Tag: Crise climática

  • Metade das crianças do mundo enfrenta ao menos três riscos climáticos, alerta Unicef

    Metade das crianças do mundo enfrenta ao menos três riscos climáticos, alerta Unicef

    As mudanças climáticas ampliaram os desafios enfrentados por milhões de crianças ao redor do mundo. Segundo um novo relatório do Unicef, mais de 1 bilhão de crianças já vivem sob a influência de três ou mais riscos climáticos simultâneos, o que impacta diretamente a saúde, a educação e as condições de sobrevivência.

    O levantamento aponta que, com o agravamento da crise climática global, praticamente todas as crianças do planeta estão expostas a pelo menos uma ameaça relacionada ao clima. O fenômeno não afeta apenas países em desenvolvimento, mas também nações de alta renda.

    Riscos climáticos

    O estudo considera oito tipos de riscos climáticos, incluindo calor extremo, ondas de calor prolongadas, incêndios florestais, secas, enchentes costeiras, inundações em rios, tempestades tropicais e tempestades de areia e poeira.

    Para a diretora-executiva do Unicef, Catherine Russell, os efeitos desses eventos já transformam a rotina de milhões de crianças. Além disso, Russell destacou ao jornal The Guardian que a situação se tornou ainda mais preocupante nos últimos anos.

    “Metade das crianças do mundo agora vive com pelo menos três ameaças climáticas sobrepostas moldando sua vida diária”, declarou.

    Crianças enfrentam perigos para estudar

    As consequências da crise climática vão muito além dos danos ambientais. Imagens divulgadas pela agência da ONU mostram crianças da Papua-Nova Guiné atravessando um rio a nado para chegar à escola após uma ponte ter sido destruída por fortes chuvas.

    O cenário se torna ainda mais preocupante porque o rio é habitado por crocodilos. Uma das estudantes afetadas é Lorna, de 15 anos, que relatou as dificuldades enfrentadas diariamente.

    “Meu sonho é ser professora ou piloto. Queremos uma nova ponte para poder ir à escola com segurança todos os dias”, disse.

    Centenas de crianças atravessam diariamente o rio Kemp Welch, em Papua Nova-Guiné, para chegar à escola — Foto: Reprodução/Unicef

    A jovem também explicou que, durante o período menstrual, meninas da comunidade são impedidas pelos mais velhos de atravessar o rio devido à crença local de que isso poderia atrair crocodilos.

    Segundo o diretor da escola local, Charlie Vali David, a ausência da ponte prejudica a frequência escolar e aumenta significativamente os riscos para os estudantes.

    “Na temporada de monções, correntes fortes, árvores mortas e detritos bloqueiam o rio, causando ferimentos e morte”, afirmou.

    De acordo com o Unicef, a comunidade não conseguiu arrecadar recursos suficientes para reconstruir a estrutura, destruída em 2012.

    Eventos extremos afetam educação, saúde e segurança infantil — Foto: Reprodução/Unicef

    África e Ásia concentram áreas mais vulneráveis

    O relatório também identifica regiões onde os impactos climáticos são particularmente severos. No Sahel, faixa localizada na África, mais de 4 milhões de crianças estão expostas simultaneamente a ondas de calor, calor extremo e tempestades de areia e poeira.

    Da mesma forma, países asiáticos como Bangladesh, Mianmar e Paquistão figuram entre os locais onde crianças enfrentam o maior número de ameaças climáticas combinadas em todo o mundo.

    No entanto, o estudo mostra que os efeitos das mudanças climáticas não se restringem a países de baixa renda. Em nações desenvolvidas, eventos extremos também representam riscos.

    Crianças brincam perto de uma fonte para escapar do calor na Califórnia, EUA — Foto: THX/VNA

    Na Itália, por exemplo, mais de 6 milhões de crianças estariam expostas à combinação de ondas de calor prolongadas e escassez de chuvas, segundo os dados do Unicef.

    A entidade defende que governos e empresas intensifiquem os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa e acelerem medidas de adaptação climática. Além disso, o organismo recomenda investimentos em infraestrutura, educação, saúde e serviços essenciais voltados às crianças, consideradas um dos grupos mais vulneráveis.

  • Café robusta amazônico: de “patinho feio” a trunfo do Brasil contra a crise climática

    Café robusta amazônico: de “patinho feio” a trunfo do Brasil contra a crise climática

    Em Rondônia, na fronteira entre Amazônia e Cerrado, um grão antes visto como “amargo” está ganhando protagonismo nas xícaras e nos debates sobre clima. O robusta amazônico, cultivado por povos indígenas e pequenos produtores. Mais adaptado ao calor do que o arábica, ele desponta como peça estratégica para manter a oferta global de café em um cenário de temperaturas em alta e eventos extremos cada vez mais frequentes.

    Dentro da Terra Indígena Sete de Setembro, entre Rondônia e Mato Grosso, o café não nasceu como tradição ancestral, mas como herança incômoda. As primeiras lavouras foram deixadas por colonos e invasores que ocuparam a região antes da demarcação, trazendo consigo desmatamento, violência e ruptura territorial.

    Diante desse legado, parte do povo Paiter Suruí quis arrancar os pés de café. Outra parte viu ali uma oportunidade de ressignificar a cultura e transformar a plantação em fonte de renda. E de proteção da floresta. Ao longo dos anos, com capacitações técnicas e parcerias, os indígenas aprenderam a manejar, fermentar e beneficiar o grão, elevando a qualidade da bebida e conquistando mercados de maior valor agregado.

    Hoje, cerca de 130 a 140 famílias Paiter Suruí produzem robusta amazônico em pequenas áreas, em um território de mais de 248 mil hectares, onde o modo de vida tradicional segue ligado à floresta e ao extrativismo. O grão cultivado ali já foi reconhecido como patrimônio cultural e imaterial de Rondônia. E vem se consolidando como um café de origem, com identidade própria.

    Robusta em alta em um planeta mais quente

    Historicamente, o robusta foi visto como um café de menor prestígio, associado a blends baratos e a uma bebida mais áspera. Isso quando comparado ao arábica. Mas a combinação entre ciência, manejo adequado e clima mais quente está mudando essa percepção, dentro e fora do Brasil.

    Pesquisas mostram que o robusta tolera temperaturas mais elevadas do que o arábica. E tende a ter papel crucial na manutenção da oferta, à medida que áreas adequadas para café encolhem com o avanço da crise climática. Entre o início dos anos 1990 e 2023, a participação do robusta no total produzido no mundo subiu de cerca de 28% para algo em torno de 44%. Este movimento foi impulsionado principalmente por Brasil, Vietnã e países da Ásia e da África.

    Ao mesmo tempo, relatórios recentes indicam que os principais países produtores já enfrentam mais dias de calor prejudicial à cultura do café, aumento de secas e maior pressão de pragas e doenças. Em cenários projetados até 2050, a área global com condições ideais para o cultivo de café, tanto arábica quanto robusta, pode cair pela metade ou mais, dependendo do nível de aquecimento e de adaptação tecnológica.

    Embrapa, genética e manejo de precisão

    No Brasil, a resposta passa por pesquisa genética, sistemas produtivos mais eficientes e integração com a floresta. Em duas décadas, programas da Embrapa e de instituições parceiras multiplicaram a produtividade do robusta, combinando materiais genéticos de conilon e robusta em cruzamentos voltados para maior rendimento, tolerância a calor e seca e aprimoramento sensorial.

    Hoje, dezenas de novos cruzamentos estão em teste em Rondônia e em outras regiões, buscando plantas mais resilientes a extremos climáticos, com melhor xícara e maior estabilidade de produção. Ao lado da genética, pesquisadores e técnicos reforçam que o salto de qualidade depende de colheita seletiva, pós-colheita cuidadosa e secagem adequada, práticas que podem transformar um robusta genérico em um robusta especial.

    Outro eixo é o manejo integrado com árvores e fragmentos florestais, que ajudam a regular temperatura, manter umidade, favorecer polinizadores e controlar pragas de forma natural. Esse desenho, mais próximo de sistemas agroflorestais, ganha destaque justamente na Amazônia, onde a pressão por abertura de áreas para pecuária ainda é forte.

    Pequenas propriedades mostram o caminho

    Na região das Matas de Rondônia, selo de Indicação Geográfica concedido ao território de cafés robusta de qualidade, cerca de 10 mil propriedades cultivam café, em sua maioria pequenas e conduzidas por famílias. Apesar de o café ocupar menos de 1% da área em alguns municípios, a cultura tem servido como alternativa à conversão de floresta em pasto quando associada a boas práticas ambientais.

    Um exemplo citado por técnicos e entidades do setor é o de famílias que adotam irrigação mais eficiente, plantio de árvores para proteger nascentes, criação de abelhas para reforçar a polinização e rotação de culturas com milho, feijão e outras espécies para recuperar o solo. Com esse modelo, é possível gerar renda significativa em poucos hectares, reduzindo a pressão por desmatamento e agregando valor via turismo rural, visitas guiadas e venda direta.

    Entre os Paiter Suruí, o robusta amazônico também já levou prêmios nacionais e internacionais. Incluindo notas máximas em protocolos específicos para avaliação de canephora e destaque em concursos de cafés especiais. O resultado é um produto que carrega, ao mesmo tempo, narrativa de território, conservação florestal e protagonismo indígena em cadeias de valor antes dominadas por grandes produtores.

    Risco de monocultura e desafio da escala

    O avanço do robusta, porém, não vem sem riscos. Especialistas e lideranças indígenas alertam que preços em alta podem estimular a expansão de monoculturas em larga escala. Portanto, substituindo sistemas diversificados de pequenos produtores por grandes áreas contínuas de café, com maior impacto ambiental.

    Cafeicultura em terras indígenas é sustentável e gera renda para essas comunidades. Foto: Aliny Melo/Embrapa

    Sem políticas públicas que valorizem quem mantém floresta em pé, o robusta pode se tornar vetor de novo ciclo de desmatamento em áreas amazônicas e de transição, caso seja tratado apenas como commodity de curto prazo. Daí a defesa por incentivos fiscais, crédito diferenciado e programas de compras públicas que priorizem café de origem sustentável, com rastreabilidade e participação de comunidades tradicionais.

    Outra frente é a mudança cultural no consumo. Pesquisadores e baristas vêm construindo uma nova gramática sensorial para o canephora, com rodas de aromas e sabores específicas, argumentando que robusta e conilon devem ser avaliados em seus próprios termos, e não pela régua do arábica. Isso abre espaço para que mercados especializados e cafeterias passem a apresentar o robusta não como “segunda categoria”, mas como um outro perfil de bebida.

    Iniciativas globais e papel do Brasil

    A preocupação com o futuro do café também mobiliza redes internacionais de pesquisa. A World Coffee Research (WCR) ampliou recentemente seu programa de melhoramento para incluir robusta em uma rede global de países como Vietnã, Gana, Índia, Indonésia, Ruanda e Uganda. Eles responsáveis por grande parte da produção mundial dessa espécie.

    O objetivo é testar materiais genéticos em diferentes condições de solo e clima, acelerar o desenvolvimento de variedades mais produtivas e resistentes e compartilhar dados entre instituições. Esse esforço vem ganhando peso à medida que o café se torna símbolo da vulnerabilidade da agricultura à crise climática. E ao mesmo tempo, campo de prova para estratégias de adaptação.

    No Brasil, pesquisadores, agricultores e lideranças indígenas destacam que o país, maior produtor de café do mundo, tem oportunidade de liderar uma transição para sistemas que combinem robusta de alta qualidade com conservação de florestas e valorização de produtos não madeireiros, como castanha-do-brasil, açaí, cacau e outras espécies nativas. Esses produtos ainda representam fatia muito pequena do PIB nacional, mas são apontados como caminho para uma economia florestal de longo prazo.

    A floresta, o café e quem vive nela

    Para os Paiter Suruí e outras comunidades amazônicas, o café é hoje mais do que uma mercadoria: é uma ferramenta de afirmação territorial. Ao transformar cafezais herdados de invasores em lavouras de robusta amazônico de alta qualidade, eles mostram que é possível gerar renda mantendo a floresta em pé e ampliando o reconhecimento de seus conhecimentos tradicionais.

    Lideranças indígenas lembram, contudo, que não se pode falar em futuro do café na Amazônia sem falar em quem vive dentro da floresta. A mensagem é clara: o grão robusta pode ser mais resistente ao calor, mas a verdadeira robustez do sistema depende de políticas públicas, consumo responsável e da capacidade de ouvir, e remunerar, os povos que há séculos manejam esses territórios.

  • Após 17 anos, Brasil atualiza Plano Clima com foco em justiça social

    Após 17 anos, Brasil atualiza Plano Clima com foco em justiça social

    O Governo Federal lançou nesta semana o Plano Nacional sobre Mudança do Clima (Plano Clima) , o mais completo e ambicioso instrumento de planejamento já criado no país para enfrentar a crise climática até o ano de 2035. Aprovado pelo Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) e apresentado em coletiva no Palácio do Planalto, o documento chega para substituir a versão de 2008, atualizando a estratégia brasileira após 17 anos de espera.

    Coordenado pela Casa Civil e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o plano é fruto de três anos de trabalho e da colaboração de 25 pastas ministeriais. O objetivo é claro: integrar a redução de emissões de gases de efeito estufa com a adaptação das cidades e biomas aos impactos inevitáveis do aquecimento global, tudo isso alinhado às metas do Acordo de Paris.

    O que o Plano Clima significa na prática?

    O documento não é apenas uma carta de intenções. Ele funciona como um guia operacional para a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), definindo metas setoriais e estratégias de financiamento para que as ações saiam do papel. O Brasil se compromete, através de sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), a reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035 (em relação a 2005) e alcançar a neutralidade climática até 2050.

    “Estamos construindo as bases para um futuro mais sustentável, com desenvolvimento econômico, proteção ambiental e qualidade de vida”, afirmou o ministro da Casa Civil, Rui Costa, destacando o chamado à união de estados, municípios e setor privado.

    Mitigação, adaptação e justiça climática: os três pilares

    O Plano Clima está estruturado em três eixos complementares, que priorizam não apenas o meio ambiente, mas a proteção das populações mais vulneráveis:

    • Mitigação: composto por oito planos setoriais que estabelecem metas para reduzir as emissões em áreas estratégicas da economia, promovendo a transição para uma matriz de baixo carbono sem abrir mão do crescimento econômico.
    • Adaptação: com 16 planos setoriais e temáticos, este eixo foca em preparar o país para os efeitos que já são realidade. Áreas como agricultura, cidades, recursos hídricos, saúde e gestão de riscos receberão diretrizes para aumentar a resiliência contra secas, enchentes e ondas de calor. Ao todo, são 312 metas setoriais a serem implementadas por meio de mais de 800 ações.
    • Estratégias transversais: tratam do “como fazer”, abordando financiamento climático, educação, inovação, transparência e, pela primeira vez de forma estruturada, a agenda de mulheres e clima e a promoção da justiça climática.

    “Colocamos as pessoas no centro da política. Os desastres, como as enchentes e os incêndios de 2024, destroem vidas e infraestruturas. Reduzir emissões e adaptar as cidades é proteger a vida de quem já sofre com a emergência climática”, destacou a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

    Participação recorde e ciência como guia

    Diferente da versão anterior, o Plano Clima 2035 teve uma construção participativa histórica. Cerca de 24 mil pessoas contribuíram por meio de oficinas, plenárias territoriais e da 5ª Conferência Nacional de Meio Ambiente, que consolidou 104 propostas para o texto final.

    “Não se faz política ambiental sem evidências científicas. Estamos antecipando soluções com tecnologia de ponta para enfrentar a crise com soberania. E proteger nossa biodiversidade”, reforçou a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos.

    O plano não é estático. O governo prevê avaliações bienais e revisões estruturais a cada quatro anos. Portanto, garantindo que as metas se mantenham alinhadas aos desafios globais e às necessidades do país. Com a aprovação final das Estratégias Nacionais de Mitigação e Adaptação, o Brasil sai na frente na corrida por financiamento internacional e na construção de uma economia verde, ao mesmo tempo em que tenta corrigir rotas para evitar novos desastres climáticos.

  • Mudanças devem acabar com produção de café, chocolate e vinho

    Mudanças devem acabar com produção de café, chocolate e vinho

    Três dos produtos mais consumidos no planeta, café, chocolate e vinho, enfrentam um futuro incerto diante das mudanças climáticas. Um estudo recente da Universidade Estadual do Colorado (CSU) traz um alerta preocupante: nem mesmo tecnologias avançadas de resfriamento artificial do planeta seriam suficientes para salvar essas culturas de luxo.

    A pesquisa, liderada pela Dra. Ariel L. Morrison, testou o impacto da injeção de aerossóis na estratosfera (SAI). A técnica espalha partículas reflexivas na atmosfera para reduzir temperaturas. Em 18 das principais regiões produtoras dessas culturas, os resultados foram desanimadores: apenas seis localidades mostraram melhora consistente.

    Definidas como produtos cultivados por seu alto valor de mercado, as culturas de luxo incluem café, cacau, chá, baunilha, açafrão e trufas. Milhões de agricultores dependem dessas plantações em regiões como Gana, Brasil e França, onde condições climáticas específicas sempre foram essenciais para a produção de qualidade.

    O problema é que essas condições estão mudando rapidamente. Temperaturas em elevação, padrões de chuva alterados e umidade irregular comprometem desde pequenas propriedades familiares até grandes vinhedos comerciais.

    Por que o resfriamento artificial falha

    A equipe da CSU analisou dados climáticos projetados para o período entre 2036 e 2045, utilizando modelos climáticos avançados e métricas de adequação agrícola. Embora a técnica SAI consiga reduzir temperaturas superficiais, ela não controla outros fatores críticos.

    “Reduzir a temperatura apenas com SAI não é suficiente”, explica a Dra. Morrison. “As espécies de cacau, por exemplo, embora mais tolerantes ao calor que café e uvas, são altamente suscetíveis a pragas e doenças causadas pela combinação de altas temperaturas, chuva e umidade.”

    O estudo revelou que o resfriamento pode até baixar temperaturas, mas não garante chuvas adequadas nem previne oscilações climáticas extremas. Em vinhedos, por exemplo, o calor excessivo na primavera provoca brotação precoce, aumentando o risco de geadas tardias que destroem as plantas.

    Cacau, café e vinho: cada um com seu desafio

    Cacau: nas regiões produtoras da África Ocidental, o aumento de semanas chuvosas favorece surtos de fungos como a “podridão-parda”, que estraga as vagens antes da colheita.

    Café: uma única noite fria pode comprometer os grãos, enquanto períodos secos prolongados prejudicam floração e desenvolvimento. No leste do Brasil, simulações mostraram ganhos de confiabilidade hídrica em alguns cenários e perdas em outros – volatilidade que dificulta planejamento de longo prazo.

    Vinho: vinhedos precisam de invernos definidos para descanso adequado. Temperaturas inconsistentes causam brotação fora de época, expondo as videiras a geadas destrutivas.

    A variabilidade natural complica o cenário

    Mesmo quando condições médias parecem aceitáveis, a variabilidade climática natural pode arruinar colheitas inteiras. Uma sequência inesperada de semanas chuvosas ou uma geada surpresa anulam os benefícios de temperaturas mais amenas.

    “A intervenção climática por SAI pode oferecer alívio temporário do aumento das temperaturas em algumas regiões, mas não é uma solução garantida”, adverte Morrison.

    Segundo os pesquisadores, a salvação dessas culturas depende de estratégias localizadas de adaptação. Entre as opções estão:

    • Mudança de variedades mais resistentes
    • Alteração no manejo da copa das plantas
    • Melhoria em sistemas de drenagem
    • Ajuste nas épocas de colheita
    • Investimento em sombreamento e proteção contra vento
    • Sistemas de irrigação e armazenamento de água

    “Estratégias de adaptação adaptadas às condições locais, investimento em práticas agrícolas resilientes e cooperação global são essenciais para salvar essas culturas e as comunidades que dependem delas”, conclui a cientista.

    Impacto global

    A crise não afeta apenas produtores rurais. O setor de culturas de luxo movimenta bilhões de dólares anualmente e emprega milhões de pessoas em países em desenvolvimento. A escassez desses produtos pode elevar preços drasticamente, tornando itens do cotidiano – como uma xícara de café ou uma barra de chocolate – verdadeiros luxos inacessíveis.

    O estudo deixa claro: as mudanças climáticas não estão apenas alterando o tempo, mas reescrevendo a geografia da produção agrícola mundial. Sem ações urgentes de adaptação, café, chocolate e vinho podem se tornar cada vez mais raros e caros nas próximas décadas.

  • Minas reúne setor para discutir soluções contra efeitos da crise climática na produção de mel

    Minas reúne setor para discutir soluções contra efeitos da crise climática na produção de mel

    Mais de 1.500 pessoas ocupam o Parque João Alencar Athayde, em Montes Claros, até esta sexta-feira, para debater um dos maiores desafios da apicultura brasileira: os impactos da crise climática na produção de mel e na polinização. O 5º Congresso Mineiro de Apicultura e Meliponicultura e o 22º Seminário de Apicultura do Norte de Minas acontecem em um contexto estratégico, às vésperas da COP-30.

    A Federação Mineira de Apicultura (Femap) organiza o evento em parceria com a Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa). Produtores, técnicos, pesquisadores e representantes de entidades trocam experiências e buscam soluções conjuntas para proteger o setor.

    O secretário de Estado da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Thales Fernandes, recebeu homenagem durante a abertura do congresso pelo apoio ao desenvolvimento da apicultura em Minas Gerais. Ele destacou a relevância da atividade para a agricultura familiar.

    “Milhares de produtores trabalham nesta cadeia e agregam valor no mel e no propólis. A Secretaria de Agricultura está presente, com a Emater, o IMA e a Epamig, trabalhando junto aos produtores e à Femap para fortalecer cada vez mais este setor”, afirmou Fernandes.

    O evento também homenageou líderes do Sebrae-MG, Faemg/Senar, Codevasf e Ocemg, parceiros da iniciativa.

    Mudanças climáticas ameaçam abelhas e segurança alimentar

    Os efeitos negativos da crise climática dominam as discussões do congresso. O vice-presidente da Femap, Elizeu Araújo, alerta para a urgência do tema.

    “A mudança climática prejudica a produção de mel e afeta negativamente a biodiversidade e a segurança alimentar global, devido à dependência da polinização para a produção de alimentos. Precisamos debater e encontrar uma saída”, destacou Araújo.

    O evento oferece palestras, painéis, oficinas e uma feira de produtos apícolas e novas tecnologias para o setor.

    A escolha de Montes Claros como sede reflete a importância histórica e produtiva do Norte de Minas para a apicultura. A região, junto com o Vale do Jequitinhonha, concentra o maior número de abelhas do estado e produz o mel de aroeira, reconhecido por seus comprovados poderes medicinais.

    A apicultura mineira movimenta números expressivos. O estado produz, em média, 7,67 mil toneladas de mel por ano, segundo dados da Emater-MG. A região Central lidera a produção estadual com 1.757.993 kg de mel, o que representa 22,90% do total. O Centro-Oeste mineiro vem em segundo lugar, com 1.415.230 kg (18,43%), seguido pelo Norte de Minas com 1.099.954 kg (14,33%) e Jequitinhonha/Mucuri com 1.053.190 kg (13,72%).

    Agricultura familiar sustenta 80% da produção de mel

    A agricultura familiar responde por aproximadamente 80% da produção de mel em Minas Gerais e cerca de 70% da produção de própolis. Dos 9.229 produtores do estado, 7.526 são agricultores familiares.

    O mel mineiro alcança mercados internacionais exigentes, como União Europeia, Reino Unido, Japão e Canadá.

    A Seapa apoia o setor com ações concretas. Em 2025, o governo estadual investiu mais de R$ 1,6 milhão na compra de 455 kits de apicultura, distribuídos em várias regiões mineiras.

    Cada kit inclui cinco colmeias, carretilhas, cera de abelha, formão, fumigador, garfo desoperculador e equipamentos de segurança. A estrutura pode produzir entre 100 e 125 kg de mel por ano, além de própolis, pólen, cera e geleia real.

    A diversificação também fortalece a rentabilidade da apicultura mineira. Em 2023, o estado produziu cerca de 260 toneladas de própolis, conquistando o primeiro lugar nacional na produção de própolis verde.

  • Crise climática afeta produção de castanha-da-amazônia

    Crise climática afeta produção de castanha-da-amazônia

    A produção de castanha-da-amazônia — também conhecida como castanha-do-brasil ou castanha-do-pará — enfrenta uma das maiores quedas das últimas décadas na safra 2024/2025. O fenômeno está diretamente ligado aos efeitos da seca severa na região amazônica e ao aumento das temperaturas, intensificados pela atuação do El Niño. A perspectiva de recuperação para a próxima safra é considerada promissora, mas especialistas alertam: é urgente a adoção de medidas de adaptação para garantir a sustentabilidade da cadeia produtiva.

    A Amazônia registrou, entre agosto de 2023 e maio de 2024, uma das secas mais intensas dos últimos 40 anos. O prolongamento do fenômeno El Niño, associado à baixa nebulosidade, alta radiação solar e queimadas recorrentes, provocou uma queda drástica na umidade do solo e impactou diretamente o ciclo reprodutivo das castanheiras.

    “A floração da castanheira-da-amazônia ocorre no fim da estação seca e início da chuvosa, podendo durar até seis meses. Já a maturação dos frutos leva entre nove e treze meses. Todo esse processo é sensível às variações climáticas extremas”, explica Carolina Volkmer de Castilho, pesquisadora da Embrapa Roraima.

    A situação remete à crise de 2017, quando o El Niño de 2015/2016 também comprometeu fortemente a produção. “A seca intensa reduziu a atividade de polinizadores, como as abelhas, e prejudicou a floração, resultando em forte queda na produção de castanhas”, relembra Lucieta Guerreiro Martorano, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental (PA). Raimundo Cosme de Oliveira Junior, colega de Martorano, destaca que foi a primeira vez que se registrou uma redução generalizada da produção em toda a bacia amazônica.

    Expectativa de recuperação para 2025/2026, mas com riscos

    Apesar do cenário adverso, técnicos da Embrapa apontam para uma possível superprodução na safra 2025/2026, impulsionada pelos efeitos do fenômeno La Niña e pela tendência natural das castanheiras de compensar ciclos de baixa produtividade. “No entanto, essa oscilação pode causar instabilidade nos preços e afetar o mercado”, afirma Patrícia da Costa, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

    Especialistas recomendam medidas de regulação e suporte ao setor, para evitar perdas financeiras no longo prazo. Foto: Felipe Sa/Embrapa

    Em 2017, o preço da lata de castanha (20 litros) chegou a R$ 180,00. No ano seguinte, a superprodução associada à queda da demanda industrial, desencadeada pelos preços elevados, provocou um colapso: o valor da lata despencou para R$ 25,00. “Esse ‘efeito ressaca’ gera perdas severas e instabilidade para os extrativistas”, adverte Costa. Atualmente, em março de 2025, o produto voltou a ficar escasso, e a lata já atinge o valor de R$ 220,00.

    Medidas de manejo e tecnologias de apoio são fundamentais

    A adoção de práticas sustentáveis e o manejo adequado dos castanhais surgem como estratégias essenciais. Pesquisas da Embrapa indicam que o corte de cipós em árvores infestadas pode aumentar em até 30% a produção. “Estudos de mais de uma década comprovaram os benefícios da técnica, que também melhora a saúde fisiológica das castanheiras”, ressalta Lúcia Wadt, pesquisadora da Embrapa Rondônia.

    A regeneração natural da espécie também pode ser favorecida por práticas agroextrativistas. Um exemplo é a técnica de produção de mudas em miniestufas, tema de cursos à distância promovidos pela Embrapa. Além disso, o modelo “Castanha na Roça”, desenvolvido na Resex Cajari (AP), tem mostrado sucesso ao integrar agricultura itinerante com o cultivo de castanheiras, aumentando a regeneração da espécie fora da floresta madura.

    Segundo Marcelino Carneiro-Guedes, da Embrapa Amapá, “a estratégia permite formar novos castanhais em áreas já antropizadas, promovendo a resiliência da cadeia produtiva frente às mudanças climáticas”.

    Cuidados com a qualidade e armazenamento do produto

    Com a expectativa de aumento de produção na próxima safra, a garantia de qualidade da amêndoa se torna prioridade. Um dos maiores riscos está na contaminação por aflatoxinas — toxinas produzidas por fungos em condições inadequadas de armazenamento e que podem causar câncer.

    Alta temperatura e falta de chuvas prejudicaram a floração e a formação dos frutos das castanheiras. Foto: Vitor Alberto de Matos Pereira/Embrapa

    Boas práticas como secagem uniforme das amêndoas, armazenamento em locais secos e arejados, e transporte adequado são fundamentais. “Esses cuidados são essenciais para preservar a qualidade do produto, garantir segurança alimentar e agregar valor à produção extrativista”, reforça Cleisa Brasil, da Embrapa Acre.

    Pesquisa genética e seguro-extrativismo ganham destaque

    O Programa de Melhoramento Genético da Castanheira, da Embrapa, também está selecionando matrizes mais resistentes a variações climáticas, com maior potencial produtivo. Paralelamente, avança a discussão sobre a criação de um seguro extrativista. A proposta visa proteger financeiramente os extrativistas em anos de baixa produção, reduzindo os impactos socioeconômicos causados por eventos climáticos extremos.

    Napoleão Ferreira de Oliveira, da Associação Apavio (Resex Médio Purus, AM), defende a iniciativa: “Nossa economia depende do extrativismo. Sem chuva, a produção de castanha e açaí despenca. É preciso criar mecanismos de proteção social, como um abono semelhante ao concedido a outras atividades do setor primário”.

    Rede Kamukaia e o fortalecimento da cadeia produtiva

    Há quase duas décadas, a Rede Kamukaia, coordenada pela Embrapa, reúne pesquisadores, ONGs e comunidades amazônicas para estudar e desenvolver tecnologias voltadas à sustentabilidade do extrativismo. Um de seus projetos mais recentes é o NewCast, lançado em 2024, com duração de três anos.

    “O objetivo do NewCast é ampliar a base produtiva da castanha, melhorar sua qualidade e fortalecer as comunidades extrativistas”, afirma Patrícia da Costa, que coordena a iniciativa. O projeto conta com financiamento da Finep, órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e envolve unidades da Embrapa nos estados amazônicos e no Sudeste.

    Impacto na renda e risco de abandono da atividade extrativista

    A crise já afeta diretamente a renda de extrativistas em regiões como o Amapá e Rondônia. Elziane Ribeiro, da Resex Cajari (AP), relata que a produção caiu drasticamente. “Um castanhal que rendia 180 barricas não chegou a 10 este ano”, lamenta. Em Rondolândia (MT), Paulo César Nunes, da Cooperativa do Povo Indígena Zoro, alerta que a quebra de safra comprometeu contratos e empregos.

    “A indústria de base comunitária precisa ser fortalecida. Sem ela, o extrativismo pode entrar em colapso”, afirma Nunes. Ítalo Tonetto, diretor da Castanhas Ouro Verde (RO), reforça a necessidade de comunicação transparente com os clientes: “Mesmo com os avisos sobre a quebra de safra, muitos não acreditaram. A próxima safra pode melhorar, mas o impacto já está dado”.

    Sustentabilidade e conservação em risco

    A castanha-da-amazônia é o produto florestal não-madeireiro mais importante da região em termos de geração de renda. A adoção de políticas públicas, como o seguro extrativista, é vista por especialistas como essencial para evitar a migração das comunidades para atividades que contribuem para o desmatamento.

    A crise atual evidencia que investir em adaptação climática, fortalecimento comunitário e conservação ambiental é urgente para garantir o futuro da castanheira-da-amazônia — espécie-chave para a biodiversidade, a segurança alimentar e a cultura dos povos da floresta.

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