O cacau voltou a ganhar força no agronegócio brasileiro nos últimos anos. Impulsionada pela alta dos preços no mercado internacional, a cultura registrou avanço na produção nacional e despertou maior interesse dos produtores. Ainda assim, o acesso ao crédito rural segue limitado e representa um dos principais obstáculos para a expansão do setor.
De acordo com dados do IBGE, a produção brasileira da amêndoa cresceu 9% entre 2020 e 2025, alcançando uma estimativa de 294 mil toneladas. Apesar do avanço, especialistas apontam que o volume de financiamento disponível para os cacauicultores ainda é pequeno quando comparado a outras cadeias do agro.
Um levantamento realizado pelo CocoaAction Brasil, iniciativa público-privada voltada ao fortalecimento sustentável da cadeia produtiva do cacau, mostra que o valor do crédito rural destinado ao setor saltou de R$ 143 milhões, em 2018, para quase R$ 445 milhões em 2025. Além disso, os recursos liberados pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) avançaram de R$ 20 milhões para R$ 206 milhões no mesmo período.
Mesmo com o crescimento, o montante ainda é considerado reduzido. Em 2025, por exemplo, o Brasil disponibilizou cerca de R$ 357 bilhões em crédito agrícola, mas apenas 0,12% desse total foi direcionado à cacauicultura.
Crise da vassoura-de-bruxa ainda afeta o setor
Segundo Guilherme Salata, coordenador do CocoaAction Brasil, a principal dificuldade para ampliar o crédito está relacionada ao histórico da vassoura-de-bruxa, doença causada por fungos que devastou plantações e deixou muitos produtores endividados durante décadas.
Além disso, ele afirma que a lembrança da crise ainda gera insegurança entre instituições financeiras, dificultando a aprovação de novos financiamentos para o cultivo.
Ao mesmo tempo, medidas recentes do governo indicam um cenário favorável para o crescimento da atividade. A mais recente delas foi a aprovação da Lei nº 15.404, que elevou o percentual mínimo de cacau necessário para que um produto seja considerado chocolate no Brasil.
Agora, os chocolates precisam conter pelo menos 35% de sólidos de cacau, enquanto anteriormente o mínimo exigido era de 25%. Já no caso do chocolate branco, permanece o teor mínimo de 20% de manteiga de cacau, porém com acréscimo de 14% de sólidos totais de leite.
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Crédito para o cacau ainda fica atrás de outras culturas
Salata destaca que o crédito destinado aos produtores de cacau continua abaixo do observado em outras cadeias ligadas aos sistemas agroflorestais. Segundo ele, culturas como mandioca e banana praticamente dobraram o volume financiado em comparação ao cacau.
Enquanto a mandioca recebeu cerca de R$ 760 milhões e a banana obteve R$ 745 milhões, o cacau acessou R$ 445 milhões. O açaí, por sua vez, movimentou aproximadamente R$ 341 milhões, mesmo possuindo, segundo Salata, uma cadeia produtiva menos estruturada.

Produtora baiana conseguiu implantar lavoura com apoio do Pronaf
Na cidade de Camamu, na Bahia, a produtora Shirlei Duarte conseguiu acessar crédito rural pela primeira vez após procurar apoio do Consórcio Intermunicipal de Águas e Resíduos do Baixo Sul da Bahia (Ciapra) em julho de 2025.
O financiamento foi liberado em janeiro deste ano por meio do Pronaf. Com os R$ 89 mil obtidos, ela investiu em análise de solo, limpeza da área, compra de mudas, adubação e contratação de mão de obra para implantar dois hectares de cacau.
“Eu já tinha a área, mas não tinha recurso para começar. Se não fosse esse crédito, não conseguiria implementar minha lavoura agora. E daqui três anos eu vou estar produzindo”, relata a produtora.
O empréstimo foi contratado junto ao Banco do Nordeste, com juros de 3% ao ano e período de carência de três anos, prazo estimado para o início da produção da lavoura.
Falta de informação também dificulta financiamentos
Além do impacto histórico da vassoura-de-bruxa, Salata afirma que muitas instituições financeiras ainda possuem pouco conhecimento técnico sobre o cultivo do cacau. “Eles têm dificuldade de avaliar se um projeto é viável ou não”, explica.
Por isso, ele considera a assistência técnica essencial para aproximar produtores do crédito rural. Segundo o coordenador, o suporte ajuda agricultores a identificarem as linhas disponíveis, compreenderem as finalidades de cada modalidade e avaliarem a viabilidade econômica dos investimentos.

Atualmente, quatro modalidades concentram mais de 95% dos R$ 445 milhões financiados na cadeia do cacau em 2025. O Microcrédito Produtivo Rural representa mais de um terço do valor total, enquanto o Pronaf Floresta responde por quase outro terço. Já as linhas Mais Alimentos e Custeio completam o restante dos recursos liberados.
Apesar dos desafios, Salata avalia que o setor vive um momento positivo e ainda possui amplo espaço para crescer.
“Claramente houve um avanço expressivo no acesso ao crédito. Em culturas como a soja, que já concentram volumes muito elevados de financiamento, é mais difícil ampliar significativamente. No cacau, tanto o crédito quanto a produtividade ainda têm potencial de expansão relevante”, afirma.


