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  • O dia em que o sertão passou a financiar a si mesmo

    O dia em que o sertão passou a financiar a si mesmo

    Em uma época em que pequenos produtores rurais do semiárido baiano sequer conseguiam entrar em um banco para pedir financiamento, um grupo de agricultores decidiu criar o próprio caminho para sobreviver da terra. A solução encontrada no sertão da Bahia nasceu da união comunitária, da confiança entre vizinhos e de pequenas economias guardadas de forma coletiva. Mais de quatro décadas depois, aquela iniciativa se transformou em uma das maiores referências brasileiras em cooperativismo, agricultura familiar e industrialização do sisal.

    A história da Apaeb (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira), em Valente, no interior da Bahia, atravessa gerações e ajuda a explicar como o cooperativismo alterou a dinâmica econômica de dezenas de cidades do semiárido.

    Tudo começou em julho de 1980, quando agricultores e lideranças locais passaram a discutir alternativas para fortalecer a cadeia do sisal, principal atividade econômica da região sisaleira baiana, formada por quase 40 municípios. Naquele período, o produtor rural plantava, colhia e desfibrava o sisal, mas o lucro maior ficava nas mãos de atravessadores e exportadores.

    Ismael Ferreira de Oliveira – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    “A ideia era comprar o sisal, beneficiar e exportar agregando valor, melhorando a receita de quem produz”, relembrou Ismael Ferreira de Oliveira, assessor e um dos fundadores da Apaeb.

    Primeira batedeira comunitária

    O projeto parecia ousado demais para a realidade local. Ainda assim, em 1983, a associação implantou uma batedeira comunitária para beneficiar a fibra. O problema seguinte era ainda maior: faltava dinheiro para comprar o sisal dos agricultores e colocar o produto no mercado.

    “Naquela época a gente não conseguia nem entrar em um banco, imagina falar com gerente ou conseguir financiamento”, afirmou Ismael.

    Sem acesso ao sistema financeiro tradicional, a saída encontrada foi criar um modelo comunitário de captação de recursos. No fim dos anos 1980, nasceu a chamada Poupança Apaeb, iniciativa que estimulava moradores da região a depositarem qualquer quantia disponível, mesmo em um período marcado pela hiperinflação no Brasil.

    “O que sobrava de dinheiro, de um real a cem reais, era depositado na Apaeb”, disse.

    Dinheiro guardado pela comunidade financiou exportações

    Enquanto os bancos ignoravam pequenos agricultores e trabalhadores rurais, a população da região começou a financiar o próprio desenvolvimento. Alguns desconfiaram da proposta. Outros acreditaram.

    Anos depois, a associação havia acumulado cerca de US$ 150 mil com o sistema de poupança comunitária. Foi esse recurso que permitiu à Apaeb iniciar a exportação do sisal diretamente para o mercado internacional.

    O movimento transformou não apenas a economia local, mas também a relação dos produtores com o próprio trabalho. Pela primeira vez, agricultores familiares passaram a participar de uma estrutura organizada de comercialização.

    “Os produtores tinham o sisal no campo e não tinham para onde comercializar”, explicou o diretor-presidente da Apaeb, Jario Ferreira de Santana. “Com a batedeira comunitária eles colocavam o sisal, mas quem exportava era outra pessoa.”

    Homens trabalham no desfibramento das folha de sisal – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    O avanço da experiência comunitária, porém, também trouxe problemas. Em 1993, bancos denunciaram a Apaeb por captação considerada irregular. A crise acabou provocando uma virada decisiva na história da entidade.

    Após conhecer experiências cooperativistas no Sul do País, Ismael voltou ao sertão baiano decidido a estruturar uma cooperativa de crédito. Em março daquele ano nasceu a Coopere (Cooperativa Valentense de Crédito Rural LTDA), responsável por legalizar a captação financeira e ampliar o acesso ao crédito para os produtores.

    “Todo recurso passou a ser captado pela Coopere de forma legal. A cooperativa passou a emprestar dinheiro para a Apaeb”, destacou.

    A experiência evoluiu ao longo dos anos e deu origem ao Sicoob Coopere, hoje consolidado na região como uma das principais ferramentas de financiamento para pequenos produtores rurais.

    Da fibra bruta aos tapetes exportados para o mundo

    O cooperativismo permitiu mais do que acesso ao crédito. Ele abriu espaço para a industrialização da produção sisaleira dentro do próprio semiárido.

    Em 1996, a Apaeb inaugurou a fábrica de carpetes e tapetes de sisal. A mudança alterou completamente o posicionamento da associação no mercado.

    “Foi quando surgiu a ideia de construir a fábrica para manipular os produtos e ter capacidade de exportação”, afirmou Jario.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    Atualmente, a entidade exporta para cerca de 25 países, especialmente Estados Unidos e China. Parte da produção também abastece o mercado brasileiro, com produtos industrializados como fios, cordas, tapetes e telas.

    Entre 65% e 70% da produção segue para o exterior. Já no Brasil, a comercialização se concentra em produtos beneficiados e de maior valor agregado.

    A estrutura construída ao longo de décadas também movimenta milhares de empregos no sertão baiano. Hoje, a Apaeb mantém quase 400 funcionários diretos. Quando considerada toda a cadeia produtiva, o impacto chega a mais de 2 mil famílias.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    “Cada emprego que a gente gera na fábrica exige até oito pessoas trabalhando no campo”, explicou o presidente da associação.

    A Apaeb compra semanalmente entre 700 e 800 toneladas de sisal. Em 2025, a média de faturamento ficou em torno de R$ 70 milhões.

    “O cooperativismo veio para perto do pequeno produtor”

    Na cidade de Retirolândia, também na região sisaleira, o produtor rural Gabriel Cassiano Reis, mais conhecido como Cassiano, representa a continuidade dessa história iniciada décadas atrás.

    Filho de agricultores, ele cresceu trabalhando na roça, produzindo sisal e convivendo diretamente com as dificuldades do semiárido.

    “Eu nasci na fazenda, em uma pequena propriedade rural, ao lado de meu pai e aprendi com a lida”, contou.

    Além da produção de sisal, Gabriel cria caprinos e ovinos. Também atua na logística da cadeia produtiva, reunindo a fibra produzida por parentes e vizinhos para transportar até a indústria.

    Cassiano e família em sua propriedade – Foto: Robson Cesco/ Sistema OCB

    “O sisal foi o pontapé inicial de tudo. Cerca de 70% do que gira aqui é através do sisal, principalmente dos pequenos produtores”, afirmou.

    Segundo ele, a chegada da cooperativa alterou completamente a relação dos agricultores com o crédito rural.

    “Antes era preciso ir até Feira de Santana para conseguir crédito. Com a cooperativa fundada pelos pequenos produtores, foi surgindo acesso, incentivo e facilidade”, destacou.

    Cassiano afirma que o modelo cooperativista fortaleceu a permanência das famílias no campo e aproximou os serviços financeiros da realidade rural.

    “A visita do técnico, do gerente e a participação nas decisões fizeram diferença para a gente”, disse.

    Resistência do sisal ajuda a enfrentar seca e calor

    Em meio às mudanças climáticas e ao aumento das temperaturas no semiárido, produtores também passaram a adaptar o cultivo do agave, conhecido como “ouro verde do Nordeste”.

    O produtor conta que decidiu manter mais árvores dentro da propriedade para reduzir os impactos da estiagem.

    “Hoje tenho cerca de 10% de árvores dentro do campo de sisal. Mesmo diminuindo um pouco a produção, os pés próximos das árvores resistem mais ao calor”, explicou.

    Originária do México, a planta chegou ao Brasil por volta da década de 1940 e encontrou no semiárido baiano condições ideais para desenvolvimento. Além da resistência à seca, o sisal também ajuda na preservação do solo.

    “O agave auxilia a evitar erosão por causa da quantidade de raízes. Onde tem vários pés juntos, eles não morrem”, afirmou.

    Maior produtor mundial de sisal, o Brasil mantém na região sisaleira da Bahia uma das bases econômicas mais importantes da agricultura familiar nordestina. “O cooperativismo é parceiro, amigo e incentivador. Ele gera emprego, renda e desenvolvimento nas pequenas cidades, onde as grandes instituições não chegam”, concluiu Cassiano.

  • Região sisaleira amplia renda com cooperativismo

    Região sisaleira amplia renda com cooperativismo

    O cooperativismo de crédito tem mudado a dinâmica econômica e social da região sisaleira da Bahia. Atualmente, com presença em municípios do chamado “território do sisal”, o Sicoob Coopere amplia sua base de cooperados, fortalece o empreendedorismo local e mantém a circulação de recursos dentro das próprias comunidades. Além disso, a instituição encerrou 2025 com 75 mil cooperados, crescimento expressivo em comparação aos 50 mil registrados em 2021. A cooperativa também distribuiu R$ 4 milhões em sobras entre os associados.

    As informações foram apresentadas pela presidente da cooperativa, Maria Vandalva Lima de Oliveira, durante exposição sobre os impactos do cooperativismo financeiro no desenvolvimento regional. Segundo ela, o modelo cooperativista vai além da inclusão bancária e atua diretamente na melhoria da qualidade de vida da população.

    Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    “O cooperativismo traz desenvolvimento econômico e social, ele promove e impulsiona a economia”, afirmou. “Toda cidade gera riqueza, o problema é para onde vai esse dinheiro.”

    Com atuação em 23 municípios e uma agência digital, com um total de 24 unidades distribuídas pela região, o Sicoob Coopere integra um sistema cooperativo organizado em três níveis: nacional, central estadual e singular. Atualmente, a cooperativa conta com 215 colaboradores e mantém forte presença em Valente, município com aproximadamente 24 mil habitantes, localizado a 238 quilômetros de Salvador. Na cidade, estão concentrados cerca de 7,8 mil cooperados.

    A história da instituição está diretamente ligada ao desenvolvimento econômico do sisal, cultura tradicional da região. Hoje, além do setor agrícola, a cooperativa acompanha o avanço de atividades ligadas ao turismo e à energia renovável. Esses segmentos, inclusive, ampliam as oportunidades econômicas no semiárido baiano.

    Desenvolvimento econômico e permanência da riqueza local

    Durante a apresentação, Vandalva destacou que a chegada das cooperativas altera a realidade econômica das cidades. Segundo ela, o modelo estimula o consumo, gera empregos, fortalece empresas locais e amplia a arrecadação tributária.

    “As cidades ganham vida e muda a realidade com a chegada das cooperativas. Não estamos experimentando, já sabemos o que deve ser feito”, declarou.

    O modelo cooperativista defendido pelo Sicoob Coopere se baseia em princípios como adesão livre e voluntária, gestão democrática, participação econômica, autonomia, educação, intercooperação e interesse pela comunidade. Dessa forma, a proposta busca construir um sistema financeiro mais justo, inclusivo e comprometido com o desenvolvimento sustentável.

    A presidente também relacionou o cooperativismo à mudança de perspectivas no sertão nordestino. De acordo com ela, por muitos anos predominou na região a ideia de que estudar significava deixar a comunidade em busca de oportunidades em outros centros urbanos.

    Vandalva, presidente da Sicoob Coopere de Valente, BA – Foto: PH Lopes/ Agro em Campo

    “Fui predestinada a estudar e ir embora. Decidi estudar para morar aqui, para mudar essa realidade”, afirmou.

    Outro indicador apresentado foi o Benefício Econômico Total (BET), cálculo utilizado para mensurar as vantagens financeiras geradas aos cooperados. Em 2025, o benefício médio chegou a R$ 1.371 por associado na utilização dos produtos e serviços financeiros da cooperativa.

    Educação cooperativista, ESG e fortalecimento feminino

    Além da atuação financeira, o Sicoob Coopere mantém iniciativas sociais e educacionais por meio do Instituto Sicoob e de programas voltados à educação cooperativista e saúde financeira. Para 2026, por exemplo, a meta é beneficiar 23 mil pessoas com ações sociais e ampliar o alcance dos projetos desenvolvidos na região.

    A cooperativa também reforçou o compromisso com a agenda ESG e com políticas de inclusão. Entre os reconhecimentos recebidos está o Selo Lilás, certificação ligada à promoção da igualdade e valorização feminina no ambiente corporativo.

    Um dos programas destacados foi o “Mulher, com seu dinheiro, coopera”, voltado ao incentivo ao empreendedorismo feminino e à autonomia financeira das mulheres.

    Segundo Vandalva, a lógica da cooperativa não está centrada na concentração de lucros, mas sim na geração coletiva de desenvolvimento econômico sustentável.

    “Não queremos lucro, queremos desenvolvimento sustentável, o que sobra a gente divide”, disse.

    A dirigente ainda ressaltou que o fortalecimento da cooperativa depende diretamente da evolução econômica dos próprios associados.

    “Cooperativa só é forte se o cooperado é forte. Nós cuidamos das pessoas.”

    Para 2026, o Sicoob Coopere projeta a abertura de mais duas unidades. Com isso, a instituição amplia a presença regional e reforça o compromisso com a expansão do cooperativismo financeiro no interior baiano.