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  • Microcrustáceo marinho é usado em método inédito para rastrear poluição por carbono

    Microcrustáceo marinho é usado em método inédito para rastrear poluição por carbono

    Um estudo internacional liderado por pesquisadores da USP e de instituições francesas revelou, pela primeira vez, como partículas de carbono negro, um dos principais poluentes gerados pela queima incompleta de combustíveis fósseis, são ingeridas e transformadas dentro de organismos marinhos microscópicos. Publicado em artigo da revista científica Environmental Science & Technology, o trabalho adotou uma avançada técnica de microscopia para acompanhar, em tempo real e sem o uso de marcadores químicos, o comportamento do poluente conhecido como carbono negro em copépodes do gênero Acartia, pequenos crustáceos que compõem grande parte do zooplâncton oceânico.

    O zooplâncton é o conjunto de organismos que tem capacidade de se locomover nas águas dos oceanos e não ser levado pelas correntes marinhas. O carbono negro é considerado um importante agente de aquecimento climático e um contaminante amplamente presente nos oceanos. Apesar disso, pouco se sabia sobre a forma como ele interage biologicamente com organismos marinhos. Os experimentos foram realizados com partículas coletadas diretamente da emissão de motores a diesel na cidade de São Paulo. E o material foi preparado em diferentes formas, particulada e dissolvida, para avaliar seu comportamento óptico e biológico.

    Como é o processo

    A pesquisa mostrou que os copépodes ingerem partículas provenientes da fuligem de motores a diesel. E que essas partículas sofrem alterações estruturais ao longo do trato digestivo. Segundo os cientistas, o ambiente intestinal dos animais modifica o arranjo molecular do material poluente. Com isso, transformando agregados sólidos em estruturas mais dispersas e potencialmente mais reativas.

    “Os resultados obtidos neste trabalho possuem implicações globais, principalmente por se tratar de um ecossistema de influência central na dinâmica mundial: o meio marinho”, destaca Maria Luiza Vicente, primeira autora do estudo e pesquisadora correspondente junto com o professor Francisco Gontijo Guimarães, ambos do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.

    A técnica empregada permitiu diferenciar, com alta precisão, as partículas de carbono negro dos pigmentos naturais presentes nos organismos, criando o que os autores chamaram de “linha de base intestinal livre de pigmentos”. Isso possibilitou observar diretamente a presença do poluente dentro do intestino dos animais vivos. Os resultados também revelaram alterações fisiológicas associadas à ingestão do material. Os copépodes expostos ao carbono negro apresentaram dilatação intestinal semelhante à observada durante a alimentação natural, indicando que o organismo processa o poluente como se fosse alimento.

    Riscos ambientais

    Além dos impactos imediatos observados nos organismos analisados, os pesquisadores alertam para possíveis riscos ambientais decorrentes desse processo. Como o zooplâncton ocupa a base da cadeia alimentar marinha, a contaminação pode atingir peixes, crustáceos maiores e outros animais marinhos, ampliando a circulação do carbono negro nos ecossistemas oceânicos.

    “A técnica desenvolvida é, de fato, inovadora, principalmente por revelar formas antes não diretamente estudadas desses contaminantes em meio aquoso. Portanto, permitindo entender seu processo de transformação in vivo“, ressalta Maria Luiza Vicente.

    Os cientistas destacam, ainda, que as alterações sofridas pelas partículas dentro do intestino dos copépodes podem aumentar a capacidade de dispersão do poluente na água, favorecendo sua permanência no ambiente e potencializando efeitos tóxicos relacionados ao estresse oxidativo e à presença de compostos químicos derivados da combustão.

    Ciclo global do carbono

    Outro ponto de preocupação é o possível impacto sobre o ciclo global do carbono. Como os copépodes desempenham papel fundamental no transporte de matéria orgânica para regiões profundas do oceano, a transformação do carbono negro por esses organismos pode interferir nos mecanismos naturais de armazenamento de carbono e, consequentemente, nas dinâmicas climáticas globais. Especialistas também apontam que a presença contínua desse material nos oceanos pode comprometer o equilíbrio ecológico, afetando processos de alimentação, reprodução e sobrevivência de espécies marinhas sensíveis à poluição.

    Para Maria Luiza Vicente, a descoberta ajuda a compreender melhor o destino ambiental do carbono negro nos oceanos e o papel do zooplâncton na transformação desse poluente. “A parceria internacional envolvida não apenas viabilizou minha dupla titulação no doutorado, mas também promoveu a sinergia entre o estudo dos impactos de poluentes emergentes e técnicas ópticas avançadas na fronteira do conhecimento”, afirma.

    No futuro, segundo a pesquisadora, com os avanços das pesquisas ecotoxicológicas, esses dados poderão subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas ao tratamento de poluentes no meio marinho. Acreditamos que este estudo abre caminhos para desvendarmos o destino de poluentes de carbono emergentes e o real cenário do estoque de carbono nos oceanos”, conclui.

    Além dos cientistas do IFSC, a pesquisa contou com a participação de pesquisadores da Universidade de Toulon, na França, e do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). O trabalho teve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do programa internacional USP-Cofecub/Campus France.

    Texto: Rui Sintra/Arte: Livia Bortoletto/Publicado no Jornal da USP

  • Conheça o peixe trilha, que tem sabor de camarão e preço acessível

    Conheça o peixe trilha, que tem sabor de camarão e preço acessível

    Você já imaginou saborear um peixe com gosto de camarão? Parece improvável, mas essa experiência gastronômica existe e está disponível no litoral brasileiro. O peixe trilha, também conhecido como salmonete, conquista cada vez mais adeptos pela combinação única de sabor marcante, preço acessível e versatilidade na cozinha.

    Abundante na costa brasileira, a trilha ainda permanece pouco conhecida entre os consumidores locais. Enquanto isso, na Europa, principalmente em Portugal e Espanha, o peixe figura como iguaria presente em restaurantes sofisticados e receitas tradicionais do dia a dia.

    Por que a trilha tem gosto de camarão

    Pequeno e levemente rosado, o peixe trilha é um peixe de água salgada que acompanha os cardumes de camarão. A origem do nome vem justamente desse comportamento característico: a trilha segue os rastros dos crustáceos no fundo do mar, facilitando o trabalho dos pescadores que buscam camarões.

    O segredo do sabor está na alimentação. A trilha se nutre principalmente de pequenos crustáceos, incluindo camarões e siris. Essa dieta rica em crustáceos influencia diretamente o sabor de sua carne, resultando no característico gosto de camarão. A carne branca, macia e delicada apresenta um toque adocicado que remete aos frutos do mar, tornando o peixe uma opção perfeita para quem aprecia esse tipo de gastronomia.

    Além da alimentação, o ambiente aquático também contribui para o perfil sensorial único da trilha. As águas costeiras brasileiras, ricas em nutrientes, proporcionam condições ideais para que o peixe desenvolva essas características marcantes.

    Características e valor nutricional

    A trilha possui corpo alongado com escamas prateadas e coloração que varia do rosa ao alaranjado. O peixe apresenta carne firme com poucas espinhas intramusculares, o que facilita o consumo e a prepara uma opção atraente para quem prefere pescados de fácil manuseio.

    Do ponto de vista nutricional, a trilha oferece benefícios importantes. Em uma porção de 100 gramas, o peixe fornece aproximadamente 90 calorias e 20 gramas de proteínas. A carne contém ácidos graxos ômega-3, que auxiliam na redução dos níveis de colesterol e gordura no sangue, diminuindo os riscos de doenças cardiovasculares e derrames.

    Foto: Rodarte/Agência Agro em Campo

    A baixa quantidade de gordura total (apenas 1 grama por 100 gramas) torna a trilha uma escolha adequada para quem busca uma alimentação equilibrada sem abrir mão do sabor.

    Onde encontrar e como comprar

    Para quem mora no litoral, encontrar trilha costuma ser relativamente simples. O peixe aparece com frequência em mercados especializados em pescados, feiras locais e peixarias. Consumidores de cidades mais distantes do mar podem buscar o produto em supermercados que trabalham com pescados frescos ou fazer encomendas em estabelecimentos especializados.

    Na hora da compra, alguns sinais garantem o frescor do produto. Escolha sempre peixes com olhos brilhantes e salientes, guelras de coloração avermelhada e cheiro suave de mar. A textura da carne deve apresentar firmeza, sem áreas amolecidas ou manchas escuras.

    Atualmente, muitos estabelecimentos oferecem a trilha já espalmada (limpa e aberta), facilitando o preparo. A versão congelada a vácuo também mantém alta qualidade e pode ser uma alternativa prática para quem não encontra o peixe fresco com facilidade.

    Receitas simples para preparar a trilha

    A versatilidade da trilha na cozinha permite diversos métodos de preparo. O peixe fica delicioso grelhado, frito, assado ou em moquecas. O sabor naturalmente marcante dispensa temperos complexos, valorizando preparações mais simples.

    Trilha grelhada

    Para uma opção leve e saudável, a trilha grelhada realça o sabor natural do peixe. Tempere os filés com sal, pimenta-do-reino e suco de limão, deixando marinar por 15 minutos. Misture azeite extra virgem com alho picado e ervas frescas como tomilho e alecrim. Pincele essa mistura sobre os filés e grelhe em frigideira antiaderente ou grelha por cerca de três minutos de cada lado, até ficarem dourados e bem cozidos. Sirva com arroz branco e legumes grelhados.

    Trilha frita crocante

    Para quem aprecia preparações mais tradicionais, a trilha frita oferece textura crocante por fora e maciez por dentro. Limpe bem o peixe, tempere levemente com sal e passe na farinha de trigo. Frite por imersão em óleo bem quente até dourar completamente. Sirva com limão e molho tártaro.

    Moqueca de trilha

    Para um prato mais encorpado, a moqueca valoriza o sabor do peixe com ingredientes aromáticos. Tempere as postas com sal, pimenta e limão, deixando marinar por 20 minutos. Em uma panela, faça camadas com cebola fatiada, pimentões coloridos e tomates picados. Coloque as postas por cima, adicione alho picado, leite de coco e azeite de dendê. Tampe e cozinhe em fogo médio por aproximadamente 20 minutos. Finalize com coentro fresco e sirva com arroz branco e farofa.

    Uma alternativa econômica aos frutos do mar

    O preço do camarão frequentemente inviabiliza o consumo regular desse crustáceo tão apreciado pelos brasileiros. A trilha surge como alternativa econômica, oferecendo experiência sensorial semelhante por um valor significativamente menor. O custo-benefício torna o peixe acessível para preparações do dia a dia, sem comprometer a qualidade ou o sabor.

    Especialistas em gastronomia recomendam a trilha como opção para quem deseja variar o cardápio de pescados. A carne delicada e o sabor característico agradam diferentes paladares, desde os mais exigentes até aqueles que estão começando a incluir mais peixe na alimentação.

    Para quem ainda não conhece essa iguaria do litoral brasileiro, experimentar a trilha pode ser uma grata surpresa. E para aqueles que já apreciam o peixe, a variedade de preparações possíveis garante que cada refeição possa oferecer uma experiência diferente, sempre mantendo aquele sabor inconfundível que lembra o camarão.