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  • Arte de resistir: a importância do tatu-bola para o Cerrado

    Arte de resistir: a importância do tatu-bola para o Cerrado

    O Cerrado parece calado. Só parece. Basta baixar o ouvido à terra vermelha para sentir a vida se movendo lá embaixo. É ali, entre raízes e formigueiros, que vive o tatu bola, o pequeno guardião de um mundo que insiste em sobreviver.

    Com sua carapaça de placas e um jeito desconfiado de olhar, ele anda como quem sabe o peso da história nas costas. E sabe mesmo. Quando o perigo se aproxima, o tatu faz o que nenhum outro tatu consegue: se fecha todo, feito um cofre de couro e ossos. Fica redondo, compacto, invencível — ao menos por alguns segundos.

    Mas, claro, o inimigo de hoje não é o lobo guará nem o gavião carcará. É o homem, com suas máquinas e cercas que parecem não ter fim.

    O solo respira graças a ele

    Os cientistas gostam de chamá-lo de “engenheiro ecológico”. Nome bonito, mas o que ele faz é simples e grandioso: cava, revolve, mistura, transforma o chão em vida. Cada buraco que o tatu bola abre é uma pequena revolução. Ali a água infiltra melhor, o ar circula, os nutrientes se misturam. É como se ele, com suas garras e paciência, mantivesse o Cerrado respirando.

    Foto: Divulgação – Ministério do Meio Ambiente

    Em troca, o bioma oferece abrigo, alimento, sombra. Era um pacto antigo, até que o desmatamento entrou em cena e rasgou o acordo. Hoje restam menos da metade das matas originais. Onde antes havia campos de flores e árvores tortas dançando ao vento, agora há pastos, plantações, poeira.

    E, quando o Cerrado sufoca, o tatu bola desaparece.

    Um alerta em forma de esfera

    Os pesquisadores do ICMBio dizem que ele está em “perigo crítico”. Em outras palavras, está por um fio. Atualmente, encontrar um tatu bola é como achar um diamante perdido no cascalho. Nas raras regiões onde ele ainda vive, o solo é fértil e as águas correm limpas. Por outro lado, onde desaparece, é sinal claro de que algo se quebrou.

    Assim, o tatu bola virou um verdadeiro termômetro da saúde do Cerrado, um pequeno corpo de escamas que mede, silenciosamente, a febre de um gigante adoecido.

    Símbolo que anda devagar, mas não desiste

    Lá em 2014, o mundo conheceu o tatu bola como Fuleco, o mascote da Copa. Parecia uma piada: o país que mais destrói seu bioma entregando a um bicho ameaçado o papel de porta voz da natureza. Ironias do destino.

    Mas, por incrível que pareça, a fama ajudou. Desde então, ONGs, universidades e comunidades têm se mobilizado para proteger o animal. Há projetos que monitoram suas rotas com câmeras escondidas, outros que educam crianças do interior sobre sua importância. Aos poucos, o tatu bola deixou de ser só um personagem curioso e virou o símbolo de um bioma inteiro que luta para não desaparecer.

    O herói invisível

    À noite, quando o calor baixa e o céu se enche de estrelas, o tatu bola volta ao trabalho. Escava em silêncio, fareja o chão, caça formigas. Cada gesto é um lembrete de que ainda há resistência sob a terra.

    No fim das contas, o tatu bola é o espelho do Cerrado: pequeno, resistente, cheio de truques para continuar existindo. E talvez seja isso o que o Brasil precise lembrar — que a força da natureza não está no tamanho, mas na teimosia em permanecer viva.

  • Economia sustentável – baru do Cerrado chega à Europa

    Economia sustentável – baru do Cerrado chega à Europa

    Pela primeira vez, um produto originário do Cerrado brasileiro está oficialmente liberado para comercialização em todos os países da União Europeia. A castanha de baru, fruto típico da região, conquistou o mercado internacional após mais de 25 anos de trabalho da CoopCerrado, com assessoria do Centro de Desenvolvimento Agroecológico do Cerrado (Cedac) e apoio estratégico da Fundação Banco do Brasil (FBB).

    A autorização abre portas para um superalimento rico em proteínas e antioxidantes, enquanto fortalece a bioeconomia brasileira, gerando renda para agricultores familiares e extrativistas.

    Fundação BB foi crucial para o salto internacional

    A FBB atua como parceira do projeto desde 2005, financiando cerca de 15 iniciativas voltadas à inovação, sustentabilidade e geração de renda no Cerrado. Um dos marcos foi a instalação da primeira plataforma industrial de processamento do baru, viabilizada com recursos da fundação e do BNDES, permitindo escalar a produção e alcançar mercados globais.

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    “A entrada no mercado europeu é histórica. Além de valorizar um produto brasileiro, fortalece a inclusão produtiva e a conservação do Cerrado”, afirma Kleytton Morais, presidente da Fundação BB.

    Baru já era exportado, mas Europa é um marco

    Antes da Europa, o baru já era vendido para Estados Unidos e Oriente Médio. Agora, a certificação europeia consolida o potencial da sociobiodiversidade brasileira como alternativa sustentável.

    “A Fundação BB trouxe uma visão estratégica que permitiu ao baru ganhar escala e chegar ao mundo”, destaca Alessandra Karla da Silva, coordenadora do Cedac.

    Adalberto Gomes dos Santos, agricultor familiar de Lassance (MG), cresceu vendo o baru como alimento cotidiano. Hoje, o fruto é fonte de renda e símbolo de coletividade.

    “O baru despertou nas famílias o interesse em preservar e plantar. Agora que ganhou o mundo, vai trazer ainda mais benefícios”, celebra Adalberto.

    Com a abertura do mercado europeu, a expectativa é que a demanda pelo produto aumente, fortalecendo ainda mais a economia sustentável do Cerrado e a vida de quem depende dele.

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  • Bionutrição pode impulsionar segunda safra de milho no Cerrado brasileiro

    Bionutrição pode impulsionar segunda safra de milho no Cerrado brasileiro

    O cerrado brasileiro se destaca na produção de milho, especialmente durante o período desafiador da segunda safra, que ocorre de janeiro a março. A escassez de chuvas nesse período provoca estresse hídrico nas plantas, tornando essencial o uso de microrganismos para garantir um desenvolvimento vigoroso e aumentar a tolerância ao estresse hídrico.

    A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a produção de milho na segunda safra 2024/25 atinja 94.631,3 mil toneladas. Isso representa um aumento de 4,8% em relação ao ciclo anterior. A nutrição das culturas com insumos biológicos não apenas promove a sustentabilidade das práticas agrícolas, mas também é uma estratégia vital para incrementar a produtividade e o retorno financeiro dos agricultores.

    Importância da bionutrição

    O déficit hídrico pode afetar vários estágios do desenvolvimento do milho. Especialmente durante a floração e o enchimento dos grãos, resultando em menor produção de carboidratos e redução do volume de matéria seca. “A bionutrição pode ajudar as plantas a se tornarem mais tolerantes ao estresse hídrico”, explica Eduardo Aires, agrônomo sênior da Mosaic Biosciences. O produto forma um gel ao redor do sistema radicular, mantendo as raízes hidratadas por mais tempo.

    Além disso, o microrganismo Azospirillum brasilense tem uma forte afinidade com o milho, auxiliando no crescimento das plantas e na utilização do nitrogênio atmosférico. “Esse microrganismo promove o desenvolvimento do sistema radicular e da parte aérea da planta, permitindo uma melhor absorção de nutrientes e água do solo”, acrescenta Aires.

    Cultivo estratégico

    Os produtores geralmente plantam o milho da segunda safra após colherem a soja no outono e inverno, otimizando a área inicialmente usada para a soja. A associação entre Azospirillum brasilense e Pseudomonas fluorescens aumenta a eficiência dos nutrientes no solo. O Pseudomonas ajuda a liberar fósforo preso no solo, tornando-o disponível para as plantas.

    Os agricultores utilizam soluções de bionutrição formuladas com aminoácidos essenciais para aumentar a produtividade do milho. Essas soluções são aplicadas diretamente nas folhas durante o estado vegetativo, promovendo um crescimento saudável e equilibrado. “O milho acumula reservas durante o ciclo vegetativo que são transferidas para os grãos na fase reprodutiva”, explica Aires.

    A bionutrição se apresenta como uma estratégia inovadora e eficaz para impulsionar a segunda safra de milho no cerrado brasileiro. Com o uso de microrganismos benéficos e práticas sustentáveis, os agricultores podem aumentar sua produtividade e garantir colheitas mais abundantes, contribuindo para um agronegócio mais sustentável e rentável. À medida que as técnicas de manejo evoluem, espera-se que a bionutrição desempenhe um papel ainda mais central na agricultura brasileira.

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