Tag: cota de açúcar

  • Estados Unidos ameaçam reter parte do açúcar brasileiro

    Estados Unidos ameaçam reter parte do açúcar brasileiro

    O açúcar brasileiro entrou no centro das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

    O governo americano sinalizou que poderá redistribuir cerca de 56 mil toneladas da cota de açúcar destinada ao Brasil caso o país não apresente propostas comerciais consideradas satisfatórias por Washington.

    A declaração foi feita pelo subsecretário de Agricultura dos Estados Unidos, Stephen Vaden, durante um simpósio da American Sugar Alliance.

    A medida ocorre em meio à pressão dos produtores americanos por uma política mais restritiva para a entrada de açúcar estrangeiro no mercado dos Estados Unidos.

    Brasil pode perder parte da cota de açúcar

    Para entender a disputa, é preciso olhar para o sistema de cotas tarifárias, conhecido como TRQ.

    O mecanismo permite que determinados países exportem uma quantidade específica de açúcar para os Estados Unidos pagando uma tarifa reduzida.

    Para o Brasil, a cota tradicional fica em torno de 156 mil toneladas.

    No ano fiscal de 2027, que começa em 1º de outubro de 2026 e termina em 30 de setembro de 2027, os Estados Unidos estabeleceram uma cota global de aproximadamente 1,117 milhão de toneladas, distribuída entre 39 países.

    Até o momento, porém, apenas 100 mil toneladas foram destinadas ao Brasil.

    Outras 56 mil toneladas ainda não foram alocadas, o que corresponde a cerca de 36% da cota brasileira.

    Esse é justamente o volume que pode ser redistribuído para outros fornecedores caso as negociações entre os dois países não avancem.

    Por que a cota é importante?

    Em volume, o mercado americano representa uma parcela pequena das exportações brasileiras de açúcar.

    O Brasil deve exportar aproximadamente 35,7 milhões de toneladas de açúcar na safra 2025/26, segundo estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

    As 156 mil toneladas da cota americana representam menos de 0,5% das exportações brasileiras.

    Por isso, a eventual perda do volume não seria suficiente para alterar o destino da maior parte da produção nacional.

    O problema está principalmente na diferença entre as tarifas cobradas dentro e fora da cota.

    Tarifa pode mudar de US$ 14,60 para US$ 338,60 por tonelada

    O açúcar brasileiro que entra nos Estados Unidos dentro da cota recebe uma condição tarifária muito mais favorável.

    Para o açúcar bruto, a tarifa dentro da cota é de aproximadamente 0,66 centavo de dólar por libra.

    Quando o produto ultrapassa o limite, a tarifa sobe para cerca de 15,36 centavos de dólar por libra.

    Na conversão para toneladas, a diferença equivale a aproximadamente US$ 14,60 por tonelada dentro da cota contra US$ 338,60 fora dela, antes de eventuais tarifas adicionais.

    Por isso, embora as 56 mil toneladas representem uma parcela pequena da produção brasileira, o acesso a esse espaço tarifário possui valor comercial significativo.

    Produtores dos EUA pressionam por mais proteção

    A ameaça ao Brasil acontece paralelamente a uma mobilização dos produtores americanos de cana e beterraba.

    Representantes da American Sugar Alliance defendem mudanças nas regras de importação e a atualização da chamada tarifa tier 2, aplicada ao açúcar que entra no mercado americano acima das cotas.

    A tarifa foi criada em 2000 e, segundo representantes do setor e do USDA, perdeu parte da capacidade de desestimular as importações.

    A responsável pelo programa de açúcar do USDA, Carlann Unger, afirmou que a tarifa atual já não seria suficientemente alta para funcionar como uma barreira efetiva à entrada do produto estrangeiro.

    O argumento também está relacionado ao nível dos estoques americanos.

    Segundo Unger, os Estados Unidos começaram o ano fiscal de 2026 com os maiores estoques de açúcar já registrados.

    Importações são apontadas como pressão

    Os produtores dos Estados Unidos afirmam que o aumento das importações acima das cotas contribuiu para pressionar os preços domésticos.

    Um estudo do Centro de Políticas de Risco Agrícola da Universidade Estadual de Dakota do Norte (NDSU) estimou que o crescimento dessas importações provocou mais de US$ 3 bilhões em perdas aos produtores americanos nas duas últimas safras.

    O economista Shawn Arita, um dos autores da pesquisa, afirmou que o estudo encontrou efeito significativo das importações sobre os preços domésticos do açúcar.

    Disputa do açúcar amplia tensão comercial entre Brasil e EUA

    A discussão sobre a cota ocorre em um cenário mais amplo de tensão comercial entre os dois países.

    Em julho, os Estados Unidos anunciaram novas medidas tarifárias sobre produtos brasileiros. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), medidas publicadas em 15 e 23 de julho estabeleceram sobretaxas adicionais de 25% e 12,5% sobre parcelas das importações brasileiras, conforme os produtos e enquadramentos.

    No setor agropecuário, o açúcar se tornou mais um ponto de pressão nas negociações.

    Por enquanto, não há perda definitiva das 56 mil toneladas ainda não alocadas. O que existe é a sinalização de Washington de que o volume poderá ser redistribuído caso o Brasil não apresente propostas consideradas satisfatórias.

    Para o setor sucroenergético brasileiro, portanto, a disputa não está apenas relacionada à quantidade de açúcar exportada, mas principalmente às condições de acesso ao mercado americano.

  • Cota de açúcar vira novo capítulo da crise comercial entre Brasil e Estados Unidos

    Cota de açúcar vira novo capítulo da crise comercial entre Brasil e Estados Unidos

    O governo de Donald Trump condicionou a devolução de uma cota de exportação de açúcar brasileira de quase 60 mil toneladas à apresentação de “propostas comerciais satisfatórias” por parte do Brasil. Caso o país não atenda à exigência, os Estados Unidos ameaçam redistribuir o volume a outros exportadores.

    plantação de cana de açúcar
    Foto: Nilza Patricia Ramos/Embrapa

     

    O subsecretário de Agricultura dos Estados Unidos, Stephen Vaden, fez a declaração durante um simpósio da American Sugar Alliance (Aliança Americana do Açúcar), na última segunda-feira (3). A adida do Ministério da Agricultura na embaixada brasileira em Washington, Ana Lucia Viana, registrou as falas de Vaden em um comunicado urgente enviado a Brasília. A Folha obteve o documento, que a equipe do Agro em Campo confirmou.

    Como funciona a cota americana de açúcar

    Os EUA abrem anualmente uma cota de importação de 1,1 milhão de toneladas de açúcar bruto de cana, com base em compromissos assumidos junto à OMC (Organização Mundial do Comércio). Uma tarifa reduzida incide sobre o volume que entra no país dentro desse montante, enquanto uma barreira de aproximadamente US$ 340 por tonelada afeta o que fica de fora. Um obstáculo que, segundo o setor, compromete fortemente a competitividade do produto brasileiro.

    Ao anunciar as cotas para o próximo ciclo, a gestão Trump reduziu a parcela destinada ao Brasil de 155,9 mil toneladas para 100 mil toneladas, uma queda de 35,9%.

    Brasil pode recuperar volume ou perdê-lo para concorrentes

    Segundo o relato da representante do Ministério da Agricultura, Vaden afirmou durante o evento que o volume retirado do Brasil poderá retornar ao país, mas apenas mediante propostas comerciais consideradas satisfatórias pelos EUA. Na ausência de um entendimento, as 55.993 toneladas métricas em valor bruto poderão ir para outros países.

    O relatório da diplomata brasileira destaca que a coincidência exata entre o volume reduzido da cota brasileira. E a quantidade ainda não alocada reforça a percepção de que o governo americano usa a medida como instrumento de negociação comercial.

    No mesmo documento, a funcionária da Agricultura afirma ter procurado o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) para saber se o corte era permanente ou se haveria possibilidade de recomposição, ainda que parcial. Ela argumentou ao USTR que o Brasil preencheu integralmente a cota atual de quase 160 mil toneladas. Portanto, demonstra capacidade de fornecimento, confiabilidade e demanda por parte da indústria americana. O lado americano, segundo o relato, não forneceu detalhes adicionais aos já anunciados publicamente.

    Etanol pode entrar na negociação

    O comunicado da adida agrícola não especifica o que constituiria uma proposta comercial satisfatória para os EUA. Washington, porém, pressiona o Brasil há anos para reduzir a tarifa de 18% cobrada sobre a compra de etanol americano.

    De acordo com levantamento da Unica, que representa o setor, competitividade do biocombustível está no maior nível desde 2018 (Foto: Divulgação/Agência GOV)

    O governo Lula já sinalizou que aceitaria discutir a redução dessa barreira caso os EUA incluíssem nas conversas uma abertura comercial para o açúcar. Mas as partes nunca fecharam acordo nesse ponto.

    O Ministério da Agricultura e o Departamento de Agricultura dos EUA não responderam até a publicação desta reportagem aos questionamentos do Agro em Campo.

    Novas cotas entram em vigor em outubro

    As novas cotas tarifárias americanas vigorarão a partir de outubro, com duração de um ano. A República Dominicana recebeu o maior volume, com cerca de 189 mil toneladas de açúcar de cana em condições mais vantajosas, seguida pelas Filipinas, com 145 mil toneladas. O Brasil ficou com a terceira maior alocação.

    No ano passado, o Brasil exportou 292,4 mil toneladas de açúcar bruto para os EUA, segundo dados da Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia). Produtores do Nordeste preenchem a cota, enquanto o Sudeste, com colheita mais mecanizada, fornece a maior parte do volume exportado acima dela.

    A tarifa aplicada às exportações fora da cota já dificultava o acesso do açúcar brasileiro ao mercado americano. E a situação piorou com os sucessivos tarifaços que Trump impôs ao Brasil. Além dos US$ 340 por tonelada, o produto que entra no mercado americano fora da cota também enfrenta sobretaxas cumulativas de 37,5%, aplicadas com base em duas investigações comerciais conduzidas pelo USTR. O volume dentro da cota, por sua vez, paga uma tarifa extra de 25%, referente a uma das apurações do USTR.

    Corte se soma a crise diplomática entre Brasil e EUA

    A ameaça de Vaden representa mais um capítulo da crise diplomática e comercial entre os governos Lula e Trump. E que foi agravada pela revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti. Semanas antes, o governo Lula havia negado vistos a funcionários do Departamento de Estado que, segundo auxiliares do petista, pretendiam interferir nas eleições brasileiras. O Itamaraty também não autorizou o início da missão em Brasília de Daniel Perez, embaixador indicado por Trump.

    No campo comercial, os EUA impuseram ao Brasil, no ano passado, um tarifaço de até 50%, sob a justificativa de que o governo Lula e o Judiciário promoviam uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A Suprema Corte dos EUA declarou ilegal a maior parte dessas sobretaxas. Mas Trump impôs novas sanções, de 25% e 12,5% em julho, agora amparadas pelo USTR.

    Questionada sobre o tema, a Unica classificou o Brasil como parceiro confiável para os EUA, capaz de assegurar um fornecimento regular e consistente de açúcar de alta qualidade. A entidade afirmou esperar que as tratativas avancem de forma construtiva. Assim, evitando a adoção de medidas que criem novas barreiras ao comércio entre os dois países.