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  • Brasil registra maior número de cervejarias da história

    Brasil registra maior número de cervejarias da história

    O setor cervejeiro brasileiro encerrou 2025 com três marcas históricas simultâneas: maior número de cervejarias já registrado, recorde de valor exportado e superávit comercial inédito. Os dados constam no Anuário da Cerveja 2026, publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), e pintam o retrato de uma indústria que se reinventa mesmo sob pressão econômica e climática.

    cerveja

    O país chegou a 1.954 cervejarias ativas, distribuídas em 794 municípios. São quase 800 cidades onde a bebida gera emprego, renda e identidade local. No total, o setor emprega mais de 2,5 milhões de pessoas ao longo da cadeia produtiva e responde por mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

    Exportações e balança comercial em alta

    Pela primeira vez na série histórica, o valor exportado ultrapassou US$ 218 milhões. Um resultado que reflete não apenas volume, mas também o aumento do prestígio da cerveja brasileira no exterior. O setor registrou superávit recorde de US$ 195 milhões na balança comercial e exportou para 77 países.

    Para o presidente-executivo do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), Márcio Maciel, o resultado confirma a capacidade de adaptação da indústria. “Os números do Anuário mostram um setor que segue evoluindo e ampliando sua presença no país. Nos cenários desafiadores que enfrentamos em 2025, a cerveja provou que pode se reinventar e se adaptar. O brasileiro faz questão da cerveja em seus momentos de celebração e conexão”, afirma.

    Portfólio em expansão

    O Anuário também registrou retomada no número de produtos registrados, que chegou a 44.212, e crescimento de 2,1% nas marcas de cerveja, totalizando 56.170 rótulos no mercado brasileiro. O dado sinaliza que, apesar da concentração em grandes grupos, o ecossistema de inovação segue ativo.

    Os estilos preferidos do brasileiro continuam sendo as Lager Leve Clara, responsável por 58,3% da produção, seguida da Pilsener, com 32,4%, e de Outras Lagers, com 8,5%. Mas é nos nichos que o crescimento mais chama atenção.

    Cerveja sem glúten cresce 418% em um ano

    O dado mais surpreendente do levantamento é o crescimento de 417,6% na produção de cerveja sem glúten. O volume saltou de 71 milhões para 367,9 milhões de litros entre 2024 e 2025. Isso é o equivalente a 2,35% de tudo que o Brasil produziu na bebida no período. O avanço reflete uma mudança estrutural no comportamento do consumidor, que busca cada vez mais alternativas adequadas a restrições alimentares ou a um estilo de vida mais consciente.

    Imagem: Divulgação

    Esse crescimento integra uma transformação mais ampla no perfil do consumidor brasileiro, que busca mais diversidade, qualidade e alternativas com menor teor alcoólico. Cervejas sem álcool também registraram alta expressiva. A produção sem álcool cresceu 536,9% no ano anterior, chegando a representar 4,9% do volume nacional, segundo o Anuário de 2025.

    Interiorização como vantagem competitiva

    A presença em quase 800 municípios não é coincidência. A lógica da cerveja favorece a produção próxima ao consumo: quanto mais fresco o produto, maior a qualidade percebida. Isso impulsiona a interiorização, o desenvolvimento regional e a criação de ecossistemas produtivos distribuídos pelo país. Um diferencial que poucos segmentos da indústria de alimentos conseguem replicar.

    Dados de consumo fora do lar mostram que 63% dos brasileiros ainda consomem cerveja em bares e restaurantes, com São Paulo e Rio de Janeiro liderando com índices acima de 70%. Mesmo com uma leve retração no número de consumidores, as ocasiões de consumo fora de casa cresceram 20%, totalizando mais de 41,4 milhões de eventos. Ou seja, quem bebe, bebe mais vezes.

    Um setor sob pressão, mas em movimento

    O cenário não é apenas de euforia. A Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil) aponta que o consumo de cerveja no Brasil caiu 5% em 2025, pressionado pela ascensão dos drinks prontos para beber (Ready to Drink) e pela mudança de hábitos, especialmente entre consumidores mais jovens.

    Ainda assim, os números do Anuário mostram que o setor respondeu com diversificação, inovação e internacionalização. E que a cerveja brasileira nunca esteve tão presente, nem tão variada.

  • Terra da cerveja? Brasil tem mais de 44 mil marcas registradas

    Terra da cerveja? Brasil tem mais de 44 mil marcas registradas

    O setor cervejeiro brasileiro alcançou recordes em 2025, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O Anuário da Cerveja 2026 contabilizou 1.954 cervejarias registradas no país. Os estabelecimentos estão distribuídos em 794 municípios brasileiros. Além disso, o Brasil registrou 44.212 cervejas em 2025. O volume representa crescimento de 2,4% frente ao ano anterior.

    O setor também alcançou 56.170 marcas de cerveja cadastradas. O resultado reforça a diversidade da cadeia cervejeira nacional.

    Exportação histórica

    As exportações do segmento somaram US$ 218,4 milhões. O valor representa o maior resultado da série histórica. Por outro lado, o volume exportado caiu 5,1% em comparação com 2024. Ainda assim, o país embarcou 315,5 milhões de litros.

    Segundo o Mapa, a valorização do produto impulsionou o faturamento externo do setor. O diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal, Hugo Caruso, destacou o avanço internacional da cerveja brasileira. Segundo ele, o setor consolidou presença no mercado externo, mesmo com crescimento interno mais moderado.

    Já o presidente-executivo do Sindicerv, Márcio Maciel, afirmou que o segmento mostrou capacidade de adaptação em 2025. Ele também ressaltou a importância da cerveja nos momentos de celebração dos brasileiros.

    São Paulo lidera número de cervejarias

    São Paulo segue na liderança nacional em quantidade de cervejarias registradas. O estado possui 452 estabelecimentos. A região Sudeste concentra 47,2% das cervejarias brasileiras. Ao todo, a região reúne 923 unidades. A cidade de São Paulo mantém a liderança entre os municípios. A capital possui 61 cervejarias registradas.

    Além disso, o número de cidades com dez ou mais cervejarias cresceu em 2025. O país contabilizou 25 municípios nessa condição.

    O levantamento também mostrou avanço da densidade cervejeira nacional. Atualmente, o Brasil possui uma cervejaria para cada 108.794 habitantes. Santa Catarina lidera esse indicador. O estado registra uma cervejaria para cada 32.625 habitantes.

    Paraguai lidera compra de cerveja brasileira

    A cerveja brasileira chegou a 77 países em 2025. O mercado sul-americano concentrou 98,5% do volume exportado.

    O Paraguai permaneceu como principal destino das exportações brasileiras. O país respondeu por 62,3% dos embarques. Bolívia, Uruguai, Argentina e Chile aparecem na sequência entre os maiores compradores.

    Enquanto isso, as importações cresceram 251,4% em volume no ano passado. O Brasil importou 26,3 milhões de litros. Mesmo assim, o valor importado avançou apenas 1,7%. O total movimentado chegou a US$ 9,4 milhões.

    Os Estados Unidos lideraram as vendas para o mercado brasileiro. O país respondeu por 74,2% do volume importado.

    Alemanha, Argentina, Uruguai e Espanha também aparecem entre os principais fornecedores.

    Setor cervejeiro amplia empregos e produção

    O setor de bebidas superou 143 mil empregos diretos em 2025. Desse total, 41.976 vagas pertencem à fabricação de malte, cerveja e chope.

    Além disso, o Brasil produziu mais de 15 bilhões de litros de cerveja no ano passado. As cervejas puro malte responderam por 29,2% do volume.

    O anuário também destacou o crescimento das cervejas sem glúten. A produção avançou mais de 400% no período. Segundo o levantamento, a alta reflete mudanças no perfil de consumo e maior diversificação do mercado.

    O Mapa ainda firmou parceria com a Embrapa Territorial para mapear a distribuição das cervejarias no país. A iniciativa permite visualizar melhor a concentração produtiva e a presença regional do setor cervejeiro brasileiro.

  • Microalgas criadas com resíduo de cervejaria viram biofertilizante

    Microalgas criadas com resíduo de cervejaria viram biofertilizante

    Uma startup paulista e pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desenvolveram um bioinsumo agrícola a partir de microalgas cultivadas em efluentes tratados de cervejarias e de criações de tilápia e camarão. O produto já passa por testes em lavouras de milho, banana, hortaliças e café nos estados de São Paulo e Minas Gerais. E promete chegar ao mercado mais barato que os fertilizantes químicos convencionais.

    A iniciativa é uma parceria entre a BiotecBlue, startup sediada em São Paulo, e o campus de São José dos Campos da Unifesp, com apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP. O modelo funciona de forma circular: resíduos industriais que normalmente iriam para o esgoto alimentam as microalgas, e a biomassa resultante vira bioestimulante para o campo.

    Do esgoto ao biorreator

    Pequenos produtores de cerveja artesanal costumam descartar os resíduos da fabricação diretamente na rede de esgoto. O mesmo acontece com as sobras de pisciculturas de tilápia e camarão. Sem tratamento, esse material carrega nitrogênio, fósforo e carboidratos, nutrientes que, ao atingir rios e lagos, disparam a eutrofização: crescimento desordenado de algas, alteração da coloração da água e morte de peixes por falta de oxigênio.

    Cultivados de forma controlada, esses mesmos resíduos se tornam o meio ideal para o crescimento de microalgas de alto valor nutricional. “A água que sobra após o cultivo tem poucos nutrientes, ou seja, já pode retornar para o rio ou para um processo produtivo”, explica a engenheira química Danielle Maass, pesquisadora da Unifesp responsável pelo projeto.

    A equipe começou com efluentes da produção intensiva de camarão e tilápia. As microalgas não apenas cresceram de forma saudável como apresentaram concentrações nutricionais superiores às obtidas em meios sintéticos de laboratório. O fechamento da piscicultura fornecedora, porém, expôs a vulnerabilidade de depender de uma única fonte. E abriu caminho para uma solução mais escalável.

    A virada da cerveja artesanal

    Com o setor cervejeiro em expansão, a equipe testou resíduos de cervejarias e encontrou características nutricionais semelhantes às da aquicultura, incluindo carbono, nitrogênio e fósforo. A logística também ficou mais simples. “Hoje há muitas cervejarias artesanais de pequeno e médio porte. É muito mais fácil obter esse resíduo do que o da piscicultura”, compara Maass.

    Um diferencial do projeto é justamente o uso de resíduos reais, não de compostos simulados em laboratório. “O resíduo real tem uma enorme variedade de compostos que podem tanto ajudar quanto atrapalhar o processo”, diz a pesquisadora. Trabalhar com essa complexidade, segundo ela, é o que garante resultados aplicáveis na prática industrial.

    Proteína, betacaroteno e crédito de carbono

    As microalgas produzidas no processo são ricas em proteínas e betacaroteno, antioxidante natural com múltiplas aplicações. Além de virar bioinsumo agrícola, a biomassa pode retornar à cadeia produtiva como suplemento alimentar para peixes e camarões. No caso dos crustáceos, o betacaroteno intensifica a coloração avermelhada. Característica valorizada pelo mercado.

    O projeto ainda abre outra frente econômica: durante o crescimento, as microalgas realizam fotossíntese e capturam dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera, o que cria potencial de geração de créditos de carbono.

    Testes no campo e escalonamento

    Desde 2024, o projeto está na fase de escalonamento. A equipe dimensiona equipamentos para uma escala piloto de 100 litros. Nos testes em lavouras de São Paulo e Minas Gerais, Maass relata melhora no desenvolvimento foliar e na saúde do solo.

    “Com uma dose pequena temos um efeito grande e, pelo levantamento de custos brutos que fizemos, o produto é de fato mais barato”, afirma a pesquisadora.

    Por que isso importa para o agronegócio brasileiro

    O Brasil gasta cerca de US$ 25 bilhões por ano para importar mais de 85% dos fertilizantes que consome, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). China e Rússia dominam o fornecimento. O Plano Nacional de Fertilizantes prevê reduzir essa dependência em 50% até 2050. Segundo a Embrapa, fertilizantes chegam a representar 50% dos custos de produção do milho e 40% dos da soja.

    Maass, que tem experiência em processos biotecnológicos e na recuperação de metais críticos de resíduos eletrônicos e de mineração, defende uma mudança de paradigma. “Processos biotecnológicos são um pouco mais demorados para desenvolver, mas, uma vez prontos, são muito mais sustentáveis que os físicos ou químicos”, diz.

    O mercado global de biotecnologia azul,  que inclui o aproveitamento de organismos aquáticos, deve crescer de US$ 14,5 bilhões em 2024 para US$ 29,5 bilhões até 2032, segundo a consultoria Markets and Markets. A equipe da BiotecBlue planeja ampliar o atendimento de pequenos para grandes produtores rurais à medida que a tecnologia avança para escala comercial.

    Roseli Andrion | Agência FAPESP