O aroma de café tomou conta da COP 30. Na sexta-feira (14), o Pavilhão AgroBrasil, do Sistema CNA/Senar, abriu espaço para o café nacional brilhar. A Solenidade da Cultura Cafeeira reuniu quem faz o setor pulsar, de produtores a líderes de grandes instituições.
Ademar Pereira, vice-presidente da Comissão Nacional do Café da CNA, puxou o tom do encontro. Contou a história da cafeicultura brasileira, que virou referência mundial. “Ter esse espaço de debate mostra o valor de um setor que evoluiu, se profissionalizou e hoje une sustentabilidade e produtividade”, afirmou.
A conversa seguiu quente. Vinicius Estrela, diretor da BSCA, lembrou que o sucesso dos cafés especiais veio da união. Silas Brasileiro, do CNC, alertou: o mundo muda com o clima e o café precisa se adaptar. Já Marcos Matos, da Cecafé, foi direto; sustentabilidade exige ação coletiva, crédito e apoio político.
A indústria também falou. Celírio Inácio (Abic) defendeu o compromisso com tecnologias limpas e qualidade total. Aguinaldo Lima (Abics) ressaltou a força da cadeia e o potencial da agricultura regenerativa. Vanúsia Nogueira, diretora da OIC, levou o discurso além: “O café brasileiro precisa se afirmar no cenário global”. Andrea Illy, da Illycaffè, completou: regenerar o solo é regenerar o futuro do café.
Painel 1 — Tradição e inovação lado a lado
No painel “Tecnologia que transforma – Raízes que preservam”, histórias de vida se misturaram a ciência e modernidade.
Carmen Lúcia Chaves Brito, da BSCA, falou de suas raízes em Minas: 17 anos à frente da gestão familiar. Isabela Pessoa, da Coopric (BA), defendeu capacitação e sucessão rural como pilares do futuro.
Do Norte, Deigson Bento contou a própria jornada; largou a cidade para continuar o legado dos avós no cultivo de robustas amazônicos. Cada fala reforçava a mesma ideia: o café é mais que negócio, é herança viva.
Ademar Pereira voltou ao palco com uma certeza: o setor virou a chave. Sustentabilidade econômica, gente no campo e aprendizado com o Senar sustentam o novo momento da cafeicultura.
Painel 2 — Confiança do campo à xícara
À tarde, o painel “Confiança do campo à xícara” mostrou que sustentabilidade tem provas, não promessas. Marcos Matos (Cecafé) detalhou programas de clima, carbono e boas práticas, lembrando a necessidade de comunicar o que o Brasil preserva.
Vinícius Estrela reforçou o papel dos cafés especiais em certificação e ESG. “A rastreabilidade virou marca registrada do nosso café”, disse. Silas Brasileiro apresentou o programa “Produtores de Água”, que recupera nascentes e valoriza o manejo hídrico.
Fechando, Celírio Inácio falou de certificação e pureza no café torrado. E Aguinaldo Lima completou sobre a agenda sustentável no café solúvel. Tudo conectado. Do produtor ao consumidor. Da roça à xícara.
A Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) marcou presença na Conferência Global sobre Agricultura Inteligente para o Clima (CSA), em Brasília, entre os dias 5 e 7 de novembro. O evento reuniu cientistas, formuladores de políticas, investidores e empresas para traçar o futuro da alimentação e da agricultura perante as mudanças climáticas.
A Aiba participou ativamente das discussões através de suas diretoras Cristina Gross (Financeira) e Lizane Ferreira (Executiva), e da coordenadora de projetos Marlize Stuczyski.
Para Cristina Gross, a experiência foi crucial para fortalecer o setor. “Discutimos métricas, regeneração e paisagens produtivas. Este momento foi essencial para consolidar o agro que queremos: inovador, responsável e alinhado às melhores práticas globais”, afirmou a diretora.
A Conferência CSA enfatizou inovações do mundo dos negócios com potencial para acelerar soluções práticas. O objetivo central foi promover sistemas alimentares sustentáveis e resilientes ao clima. O evento serviu como um importante preparatório para a COP 30, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que Belém (PA) sediou em novembro.
O Maranhão apresentou na Green Zone da COP-30 duas iniciativas que unem proteção ambiental e inclusão social: a criação do Programa de Agentes Ambientais Comunitários e o anúncio da primeira universidade em território indígena do Brasil. As medidas integram uma estratégia que reconhece os povos tradicionais como protagonistas na defesa dos biomas.
A Secretaria de Meio Ambiente (Sema) coordena o programa de agentes ambientais, que beneficiará 5 mil moradores de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais. Os participantes receberão bolsas mensais de R$ 300 e passarão por capacitações técnicas em preservação de biomas, recuperação de nascentes, reflorestamento e combate a queimadas.
“Queremos levar a agenda ambiental para dentro dos territórios, fortalecendo a presença do Estado e reconhecendo o papel das comunidades na proteção dos biomas. Esses agentes serão protagonistas de uma política ambiental participativa, com resultados concretos e permanentes”, afirma o secretário de Meio Ambiente, Pedro Chagas.
Universidade nasce de diálogo com lideranças indígenas
O governador Carlos Brandão destaca que as iniciativas nasceram do diálogo direto com as comunidades. A universidade surgiu de uma proposta apresentada pela líder indígena Fabiana Guajajara e pelo Cacique Silvio.
“Esse sonho nasceu de uma conversa com a Fabiana e o Cacique Silvio, que apresentaram o projeto da Universidade em Território Indígena. Nosso governo ouve as pessoas — é assim que construímos políticas que fazem sentido na vida real. O programa de agentes garante renda a quem vive na floresta para preservar o meio ambiente e sustentar sua família. Transformamos proteção ambiental em dignidade e oportunidade”, declara Brandão.
A instituição será implantada no território Arariboia, seguindo a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que exige consulta livre, prévia e informada às comunidades. Lideranças do povo Guajajara idealizaram o projeto, que conta com apoio do governo estadual.
Conhecimento ancestral vira formação acadêmica
Fabiana Guajajara explica que a universidade nasce “do coração do território Arariboia” e tem como missão transformar o conhecimento ancestral em formação técnica, científica e cultural.
“Há mais de 20 anos nossos guardiões e viveiristas atuam voluntariamente na proteção e no reflorestamento. A universidade vem para potencializar esse trabalho, dando visibilidade à nossa diversidade e fortalecendo a autossustentabilidade dos povos indígenas”, afirma a líder.
Estado investe R$ 18 milhões em políticas integradas
O Maranhão destina R$ 18 milhões para implantar o programa de Agentes Ambientais Comunitários. O estado integra políticas de meio ambiente, direitos humanos e educação em programas como o Floresta Viva e o Maranhão Sem Queimadas.
O Floresta Viva recupera áreas degradadas com o plantio de juçara (açaí) em parceria com 16 multinacionais. Já o Maranhão Sem Queimadas conta com apoio do Fundo Amazônia.
“Mesmo com poucos recursos, o Maranhão mostra resultados concretos. Reconstruímos florestas, formamos agentes e valorizamos o conhecimento tradicional. Isso é governar com propósito e amor pelo território”, conclui o governador Carlos Brandão.
Escondidos nas margens dos rios amazônicos, feijões cultivados por comunidades tradicionais do Acre revelam teores nutricionais que surpreendem a ciência. As variedades Costela de Vaca e Manteiguinha Branco, do tipo caupi, apresentam até 27% de proteína em sua composição – 35% acima da média mundial e significativamente superiores aos 20% encontrados em outras regiões do Brasil.
Pesquisadores desenvolveram no Vale do Juruá uma pesquisa inédita que resultou na descoberta e integra a tese de doutorado “Qualidade nutricional e armazenamento de feijões do Juruá no Acre”, elaborada pela professora Guiomar Almeida Sousa, do Instituto Federal do Acre (Ifac), sob orientação do pesquisador da Embrapa Acre, Amauri Siviero.
Antioxidantes em níveis recordes
Além da alta concentração proteica, o estudo identificou teores impressionantes de antocianinas nas variedades Preto de Arranque e Preto de Praia. Essas substâncias antioxidantes naturais atingiram índices entre 420 e 962 microgramas por grama, superando largamente as variedades brancas e coloridas tradicionais.
A ciência reconhece que as antocianinas combatem o envelhecimento celular e ajudam a prevenir doenças como câncer, problemas cardíacos e Alzheimer. Pesquisadores da Embrapa Acre realizaram as análises nutricionais no laboratório de Bromatologia, avaliando 14 variedades cultivadas ao longo dos rios Juruá, Breu, Tejo e Amônia.
Agricultores familiares cultivam as variedades de maior valor nutricional em sistemas agrícolas tradicionais e realizam grande parte dos plantios durante o período seco, nas praias dos rios da região.
“Essas variedades possuem pouco ou nenhum estudo, o que deixa claro que ainda temos muito a conhecer sobre elas”, afirma a professora Guiomar Almeida Sousa.
Costela de Vaca, o segundo na linha superior, e Manteiguinha Branco, o primeiro na inferior. Foto: Amauri Siviero /Embrapa
Segundo a pesquisadora, o conhecimento sobre a composição nutricional pode contribuir para a valorização do produto no mercado e maior geração de renda. “Esses aspectos favorecem a busca por mercados mais justos para os feijões do Juruá”, reforça.
Conservação natural surpreende pesquisadores
O estudo comprovou outra característica notável: após 12 meses de armazenamento em diferentes embalagens, os grãos mantiveram integralmente seus valores nutricionais.
“Esse é um ponto muito importante, considerando que as sementes são selecionadas e manejadas por agricultores familiares, indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais. Ao longo dos anos, foram sendo adaptadas às formas de manejo dessas populações e às condições específicas de seus locais de cultivo”, explica Siviero.
Marechal Thaumaturgo: capital dos feijões amazônicos
Durante três anos, a pesquisa mapeou a diversidade de feijões no Acre e revelou Marechal Thaumaturgo como o município com maior variedade: 23 tipos diferentes de feijões, entre comuns (Phaseolus vulgaris) e caupi (Vigna unguiculata).
O acesso ao município, possível apenas por via fluvial ou aérea, reforça a importância da produção local para a segurança alimentar regional.
“Vimos que o feijão-comum é cultivado em terra firme, enquanto o feijão-caupi cresce em várzeas, em pequenos roçados de um hectare, por agricultores familiares. Na região do Baixo Acre, a mais populosa, predomina o cultivo de apenas três variedades”, destaca Siviero.
Centro mundial de conservação de feijões
“O Vale do Juruá pode ser considerado um dos principais centros de conservação on farm de feijões caupi e comum do mundo”, afirma Eduardo Pacca, professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) que pesquisa agrobiodiversidade regional.
Foto: Felipe Sá/Embrapa
A sistematização da ocorrência de variedades crioulas resultou na elaboração do mapa de distribuição de feijões no Acre, confirmando que o cultivo ocorre em todos os municípios, mas a maior diversidade concentra-se no Vale do Juruá.
Caminho para mercados premium e selos de qualidade
Siviero aponta que o conhecimento sobre as características nutricionais pode incentivar o desenvolvimento de mercados selecionados, onde consumidores estejam dispostos a pagar por um feijão diferenciado.
Em setembro de 2024, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) lançou o Selo Povos e Comunidades Tradicionais do Brasil, que visa valorizar produtos de populações tradicionais. Associações e cooperativas podem requerer esse reconhecimento para os feijões crioulos.
Segundo Pacca, os feijões do Juruá têm potencial para obter certificação orgânica e selo de Indicação Geográfica, a exemplo da farinha de mandioca da região. “Daí a vantagem de embalar a vácuo, como forma de evitar o uso de inseticidas contra insetos-praga de grãos armazenados”, destaca.
Projeto mapeia sistemas agrícolas ancestrais
Os feijões do Vale do Juruá estão sendo mapeados pelo projeto “Registro dos Sistemas Agrícolas Tradicionais do Alto Juruá” (RSAT Alto Juruá), que reúne pesquisadores da Embrapa Acre, Embrapa Amazônia Ocidental, Embrapa Amazônia Oriental, Embrapa Solos, Ufac e Ifac.
Plantio de feijão na praia do Vale do Juruá. Foto: Felipe Sá/Embrapa
Em agosto de 2025, a equipe percorreu mais de 190 quilômetros de barco pelo rio Juruá, visitando comunidades ribeirinhas em Marechal Thaumaturgo, Porto Walter, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Cruzeiro do Sul (AC), Ipixuna e Guajará (AM).
“Os Sistemas Agrícolas Tradicionais representam mais do que formas de produzir alimentos. Os feijões do Vale do Juruá se perpetuam como herança passada entre gerações e como práticas de conservação da agrobiodiversidade”, explica Siviero, coordenador do projeto.
Sabedoria ancestral produz e preserva
A pesquisadora Elisa Wandelli, da Embrapa Amazônia Ocidental, destaca que a agricultura dos ribeirinhos do Juruá exemplifica sustentabilidade. “Vimos uma população sábia que mostra que é possível produzir alimento e cuidar da natureza ao mesmo tempo. Essa sabedoria ancestral guarda conhecimentos transmitidos por avós e bisavós que devem ser protegidos e melhor valorizados”, afirma.
Pedro Bezerra da Silva, agricultor da Comunidade Novo Horizonte, em Porto Walter, planta macaxeira, banana e feijão todo ano. “Grande parte da alimentação da família vem do que plantamos e o que sobra vendo para aumentar a renda. Se eu não plantar, não tenho como comprar todos os alimentos na cidade”, diz.
Ele relata mudanças climáticas na região: “Nos últimos anos, o verão tem ficado cada vez mais quente. Já teve ano de secar tudo quanto é broto de água até na mata”.
Destaque na COP 30
Os sistemas agrícolas tradicionais, alinhados aos princípios da agricultura sustentável, eixo central da COP 30, compõem a programação da AgriZone, espaço da Embrapa dedicado a iniciativas inovadoras e inclusivas.
“Nossa participação na COP 30 reforça a necessidade de valorizar os registros dos sistemas agrícolas tradicionais no Brasil e no mundo, ao mesmo tempo em que busca sensibilizar formuladores de políticas públicas sobre a necessidade de criar ações específicas para fortalecer e proteger essas comunidades”, enfatiza Siviero.
O agronegócio brasileiro está redefinindo sua estratégia para fortalecer sua posição como potência global. O setor, terceiro maior exportador agrícola do mundo, agora alia seu volume de produção a práticas sustentáveis e tecnologia de ponta.
Especialistas apontam que, para crescer além dos atuais 30% de produção exportada, o agro precisa superar barreiras como o “Tarifaço” e adotar uma postura geopolítica mais ativa, com eventos como a COP-30 no horizonte.
O 1º AgroLegal Summit, promovido pela AASP (Associação dos Advogados de São Paulo), reuniu autoridades como o ex-secretário de Política Agrícola, Ivan Wedekin, e Marcello Britto, enviado especial para a COP-30, para debater esses caminhos.
Antonio Freitas, diretor da AASP e coordenador do evento, enfatizou que o fórum surgiu para tratar de questões fundamentais. “A segurança jurídica no campo importa tanto quanto a produtividade. O AgroLegal Summit debate marcos regulatórios, propriedade rural e tecnologia, temas decisivos para o futuro do agronegócio”, afirmou Freitas.
Ivan Wedekin analisou a trajetória de sucesso do setor. “Nossa agricultura é gigante e global porque se fundamenta em tecnologia, no aumento da produtividade e em políticas agrícolas competentes dos últimos 20 anos. Isso garante ao Brasil o maior saldo na balança comercial agrícola mundial, com muito pouco subsídio”, explicou Wedekin.
Ele citou políticas macroeconômicas, como a Lei Kandir (1996) e a adoção do câmbio flutuante (1999), como fatores cruciais. A entrada da China na OMC em 2001, segundo ele, consolidou a parceria que transformou o país asiático no maior cliente do agro brasileiro.
Tarifaço abre portas para novas estratégias de mercado
O chamado “Tarifaço” dominou parte dos debates. Wedekin enxerga o momento como uma oportunidade estratégica. “Esse cenário permite ao Brasil não apenas abrir novos mercados, mas também traçar novas políticas para acessá-los”, comentou.
Da esquerda para a direita: Ivan Wedekin, Ex-Secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura; Thelma Corrêa, Diretora Jurídica; Antonio Freitas, Diretor da AASP e coordenador do AgroLegal. Foto: Divulgação/AASP
Apesar das tensões comerciais, o setor mostra resiliência. Em setembro, o país bateu o recorde histórico de exportação de carne bovina, alcançando 144 países. “Mercados como carne e café continuarão funcionando, mas nosso grande desafio permanece na agregação de valor, que também depende de políticas públicas”, concluiu o ex-secretário.
COP-30: Brasil busca reaproximação geopolítica
A conferência climática de 2025 (COP-30) aparece como palco fundamental para a projeção internacional do Brasil. Marcello Britto, enviado especial para o evento, destacou seu significado único. “Será a primeira grande reunião mundial com mais de 100 chefes de Estado após a nova gestão Trump. O foco não será criar regras novas, mas sim estabelecer novos rumos para essa reaproximação geopolítica”, explicou Britto.
A estratégia brasileira, de acordo com ele, mira a região da Ásia-Pacífico (APAC). “Onze países concentram 5 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, a partir de 2030, eles deterão 60% da classe média mundial, que é o motor do consumo”, afirmou.
Britto ainda revelou que a COP-30 dedicará dois dias inteiros para analisar tendências em agricultura, indústria, mineração e inteligência artificial no eixo China-Índia, sinalizando a centralidade do tema para a economia global.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) elaborou o documento “Agropecuária Brasileira na COP 30” para apresentar os compromissos e conquistas do setor durante a Conferência sobre as Mudanças Climáticas. O evento acontecerá entre 10 e 21 de novembro, em Belém. As federações estaduais ratificaram a publicação, que mostra ao mundo as práticas sustentáveis consolidadas no campo brasileiro.
O material destaca tecnologias como plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de áreas degradadas e uso de bioinsumos. Essas práticas comprovam que o Brasil desenvolveu uma das agriculturas mais eficientes e ambientalmente responsáveis do planeta.
Setor rural contribui para combater mudanças climáticas
O documento funciona como instrumento estratégico de posicionamento internacional. A CNA reforça que o setor rural integra a solução para enfrentar as mudanças climáticas, contrariando narrativas que associam a agropecuária brasileira apenas a problemas ambientais.
Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), ressalta a necessidade de desconstruir o mito de que a agropecuária brasileira opera de forma rudimentar.
“O setor agropecuário representa parte vital na construção das soluções para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Cada vez mais tecnológico e sustentável, o agro sustenta a economia nacional e a preservação ambiental. Pois entende que a qualidade do solo e dos recursos hídricos impacta diretamente a produção”, afirma Meirelles.
CNA defende acesso facilitado a financiamento climático
A transição para uma economia de baixo carbono e a adaptação dos sistemas produtivos exigem investimentos de larga escala. O financiamento climático destinado aos países em desenvolvimento, reforçado no Acordo de Paris, representa condição fundamental para fortalecer a resiliência climática e viabilizar ações de mitigação e adaptação.
A CNA defende maior acesso dos produtores rurais a recursos internacionais, com linhas simplificadas e justas. A entidade propõe que os fundos considerem a realidade dos países em desenvolvimento, garantindo previsibilidade e condições adequadas para a transição sustentável no agro.
Produção de baixo carbono alinha Brasil a metas globais
O documento enfatiza a produção com baixa emissão de carbono, alinhada às metas de descarbonização global. A Confederação destaca que o agro brasileiro já reduz emissões de forma efetiva através da adoção de tecnologias inovadoras e da preservação de florestas nativas em propriedades rurais, que sequestram grandes quantidades de carbono.
Ao demonstrar avanços em métricas concretas, a agropecuária nacional reforça sua legitimidade para acessar mercados internacionais cada vez mais exigentes em sustentabilidade e rastreabilidade.
Dados contestam narrativas negativas sobre o agro brasileiro
O presidente da Faesp ressalta a importância de desconstruir narrativas negativas que associam o agro brasileiro ao desmatamento ilegal e à degradação ambiental. O documento da CNA apresenta dados que evidenciam o oposto: produtores rurais brasileiros preservam cerca de 33% do território nacional em áreas de vegetação nativa dentro das propriedades, diferencial único no cenário mundial.
Essa informação reposiciona a imagem do Brasil nos fóruns internacionais e garante que políticas ambientais não funcionem como barreiras comerciais disfarçadas contra a produção nacional.
O documento reforça a importância da articulação internacional do agro brasileiro em eventos como a COP 30. Ao unir evidências técnicas, experiências práticas e políticas públicas já implementadas, o setor demonstra capacidade de dialogar com a sociedade e com mercados externos de forma transparente e propositiva.
A desconstrução de narrativas representa não apenas uma defesa, mas uma estratégia ativa para consolidar o protagonismo do Brasil na agenda global de sustentabilidade. O setor demonstra que o futuro da agropecuária pode ser, simultaneamente, produtivo, inclusivo e ambientalmente responsável.
O Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras) realizou, em 19 de agosto, na sede do Sicredi em Belém (PA), um encontro preparatório para a COP 30. O evento reuniu as cooperativas de crédito Sicredi Norte, Sicoob Cooesa e Cresol Amazônia, além da participação da Concaves (Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Materiais Recicláveis), que destacou sua atuação em economia circular.
Sicredi amplia crédito verde e inclusão
O presidente do Conselho de Administração da Sicredi Norte, Wilson Machado, abriu o evento com as boas-vindas, seguido pela apresentação conduzida por Pedro Lutz Ramos, superintendente de Tesouraria da instituição. Ele destacou que, em 2024, a Sicredi aplicou R$ 7,4 bilhões em projetos de energia limpa e agricultura de baixo carbono. Também destinou R$ 16 bilhões em crédito para mulheres empreendedoras e produtoras rurais.
Na Amazônia, a cooperativa está presente em 271 municípios e é a única instituição financeira em 19 localidades. Apenas em energia solar, financiou R$ 324,5 milhões em projetos.
Entre os exemplos, foi apresentada a trajetória de Sarah e Robson, produtores de cacau de Medicilândia (PA). Com apoio da Sicredi, eles investiram em estufas de secagem e expandiram a produção de chocolate. O trabalho rendeu um prêmio nacional e outro internacional, colocando o cacau da região entre os melhores do mundo.
Pedro Lutz Ramos, superintendente de Tesouraria do Sicredi – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro Em Campo
Na Amazônia, a cooperativa está presente em 271 municípios e é a única instituição financeira em 19 localidades. Apenas em energia solar, financiou R$ 324,5 milhões em projetos.
Entre os exemplos, foi apresentada a trajetória de Sarah e Robson, produtores de cacau de Medicilândia (PA). Com apoio do Sicredi, eles investiram em estufas de secagem e expandiram a produção de chocolate. O trabalho rendeu um prêmio nacional e outro internacional, colocando o cacau da região entre os melhores do mundo.
Sicoob alia cidadania, inovação e energia limpa
A apresentação do Sicoob ficou a cargo de Lidiana Ferreira, do setor de Cooperativismo Financeiro e Investimento Social Privado. Ela apresentou três frentes de impacto:
Biblioteca comunitária no Marajó, inaugurada em junho de 2024, espaço de leitura e formação cultural;
Cooperativa mirim ribeirinha, criada em Portel (PA), a primeira do gênero no Brasil, com jovens organizados em torno do cultivo do açaí;
Usina fotovoltaica em Santa Bárbara do Pará, prevista para 2025, que garantirá energia limpa a toda a estrutura do Sicoob Cooesa.
Segundo Lidiana, o sistema já concedeu R$ 3,2 milhões em crédito verde e desenvolve inventário de emissões de gases de efeito estufa, reforçando o compromisso socioambiental da cooperativa.
Lidiana Ferreira, do setor de Cooperativismo Financeiro e Investimento Social Privado do Sicoob – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro Em Campo
Cresol Amazônia promove inclusão e protagonismo
O diretor de operações da Cresol nos estados de Rondônia e Amazonas, Douglas Barbosa, apresentou as ações da cooperativa. Ele destacou que a Cresol alcançou 100% dos municípios de Rondônia e avança em localidades do Amazonas, como Codajás e Anori, oferecendo crédito, orientação técnica e apoio ao empreendedorismo local.
Douglas Barbosa, diretor de operações da Cresol nos estados de Rondônia e Amazonas – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro Em Campo
A cooperativa mantém uma estratégia ESG baseada em dez eixos, como educação financeira, inovação e sucessão familiar. Já impactou 51 mil pessoas em ações educativas. Na Amazônia, mulheres ocupam 80% dos cargos de liderança e quase 70% do crédito liberado vai para jovens com até 29 anos.
Concaves transforma resíduos em oportunidade
A apresentação da Concaves foi feita por sua presidente e catadora de materiais recicláveis, Debora Baia, que destacou a transformação vivida pela categoria em Belém a partir do cooperativismo.
Hoje, a cooperativa reúne 22 associados, com renda média de R$ 1.600, e já atendeu mais de 20 mil pessoas por meio da coleta seletiva.
Debora Baia, presidente e catadora de materiais recicláveis da Concaves – Foto: Pedro H. Lopes/ Agro Em Campo
Entre as iniciativas, estão o “Reciclômetro Concaves”, que permite rastrear resíduos em tempo real, e a parceria com a Itaipu Binacional para implantação de quatro unidades de valorização de recicláveis na região.
Cooperativismo como motor de desenvolvimento
Segundo estudos da Fipe, municípios com presença de cooperativas de crédito registram 10% mais PIB per capita e 15% a mais em empregos formais. Os exemplos mostrados em Belém reforçam a visão de que o cooperativismo é capaz de gerar desenvolvimento econômico aliado à inclusão e sustentabilidade.
A Amazônia Legal acaba de receber um centro inovador dedicado à recuperação de áreas desmatadas e degradadas. Coordenado pela Embrapa, o Centro Avançado em Pesquisas Socioecológicas para a Recuperação Ambiental da Amazônia (Capoeira) reúne mais de 100 pesquisadores de 33 instituições nacionais e internacionais, incluindo universidades, órgãos governamentais, ONGs, empresas privadas e comunidades locais.
Com um investimento de R$ 14 milhões, o projeto foi aprovado pelo CNPq no âmbito do programa Pró-Amazônia, que visa fomentar pesquisas estratégicas para o desenvolvimento sustentável da região.
O Capoeira terá um hub na Embrapa Amazônia Oriental, em Belém, e atuará de forma virtual, integrando laboratórios e grupos de pesquisa em estudos socioeconômicos, ecológicos e bioculturais.
Fragmentos de floresta em plantações de soja no município de Belterra. Foto Marizilda Cruppe/Divulgação
Segundo Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa e coordenadora do centro, o objetivo vai além da produção científica: “Queremos articular uma transformação positiva na região, substituindo a cultura da destruição pela da restauração.”
Amazônia em crise: desmatamento e degradação
A Amazônia já perdeu 18% de sua cobertura original (846 mil km²), área equivalente a quase todo o estado de Mato Grosso, segundo dados do Inpe. Além disso, 370 mil km² (mais que o território da Alemanha) sofrem com degradação por incêndios, extração ilegal de madeira e fragmentação florestal.
Esses distúrbios causam:
Emissões massivas de gases de efeito estufa
Perda de biodiversidade
Alterações no regime de chuvas
Aumento de conflitos socioambientais
Estratégias de restauração em foco
Os pesquisadores analisarão dados de mais de 100 áreas de estudo na Amazônia Legal, incluindo:
Florestas secundárias
Áreas degradadas
Sistemas Agroflorestais (SAFs)
Recuperação de sistemas aquáticos
As técnicas avaliadas incluem:
Regeneração natural
Regeneração assistida (plantio de espécies nativas)
Plantio total (em áreas sem cobertura vegetal)
Os SAFs são a estratégia mais estudada (37,88%), combinando produção agrícola e recuperação ambiental.
Laboratórios vivos
O projeto inclui “living labs” (laboratórios vivos) em três regiões estratégicas:
Santarém (PA) – Floresta Nacional do Tapajós e Resex Tapajós-Arapiuns
Mosaico do Gurupi (PA/MA) – Unidades de Conservação e Terras Indígenas
Nordeste Paraense – Municípios como Bragança, Paragominas e Tomé-Açu
Esses espaços promoverão troca de conhecimentos entre cientistas e comunidades locais, fortalecendo ações de restauração biocultural.
Restauração como solução para as mudanças climáticas
O Brasil assumiu no Acordo de Paris o compromisso de recuperar 12 milhões de hectares até 2030, sendo 38% na Amazônia. A COP 30, que ocorrerá em Belém em 2025, deve ampliar o debate sobre o tema.
“A restauração florestal é crucial para reduzir emissões e combater as mudanças climáticas”, afirma Joice Ferreira.
Um levantamento da Aliança pela Restauração (2020) identificou 2.773 iniciativas de recuperação na Amazônia, cobrindo 113,5 mil hectares. A maioria (59%) são SAFs, seguidos por plantio de mudas (26%).
“Laboratórios vivos” vão promover trocas de experiências e conhecimentos em três territórios amazônicos. Foto: Ronaldo Rosa/Embrapa
Apesar de avanços em políticas como o Planaveg, os pesquisadores destacam a necessidade de esforços conjuntos entre governo e sociedade para ampliar a escala da restauração.
O Capoeira surge como uma esperança para a Amazônia, integrando ciência, comunidades e políticas públicas em busca de um futuro sustentável. Com a COP 30 no horizonte, o centro pode se tornar um modelo global de recuperação ambiental.