me aproximar cada vez mais delas e conhecê-las mais”, relata Núbia de Souza, da comunidade Vila Formosa. A admiração é compartilhada por outras participantes, que destacam a importância das abelhas na produção de alimentos e na manutenção da floresta.
Meliponicultura: atividade inclusiva e sustentável
A meliponicultura – criação de abelhas sem ferrão do gênero Melipona – é uma atividade acessível e promissora. O Brasil abriga mais de 250 espécies nativas, sendo 119 encontradas no Pará.
Em cada colônia – ou caixa de abelha, as mulheres observaram a organização social e o trabalho de diferentes espécies de abelhas nativas sem ferrão. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
A pesquisadora Márcia Maués, da Embrapa Amazônia Oriental, ressalta que a atividade dispensa equipamentos sofisticados, apresenta um processo simples e pode ser realizada perto de casa. Além disso, contribui para a segurança alimentar, gera renda e auxilia na conservação da biodiversidade.
Embrapa impulsiona conhecimento e renda
O curso, promovido pela FAO em parceria com a Associação Abelha e com execução técnica da Embrapa, abordou a biologia das abelhas, sua relação com as plantas e técnicas de manejo e criação racional. As participantes receberam colônias de abelhas e a expectativa é que multipliquem o conhecimento e as colônias, gerando renda e desenvolvimento local.
Pesquisas da Embrapa mostram que a introdução de colmeias em plantios de açaí pode aumentar a produtividade dos açaizeiros de 30% a 70%. Criadores de abelhas podem explorar esse serviço de polinização comercialmente, impulsionando ainda mais a economia da região.