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  • Dia Internacional da Mulher expõe desigualdades entre gênero e raça no Brasil

    Dia Internacional da Mulher expõe desigualdades entre gênero e raça no Brasil

    O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, estimula debates sobre conquistas e desafios relacionados à igualdade de gênero. No entanto, especialistas alertam para a necessidade de ampliar a discussão: de que mulher realmente estamos falando? No Brasil, as desigualdades recaem com maior peso sobre as mulheres negras, que enfrentam simultaneamente as barreiras do racismo e do sexismo.

    Um levantamento inédito divulgado em 2025 pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com a Vital Strategies e a Umane, revela que 72% das mulheres negras apontam múltiplas razões para sofrer discriminação. É um índice superior ao dos homens negros (62,1%). A pesquisa utilizou pela primeira vez a Escala de Discriminação Cotidiana, que mede a frequência de situações discriminatórias na rotina dos brasileiros. O estudo mostra ainda que 84% das pessoas negras já foram vítimas de racismo.

    Realidade salarial

    Os dados reforçam uma realidade persistente. Um levantamento do Instituto Locomotiva, feito para a iO Diversidade, mostra que mulheres negras com ensino superior recebem, em média, 55% menos do que homens brancos com a mesma formação. Enquanto elas ganham R$ 3.571, eles recebem cerca de R$ 7,9 mil. Para a cofundadora da consultoria Inaperê, Dedé Ladeira, o dado evidencia que a educação, sozinha, não é suficiente para romper barreiras estruturais.

    A desigualdade também aparece no acesso à proteção previdenciária. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2022, 21,2% das mulheres negras ocupadas entre 16 e 59 anos não conseguiam contribuir para a Previdência. Entre os homens brancos, o percentual era de apenas 6,8%.

    “Não é possível tratar o Dia Internacional da Mulher de forma homogênea”, afirma Dedé Ladeira. “Quando observamos a realidade das mulheres negras, percebemos que gênero e raça operam juntos na produção das desigualdades. Essa conversa precisa acontecer nas escolas, nas famílias e em todos os espaços de formação.”

    Educação

    No campo educacional, o debate ganha ainda mais força. Embora as mulheres representem a maioria entre os docentes, a presença feminina não se traduz em equidade racial nos cargos de liderança. Segundo o Instituto Ethos, as mulheres negras seguem sub-representadas nos espaços de poder e decisão.

    Dedé propõe que redes de ensino repensem suas práticas. “As escolas precisam se perguntar: estamos contratando de forma equitativa? Temos políticas claras de diversidade na gestão? Como anda a saúde mental das mulheres negras, que convivem com sobrecarga e racismo institucional?”, provoca.

    Para a Inaperê, a construção de uma cultura escolar antirracista exige ações concretas: criação de protocolos de acolhimento, revisão de processos seletivos, formação continuada em letramento racial e espaços seguros de escuta. “Falar de equidade no Dia da Mulher é reconhecer que algumas mulheres enfrentam obstáculos adicionais. Ignorar isso é perpetuar desigualdades”, conclui Dedé.