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  • Estudo brasileiro descobre arma eficaz contra coral invasor no litoral

    Estudo brasileiro descobre arma eficaz contra coral invasor no litoral

    Pesquisadores paulistas testaram com sucesso uma nova estratégia de combate ao coral-sol, espécie invasora que ameaça a biodiversidade marinha em diversos pontos da costa brasileira. Com um jato de ar comprimido, a equipe removeu o tecido vivo de colônias de coral-sol no arquipélago de Alcatrazes, área protegida no litoral norte de São Paulo, e não observou regeneração dos organismos. Um resultado que contrasta com o método convencional de remoção mecânica, feito com marreta e talhadeira.

    Os resultados apontam o jateamento como alternativa mais prática e eficaz para o manejo do coral-sol, segundo os cientistas, que buscam conter a disseminação da espécie em áreas prioritárias de conservação no litoral brasileiro. Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) lideraram o estudo, realizado com apoio da FAPESP e publicado em abril na revista Ecological Solutions and Evidence.

    Como funciona a nova técnica

    Uma pistola de jato acopla-se a um cilindro de ar comprimido. É o mesmo equipamento usado por mergulhadores para respirar debaixo d’água. O mergulhador segura o cilindro sob um braço e aciona a pistola bem próxima às colônias, com a outra mão livre. O jato remove o tecido mole do coral e deixa apenas o esqueleto poroso no lugar.

    Segundo os autores, o novo método resolve dois problemas comuns do processo tradicional. A dificuldade de acesso a locais como fendas, tocas e grutas, e o risco de sobra de tecido vivo capaz de se regenerar. No método físico convencional, mergulhadores usam marreta e talhadeira,ou martelete pneumático, para destacar as colônias do substrato marinho, geralmente costões rochosos.

    “Nossos experimentos mostraram a eficácia do método numa comunidade desses corais. Ao remover o tecido, o nosso método lida com pelo menos duas fragilidades de outros: não promove a fragmentação da colônia e, portanto, evita a sua propagação involuntária. Além disso, elimina a necessidade de descartar a colônia removida. O esqueleto sem o tecido se mantém no ambiente e é rapidamente colonizado por espécies nativas do local”, afirma Gustavo Piazzaroli, primeiro autor do estudo, desenvolvido como parte de uma iniciação científica com bolsa da FAPESP no Instituto do Mar (IMar) da Unifesp, em Santos.

    Uma observação em mergulho originou a ideia

    A ideia de usar ar comprimido surgiu quase por acaso para o coordenador do estudo, Guilherme Pereira-Filho, professor do IMar-Unifesp, durante mergulhos no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes. A unidade de conservação marinha, gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), utiliza a remoção física há mais de dez anos para combater a disseminação do coral-sol em seus ecossistemas. Duas espécies invasoras ocorrem na região, Tubastraea tagusensis e Tubastraea coccínea, ambas originárias do Indo-Pacífico e introduzidas por atividades humanas no Caribe e na costa brasileira.

    Esqueleto de coral-sol logo após tratamento com ar comprimido (à esq.), depois de 30 dias (centro) e 180 dias (à dir.), quando já está colonizado por algas. Foto: LabecMar-Unifesp

    “Os corais-sol ocorrem mais em rochas com orientação negativa, como fendas, tocas e grutas, difíceis de serem acessadas pela remoção física. Observamos que em alguns locais, onde mergulhadores passavam e deixavam bolhas de ar aprisionadas sob rochas submersas, as colônias branqueavam. Pensei se não seriam as bolhas de ar exaladas por nós que estariam causando esse efeito. E se algum método que envolvesse ar não seria uma possibilidade de remoção”, relata Pereira-Filho, que hoje coordena três projetos apoiados pela FAPESP, entre eles um vinculado ao Programa BIOTA. Pesquisadores do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da Universidade de São Paulo (USP) também integraram o trabalho.

    Vantagens

    Piazzaroli explica uma das vantagens práticas do novo processo: “Na remoção física, algum tecido pode ficar na rocha e se regenerar. Além disso, ainda que ele seja totalmente extraído, as colônias removidas têm de ser levadas para fora da água salgada, tratadas com água doce para matar o coral e só então o esqueleto pode ser devolvido para o mar, a fim de que o carbonato de cálcio que o compõe possa ser utilizado em outros processos naturais.”

    Quando expostas à água do mar, as colônias extraídas podem liberar células reprodutivas como resposta ao estresse causado pela remoção. Por isso, o mergulhador que realiza a remoção física precisa carregar as colônias em um saco ou recipiente fechado durante todo o trabalho. Um cuidado que o jateamento dispensa, já que o método destrói o tecido do coral de imediato. Qualquer fragmento de tecido que permaneça preso ao substrato no método convencional também pode originar uma nova colônia, dada a alta capacidade de regeneração do coral-sol. Esse risco cai bastante com o jateamento, segundo os autores.

    Colônia de coral-sol: metade (à esq.) não recebeu jateamento de ar comprimido, enquanto a da direita passou pelo procedimento. Foto: Gustavo Piazzaroli/LabecMar-Unifesp

    Os pesquisadores reforçam que a técnica ainda é experimental. Até agora, os testes cobriram apenas algumas dezenas de colônias em uma área restrita do arquipélago, enquanto as invasões de coral-sol costumam se estender por áreas muito maiores, com milhares de colônias.

    Do laboratório para o mar

    Ao ouvir o insight do orientador, Piazzaroli pesquisou a literatura científica e encontrou referências ao uso de jateamento de ar comprimido para separar tecido mole do esqueleto de corais, mas apenas em experimentos de laboratório, nunca em campo. “Eram estudos sobre estresse oxidativo e utilizavam aquele jato de ar e água usado por dentistas, conhecido como ‘water pik’. Não havia nada publicado sobre manejo de corais invasores por esse método”, conta o estudante de biologia e mergulhador. Ele participa como voluntário de ações de remoção de coral-sol em Ilha Grande (RJ) desde a adolescência.

    A equipe adaptou a técnica para uso com cilindros de mergulho. Ea testou em 48 colônias de coral-sol em Alcatrazes, deixando outras 14 sem tratamento como grupo de controle. As colônias passaram por análise logo após o jateamento, depois de 30 dia. E por fim, depois de 180 dias, com medição da área ocupada e contagem do número de colônias a cada visita.

    Na área sem remoção, a cobertura de coral-sol aumentou ao longo do tempo; na área tratada com ar comprimido, ela diminuiu. O número de colônias cresceu nos dois cenários, mas de forma bem mais lenta onde houve jateamento. Algas colonizaram rapidamente os esqueletos jateados  em até 30 dias, o que dificulta a recolonização ou regeneração dos corais invasores.

    Testes em aquário confirmam ausência de regeneração

    Restava uma dúvida: será que o tecido removido pelo jato de ar poderia recolonizar os esqueletos ou se regenerar em outro lugar? Para responder a essa pergunta, os pesquisadores conduziram experimentos em aquários por nove dias. Tempo mais do que suficiente para o tecido se regenerar ou morrer.

    Em um dos tratamentos, um esqueleto já jateado foi fervido para eliminar qualquer possibilidade de tecido vivo ou células reprodutivas remanescentes. Depositado em um aquário com água do local de origem da remoção, portanto, com possíveis células de coral-sol em suspensão, o esqueleto foi observado pelos nove dias seguintes, sem apresentar recolonização.

    Em outro tratamento, além do esqueleto e da água do mesmo local, os pesquisadores adicionaram pedaços de tecido de coral-sol removidos por ar comprimido. Após nove dias, quando o mau cheiro indicava que o tecido já estava morto, também não houve recolonização do esqueleto.

    Cada tratamento foi replicado quatro vezes. Análises de amostras de água ao microscópio não encontraram células reprodutivas nem tecidos vivos, com exceção de uma réplica, em que um pedaço de tecido vivo apareceu no primeiro dia e uma única célula reprodutiva, no último.

    Próximos passos

    “Os resultados são bastante promissores para aplicarmos o método numa área maior e obter uma validação ainda mais robusta”, comemora Pereira-Filho. Ele pondera, porém, que ainda é necessário desenvolver soluções para escalonar o método em grandes áreas, já que o jateamento consome rapidamente o ar comprimido dos cilindros. O grupo já conversa com gestores de outra área de proteção marinha para conduzir um novo estudo em escala ampliada.

    Fonte: André Julião | Agência FAPESP

  • Pesquisadores criam técnicas inovadoras para conter avanço do coral-sol no litoral brasileiro

    Pesquisadores criam técnicas inovadoras para conter avanço do coral-sol no litoral brasileiro

    Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do ICMBio desenvolveram um conjunto de equipamentos inéditos para conter a expansão do coral-sol (Tubastraea coccinea) na costa brasileira. Entre as ferramentas testadas em ambiente natural estão martelete, escova elétrica, pistola injetora, disparadores de ar comprimido e um dispositivo que aplica luz ultravioleta para eliminar a espécie invasora.

    Foto: Marcelo Crivellaro/Acervo PACS Arvoredo

    Os trabalhos ocorrem na Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em Santa Catarina, desde 2022. A equipe realizou 114 mergulhos e acumulou 140 horas de monitoramento in loco em aproximadamente 65 quilômetros de costões rochosos. Os dados orientam o planejamento e a execução das ações de remoção mecânica dos corais.

    O projeto integra o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Coral-Sol na Rebio Arvoredo e Entorno (PACS Arvoredo). A iniciativa nasceu como medida de mitigação exigida no licenciamento ambiental conduzido pelo Ibama para a exploração de petróleo no Campo de Baúna, Bacia de Santos.

    “Algumas dessas ferramentas e técnicas foram testadas ou adaptadas pela primeira vez em ambiente natural por esse projeto, o que mostra a importância do licenciamento ambiental para a inovação”, afirma Fernando Augusto Galheigo, analista ambiental do Ibama.

    Espécie chegou ao Brasil nos anos 1980 e ocupa sete estados

    Nativo dos oceanos Índico e Pacífico, o coral-sol provavelmente desembarcou no Brasil na década de 1980 em cascos de navios e plataformas de petróleo. Atualmente, ocupa costões rochosos e estruturas artificiais na Bahia, Ceará, Espírito Santo, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.

    O coral pertence a um grupo que dispensa algas simbiontes (azooxantelados) e cresce em águas rasas. Duas espécies ocorrem no país: uma de coloração amarela (T. tagusensis) e outra vermelho-alaranjada (T. coccinea).

    A professora Bárbara Segal, da UFSC, explica que o coral-sol domina o ambiente recifal e reduz o espaço para espécies nativas. “Isso altera a estrutura dos ecossistemas e causa perda da biodiversidade marinha brasileira”, diz.

    Pesquisa segue até março com foco em detecção precoce

    As atividades de campo do PACS Arvoredo seguem até março. A expectativa da equipe é reduzir a densidade do coral nos locais já invadidos e aprimorar a capacidade de detectar a espécie onde ela ainda não chegou.

    Foto: Marcelo Crivellaro/Acervo PACS Arvoredo

    “A ideia é utilizar esse conhecimento para diminuir a densidade da espécie nos locais já invadidos. E se possível, detectá-la precocemente onde ainda não foi registrada”, acrescenta Adriana Carvalhal Fonseca, analista ambiental do ICMBio.

    Em 2018, o Ministério do Meio Ambiente publicou o Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Coral-Sol. O documento orienta as estratégias de combate à espécie em todo o território nacional.