Tag: conservação marinha

  • Cientistas identificam espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas

    Cientistas identificam espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas

    Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) identificou duas espécies brasileiras de pepinos-do-mar em cargas apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). O estudo utilizou análise genética para confirmar a origem dos animais e revelou indícios do comércio internacional ilegal desses organismos marinhos.

    Os exemplares pertenciam às espécies Holothuria grisea e Isostichopus badionotus, encontradas naturalmente ao longo do litoral brasileiro e importantes para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.

    As análises foram realizadas em três apreensões feitas pelo Ibama em 2023. Duas cargas estavam em malas de passageiros com destino à China, enquanto a terceira seguiria para a Itália.

    Difícil identificação

    Como os animais estavam secos e processados, a identificação por características físicas era praticamente impossível.

    A solução encontrada pelos pesquisadores foi o uso do DNA barcoding, técnica que funciona como um código de barras molecular capaz de identificar espécies a partir de pequenos fragmentos de DNA.

    Segundo a pesquisadora Auany Camila Fantinelli, a equipe precisou criar uma referência genética inédita para confirmar a identidade dos animais apreendidos.

    “Durante o estudo percebemos que não havia nenhuma sequência genética dessa espécie disponível em bancos públicos. Tivemos que coletar exemplares em Ubatuba para construir essa referência.”

    DNA desvenda origem de pepinos-do-mar apreendidos em esquema de comércio ilegal — Foto: flatwaterchris/iNaturalist – Isostichopus badionotus
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    Pesquisadores usam DNA para identificar pepinos-do-mar brasileiros em carga ilegal apreendida pelo Ibama — Foto: Fabio Porto-Foresti

    Como a genética ajudou a identificar os animais

    O DNA barcoding permite identificar espécies mesmo quando os organismos estão processados ou descaracterizados.

    Embora a técnica não consiga apontar exatamente de qual praia ou município os animais foram retirados, ela oferece uma ferramenta importante para investigações ambientais e operações de fiscalização.

    Os pesquisadores consideram altamente provável que os exemplares tenham sido capturados no litoral brasileiro, já que as duas espécies ocorrem naturalmente no país e não existem registros de produção comercial desses animais no Brasil.

    Outro dado que chamou atenção foi o volume das cargas.

    As três apreensões continham aproximadamente:

    • 1.500 pepinos-do-mar;
    • cerca de 500 indivíduos por mala ou caixa;
    • material destinado ao mercado internacional.

    “Isso representa apenas o que foi apreendido. É provável que exista um volume muito maior passando despercebido.”

    Conheça o pepino-do-mar

    Apesar de pouco conhecidos pelo público, os pepinos-do-mar desempenham funções essenciais para a saúde dos ambientes marinhos.

    Esses animais reciclam os nutrientes, oxigenam os sedimentos e ajudam na decomposição de matéria orgânica.

    Ao ingerirem o sedimento, processam a matéria orgânica e devolvem nutrientes ao ambiente, favorecendo a sobrevivência de microrganismos, crustáceos, vermes e diversas espécies que vivem no fundo do mar.

    Segundo os pesquisadores, a retirada intensiva desses organismos pode comprometer a qualidade ambiental dos habitats costeiros.

    “Não está em jogo apenas a sobrevivência das espécies, mas a integridade de ecossistemas inteiros que dependem desse serviço ecológico.”

    Mercado internacional impulsiona a captura ilegal

    A demanda por pepinos-do-mar é especialmente forte em países asiáticos.

    O produto seco é comercializado como iguaria gastronômica e também utilizado na medicina tradicional chinesa, o que eleva significativamente seu valor no mercado internacional.

    De acordo com os pesquisadores, esse cenário aumenta a atratividade econômica da captura ilegal e estimula a exploração de populações naturais.

    As cargas analisadas tinham como destino principal a China, mas já existem registros de envios para outros países.

    Espécies ainda sofrem com falta de monitoramento

    As espécies identificadas são classificadas atualmente como Menos Preocupantes pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

    Ainda assim, os cientistas alertam que a classificação não significa ausência de risco.

    A avaliação da espécie Holothuria grisea, por exemplo, não é atualizada desde 2010.

    Além disso, cerca de 65% das espécies de pepinos-do-mar avaliadas pela IUCN possuem classificação de dados insuficientes, evidenciando a escassez de informações científicas disponíveis.

    No Brasil, não existe monitoramento contínuo das populações desses animais.

  • Tubarão-branco é flagrado em encontro raro no Mediterrâneo

    Tubarão-branco é flagrado em encontro raro no Mediterrâneo

    Uma operação voltada à remoção de redes de pesca abandonadas resultou em um encontro considerado histórico no Mar Mediterrâneo.

    Na última segunda-feira (8), a fundação Healthy Seas divulgou imagens que podem representar o primeiro registro de um tubarão-branco adulto em seu habitat natural na região localizada entre a Sicília e a Tunísia.

    Conservação e monitoramento marinho

    Embora os tubarões-brancos sejam conhecidos por frequentarem áreas superficiais, encontros com mergulhadores são extremamente raros. A operação contou com a participação de voluntários especializados na remoção de resíduos submersos, além da colaboração da Society for Documentation of Submerged Sites (SDSS).

    Segundo as entidades envolvidas, as chamadas redes fantasmas representam uma das principais ameaças à fauna marinha local. Esses materiais continuam capturando animais mesmo após serem abandonados no oceano.

    ‘Redes fantasmas’ são a mais perigosa forma de poluição para a vida marinha — Foto: Philippos Marakis/ iStock

    Além disso, mergulhos anteriores já haviam identificado tartarugas-cabeçudas ameaçadas de extinção e grandes espécies de peixes presos aos equipamentos descartados.

    Desta vez, no entanto, o destaque ficou para a aparição do tubarão, observado nadando livremente a cerca de 40 metros de profundidade.

    “Estatisticamente, é muito mais provável ganhar na loteria do que encontrar um animal tão icônico debaixo d’água. Você passa décadas mergulhando em naufrágios e removendo redes fantasmas, mas nada te prepara para um momento como esse”, relatou Remmers.

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    Trabalho continuou após encontro inesperado

    Apesar da surpresa causada pela presença do predador, a equipe manteve o cronograma previsto para a missão.

    “Foi insano, mas mesmo assim prosseguimos com nosso plano de mergulho para remover as redes do naufrágio, pois esse momento mostrou claramente a importância do nosso trabalho”, acrescentou o mergulhador.

    Segundo os participantes, o episódio reforça os impactos causados pela pesca predatória e pelo descarte inadequado de equipamentoos.

    Espécies ameaçadas

    A missão também teve como objetivo coletar amostras de DNA ambiental (eDNA) e realizar atividades de monitoramento da biodiversidade marinha.

    Dessa forma, os pesquisadores esperam obter novas informações sobre as espécies que habitam a região. No caso dos tubarões-brancos, boa parte do conhecimento disponível ainda provém de exemplares mortos capturados por atividades pesqueiras.

    “Observações como essa são extremamente valiosas para melhorar a nossa compreensão da distribuição, dos hábitos e do comportamento dessa espécie criticamente ameaçada, cuja sobrevivência está em risco devido às atividades humanas”, afirmou Carlo Cattano, especialista do Centro Marinho da Sicília da Estação Zoológica Anton Dohrn.

    Embora tenham ocorrido avistamentos ocasionais de tubarões-brancos, o tamanho da população é desconhecido e acredita-se que encontros anteriores não tenham sido filmados — Foto: Reprodução/Reuters

    Preservação dos oceanos

    Para Veronika Mikos, diretora da Healthy Seas, o significado do avistamento vai muito além da raridade da espécie.

    “O que torna esse encontro tão impactante não é apenas o animal em si, mas o contexto. Estávamos lá para remover redes que aprisionavam a vida marinha em um ecossistema de naufrágio. Momentos como esse nos lembram quanta vida ainda pode existir nas águas costeiras do Mediterrâneo e como é importante protegê-la de ameaças evitáveis”, concluiu.

  • Focas raras usam cavernas submersas para fugir de turistas

    Focas raras usam cavernas submersas para fugir de turistas

    As raras focas-monge-do-mediterrâneo (Monachus monachus) podem estar adotando uma nova estratégia para escapar da intensa movimentação turística no verão europeu. Um estudo publicado na revista científica Oryx revelou que os animais passaram a utilizar pequenas cavernas submersas como abrigo na ilha de Formicula, na Grécia.

    Os pesquisadores registraram as focas descansando e dormindo em estruturas conhecidas como “cavernas de bolhas”, câmaras cheias de ar acessíveis apenas por passagens submersas. A descoberta amplia o entendimento sobre o comportamento da espécie e pode ajudar em futuras estratégias de conservação.

    Espécie segue ameaçada

    As focas-monge-do-mediterrâneo estão entre os pinípedes mais raros do planeta. Atualmente, estima-se que existam entre 444 e 600 indivíduos adultos distribuídos pelo Mediterrâneo e áreas do Atlântico próximas ao noroeste da África.

    Apesar do crescimento lento da população, a espécie ainda é considerada vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza.

    A foca-monge-do-mediterrâneo é o membro da família das focas mais ameaçado de extinção — (Foto: Divulgação)

    Historicamente, esses animais utilizavam praias abertas para descanso e reprodução. Porém, séculos de perseguição humana fizeram com que buscassem abrigo em cavernas isoladas. Mesmo assim, o turismo próximo a esses locais continua sendo uma ameaça.

    Câmeras revelaram comportamento inédito

    Em 2019, pesquisadores encontraram uma pequena caverna submersa enquanto instalavam equipamentos em uma caverna maior já conhecida em Formicula. O espaço era invisível da superfície e só podia ser acessado mergulhando.

    Para entender como as focas utilizavam o local, os cientistas instalaram câmeras subaquáticas entre 2020 e 2021. Durante 141 dias de monitoramento, os animais apareceram na caverna principal em 30 dias, enquanto a chamada caverna de bolhas foi utilizada em 119 dias.

    As imagens mostraram as focas descansando e dormindo dentro do abrigo, tanto flutuando quanto repousando no fundo da câmara. Os pesquisadores também registraram o comportamento conhecido como “engarrafamento”, quando os animais permanecem na posição vertical dentro da água.


    Registros das focas cochilando em cavernas subaquáticas — (Foto: J. Gonzalvo et al., Oryx)

    “Quando descobrimos remotamente que várias focas estavam inspecionando a câmera à prova d’água menos de uma hora depois de a instalarmos, ficamos realmente impressionados”, afirmou Julien Pfyffer.

    Embora funcionem como refúgio, os pesquisadores classificam essas cavernas como habitats menos adequados. Ainda assim, os locais parecem importantes para a sobrevivência da espécie em regiões com forte presença humana.

    Nos últimos anos, o governo grego também implementou novas regras para navegação e atividades recreativas ao redor de Formicula, medida que pode beneficiar diretamente os animais.

    “Se a tese estiver correta, de que eles dormem nessas cavernas de bolhas porque querem evitar a perturbação humana, se o habitat for protegido o suficiente, eles não precisariam fazer isso”, afirmou Jason Baker à revista Science.

  • Baleias, peixes-boi e garoupas: pesquisa documenta declínio da fauna marinha brasileira

    Baleias, peixes-boi e garoupas: pesquisa documenta declínio da fauna marinha brasileira

    Cinco séculos de exploração pesqueira moldaram drasticamente a fauna marinha brasileira. Baleias, peixes-boi e garoupas enfrentam hoje uma realidade bem diferente da documentada em 1500: populações reduzidas, animais menores e comportamentos alterados que comprometem seu papel nos ecossistemas.

    A conclusão integra estudo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), publicado em novembro na revista Ocean & Coastal Management. As pesquisadoras analisaram mais de 200 documentos históricos. São livros, relatórios, desenhos, pinturas e fotografias produzidos entre 1500 e 1950 sobre a fauna vertebrada marinha do litoral brasileiro, da costa de Santa Catarina até o Amazonas.

    Museus e acervos revelam o passado marinho

    O trabalho incluiu visitas aos acervos do Museu Nacional e da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, além do Instituto Ricardo Brennand e da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. As cientistas também consultaram acervos digitais como o do Instituto Moreira Salles.

    As pesquisadoras confrontaram os registros históricos com estatísticas atuais de relatórios pesqueiros. O contraste revelou transformações profundas nas populações marinhas.

    “O oceano brasileiro já foi muito mais rico do que enxergamos hoje”, lamenta a bióloga Carine Fogliarini, uma das autoras da pesquisa.

    Proibições chegaram tarde demais

    A legislação brasileira demorou para proteger espécies vulneráveis. A caça às baleias, valorizadas pela carne e pelo óleo, só foi proibida em 1986. A captura de peixe-boi se intensificou no início do século XIX e desacelerou apenas nos anos 1970.

    A pesca de garoupa atingiu níveis alarmantes em 1870, quando portos baianos registraram desembarques de 3,2 mil toneladas em uma única região.

    Peixes encolhem 64% em relação ao passado

    Além da queda populacional, a pressão seletiva da pesca provocou o encolhimento físico das espécies. Pescadores preferiam animais maiores, o que alterou geneticamente as populações ao longo dos séculos.

    Exemplares atuais de camurupim (Megalops atlanticus) e beijupirá (Rachycentron canadum) medem, em média, 64% menos que os indivíduos documentados nos registros históricos. Antes, esses peixes superavam três metros de comprimento — hoje raramente ultrapassam 1,5 metro.

    Novos desafios se somam à exploração histórica

    Mesmo com a proibição da pesca comercial de baleias e peixes-boi, outras ameaças surgiram. A perda de habitat, colisões com embarcações, mudanças climáticas e ruídos submarinos agora impactam os movimentos migratórios dessas espécies.

    As cientistas defendem a atualização das leis vigentes para refletir os desafios modernos da fauna marinha.

    Conhecer o passado para planejar o futuro

    Fogliarini destaca a necessidade de compreender as mudanças populacionais ao longo do tempo e os cenários possíveis de recuperação da biodiversidade marinha.

    “Só conseguiremos planejar a conservação de forma realista quando entendermos o que se perdeu, o que ainda pode recuperar, e qual era o papel dessas espécies nos ecossistemas”, conclui a pesquisadora.

    O estudo reforça que conhecer a história ambiental do país representa um passo fundamental para restaurar e proteger a rica, mas ameaçada, fauna marinha brasileira.

  • Cientistas desvendam evolução de 46 espécies únicas de peixes em ilhas do Atlântico

    Cientistas desvendam evolução de 46 espécies únicas de peixes em ilhas do Atlântico

    Três pequenos arquipélagos perdidos no meio do Atlântico tropical guardam um tesouro científico. São Pedro e São Paulo, Ascensão e Santa Helena, separados por até 1.300 quilômetros de mar aberto, abrigam 46 espécies de peixes que não existem em nenhum outro lugar do planeta. Pesquisadores brasileiros e internacionais reuniram pela primeira vez dados genéticos, biológicos e geográficos para reconstituir a história natural desses animais marinhos.

    O estudo, publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B, revela que as comunidades recifais das três ilhas formam um grupo coeso com origens evolutivas compartilhadas. As populações locais apresentam maior afinidade com o Atlântico Ocidental e se assemelham às espécies da costa brasileira e do Caribe.

    “Há décadas, talvez séculos, pesquisadores se perguntam como a fauna dessas ilhas se formou”, explica Isadora Cord, primeira autora do artigo e doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A pesquisa traça as rotas de dispersão das espécies que colonizaram os arquipélagos e revela conexões entre o Atlântico Ocidental, a costa africana e o Oceano Índico.

    Espécies mais antigas que as próprias ilhas

    A pesquisa aponta uma descoberta surpreendente: algumas espécies têm origens anteriores à formação das próprias ilhas. Certas linhagens superam 5 milhões de anos, mais antigas que a terra que ocupam atualmente. Outras espécies, porém, mostram origem recente.

    O grupo identificou um peixe novo para a ciência através de análise genética: um membro inédito do gênero Ophioblennius, comum nas ilhas do Atlântico tropical. O trabalho contou com parceria do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP e envolveu pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Técnica da Dinamarca e da Academia de Ciências da Califórnia.

    Arquipélagos funcionam como laboratórios naturais

    “São laboratórios naturais”, define Isadora sobre as ilhas oceânicas. Os ambientes isolados com comunidades reduzidas funcionam como palco perfeito para experimentos biogeográficos. A pesquisadora explica que fatores ambientais, como o clima, e históricos, como a transformação dos continentes ao longo das eras geológicas, isolam populações da mesma espécie e moldam a diversidade animal.

    O isolamento e as populações pequenas possibilitam o estudo da evolução. Os indivíduos isolados passam a se reproduzir apenas entre si e, com o tempo, originam novas espécies. O processo ocorre quando barreiras biogeográficas limitam o movimento dos organismos. Os animais que surgem nessas ilhas se tornam endêmicos da região.

    Barreiras oceânicas de diferentes intensidades

    As barreiras variam em intensidade. As mais rígidas impossibilitam a circulação de animais e, consequentemente, de material genético. “Um exemplo clássico é o Istmo do Panamá”, diz Isadora, sobre a faixa de terra que conecta a América do Sul com a do Norte e separa o Oceano Atlântico do Pacífico. “É impossível que um peixe atravesse. Ele não consegue atravessar a terra de jeito nenhum”.

    Outras barreiras, mais suaves, dificultam a propagação das espécies, mas não a impedem. Temperatura, salinidade e correntes oceânicas exemplificam esse caso. São fatores que se tornam mais agressivos em águas abertas. As ilhas, então, se tornam refúgios.

    “É como se o mar fosse um deserto, e a costa dos continentes e as ilhas oceânicas fossem oásis”, afirma Isadora. Os arquipélagos fornecem as condições necessárias para receber peixes adaptados à costa continental.

    Espécies brasileiras migraram contra a corrente

    “Talvez exista uma migração por osmose das espécies do Brasil”, afirma Gabriel Araújo, pesquisador do Cebimar e coautor do artigo. Mesmo nadando contra a corrente, literalmente, as espécies brasileiras são geneticamente próximas das encontradas nas três ilhas. Os pesquisadores levantam a hipótese de que a diversidade de peixes no Atlântico Ocidental impulsiona a colonização de ilha em ilha.

    Chaetodon sanctaehelenae é um tipo de peixe-borboleta. É uma outra espécie abundante nas ilhas de Ascensão e Santa Helena, porém, restrita a elas. Foto: Cedida pela pesquisadora

    “Através das análises genéticas e históricas, vimos que algumas espécies usaram ilhas como trampolins para chegar ao meio do Atlântico”, resume Araújo.

    Comunidades recifais formam família biogeográfica

    Os peixes “primos” formam uma espécie de família. As comunidades recifais das três ilhas integram uma mesma unidade biogeográfica, um espaço que compartilha características ambientais e história evolutiva das espécies que nele habitam.

    Ascensão e Santa Helena apresentam maiores similaridades entre si do que quando comparadas a São Pedro e São Paulo. Mesmo assim, os arquipélagos compartilham 44 espécies com a costa brasileira e com o Caribe.

    A pesquisa identificou 11 espécies que ocorrem exclusivamente em ilhas oceânicas atlânticas e no Atlântico Leste, próximo à costa africana. Outras 74 ocorrem em ambos os lados do oceano e 44 são endêmicas das ilhas da dorsal mesoatlântica, três delas presentes simultaneamente nos três arquipélagos estudados.

    Relógios moleculares datam divergência evolutiva

    “Com os avanços das técnicas, pudemos realizar o estudo de uma forma mais moderna”, diz Isadora. No processo de identificação dos peixes e de seus ancestrais, a equipe empregou os relógios moleculares, método de análise genética que possibilita estimar o tempo de divergência entre linhagens.

    “A ideia é simples: a cada 2 milhões de anos há uma mudança de 1% em uma parcela do genoma dos vertebrados”, explica Araújo. “Com isso, conseguimos estimar há quanto tempo duas espécies se separaram e reconstruir sua história evolutiva.”

    “Conseguimos datar quando um indivíduo deixou de ser ancestral e se tornou uma nova espécie”, acrescenta Isadora. Segundo os autores, depois da filogenia das análises moleculares, podem separar melhor as espécies. Dessa forma, esmiúçam os detalhes genéticos de cada animal, o que possibilita revelar espécies crípticas, aquelas cuja distinção é invisível a olho nu.

    Nova espécie de peixe aguarda descrição formal

    A nova espécie identificada no artigo ainda carece de descrição completa para confirmar sua independência no gênero Ophioblennius. Os pesquisadores afirmam, porém, que geneticamente ela se diferencia de seus “primos” Ophioblennius atlanticus, também habitante das ilhas estudadas, e Ophioblennius trinitatis, que vive mais próxima à costa brasileira, no arquipélago de Trindade e Martim Vaz, a 1.100 quilômetros da costa capixaba. Pequenas diferenças comportamentais e de hábitat sugerem que sejam de linhagens distintas.

    O bodião Thalassoma sanctahelenae é outra espécie endêmica encontrada em Ascensão e Santa Helena. Foto: Cedida pela pesquisadora

    “Durante muito tempo se acreditou que havia apenas uma espécie em todo o Atlântico. Mas a análise genética mostrou que são grupos muito distintos”, diz Araújo. As linhagens, ainda que de mesma aparência, são distintas e muitas vezes resultam de um evento recente de especiação, quando o isolamento transforma parentes em espécies diferentes.

    Conhecimento científico apoia conservação marinha

    “Essas ilhas, pela dificuldade de acesso, foram negligenciadas em muitos estudos”, afirma Araújo. “Mas são lugares únicos no mundo, fundamentais para entender como acontecem os processos de especiação e dispersão no ambiente marinho.”

    A identificação de novas espécies e o estudo dos animais que habitam regiões remotas são, para os cientistas, estratégias para a conservação. Para Isadora, mostrar a complexidade dos ecossistemas e destacar que existem mais espécies do que se pensa, algumas ainda não identificadas, é fundamental: “Isso ajuda a convencer a conservar, sabe?”.

    As espécies endêmicas, para Araújo, “são presentes da natureza”. O pesquisador explica que, por serem únicas e viverem em lugares remotos, têm populações pequenas e vulneráveis. Segundo ele, ainda que os peixes endêmicos estejam estabelecidos enquanto espécie há milhões de anos, eles ainda estão no limiar da extinção. “Se por acaso acontecer algum evento que possa ser um distúrbio para o ambiente e para as espécies, é muito provável que elas entrem em extinção, porque a população é muito pequena.”

    Com informações do Jornal da USP

  • Projeto da Unesp une pescadores para salvar espécie de tubarão

    Projeto da Unesp une pescadores para salvar espécie de tubarão

    A sobrevivência do tubarão mangona nas águas brasileiras depende de uma improvável aliança entre ciência e tradição. Em Iguape, no litoral sul paulista, pescadores artesanais trabalham lado a lado com pesquisadores da Unesp para desenvolver técnicas que protejam uma das espécies marinhas mais ameaçadas do Atlântico Sul.

    Apreciado por sua carne saborosa, o mangona enfrenta um futuro incerto. Dados alarmantes indicam queda de 80% na população global nos últimos 74 anos. No Brasil, onde a espécie praticamente desapareceu entre as décadas de 1980 e 1990, sua pesca é proibida desde 2014,  mas a captura acidental continua sendo um problema grave.

    Ciência e comunidade tradicional juntas

    Santiago Montealegre Quijano, biólogo da Faculdade de Ciências Agrárias do Vale do Ribeira da Unesp, lidera há três anos um projeto pioneiro que envolve diretamente os pescadores locais. A iniciativa busca conscientizar sobre a importância ecológica do mangona e, principalmente, desenvolver alternativas de pesca mais seguras.

    “Agora, os pescadores passaram a ver a Unesp como um apoio científico, especialmente por compreenderem que estavam sendo injustamente enquadrados por um crime quando ocorria uma captura acidental”, explica Quijano.

    Covos: uma solução que encontrou obstáculos

    Durante três anos, o grupo realizou mais de 30 expedições para testar covos, que são armadilhas subaquáticas posicionadas no leito marinho, feitas com malha e isca para atrair peixes. A vantagem é clara: tubarões mangona, que podem atingir três metros de comprimento e pesar 250 quilos, são grandes demais para entrar nessas estruturas.

    O pescador Lucas Gabriel reconhece os benefícios ambientais: “A ideia de usar os covos foi maravilhosa. É uma técnica que não agride outras formas de vida e consegue capturar apenas peixes pequenos, sem colocar em risco tartarugas, golfinhos, raias ou tubarões”.

    Quijano e um dos pescadores do projeto montando um covo. Foto: Conservation Connect.

    Porém, a geografia local apresentou desafios inesperados. A região de Iguape e Juréia caracteriza-se por estuários com fundo lamacento, que enchiam os covos de lama e dificultavam enormemente sua retirada manua. Lembrando que se trata de pesca artesanal, sem equipamentos mecânicos.

    Aprendizado para o futuro

    Embora os covos não tenham vingado neste formato, o projeto estabeleceu algo ainda mais valioso: confiança mútua entre universidade e comunidades tradicionais. Quijano planeja testar novos modelos de armadilhas que acumulem menos sedimentos.

    Enquanto isso, os pescadores implementam protocolos de liberação quando ocorre captura acidental: manter o mangona sempre de barriga para baixo, cortar rapidamente a rede para minimizar estresse, e evitar áreas e épocas do ano com maior concentração da espécie.

    “O mangona está presente em toda a Juréia, mas existem locais e épocas do ano que estão presentes em maior quantidade”, explica Lucas Gabriel, demonstrando o conhecimento tradicional que agora se soma à pesquisa científica.

    Um problema transnacional

    O tubarão mangona habita áreas costeiras ao redor do mundo, exceto a Antártica e a costa oeste das Américas. No Atlântico Sul, distribui-se do Sudeste brasileiro até a Argentina, dentro do chamado “mar patagônico”, um grande ecossistema marinho transnacional reconhecido oficialmente em 2004.

    Foto: Amaury Laporte

    A vulnerabilidade da espécie tem razões biológicas: maturação sexual tardia e baixa fecundidade dificultam a recuperação populacional. Some-se a isso o habitat próximo à costa, que facilita a captura, e o resultado é uma espécie classificada como “criticamente ameaçada”.

    Desafios além das fronteiras brasileiras

    Enquanto o Brasil proíbe pesca e comercialização desde 2014, países vizinhos mantêm políticas mais permissivas. Na Argentina, a pesca esportiva é permitida com devolução obrigatória. No Uruguai, a pesca comercial segue legal, e a carne do animal mantém consumidores fiéis em todo o cone sul.

    “O mangona era um prato muito apreciado. Inclusive, muitas pessoas nem sabiam que é um tubarão. Chegam aos restaurantes e pedem por ‘mangona’ diretamente”, relembra Quijano, que colaborou com Renato Freitas, da Universidade Federal de Santa Catarina, em pesquisas sobre o habitat da espécie.

    Freitas complementa: “Até pouco tempo atrás, nas praias de Santa Catarina, o pessoal enfileirava na areia os mangonas pescados”.

    A experiência de Iguape demonstra que a conservação marinha depende tanto de políticas públicas quanto do engajamento de quem vive do mar. Para o tubarão mangona, essa pode ser a última chance de sobrevivência.

  • Corais do litoral paulista têm alta capacidade de retenção de carbono

    Corais do litoral paulista têm alta capacidade de retenção de carbono

    Uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou que os corais do litoral paulista, especialmente no Arquipélago de Alcatrazes, apresentam uma surpreendente capacidade de fixação de carbono. O estudo estima que esses corais retêm anualmente uma quantidade de carbono equivalente às emissões geradas pela queima de mais de 300 mil litros de gasolina, demonstrando seu potencial como aliados naturais no combate às mudanças climáticas.

    Diferentemente do carbono orgânico produzido pela fotossíntese, que retorna rapidamente à atmosfera, os corais fixam carbono na forma de carbonato de cálcio (CaCO₃), um composto mineral estável que pode armazenar carbono por séculos ou milênios. Essa capacidade torna os ecossistemas coralíneos importantes para a mitigação dos efeitos do excesso de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera, principalmente o proveniente da queima de combustíveis fósseis.

    Resultados do estudo no Arquipélago de Alcatrazes

    O estudo foi conduzido pelo Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha da Unifesp (LabecMar). E utilizou tomografia computadorizada para analisar o crescimento dos esqueletos do coral-cérebro (Mussismilia hispida). A pesquisa estimou que esses corais produzem cerca de 170 toneladas de carbonato de cálcio por ano. Isso corresponde à retenção de aproximadamente 20 toneladas de carbono. Em termos práticos, essa fixação equivale às emissões de CO₂ geradas pela queima de 324 mil litros de gasolina.

    O Projeto Mar de Alcatrazes é realizado em parceria entre Unifesp, ICMBio e Petrobras. E  destaca a importância dos ecossistemas marinhos como serviços ambientais estratégicos para a conservação e a sustentabilidade. Luis Oliveira realizou a pesquisa durante seu mestrado, sob a orientação do professor Guilherme Pereira-Filho. A equipe publicou o estudo na revista Marine Environmental Research, reforçando o papel dos corais na mitigação das mudanças climáticas.

    Implicações para políticas ambientais e economia de baixo carbono

    A quantificação precisa da capacidade de retenção de carbono pelos corais abre caminho para o desenvolvimento de políticas públicas e modelos econômicos que valorizem os serviços ecossistêmicos marinhos. A conservação dessas áreas protegidas pode se tornar um componente fundamental para estratégias de sustentabilidade. E também para o avanço de uma economia alinhada com a redução das emissões de gases de efeito estufa.

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