Tag: Cooperativismo

  • Agroleite 2026 espera movimentar R$ 500 milhões no Paraná

    Agroleite 2026 espera movimentar R$ 500 milhões no Paraná

    A Agroleite 2026 começa nesta segunda-feira (3), em Castro (PR), com expectativa de movimentar cerca de R$ 500 milhões em negócios ao longo dos cinco dias de programação. Promovida pela Cooperativa Castrolanda, a feira reúne empresas, produtores, pesquisadores e especialistas para apresentar tecnologias, inovações e tendências voltadas à pecuária leiteira.

    A previsão para esta edição é mais conservadora do que a registrada no ano passado. Em 2025, o evento alcançou um recorde histórico de R$ 969 milhões em negócios, resultado que praticamente dobrou a expectativa inicial da organização.

    Cenário econômico leva produtores a buscar mais conhecimento

    Segundo o presidente da Castrolanda, Willem Bouwman, o momento vivido pelo agronegócio e pela cadeia do leite exige cautela por parte dos produtores.

    De acordo com ele, a prioridade neste ano deve ser a busca por conhecimento, inovação e novas tecnologias, enquanto os investimentos nas propriedades tendem a ocorrer de forma mais moderada.

    “Acreditamos que o momento, para o produtor, é mais de busca de novos conhecimentos, informação e tecnologias do que de investimentos nas propriedades.”

    Entre os fatores que pressionam a atividade, Bouwman destaca a redução das margens do produtor, a entrada de leite em pó importado no mercado brasileiro, as elevadas taxas de juros e o aumento dos custos de produção, incluindo fertilizantes, sementes e óleo diesel.

    Segundo o dirigente, esses fatores tornam os investimentos mais desafiadores para a pecuária leiteira e para outras atividades agropecuárias.

    Feira espera receber 170 mil visitantes

    Mesmo diante do cenário econômico, a Agroleite deve registrar crescimento em sua estrutura.

    A organização prevê a participação de aproximadamente 400 empresas expositoras, cerca de 600 animais e um público estimado de 170 mil visitantes.

    Castrolanda investe R$ 11 milhões na expansão do parque tecnológico

    Para a edição deste ano, a Castrolanda investiu aproximadamente R$ 11 milhões na ampliação do Parque Tecnológico Agroleite.

    Os recursos foram destinados à construção de novos espaços para empresas parceiras, expansão da Arena Conexão, melhorias na infraestrutura e nos serviços oferecidos aos visitantes.

    As obras fazem parte de um projeto mais amplo, que prevê investimentos de cerca de R$ 100 milhões, realizados em parceria com instituições públicas e privadas. Entre os projetos estão a criação de um Centro de Excelência de Bovinocultura de Leite e de um Laboratório de Biotecnologia de Leite.

    A proposta é transformar o parque em um ambiente permanente de inovação, aproximando empresas, produtores, universidades e instituições ligadas à cadeia leiteira durante todo o ano.

    75 anos

    Em 2026, a Castrolanda comemora 75 anos de história com o tema “Movidos por um legado”.

    A cooperativa iniciou suas atividades na pecuária leiteira com animais puros de origem trazidos por imigrantes holandeses e, atualmente, atua nas cadeias de grãos, leite, carnes (suínos e ovinos) e batata.

    Com produção de aproximadamente 568,9 milhões de litros de leite em 2025, volume 6,1% superior ao registrado em 2024, a cooperativa reúne mais de 1.200 cooperados e possui unidades nos estados do Paraná, São Paulo e Tocantins.

    Serviço

    Agroleite 2026

    • Data: de 3 a 7 de agosto
    • Local: Parque Tecnológico Agroleite e Parque Dario Macedo, em Castro (PR)
    • Entrada: gratuita
    • Informações: agroleitecastrolanda.com.br
  • Cooperativas do agro exportam US$ 17,4 bilhões em 2025

    Cooperativas do agro exportam US$ 17,4 bilhões em 2025

    As cooperativas brasileiras do agronegócio exportaram US$ 17,4 bilhões (cerca de R$ 96 bilhões) em 2025, segundo dados da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).

    O resultado representa 10,3% de todas as exportações do agronegócio brasileiro, reforçando a importância do cooperativismo para o comércio exterior do país.

    Apesar do desempenho expressivo, as vendas internacionais seguem concentradas. Das 140 cooperativas exportadoras em atividade, apenas dez responderam por 67% de todo o volume embarcado ao exterior.

    Cooperativas do agro movimentaram R$ 487 bilhões

    Além do avanço nas exportações, as cooperativas agropecuárias registraram faturamento de R$ 487,3 bilhões em 2025.

    O valor representa crescimento de 11,2% em comparação com o ano anterior.

    Considerando todos os segmentos do cooperativismo brasileiro, a movimentação econômica alcançou R$ 848 bilhões, equivalente a 6,6% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

    Café e carne de aves lideram as exportações

    Entre os principais itens exportados pelas cooperativas brasileiras estão o café, carne de aves, farelo de soja, carne suína e óleo de soja.

    Esses produtos mantêm forte presença nos mercados internacionais e ajudam a consolidar a competitividade do agronegócio brasileiro.

    Cooperativismo volta a crescer em número de organizações

    Além disso, o levantamento da OCB também mostra a retomada da expansão do cooperativismo no país.

    Em 2025, o Brasil passou a contar com 4.400 cooperativas distribuídas em 3.425 municípios.

    Os indicadores econômicos revelam um setor em crescimento:

    • R$ 848 bilhões em ingressos totais;
    • Crescimento de 12% em relação a 2024;
    • R$ 1,6 trilhão em ativos;
    • Alta de 14,9% no patrimônio;
    • R$ 61,3 bilhões distribuídos em sobras aos cooperados;
    • Crescimento de 14,2% sobre o ano anterior;
    • 613.375 empregos diretos gerados;
    • Expansão de 6,1% no número de trabalhadores.

    Segundo a presidente-executiva do Sistema OCB, Tania Zanella, os resultados refletem a força do modelo cooperativista.

    “Os números do Anuário mostram que o cooperativismo continua crescendo de forma consistente porque entrega resultados concretos para as pessoas. Cada novo cooperado representa alguém que escolheu participar de um modelo baseado na cooperação, na geração compartilhada de riqueza e no desenvolvimento das comunidades”, afirmou.

    Patrimônio supera R$ 1,6 trilhão

    Outro destaque do levantamento é o fortalecimento da participação econômica das cooperativas brasileiras.

    O patrimônio do setor atingiu R$ 1,6 trilhão em ativos, impulsionado principalmente pelo Ramo Crédito, responsável por mais de 72% desse total.

    Já o Ramo Agropecuário segue como o principal motor econômico do cooperativismo nacional. O segmento concentra 57,4% dos ingressos do setor e permanece como o maior empregador do movimento, com aproximadamente 277 mil postos de trabalho.

    O desempenho reforça a relevância das cooperativas para a geração de renda, empregos e desenvolvimento das comunidades rurais em todo o Brasil.

  • Cooperativas agrícolas quase dobram participação no PIB do agronegócio

    Cooperativas agrícolas quase dobram participação no PIB do agronegócio

    As cooperativas agrícolas ampliaram significativamente sua importância na economia do campo. Um levantamento da L.E.K. Consulting mostra que a participação dessas organizações no PIB do agronegócio brasileiro passou de 8,1% em 2019 para 15,4% em 2024, crescimento de aproximadamente 90% em cinco anos.

    O avanço ocorreu em meio a um cenário de queda nos preços de commodities, aumento da inadimplência rural e dificuldades financeiras enfrentadas por parte das revendas de insumos, reforçando o papel das cooperativas como fonte de crédito, assistência técnica e comercialização para os produtores.

    O que impulsionou o crescimento das cooperativas

    Segundo Eric Emiliano, sócio da L.E.K. Consulting responsável pelos setores de agronegócio e alimentos, o movimento reflete mudanças profundas no financiamento do campo.

    “O Plano Safra vem perdendo representatividade ao longo dos anos, principalmente entre os grandes produtores. Durante muito tempo a cadeia financiou o agro por meio de barter e crédito comercial. Nos últimos anos, esse modelo sofreu um choque importante com o aumento da inadimplência.”

    A mudança ocorreu justamente quando parte das empresas privadas do setor enfrentou dificuldades para manter a oferta de crédito aos produtores.

    Crise das revendas abriu espaço para cooperativas

    A retração dos preços da soja e do milho aumentou a pressão financeira sobre distribuidoras de insumos.

    Empresas como AgroGalaxy, Lavoro e Belagrícola entraram em processos de recuperação judicial ou extrajudicial, enquanto as cooperativas seguiram ampliando sua presença no mercado.

    Segundo Bruno Brandi, senior manager da consultoria, muitas revendas assumiram um papel semelhante ao de instituições financeiras.

    “Em muitos casos as revendas estavam funcionando como bancos. Elas financiavam o produtor por meio de barter e prazos estendidos. Quando a inadimplência aumentou, esse modelo mostrou suas limitações.”

    O estudo aponta que a inadimplência do crédito ligado ao agronegócio, historicamente próxima de 3%, atualmente se aproxima de 15%, superando os níveis registrados durante a crise de 2016 e 2017.

    Para Eric Emiliano, duas safras consecutivas com custos elevados e menor rentabilidade comprometeram a capacidade de pagamento dos produtores, pressionando toda a cadeia.

    Cooperativas oferecem um ecossistema completo

    Com maior solidez financeira, as cooperativas ampliaram sua atuação e passaram a oferecer um conjunto mais amplo de serviços aos produtores. Além do crédito, elas atuam com assistência técnica, operações de barter, armazenagem da produção, compra de insumos e comercialização dos grãos.

    Segundo Bruno Brandi, esse modelo integrado fortalece o relacionamento com os cooperados, reduz o risco de inadimplência e aumenta a eficiência ao reunir diferentes etapas da cadeia produtiva.

    Industrialização e biocombustíveis lideram nova fase

    O levantamento da L.E.K. Consulting aponta que a diversificação das receitas tem fortalecido a resiliência das cooperativas agrícolas.

    Capitalizadas após anos de crescimento, essas organizações vêm concentrando investimentos na industrialização da produção, na expansão para o mercado de biocombustíveis, no avanço para novas regiões e na aquisição de ativos de empresas em dificuldades financeiras.

    Segundo a consultoria, a industrialização permite agregar valor aos produtos do campo, enquanto a entrada no setor de biocombustíveis amplia as fontes de receita. Além disso, a compra de empresas em recuperação judicial pode acelerar a expansão territorial das cooperativas e gerar ganhos operacionais.

    Sul lidera crescimento, mas expansão continua

    O estudo mostra que a Região Sul concentra o maior crescimento absoluto no número de cooperativas agrícolas do país.

    Ao mesmo tempo, Centro-Oeste e Sudeste aparecem como as regiões com maior potencial de expansão, devido ao tamanho do mercado agropecuário e à participação ainda relativamente baixa do cooperativismo nessas áreas.

    Com um modelo mais diversificado e resiliente, as cooperativas vêm ampliando sua relevância na cadeia do agronegócio e consolidando espaço como protagonistas no financiamento, na industrialização e na comercialização da produção agrícola brasileira.

  • A força da uva de mesa que nasce no Vale do São Francisco

    A força da uva de mesa que nasce no Vale do São Francisco

    O sertão nordestino, marcado pelo clima seco e pela escassez de chuvas, se consolidou como uma das principais regiões produtoras de uvas do Brasil. Em Petrolina, no sertão de Pernambuco, a Coopexvale (Cooperativa de Produtores e Exportadores do Vale do São Francisco) reúne produtores que transformaram o Vale do São Francisco em referência nacional e internacional na produção de uvas finas de mesa. Fundada em 2004, a cooperativa nasceu voltada à exportação. No entanto, ao longo dos anos, encontrou no mercado interno uma oportunidade tão rentável quanto o comércio exterior.

    Atualmente, 70% da produção da cooperativa abastece o mercado brasileiro, principalmente as regiões Sul e Sudeste. Enquanto isso, os outros 30% seguem para exportação. Segundo Jailson Lira, diretor e coordenador do comitê de exportação da cooperativa, a mudança de estratégia ocorreu após a percepção de que o consumidor brasileiro passou a valorizar frutas com padrão elevado de qualidade.

    “Existe um tabu de que tudo que vai para exportação é melhor. A gente derrubou isso. Fazemos frutas tão boas para o mercado interno quanto para o externo”, afirmou.

    Jaílson Lira – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Com cerca de 640 hectares cultivados em Petrolina, a Coopexvale reúne 40 cooperados e trabalha exclusivamente com uvas de mesa. São aproximadamente 12 variedades produzidas, entre uvas brancas, vermelhas e pretas. Além disso, a cooperativa é considerada a maior do segmento no Vale do São Francisco, região que possui cerca de 18 mil hectares plantados com uvas.

    Além da produção, a estrutura chama atenção pela dimensão logística. A cooperativa conta com seis túneis de resfriamento, nove câmaras frias, três decks de embarque, laboratório de análise, estação de tratamento de água, posto de combustíveis e 1.452 placas solares para geração de energia.

    Genética e qualidade elevam padrão das uvas

    Boa parte das variedades cultivadas pela cooperativa tem origem em programas de genética da Califórnia, nos Estados Unidos. Todos os anos, representantes da cooperativa visitam fazendas experimentais norte-americanas para acompanhar os lançamentos do setor.

    Segundo Jailson, as novas variedades passam primeiro por testes de adaptação ao clima do Vale do São Francisco antes de serem introduzidas comercialmente. Dessa forma, a cooperativa consegue avaliar o desempenho das frutas na região.

    “A genética que sai dos Estados Unidos imediatamente já está aqui no Vale. Produzimos frutas com a mesma qualidade da Califórnia, Itália e Espanha praticamente ao mesmo tempo”, destacou.

    Além disso, a busca por sabor, crocância e padronização fez a cooperativa firmar contratos com empresas de genética a partir de 2021. O objetivo é atender um consumidor cada vez mais exigente.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Entre as marcas da cooperativa, a Gota de Mel se tornou referência no segmento premium. Nesse modelo, a seleção começa ainda no campo e, segundo a cooperativa, o mercado chega a pagar até 70% mais pelas frutas classificadas dentro desse padrão.

    Além dela, a Coopexvale trabalha com as marcas Doçura do Vale, Uvas do Campo, Gotinha de Mel — voltada ao público infantil — e CPX, destinada ao mercado internacional.

    Mercado interno ganha força na cooperativa

    Fundada em 2004, a Coopexvale nasceu com foco no mercado externo. Porém, ao longo dos anos, a cooperativa percebeu que o mercado brasileiro também apresentava forte potencial de crescimento.

    Hoje, 70% da produção abastece o mercado interno, principalmente as regiões Sul e Sudeste. Já as exportações seguem o calendário mundial da produção de uvas, concentradas principalmente nos meses de março, abril, maio, setembro, outubro e novembro.

    “Existe um tabu de que tudo que vai para exportação é melhor. Porém, a gente derrubou isso. Fazemos frutas tão boas para o mercado interno quanto para o externo, temos um padrão de qualidade”, afirmou Jailson.

    Segundo ele, a cooperativa passou a investir em marcas e critérios específicos de sabor e qualidade para enfrentar as oscilações do mercado e ampliar valor agregado.

    Atualmente, a Coopexvale é reconhecida pela qualidade das frutas no mercado nacional. Além disso, a cooperativa trabalha durante as 52 semanas do ano no abastecimento interno.

    Cooperativismo amplia impacto econômico no Vale

    A cooperativa começou em 2004 com 20 produtores. Desde então, ampliou a área cultivada, fortaleceu a estrutura e avançou na sucessão familiar.

    Foto; PH Lopes/ Agro em Campo

    Hoje, cerca de 20% dos cooperados já possuem filhos atuando diretamente no negócio. Para Jailson, o cooperativismo permite que pequenos produtores alcancem mercados antes inacessíveis.

    “O cooperativismo é a oportunidade de o pequeno produtor ter o mesmo peso do grande. Somos todos iguais”, afirmou.

    Ele também destacou que a cooperativa passou por dificuldades em 2010, período que exigiu reestruturação administrativa e financeira.

    “É preciso ter paciência com o cooperativismo para atingir o sucesso”, disse.

    Além disso, a cadeia produtiva da uva exerce forte impacto econômico e social na região. Segundo a cooperativa, um hectare de uva gera entre quatro e cinco empregos diretos.

    Considerando os 18 mil hectares cultivados no Vale do São Francisco, a atividade movimenta cerca de 72 mil empregos.

    Atualmente, a Coopexvale possui 110 funcionários diretos na cooperativa. Somando as fazendas dos cooperados, são aproximadamente 4 mil empregos ligados à atividade.

    O faturamento da cooperativa chegou a R$ 272 milhões em 2025. Paralelamente, a entidade mantém ações sociais voltadas às comunidades locais e apoia instituições como o Hospital do Câncer.

    “O Brasil é o país do agro, mas o agro não recebe a importância que deveria”, afirmou Jailson.

    “Uva quer sol e água”, resumiu o diretor ao explicar a vocação do Vale do São Francisco para a fruticultura irrigada.

  • O dia em que o sertão passou a financiar a si mesmo

    O dia em que o sertão passou a financiar a si mesmo

    Em uma época em que pequenos produtores rurais do semiárido baiano sequer conseguiam entrar em um banco para pedir financiamento, um grupo de agricultores decidiu criar o próprio caminho para sobreviver da terra. A solução encontrada no sertão da Bahia nasceu da união comunitária, da confiança entre vizinhos e de pequenas economias guardadas de forma coletiva. Mais de quatro décadas depois, aquela iniciativa se transformou em uma das maiores referências brasileiras em cooperativismo, agricultura familiar e industrialização do sisal.

    A história da Apaeb (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira), em Valente, no interior da Bahia, atravessa gerações e ajuda a explicar como o cooperativismo alterou a dinâmica econômica de dezenas de cidades do semiárido.

    Tudo começou em julho de 1980, quando agricultores e lideranças locais passaram a discutir alternativas para fortalecer a cadeia do sisal, principal atividade econômica da região sisaleira baiana, formada por quase 40 municípios. Naquele período, o produtor rural plantava, colhia e desfibrava o sisal, mas o lucro maior ficava nas mãos de atravessadores e exportadores.

    Ismael Ferreira de Oliveira – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    “A ideia era comprar o sisal, beneficiar e exportar agregando valor, melhorando a receita de quem produz”, relembrou Ismael Ferreira de Oliveira, assessor e um dos fundadores da Apaeb.

    Primeira batedeira comunitária

    O projeto parecia ousado demais para a realidade local. Ainda assim, em 1983, a associação implantou uma batedeira comunitária para beneficiar a fibra. O problema seguinte era ainda maior: faltava dinheiro para comprar o sisal dos agricultores e colocar o produto no mercado.

    “Naquela época a gente não conseguia nem entrar em um banco, imagina falar com gerente ou conseguir financiamento”, afirmou Ismael.

    Sem acesso ao sistema financeiro tradicional, a saída encontrada foi criar um modelo comunitário de captação de recursos. No fim dos anos 1980, nasceu a chamada Poupança Apaeb, iniciativa que estimulava moradores da região a depositarem qualquer quantia disponível, mesmo em um período marcado pela hiperinflação no Brasil.

    “O que sobrava de dinheiro, de um real a cem reais, era depositado na Apaeb”, disse.

    Dinheiro guardado pela comunidade financiou exportações

    Enquanto os bancos ignoravam pequenos agricultores e trabalhadores rurais, a população da região começou a financiar o próprio desenvolvimento. Alguns desconfiaram da proposta. Outros acreditaram.

    Anos depois, a associação havia acumulado cerca de US$ 150 mil com o sistema de poupança comunitária. Foi esse recurso que permitiu à Apaeb iniciar a exportação do sisal diretamente para o mercado internacional.

    O movimento transformou não apenas a economia local, mas também a relação dos produtores com o próprio trabalho. Pela primeira vez, agricultores familiares passaram a participar de uma estrutura organizada de comercialização.

    “Os produtores tinham o sisal no campo e não tinham para onde comercializar”, explicou o diretor-presidente da Apaeb, Jario Ferreira de Santana. “Com a batedeira comunitária eles colocavam o sisal, mas quem exportava era outra pessoa.”

    Homens trabalham no desfibramento das folha de sisal – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    O avanço da experiência comunitária, porém, também trouxe problemas. Em 1993, bancos denunciaram a Apaeb por captação considerada irregular. A crise acabou provocando uma virada decisiva na história da entidade.

    Após conhecer experiências cooperativistas no Sul do País, Ismael voltou ao sertão baiano decidido a estruturar uma cooperativa de crédito. Em março daquele ano nasceu a Coopere (Cooperativa Valentense de Crédito Rural LTDA), responsável por legalizar a captação financeira e ampliar o acesso ao crédito para os produtores.

    “Todo recurso passou a ser captado pela Coopere de forma legal. A cooperativa passou a emprestar dinheiro para a Apaeb”, destacou.

    A experiência evoluiu ao longo dos anos e deu origem ao Sicoob Coopere, hoje consolidado na região como uma das principais ferramentas de financiamento para pequenos produtores rurais.

    Da fibra bruta aos tapetes exportados para o mundo

    O cooperativismo permitiu mais do que acesso ao crédito. Ele abriu espaço para a industrialização da produção sisaleira dentro do próprio semiárido.

    Em 1996, a Apaeb inaugurou a fábrica de carpetes e tapetes de sisal. A mudança alterou completamente o posicionamento da associação no mercado.

    “Foi quando surgiu a ideia de construir a fábrica para manipular os produtos e ter capacidade de exportação”, afirmou Jario.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Atualmente, a entidade exporta para cerca de 25 países, especialmente Estados Unidos e China. Parte da produção também abastece o mercado brasileiro, com produtos industrializados como fios, cordas, tapetes e telas.

    Entre 65% e 70% da produção segue para o exterior. Já no Brasil, a comercialização se concentra em produtos beneficiados e de maior valor agregado.

    A estrutura construída ao longo de décadas também movimenta milhares de empregos no sertão baiano. Hoje, a Apaeb mantém quase 400 funcionários diretos. Quando considerada toda a cadeia produtiva, o impacto chega a mais de 2 mil famílias.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    “Cada emprego que a gente gera na fábrica exige até oito pessoas trabalhando no campo”, explicou o presidente da associação.

    A Apaeb compra semanalmente entre 700 e 800 toneladas de sisal. Em 2025, a média de faturamento ficou em torno de R$ 70 milhões.

    “O cooperativismo veio para perto do pequeno produtor”

    Na cidade de Retirolândia, também na região sisaleira, o produtor rural Gabriel Cassiano Reis, mais conhecido como Cassiano, representa a continuidade dessa história iniciada décadas atrás.

    Filho de agricultores, ele cresceu trabalhando na roça, produzindo sisal e convivendo diretamente com as dificuldades do semiárido.

    “Eu nasci na fazenda, em uma pequena propriedade rural, ao lado de meu pai e aprendi com a lida”, contou.

    Além da produção de sisal, Gabriel cria caprinos e ovinos. Também atua na logística da cadeia produtiva, reunindo a fibra produzida por parentes e vizinhos para transportar até a indústria.

    Cassiano e família em sua propriedade – Foto: Robson Cesco/ Sistema OCB

    “O sisal foi o pontapé inicial de tudo. Cerca de 70% do que gira aqui é através do sisal, principalmente dos pequenos produtores”, afirmou.

    Segundo ele, a chegada da cooperativa alterou completamente a relação dos agricultores com o crédito rural.

    “Antes era preciso ir até Feira de Santana para conseguir crédito. Com a cooperativa fundada pelos pequenos produtores, foi surgindo acesso, incentivo e facilidade”, destacou.

    Cassiano afirma que o modelo cooperativista fortaleceu a permanência das famílias no campo e aproximou os serviços financeiros da realidade rural.

    “A visita do técnico, do gerente e a participação nas decisões fizeram diferença para a gente”, disse.

    Resistência do sisal ajuda a enfrentar seca e calor

    Em meio às mudanças climáticas e ao aumento das temperaturas no semiárido, produtores também passaram a adaptar o cultivo do agave, conhecido como “ouro verde do Nordeste”.

    O produtor conta que decidiu manter mais árvores dentro da propriedade para reduzir os impactos da estiagem.

    “Hoje tenho cerca de 10% de árvores dentro do campo de sisal. Mesmo diminuindo um pouco a produção, os pés próximos das árvores resistem mais ao calor”, explicou.

    Originária do México, a planta chegou ao Brasil por volta da década de 1940 e encontrou no semiárido baiano condições ideais para desenvolvimento. Além da resistência à seca, o sisal também ajuda na preservação do solo.

    “O agave auxilia a evitar erosão por causa da quantidade de raízes. Onde tem vários pés juntos, eles não morrem”, afirmou.

    Maior produtor mundial de sisal, o Brasil mantém na região sisaleira da Bahia uma das bases econômicas mais importantes da agricultura familiar nordestina. “O cooperativismo é parceiro, amigo e incentivador. Ele gera emprego, renda e desenvolvimento nas pequenas cidades, onde as grandes instituições não chegam”, concluiu Cassiano.

  • Região sisaleira amplia renda com cooperativismo

    Região sisaleira amplia renda com cooperativismo

    O cooperativismo de crédito tem mudado a dinâmica econômica e social da região sisaleira da Bahia. Atualmente, com presença em municípios do chamado “território do sisal”, o Sicoob Coopere amplia sua base de cooperados, fortalece o empreendedorismo local e mantém a circulação de recursos dentro das próprias comunidades. Além disso, a instituição encerrou 2025 com 75 mil cooperados, crescimento expressivo em comparação aos 50 mil registrados em 2021. A cooperativa também distribuiu R$ 4 milhões em sobras entre os associados.

    As informações foram apresentadas pela presidente da cooperativa, Maria Vandalva Lima de Oliveira, durante exposição sobre os impactos do cooperativismo financeiro no desenvolvimento regional. Segundo ela, o modelo cooperativista vai além da inclusão bancária e atua diretamente na melhoria da qualidade de vida da população.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    “O cooperativismo traz desenvolvimento econômico e social, ele promove e impulsiona a economia”, afirmou. “Toda cidade gera riqueza, o problema é para onde vai esse dinheiro.”

    Com atuação em 23 municípios e uma agência digital, com um total de 24 unidades distribuídas pela região, o Sicoob Coopere integra um sistema cooperativo organizado em três níveis: nacional, central estadual e singular. Atualmente, a cooperativa conta com 215 colaboradores e mantém forte presença em Valente, município com aproximadamente 24 mil habitantes, localizado a 238 quilômetros de Salvador. Na cidade, estão concentrados cerca de 7,8 mil cooperados.

    A história da instituição está diretamente ligada ao desenvolvimento econômico do sisal, cultura tradicional da região. Hoje, além do setor agrícola, a cooperativa acompanha o avanço de atividades ligadas ao turismo e à energia renovável. Esses segmentos, inclusive, ampliam as oportunidades econômicas no semiárido baiano.

    Desenvolvimento econômico e permanência da riqueza local

    Durante a apresentação, Vandalva destacou que a chegada das cooperativas altera a realidade econômica das cidades. Segundo ela, o modelo estimula o consumo, gera empregos, fortalece empresas locais e amplia a arrecadação tributária.

    “As cidades ganham vida e muda a realidade com a chegada das cooperativas. Não estamos experimentando, já sabemos o que deve ser feito”, declarou.

    O modelo cooperativista defendido pelo Sicoob Coopere se baseia em princípios como adesão livre e voluntária, gestão democrática, participação econômica, autonomia, educação, intercooperação e interesse pela comunidade. Dessa forma, a proposta busca construir um sistema financeiro mais justo, inclusivo e comprometido com o desenvolvimento sustentável.

    A presidente também relacionou o cooperativismo à mudança de perspectivas no sertão nordestino. De acordo com ela, por muitos anos predominou na região a ideia de que estudar significava deixar a comunidade em busca de oportunidades em outros centros urbanos.

    Vandalva, presidente da Sicoob Coopere de Valente, BA – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    “Fui predestinada a estudar e ir embora. Decidi estudar para morar aqui, para mudar essa realidade”, afirmou.

    Outro indicador apresentado foi o Benefício Econômico Total (BET), cálculo utilizado para mensurar as vantagens financeiras geradas aos cooperados. Em 2025, o benefício médio chegou a R$ 1.371 por associado na utilização dos produtos e serviços financeiros da cooperativa.

    Educação cooperativista, ESG e fortalecimento feminino

    Além da atuação financeira, o Sicoob Coopere mantém iniciativas sociais e educacionais por meio do Instituto Sicoob e de programas voltados à educação cooperativista e saúde financeira. Para 2026, por exemplo, a meta é beneficiar 23 mil pessoas com ações sociais e ampliar o alcance dos projetos desenvolvidos na região.

    A cooperativa também reforçou o compromisso com a agenda ESG e com políticas de inclusão. Entre os reconhecimentos recebidos está o Selo Lilás, certificação ligada à promoção da igualdade e valorização feminina no ambiente corporativo.

    Um dos programas destacados foi o “Mulher, com seu dinheiro, coopera”, voltado ao incentivo ao empreendedorismo feminino e à autonomia financeira das mulheres.

    Segundo Vandalva, a lógica da cooperativa não está centrada na concentração de lucros, mas sim na geração coletiva de desenvolvimento econômico sustentável.

    “Não queremos lucro, queremos desenvolvimento sustentável, o que sobra a gente divide”, disse.

    A dirigente ainda ressaltou que o fortalecimento da cooperativa depende diretamente da evolução econômica dos próprios associados.

    “Cooperativa só é forte se o cooperado é forte. Nós cuidamos das pessoas.”

    Para 2026, o Sicoob Coopere projeta a abertura de mais duas unidades. Com isso, a instituição amplia a presença regional e reforça o compromisso com a expansão do cooperativismo financeiro no interior baiano.

  • Escola em João Pessoa consolida legado do cooperativismo

    Escola em João Pessoa consolida legado do cooperativismo

    A força do cooperativismo ganhou forma concreta em João Pessoa com a entrega da Escola Cidadã Integral Técnica Professor Raul Córdula, inaugurada em 2024 por meio de uma parceria entre a Unimed João Pessoa e o Governo da Paraíba. Mais do que uma obra estrutural, o projeto simboliza como os resultados financeiros de uma cooperativa podem retornar diretamente à sociedade em forma de educação, inclusão e desenvolvimento social.

    Fundada em 1971 por um grupo de 106 médicos, a Unimed João Pessoa consolidou-se como a maior operadora de saúde da capital paraibana. Atualmente, reúne 1.906 médicos cooperados, cerca de 2,5 mil colaboradores e mais de 183 mil clientes. Em 2025, a cooperativa atingiu faturamento bruto de R$ 1,386 bilhão, com crescimento acumulado de 47,5% desde 2020.

    Além disso, parte desse desempenho foi convertida em investimento social. A Escola Raul Córdula representa esse conceito: a sobra obtida pela cooperativa sendo revertida em benefício coletivo.

    Nesse contexto, a unidade foi entregue em janeiro de 2024, apenas um ano após o lançamento da pedra fundamental. Construída a cerca de 200 metros da antiga escola estadual, a nova estrutura ampliou a capacidade de atendimento de 320 para 380 estudantes, incluindo Ensino Fundamental, Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Educação como resultado do cooperativismo

    Nesse sentido, o projeto foi desenvolvido com base em conceitos de sustentabilidade, acessibilidade e ensino integral. A estrutura conta com 11 salas de aula, laboratórios, quadra poliesportiva coberta, salas multifuncionais, refeitório climatizado e áreas de convivência ampliadas. Também incorpora energia solar e coleta seletiva, além de garantir acessibilidade para pessoas com deficiência.

    Além disso, a entrega ocorreu por meio de uma permuta formalizada entre a cooperativa e o Governo do Estado, aprovada pela Assembleia Legislativa da Paraíba. O modelo evidencia a capacidade de articulação do cooperativismo para gerar impacto direto na sociedade.

    Para o presidente executivo do Sistema OCB/Paraíba, André Pacelli, a iniciativa reflete o papel social do cooperativismo. “A Unimed é a maior cooperativa de saúde do mundo. A Unimed João Pessoa é um case de sucesso aqui do Nordeste, emprega mais de 2 mil pessoas, reúne mais de 1.800 cooperados e registra faturamento superior a R$ 1,3 bilhão”, afirmou.

    Presidente executivo do Sistema OCB/Paraíba, André Pacelli – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Além disso, ele destacou o impacto regional. “Oferece qualidade de vida e assistência à saúde a cerca de 180 mil usuários em uma cidade que cresce, sobretudo no turismo, atraindo pessoas em busca de melhor qualidade de vida”, disse.

    Pacelli também ressaltou o avanço estrutural da cooperativa. “Temos três hospitais, com certificações internacionais. O cooperativismo se orgulha dessa parceria e desse momento vivido pela Unimed João Pessoa”, completou.

    Por outro lado, ao abordar o cenário mais amplo, reforçou a expansão do setor. “O cooperativismo da Paraíba vive um momento importante de crescimento. O maior desafio ainda é a desinformação, é preciso mostrar à sociedade o que o cooperativismo faz de bom”, afirmou.

    Inclusão social e desenvolvimento comunitário

    Por sua vez, a atuação social da Unimed João Pessoa vai além da educação formal. Por meio do Instituto Unimed João Pessoa, a cooperativa desenvolve projetos estruturados em pilares como saúde, cidadania, cultura, esporte, educação, preservação ambiental e voluntariado.

    Coral Jovem do Instituto Unimed João Pessoa – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Entre os destaques, por exemplo, está o Coral Jovem, formado por crianças e adolescentes de comunidades locais. Assim, o projeto promove inclusão social por meio da educação musical e do desenvolvimento cidadão.

    Segundo o presidente do Instituto Unimed João Pessoa, Fernando Florêncio, a iniciativa vai além da formação artística. “São cerca de 50 jovens, entre 8 e 18 anos, que participam do coral e recebem toda a assistência, inclusive para suas famílias, nas áreas médica, odontológica e cultural”, explicou.

    Além disso, ele detalha o impacto do programa. “O desenvolvimento ocorre por meio de uma série de práticas voltadas à formação cidadã diferenciada, permitindo a inserção desses jovens na sociedade de forma mais ampla”, afirmou.

    Ao mesmo tempo, a cooperativa mantém o Espaço Vida, com 3.500 metros quadrados dedicados à experiência do cliente, focado em reabilitação em fisioterapia e terapias exclusivas, reforçando sua vocação de cuidado integral.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    A estratégia evidencia um dos princípios do cooperativismo: o interesse pela comunidade. Ao cooperar, laços são criados, ideais se fortalecem e o crescimento ocorre de forma coletiva.

    Por fim, nesse contexto, a Escola Raul Córdula se consolida como símbolo desse modelo. Mais do que números expressivos, o cooperativismo demonstra sua força ao transformar resultados financeiros em legado social concreto, impactando diretamente a vida de centenas de famílias paraibanas.

  • Cooperativismo revoluciona economia na Roliúde Nordestina

    Cooperativismo revoluciona economia na Roliúde Nordestina

    No coração do Cariri paraibano, a pequena Cabaceiras, conhecida como “Roliúde Nordestina”, revela uma história que vai muito além dos cenários de cinema. O portal Agro em Campo acompanhou de perto a rotina da Cooperativa Arteza que encontrou, no couro, na união e na persistência de um povo, a força que mudou o destino de uma cidade inteira. Nesse contexto, o cooperativismo em Cabaceiras se consolida como motor de desenvolvimento.

    Com cerca de 5.500 habitantes, o município, marcado pelo clima seco e pela escassez de chuvas, viu no cooperativismo uma alternativa concreta para enfrentar dificuldades históricas. Assim, construiu um novo caminho de desenvolvimento baseado na coletividade.

    Carlinhos, fundador da Arteza – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    À frente dessa transformação está José Carlos Castro, o Carlinhos, hoje com 70 anos. A trajetória dele se confunde com a própria história da Arteza. Aos 15 anos, após perder o pai em um acidente de moto, assumiu uma pequena produção de chapéus de couro com apenas oito homens. Desde então, iniciou um processo persistente de articulação coletiva. Foram dez anos insistindo na ideia de união até que, em 31 de julho de 1998, a cooperativa saiu do papel com 28 famílias.

    “Graças ao bode, ao couro do bode conseguimos sobreviver e viver bem”, resume.

    Cooperativismo em Cabaceiras transforma o couro em renda

    Antes da organização, o trabalho com couro enfrentava preconceito. A produção acontecia de forma rudimentar, às margens do rio Taperoá, com baixa qualidade e forte odor, o que afastava compradores. Ao mesmo tempo, a falta de chuva castigava lavouras como milho e alho. Por isso, muitos moradores deixavam a cidade em busca de sobrevivência.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Diante desse cenário, Carlinhos decidiu agir. Foi buscar capacitação em Campina Grande e voltou com uma solução prática: eliminar o cheiro do couro e melhorar sua qualidade. Como resultado, em poucos meses, a procura pelos produtos aumentou.

    Ainda assim, convencer outros produtores não foi simples. “O individualismo estava acabando com cada curtume”, relembra.

    A virada ocorreu quando ele passou a compartilhar conhecimento e estabelecer regras claras, como preço único e respeito entre os trabalhadores. Dessa forma, a padronização trouxe força ao grupo e estabilidade ao mercado. Em cerca de seis meses, os resultados já eram visíveis.

    Uma nova realidade no semiárido

    Com o avanço da organização, o impacto foi direto. Se antes as pessoas deixavam Cabaceiras, o movimento começou a se inverter. Aos poucos, o trabalho passou a gerar renda e perspectiva dentro da própria cidade.

    Atualmente, a Arteza reúne mais de 80 cooperados e movimenta uma cadeia que ultrapassa 500 postos de trabalho. A produção, que antes era de 600 peles por mês, alcançou 26 mil peles de cabra e 45 mil quilos de couro bovino mensalmente.

    Além disso, a matéria-prima chega de três estados — Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Depois do curtimento, o couro segue para artesãos locais. Cada profissional desenvolve um tipo de produto, que é comercializado na loja da cooperativa e também pela internet para todo o Brasil.

    O faturamento mensal gira em torno de R$ 700 mil. Consequentemente, o impacto na economia local é significativo. A renda média dos trabalhadores chega a cerca de três salários mínimos.

    Mais do que números, o que se observa é transformação social. “A atividade mudou a nossa realidade”, afirma Carlinhos.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Tradição, sustentabilidade e futuro

    O processo produtivo preserva raízes e respeita o meio ambiente. O curtimento não utiliza produtos químicos. Em vez disso, usa o angico como insumo natural, técnica tradicional da região. Além disso, os resíduos são reaproveitados como fertilizantes, reforçando práticas sustentáveis.

    Com o apoio do Sistema OCB, a cooperativa avançou em gestão, organização e precificação. A partir dessas consultorias, os cooperados passaram a entender melhor o valor do produto. Assim, o modelo evita concorrência interna e fortalece o posicionamento no mercado.

    “O cooperativismo é a junção de pessoas. Nosso maior patrimônio são os associados”, destaca.

    Hoje, a Arteza também incorpora práticas alinhadas a ESG, mantendo viva a cultura local enquanto gera desenvolvimento econômico. Nesse sentido, o cooperativismo em Cabaceiras mostra que valor vai além do dinheiro.

    No fim, o que se encontra na cidade não é apenas uma cooperativa. É a prova de que, mesmo em um território marcado pela seca, a união transforma escassez em oportunidade, trabalho em dignidade e tradição em futuro.

  • Além dos palcos, Shakira investiu no agro para impulsionar o café da Colômbia

    Além dos palcos, Shakira investiu no agro para impulsionar o café da Colômbia

    Enquanto milhares vão às praias do Rio para ver Shakira cantar, um detalhe passa longe dos holofotes: a artista já está mexendo na cadeia do café colombiano muito antes de qualquer show. A cantora deixou de ser só consumidora de café e virou investidora em um grande negócio que conecta sua fama à vida de milhares de pequenos produtores rurais.

    Ao apostar na High Brew Coffee, uma marca de café gelado em lata sediada em Austin, nos Estados Unidos, Shakira decidiu que parte do lucro das vendas voltaria diretamente para as famílias de caficultores da Cooperativa Los Andes, no interior da Colômbia.

    Do camarim ao agronegócio

    Shakira conheceu o café gelado durante a turnê mundial El Dorado, quando a bebida virou item fixo no camarim dela. O produto, com seis sabores diferentes, conquistou a equipe e despertou na própria cantora uma visão de negócio.

    Em entrevista à revista Forbes, a colombiana explicou o que a atraiu na marca: “Comecei como fã da marca. Tínhamos um estoque do café no meu camarim durante a turnê. Eu acho que é um momento empolgante para poder fazer investimentos em empresas inovadoras que dão mais importância aos valores do consumidor. A High Brew usa grãos de café premium da Colômbia e coloca a qualidade em primeiro lugar”.

    A decisão não foi apenas financeira, mas também de identidade: Shakira viu na High Brew uma forma de valorizar a agricultura de seu país natal, enquanto ampliava sua presença em um mercado que cresce rápido no formato de ready‑to‑drink e bebidas prontas para consumo.

    Cooperativa Los Andes

    O grande diferencial que atraiu Shakira para a High Brew está na cadeia de suprimentos. A empresa usa grãos de café arábica premium produzidos pela Cooperativa Los Andes, sediada na região de Antioquia, na Colômbia.

    A cooperativa reúne cerca de 3.600 membros que, juntos, gerenciam mais de 86 mil acres de fazendas de café. Esses produtores vivenciaram crises históricas, incluindo dívidas pesadas e problemas de gestão, mas seguem na luta para manter a produção e a qualidade.

    Ao se tornar investidora e embaixadora da marca, Shakira fez questão de que parte dos lucros das vendas das latas de café revertesse diretamente para essas famílias.

    Colômbia, Brasil e o peso do café no mundo

    A iniciativa de Shakira ganha ainda mais peso quando se olha para as estatísticas globais. A Colômbia é uma das maiores potências cafeeiras do planeta e a maior fornecedora mundial de café arábica lavado, conhecido pela suavidade e alta qualidade.

    Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontam que a produção colombiana atingiu cerca de 13,8 milhões de sacas de 60 quilos, representando cerca de 8% de toda a produção mundial. O país fica atrás apenas do Vietnã, com aproximadamente 17% do mercado, e do líder absoluto, o Brasil, responsável por cerca de 35% do café produzido mundialmente.

  • Cooperativa amplia crédito e diversifica soluções no agro

    Cooperativa amplia crédito e diversifica soluções no agro

    Durante a 31ª Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), o Sicredi apresentou os resultados do Plano Safra 2025/2026 e reforçou a ampliação das soluções financeiras para o agronegócio. Nos nove primeiros meses do ciclo, a instituição liberou R$ 52,8 bilhões em crédito rural. O volume representa crescimento de 16,5% em relação à safra anterior. Assim, o Sicredi consolida sua posição como principal financiador privado do setor.

    Além disso, a estratégia vai além do crédito tradicional. O Sicredi ampliou o uso de instrumentos como CPR, consórcios, derivativos e linhas em moeda estrangeira. Dessa forma, o produtor ganha mais previsibilidade financeira. Ao mesmo tempo, reduz a exposição às oscilações de preços e do câmbio.

    Segundo o superintendente de Agronegócio do Sicredi, Vitor de Moraes, o avanço está ligado à proximidade com o campo. “Os números apresentados refletem a força do modelo cooperativo e, principalmente, a nossa proximidade com o produtor rural. Seguimos ampliando o acesso ao crédito de forma responsável”, afirmou.

    Portfólio avança e reforça gestão de risco

    Ao longo do último ano, o Sicredi intensificou a oferta de soluções complementares. Em 2025, a instituição registrou R$ 3,2 bilhões em consórcios destinados ao agro. Além disso, a cobertura de seguros rurais chegou a 479 mil hectares. Com isso, a gestão de risco ganha mais relevância no planejamento do produtor.

    De acordo com o gerente de Desenvolvimento de Negócios da Central Sicredi PR/SP/RJ, Adilson de Sá, a diversificação é estratégica. “Temos ampliado nossa oferta de soluções para atender o produtor de forma completa. Assim, vamos além do crédito tradicional. Produtos como consórcios, seguros e operações em moeda estrangeira permitem mais planejamento, proteção e competitividade”, disse.

    Vitor de Moraes, Clemente Renosto, Adilson de Sá e Gilson Farias, durante coletiva de imprensa na Agrishow 2026 – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    No segmento de consórcios, o Sicredi soma carteira superior a R$ 61,8 bilhões. Nos últimos 12 meses, as vendas no agro cresceram 23%. Esse desempenho reflete a busca por alternativas com menor custo financeiro. Além disso, o modelo favorece o planejamento de médio e longo prazo.

    Outro ponto de destaque está nas operações estruturadas. Entre 2024 e 2025, o Sicredi registrou crescimento de 350% nas operações de proteção cambial e de commodities. Dessa maneira, o produtor amplia o controle sobre margens e receitas.

    Crédito cresce e amplia presença no campo

    Atualmente, a carteira de crédito agro do Sicredi ultrapassa R$ 123 bilhões. Ao mesmo tempo, a instituição lidera as operações do programa Pró-Trator em São Paulo. A participação supera 80% das operações, com mais de 800 contratos na safra atual.

    Pequenos e médios produtores seguem como maioria. Eles representam cerca de 70% das mais de 247 mil operações realizadas. Além disso, o crédito para mulheres produtoras avançou. Foram liberados R$ 10,5 bilhões, com crescimento de 7,4%.

    Para o gerente de Desenvolvimento de Negócios da Central Sicredi PR/SP/RJ, Gilson Farias, a feira aproxima o produtor das soluções financeiras. “A participação na Agrishow é uma oportunidade estratégica. Estamos mais próximos dos produtores e entendemos melhor suas necessidades. Assim, conseguimos oferecer soluções que contribuem para o desenvolvimento sustentável do agronegócio”, afirmou.

    O presidente da Sicredi Soma, Clemente Renosto, também participou da apresentação. A presença reforça o posicionamento institucional do Sicredi durante a feira.

    Com mais de 10 milhões de associados e mais de 3 mil agências, o Sicredi atua em todo o país. Além disso, mantém presença física em centenas de municípios. O atendimento combina canais digitais e presença local. Dessa forma, amplia o acesso ao crédito e aos serviços financeiros no campo