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  • Last of Us mineiro: fungo zumbi brasileiro controla aranhas é descoberto por acidente

    Last of Us mineiro: fungo zumbi brasileiro controla aranhas é descoberto por acidente

    Em meio às folhas de um fragmento de Mata Atlântica dentro do campus de uma universidade pública mineira, pesquisadores encontraram por acidente algo que a ciência ainda não havia catalogado: um fungo capaz de sequestrar o comportamento de aranhas e transformá-las em hospedeiras controladas até a morte. A espécie foi batizada de Gibellula mineira. E os próprios cientistas foram os primeiros a se surpreender.

    Nas fotos acima, a aranha Iguarima censoria não parasitada na vegetação (A) e em seu abrigo na folha (B); aranha morta e parasitada por Gibellula mineira em estágio inicial de infecção (C) e indivíduo com a colônia do fungo completamente desenvolvida, cobrindo o hospedeiro (D). Foto: Arquivo Pessoal Pesquisadores/UFV

    A descoberta foi publicada pela Fungal Biology, revista da tradicional British Mycological Society, e descreve um novo fungo parasita de aranhas encontrado na Mata da Biologia e no Recanto das Cigarras, duas áreas de floresta localizadas dentro do campus Viçosa da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

    A identificação fez parte do mestrado da estudante Aline dos Santos, sob orientação da pesquisadora Thairine Mendes Pereira e do professor Thiago Gechel Kloss, todos da UFV. Os resultados foram publicados na revista Fungal Biology em março de 2026. O artigo leva o título “The silent hunters of spiders: discovering a new Gibellula (Ascomycota: Cordycipitaceae) fungus in the Brazilian Atlantic forest”.

    Uma descoberta acidental

    O objetivo original da pesquisa não era encontrar uma nova espécie. As buscas de Aline tinham como objetivo compreender melhor possíveis alterações no comportamento das aranhas, mas acabaram revelando um fungo nunca antes registrado pela ciência.

    As coletas começaram em 2024 e o processo de confirmação como nova espécie levou mais de um ano, com análises morfológicas e genéticas comparadas a outros fungos do mesmo grupo. Identificar a aranha hospedeira foi um dos principais desafios: o fungo cobre quase todo o corpo do animal durante o parasitismo.

    O nome científico veio naturalmente. “As sugestões foram surgindo, mas o ‘mineira’ ganhou disparadamente, porque a gente queria homenagear mesmo o local em que a gente viu essa descoberta”, conta Aline dos Santos.

    Como age o fungo zumbi

    A Gibellula mineira age de forma perturbadoramente similar ao Ophiocordyceps, o fungo que inspirou o vírus fictício da série The Last of Us. O parasita invade o corpo da aranha hospedeira, a Iguarima censoria, e manipula seu comportamento, fazendo com que o animal se desloque para locais com condições específicas, favoráveis à propagação do fungo.

    Foto: Arquivo Pessoal Pesquisadores/UFV

    A nova espécie infecta cerca de 25% das aranhas hospedeiras no fragmento de Mata Atlântica estudado. Outro resultado surpreendeu os pesquisadores: aranhas menores apresentaram maior probabilidade de sofrer parasitismo. Um padrão inesperado que levanta novas questões sobre a dinâmica da interação entre o fungo e suas hospedeiras.

    “O que o Ophiocordyceps faz com as formigas, a Gibellula também faz, em algum momento, com as aranhas. Mas, ao mesmo tempo, são grupos de origens bem distintas. Eles são distantes na evolução”, explica Thairine Mendes Pereira, pesquisadora de pós-doutorado na UFV e coorientadora do estudo.

    Os mecanismos moleculares dessa manipulação, porém, ainda são desconhecidos. “A gente sabe o resultado final dessa interação. A gente vê que o fungo está parasitando a aranha e a aranha está morta em condições muito específicas que o hospedeiro saudável não ocupa. Mas como que ele chegou até lá? Quais são as moléculas envolvidas? O mecanismo que a gente ainda precisa responder”, afirma Thairine.

    Nenhum risco para humanos

    Apesar da semelhança com o enredo apocalíptico de The Last of Us, os pesquisadores são categóricos: a Gibellula mineira não representa qualquer ameaça a seres humanos. “É importante ressaltar que esses fungos são específicos de aranha. Não tem nenhuma relação ou possibilidade de parasitismo em humanos”, afirma o professor Thiago Gechel Kloss, do Departamento de Biologia Geral da UFV.

    Talvez o dado mais revelador desta história não seja o fungo em si, mas o lugar onde ele foi encontrado. A “Mata da Biologia” e o “Recanto das Cigarras” ficam dentro do campus da UFV, ao lado de Viçosa, uma cidade de 80 mil habitantes. E ainda assim a Gibellula mineira permaneceu escondida ali até ser encontrada por acaso.

    De acordo com os pesquisadores, o estudo amplia o conhecimento sobre as interações entre fungos parasitas e aranhas em florestas tropicais e mostra que, mesmo fragmentos de floresta inseridos em ambientes urbanos, ainda podem revelar novas espécies e contribuir para o conhecimento da biodiversidade da Mata Atlântica.

    “A gente pode se surpreender. Provavelmente a gente pode encontrar coisas novas. Tem que olhar com carinho”, resume Aline dos Santos.

    Para o professor Thiago Kloss, o Brasil reúne condições únicas para esse tipo de pesquisa. “Nós temos um privilégio de ter acesso a áreas naturais numa quantidade enorme. Esse privilégio é uma coisa que, no Brasil, faz muita diferença”, conclui.

  • Cientistas brasileiros descobrem peixe pré-histórico na Antártica

    Cientistas brasileiros descobrem peixe pré-histórico na Antártica

    Pesquisadores da Uerj e do Museu Nacional da UFRJ identificaram uma nova espécie de peixe pré-histórico na Península Antártica. A revista científica Nature publicou a descoberta foi nesta segunda-feira (11).
    O fóssil articulado, chamado Antarctichthys longipectoralis, viveu entre 145 e 66 milhões de anos, no período Cretáceo.

    O exemplar é o mais bem preservado encontrado na região. Pesquisadores localizaram o fóssil na Formação Snow Hill Island, durante a expedição Paleoantar, no verão de 2018/2019. A iniciativa reuniu especialistas de diferentes áreas e instituições brasileiras. O estudo começou com a chegada do fóssil ao Brasil e durou cinco anos.

    Reconstituição tridimensional

    Os cientistas usaram microtomografia para reconstruir o peixe, técnica semelhante à tomografia médica.
    Esse método gera imagens internas por raios X sem danificar o fóssil. Em geral, no processo, projeções em alta resolução foram digitalmente integradas, formando “fatias” detalhadas do objeto.

    Ao todo, mais de 2 mil tomogramas permitiram modelar o peixe como ele era no Cretáceo. O Antarctichthys media entre 8 e 10 centímetros. Ele tinha cabeça longa, corpo delgado e pequenos espinhos neurais.

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    Clima no período Cretáceo

    A bióloga Valéria Gallo, professora da Uerj, afirma que a paleontologia ainda explora pouco a Antártica, mas encontra pistas sobre a evolução da vida no hemisfério sul. Ela explica que florestas já cobriram o continente que abrigou rica vida marinha.

    Segundo a pesquisadora, descobertas como essa ajudam a entender como ecossistemas antigos reagiram a mudanças ambientais. Ou seja, a presença do fóssil indica que a Península Antártica tinha clima mais quente e biodiversidade maior no Cretáceo.

    Relevância para o presente

    A Uerj destaca que a análise de fósseis de fauna e flora ajuda a prever como organismos podem reagir ao aquecimento global. Portanto, esse conhecimento é essencial para desenvolver estratégias de conservação.

     

     

  • Após 20 anos, cientistas descobrem primeiro macho de espécie

    Após 20 anos, cientistas descobrem primeiro macho de espécie

    Pela primeira vez, um macho do besouro Cryptolestes obesus foi formalmente descrito no Brasil. Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) descobriram a espécie após mais de duas décadas de buscas, e divulgaram os resultados na revista EntomoBrasilis. O espécime estava preservado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), parte da coleção do renomado entomólogo Fritz Plaumann.

    Com apenas 1,4 mm de comprimento e 0,56 mm de largura, o besouro vive sob cascas de árvores, tornando sua identificação extremamente difícil. Leandro Zeballos, líder do estudo, destacou a importância de analisar acervos museológicos: “É sempre uma expectativa muito grande visitar esse tipo de museu para analisar suas coleções, porque encontramos materiais de muitos locais — não só da região, mas do Brasil e fora, provenientes da coleta de muitos pesquisadores famosos que dedicaram suas vidas a trabalhar com isso.”

    Por que essa descoberta é importante?

    A espécie havia sido descrita originalmente em 2002, com base em uma fêmea coletada em Rondônia. Na época, o pesquisador Michael C. Thomas considerou suas características únicas o suficiente para classificá-la, mesmo sem um macho. Agora, Zeballos e Matheus Bento confirmaram sua hipótese.

    “Thomas estava certo ao hipotetizar uma fácil associação ao macho nesta espécie, já que suas características diagnósticas não se baseiam em traços sexuais primários ou secundários [como genitálias ou chifres, respectivamente]”, relataram os cientistas.

    Evitando erros na classificação

    Ambos os sexos do Cryptolestes obesus possuem um corpo robusto e linhas bilaterais no protórax, traços que os diferenciam de outras espécies do gênero. Zeballos explica que a descoberta previne equívocos taxonômicos: “Esta associação do macho com a fêmea impede que um taxonomista menos experiente com esta família de besouro encontre e descreva o macho como uma espécie nova, o que facilmente acontece nos estudos com besouros.”

    A equipe agora busca delimitar características pouco conhecidas do gênero Cryptolestes e reconstruir sua árvore filogenética. “Queremos desvendar o que diferencia o Cryptolestes de gêneros parecidos e entender as relações entre os mais de 40 gêneros da família Laemophloeidae”, afirma Zeballos.

    Leia mais: O estudo completo está disponível na revista EntomoBrasilis.

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